Actos dos Apóstolos 13
III. MISSÕES DE PAULO<br> (13,1-28,31)<br><br> 1.ª Viagem Missionária: 13,1-14,28
Barnabé e Saulo em missão
1 *Havia na igreja, estabelecida em Antioquia, profetas e doutores: Barnabé, Simeão, chamado 'Níger', Lúcio de Cirene, Manaen, companheiro de infância do tetrarca Herodes, e Saulo. 2 *Estando eles a celebrar o culto em honra do Senhor e a jejuar, disse-lhes o Espírito Santo: «Separai Barnabé e Saulo para o trabalho a que Eu os chamei.»3 *Então, depois de terem jejuado e orado, impuseram-lhes as mãos e deixaram-nos partir.
Evangelização de Chipre
4 Enviados, pois, pelo Espírito Santo, Barnabé e Saulo desceram a Selêucia e ali meteram-se num barco, rumo à ilha de Chipre. 5 *Chegados que foram a Salamina, começaram a anunciar a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus. Tinham também João como auxiliar. 6 Percorreram toda a ilha até Pafos e encontraram lá um mago, falso profeta, judeu, chamado Barjesus, 7 que estava ao serviço do procônsul Sérgio Paulo, homem ponderado. Este mandou chamar Barnabé e Saulo, desejoso de ouvir a palavra de Deus. 8 Mas o mago Elimas - assim se traduz o seu nome - opôs-se-lhe, procurando desviar da fé o procônsul. 9 *Então Saulo - também chamado Paulo - cheio do Espírito Santo, fitou nele os olhos 10 e disse-lhe: «Ó criatura, cheia de todas as astúcias e de toda a iniquidade, filho do diabo, inimigo de toda a justiça, quando é que cessarás de perverter os rectos caminhos do Senhor? 11 Mas agora a mão do Senhor está sobre ti: vais ficar cego e, durante algum tempo, não hás-de ver o sol.» No mesmo instante, caíram sobre ele o nevoeiro e as trevas e, voltando-se para todos os lados, procurava alguém que o guiasse pela mão. 12 Vendo, então, o que se tinha passado, o procônsul abraçou a fé, vivamente impressionado com a doutrina do Senhor.O Evangelho na Ásia Menor
13 *De Pafos, onde embarcaram Paulo e os companheiros, dirigiram-se a Perga da Panfília. João, porém, separando-se deles, voltou para Jerusalém. 14 Quanto àqueles, deixaram Perga e, caminhando sempre, chegaram a Antioquia da Pisídia.A um sábado, entraram na sinagoga e sentaram-se. 15 Depois da leitura da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga mandaram-lhes dizer: «Irmãos, se tiverdes alguma exortação a dirigir ao povo, falai.»
Discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia
16 *Então, Paulo, levantando-se, fez sinal com a mão e disse:«Homens de Israel e vós os tementes a Deus, escutai: 17 *O Deus deste povo, o Deus de Israel, escolheu os nossos pais e engrandeceu este povo durante a sua permanência no Egipto. Depois, com a força do seu braço, retirou-o de lá 18 *e, durante uns quarenta anos, sustentou-o no deserto. 19 *A seguir, exterminando sete nações na terra de Canaã, conferiu-lhes a posse do seu território, 20 *por cerca de quatrocentos e cinquenta anos. Depois disso, deu-lhes juízes até ao profeta Samuel. 21 *Em seguida, pediram um rei, e Deus concedeu-lhes, durante quarenta anos, Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim. 22 *Pondo este de parte, Deus elevou David como rei, e a seu respeito deu este testemunho: 'Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará todas as minhas vontades.'
23 Da sua descendência, segundo a sua promessa, Deus proporcionou a Israel um Salvador, que é Jesus. 24 *João preparou a sua vinda, anunciando um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25 Quase a terminar a sua carreira, João dizia: 'Eu não sou quem julgais; mas vem, depois de mim, alguém cujas sandálias não sou digno de desatar.'
26 Irmãos, filhos da estirpe de Abraão, e os que de entre vós são tementes a Deus, a nós é que foi dirigida a palavra de salvação. 27 *Sem dúvida, os habitantes de Jerusalém e os seus chefes não quiseram reconhecer Jesus, mas, condenando-o, cumpriram, sem disso se aperceberem, as profecias que são lidas todos os sábados.
28 Embora não tivessem encontrado nele motivo algum de morte, exigiram a Pilatos que o mandasse matar. 29 Quando cumpriram tudo o que acerca dele estava escrito, desceram-no do madeiro e sepultaram-no. 30 Mas Deus ressuscitou-o dos mortos 31 *e, durante muitos dias, apareceu aos que tinham subido com Ele da Galileia a Jerusalém, os quais são agora suas testemunhas diante do povo.
