São Mateus 5
Sermão da Montanha (5,1-7,29)
As Bem-aventuranças (Lc 6, 20-26)
1 *Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. 2 Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo:3 *«Felizes os pobres em espírito,
porque deles é o Reino do Céu.
4 *Felizes os que choram,
porque serão consolados.
5 *Felizes os mansos,
porque possuirão a terra.
6 *Felizes os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
7 *Felizes os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
8 *Felizes os puros de coração,
porque verão a Deus.
9 *Felizes os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus.
10 Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céu.
11 *Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. 12 Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.»
Sal da terra, luz do mundo (Mc 4,21; 9,50; Lc 8,16; 11,33; 14,34-35)
13 «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; 15 nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. 16 Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.»
Jesus e a Lei (Lc 16,14-18)
17 «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. 18 *Porque em verdade vos digo: Até que passem o céu e a terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra.19 *Portanto, se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu. Mas aquele que os praticar e ensinar, esse será grande no Reino do Céu. 20 Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.»
Homicídio e reconciliação (Lc 12,57-59)
21 «Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. 22 *Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar 'imbecil' será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar 'louco' será réu da Geena do fogo.23 Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. 25 Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão. 26 Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.»
Adultério e escândalo (18,6-9; Mc 9, 42-47)
27 «Ouvistes o que foi dito: Não cometerás adultério. 28 Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração.29 *Portanto, se a tua vista direita for para ti origem de pecado, arranca-a e lança-a fora, pois é melhor perder-se um dos teus órgãos do que todo o teu corpo ser lançado à Geena. 30 E se a tua mão direita for para ti origem de pecado, corta-a e lança-a fora, porque é melhor perder-se um só dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.»
Jesus e o divórcio (19,3-9; Mc 10,2-12; Lc 16,18)
31 «Também foi dito: Aquele que se divorciar da sua mulher, dê-lhe documento de divórcio. 32 Eu, porém, digo-vos: Aquele que se divorciar da sua mulher - excepto em caso de união ilegal - expõe-na a adultério, e quem casar com a divorciada comete adultério.»Linguagem e juramentos
33 *«Do mesmo modo, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás diante do Senhor os teus juramentos. 34 *Eu, porém, digo-vos: Não jureis de maneira nenhuma: nem pelo Céu, que é o trono de Deus, 35 nem pela Terra, que é o estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. 36 Não jures pela tua cabeça, porque não tens poder de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 *Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal.»Lei de talião (Ex 21,23-25; Lv 24, 17-21; Lc 6,27-30)
38 «Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. 39 Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. 40 Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. 41 E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. 42 Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.»Amor aos inimigos (Lc 6,31-36)
43 «Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. 44 Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. 45 *Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. 46 Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? 47 E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?48 Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.»
Notas
- 5, 1
- O Sermão da Montanha, apresentado por Mt como discurso inaugural da nova Lei do Reino, reúne diversas sentenças de Jesus nas quais se trata da nova justiça cristã (Lc 6,20-49). Ao texto das bem-aventuranças (v.3-12), que serve de exórdio, seguem-se três partes: 1) a justiça perfeita (v.13-48); 2) as boas obras (6,1-18); 3) três admoestações (7,1-27). Trata-se de um apelo de Jesus, em confronto com a Antiga Aliança, a quem deseja segui-lo.
- 3
- Felizes: modo clássico bíblico de felicitar alguém por um dom recebido ou de anunciar uma alegria. Com tal expressão, Jesus indica quais são aqueles que se encontram em condições mais propícias de receberem o Reino de Deus. As bem-aventuranças podem agrupar-se em dois blocos: o primeiro tem no centro a pobreza (v.3-9); o segundo, a perseguição (v.10-12). Os pobres em espírito ou pelo espírito são aqueles que, mediante as provações de ordem material e espiritual, aprenderam a confiar apenas em Deus (Sl 34,19; 40,18). A pobreza interior é condição para entrar no Reino, enquanto Lc acentua a oposição entre ricos e pobres (Lc 6,20-26). A evangelização dos pobres era, com os milagres, um dos sinais indicados por Jesus aos discípulos do Baptista, pelos quais poderiam reconhecer o Messias (11,4-5 nota). Sobre os pobres, ver Sl 22,27 nota; Pr 21,20 nota; Am 2,6-8 nota.
- 4
- Os que choram são aqueles que não perdem a esperança naquele que enxugará todas as lágrimas (Is 61,2; Ap 7,17; 21,4). Alguns manuscritos invertem a ordem dos v.4-5.
- 5
- Os mansos. Pela sua ligação com a pobreza, alguns vêem no v.5 uma glosa do v.3. Jesus apresenta-se como manso (11,29) e o mesmo requer do seu discípulo (2 Cor 10,1; Gl 5,23). A posse da terra é uma expressão bíblica relacionada com a Terra Prometida (Sl 25,13; 37,11.22.29.34), equivalente à do Reino de Deus.
- 6
- A fome e sede de justiça traduz-se na exigência de uma vida perfeita, de uma fidelidade maior à Lei de Deus (v.10.20).
- 7
- Misericordiosos. Ver 18,33; Tg 2,13.
- 8
- Puros de coração, os simples e sinceros. O sentido é muito mais amplo do que a castidade ou uma perfeição moral (15,11 nota; Sl 24,4).
- 9
- Pacificadores. Ver Sl 34,15; Heb 12,14; Tg 3,18.
- 11
- A seguir à bem-aventurança dos perseguidos em geral (v.10), vem a aplicação aos discípulos. Pela sua fidelidade total ao Senhor, os discípulos são convidados à confiança e à alegria e podem esperar uma recompensa grande no Céu (10,22; Act 5,41; 1 Pe 3,14; 4,14).
- 13-16
- Como o sal dá sabor aos alimentos e os conserva, assim também os discípulos se devem comportar no meio da humanidade (Mc 9,49 nota; Lc 14,34 nota; Cl 4,5-6 nota). Da função do sal falam os sacrifícios da Antiga Aliança (Lv 2,13 nota); da sua importância enquanto símbolo de durabilidade falam as "alianças de sal" (Nm 18,19), os pactos perpétuos (