32 E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa-Nova de que a promessa feita a nossos pais, 33 *Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no Salmo segundo:
Tu és meu filho, Eu hoje te gerei! 34 *Que Deus o ressuscitou dos mortos para não mais voltar à corrupção, disse-o Ele deste modo:
Dar-vos-ei as coisas santas de David,
que são verdadeiras.
35 *Por isso, diz noutra passagem:
Não deixarás o teu Santo ver a corrupção.
36 Ora David, depois de servir em sua vida os desígnios de Deus, morreu; foi reunir-se a seus pais e viu a corrupção. 37 Mas aquele que Deus ressuscitou não viu a corrupção.
38 *Ficai sabendo, irmãos, que por seu intermédio é que vos é anunciada a remissão dos pecados. A justificação completa que não pudestes obter pela Lei de Moisés, 39 obtê-la-á por meio dele todo aquele que crê. 40 Tende, pois, cautela, para que vos não aconteça o que se diz nos profetas:
41 *Olhai, vós, os desdenhosos,
admirai-vos e desaparecei!
Porque Eu vou fazer uma obra em vossos dias,
obra em que não acreditaríeis,
se alguém vo-la contasse.»
42 À saída, pediram-lhe que falasse do mesmo assunto no sábado seguinte. 43 *Depois da reunião, muitos judeus e prosélitos piedosos seguiam Paulo e Barnabé, os quais, nas suas conversas com eles, os exortavam a perseverar na graça de Deus.
Paulo e Barnabé dirigem-se aos pagãos
44 No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra do Senhor. 45 A presença da multidão encheu os judeus de inveja, e responderam com blasfémias ao que Paulo dizia. 46 *Então, desassombradamente, Paulo e Barnabé afirmaram:«Era primeiramente a vós que a palavra de Deus devia ser anunciada. Visto que a repelis e vós próprios vos julgais indignos da vida eterna, voltamo-nos para os pagãos, 47 *pois assim nos ordenou o Senhor:
Estabeleci-te como luz dos povos,
para levares a salvação
até aos confins da Terra.»
48 *Ao ouvirem isto, os pagãos encheram-se de alegria e glorificavam a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé. 49 Assim, a palavra do Senhor divulgava-se por toda aquela região. 50 *Mas os judeus incitaram as senhoras devotas mais distintas e os de maior categoria da cidade, desencadeando uma perseguição contra Paulo e Barnabé, e expulsaram-nos do seu território. 51 *Estes, sacudindo contra eles o pó dos pés, foram para Icónio. 52 Quanto aos discípulos, estavam cheios de alegria e do Espírito Santo.
Notas
- 13, 1
- Barnabé e Saulo vão partir para a Primeira Viagem missionária em terras pagãs, pelo sul da Ásia Menor (v.1-14,28). Esta é fruto de duas iniciativas precedentes: o baptismo de Cornélio e a evangelização dos pagãos de Antioquia (11,19.26 notas). É o Espírito que os envia em missão (v.9.52), é Deus que age com eles (v.11; 14,3.23.27). É à igreja de Antioquia (v.3-4) que Paulo e Barnabé dão contas do seu trabalho (14,27-28). Nela há profetas e doutores, entre os quais se contam Barnabé e Saulo (11,27-29 nota).
- 2
- O culto (leitourgia) é aqui a Eucaristia (20,7). Os judeus, para indicar o serviço dos sacerdotes no templo (2 Cr 13,10; Rm 15,14-21 nota; Heb 10,1-18 nota), adoptaram este nome grego, que designava uma festa civil celebrada em honra de uma personagem rica.
- 3
- O gesto da imposição das mãos assinala, aqui, o início de uma função precisa, em dependência da comunidade (6,6 nota).
- 5
- O método apostólico de Paulo começa com a pregação aos judeus (v.14.46; 14,1; 16,13; 17,2.10.17; 18,4.19; 19,8; 28,17.23). Só depois da recusa daqueles é que Paulo se dirige aos pagãos (v.46; 18,6; 28,28).
- 9
- Doravante o nome judaico de Saulo (ou Saul) passa a ser substituído pelo nome romano de Paulo. Esta mudança de nome assinala o contacto do Apóstolo com o mundo pagão (v.13.43.46.50; 14,3.19-21), de modo a melhor se adaptar à sua nova missão.
- 13
- O abandono de João Marcos será recordado por Paulo (12,12 nota; 15,38).
- 16-41
- Temos aqui o modelo de discurso que Paulo dirige aos judeus. Na 1.ª parte (v.16-25), o discurso apresenta algumas analogias com o discurso de Estêvão (7,1 nota); na 2.ª parte (v.26-37), segue um esquema semelhante ao de Pedro (2,14 nota), centrado na ressurreição de Jesus; na parte final (v.38-41), há um elemento característico paulino: a justificação dá-se pela fé e não mediante a Lei (Rm 3,27 nota; 4,1-25 nota; Gl 2,16-17 nota; Tg 2,14-26 nota). O discurso termina com uma grave advertência tirada da Escritura (28,26-27). Sobre os tementes a Deus (v.16), ver 10,2 nota.
- 17
- Ver Ex 6,1-6.
- 18
- Ver Ex 16,35; Dt 1,31.
- 19
- Ver Dt 7,1.
- 20
- 450 anos. Havia cronologias diversas nas tradições do judaísmo. A estadia no Egipto durou 400 anos (7,6 nota; Gn 15,13 nota; Ex 12,40-41; Sir 47,22 nota) ou 430 anos (Ex 6,14-27 nota; Ez 4,5 nota; Gl 3,17 nota) e a travessia do deserto 40 anos (Dt 2,7; Js 5,6 nota; 1 Sm 13,1 nota; 1 Cr 3,4 nota; Ez 4,6 nota; 29,11 nota; Mt 4,2 nota; Mc 1,12-13 nota).
- 21
- Paulo (Saulo/Saul) tinha o nome do primeiro rei de Israel (Saul) e pertencia, como ele, à tribo de Benjamim (Rm 11,1; Fl 3,5 nota).
- 22
- A breve evocação da história de Israel pára em David (v.17-22), porque a ascendência davídica de Jesus é importante na pregação aos judeus (2,25-32.34; 7,46; 1 Sm 13,14; 16,12-13; Sl 89,21).
- 24
- O baptismo de João pertencia ao tempo da Promessa. É com Jesus que começa verdadeiramente o tempo da salvação (v.26; 1,5; 10,37; 19,3-5; Lc 16,16 nota).
- 27-29
- São indicadas aqui três razões da morte de Jesus: ignorância (3,17), responsabilidade dos habitantes de Jerusalém e dos seus chefes, cumprimento das Escrituras (2,23; 3,13-14.18; 5,30; 10,39; Dt 21,23).
- 31
- Paulo refere o testemunho por excelência dos Doze diante do povo judeu. O seu anúncio da Boa-Nova faz parte desse testemunho (v.32). Paulo recebeu também de Deus e de Jesus a missão de testemunha (1,8 nota; 20,24; 22,15.18; 26,16), especialmente entre os gentios (18,5; 23,11; 26,22; 28,23). O que Paulo viu e ouviu (22,15) é diferente, no tempo e no modo, das coisas vistas pelos Doze (4,20), mas participa da mesma autoridade daqueles, porque o Cristo que lhe apareceu em Damasco é o mesmo (18,9; 26,16) das aparições durante os quarenta dias (1 Cor 15,8-9; Gl 1,16-17).
- 33
- Ver 2,36 nota; Sl 2,7; Lc 3,21-22 nota; Heb 1,5; 5,5.
- 34
- As coisas santas prometidas a David (Is 55,3) são o próprio Jesus, o Santo (v.35; 3,14), e a plena justificação que Ele nos oferece (v.38-39).
- 35
- Ver 2,25-31; Sl 16,10.
- 38
- A justificação, termo próprio de Paulo (Rm 1,16-17 nota; 3,21-31). Nos Actos, a salvação (v.23.26) é chamada inicialmente perdão dos pecados (2,38; 5,31; 10,43; 26,18).
- 41
- Ver Hab 1,5. Esta nota ameaçadora contra a incredulidade, no primeiro discurso de Paulo aparece também no fim do livro (28,26-27=Is 6,9-10).
- 43
- Prosélitos significa aqui tementes a Deus (2,9-11 nota; 10,2 nota). O ambiente dos incircuncisos que partilhavam a fé judaica deve ter mostrado uma maior abertura. Sobre a exortação dos Apóstolos, ver 11,23; 14,22.26; 15,40; 20,32.
- 46
- A ideia de desassombro (parressia) ou intrepidez dos Apóstolos (4,13.29.31) aplica-se também a Paulo (9,27-28; 14,3; 19,8; 26,26; 28,31). De maneira solene, Paulo mostra a decisão dramática de romper com a prioridade do povo judeu (2,39; 3,25.26) e de levar o Evangelho aos gentios (18,6; 19,8-9; 28,17.28).
- 47
- A citação de Is 49,6 (grego) é aplicada a Cristo, luz das nações (26,23 nota; Lc 2,32).
- 48
- Destinados à vida eterna: expressão judaica que implica, não uma predestinação, na qual não haveria lugar para a liberdade humana, mas sim a fé em Cristo (v.46; Lc 10,20). Sobre a alegria (v.52), ver 8,8 nota.
- 50
- Ver 17,4-5.12-13.
- 51
- Ver 18,6; 22,23; Lc 9,5 nota; 10,11.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.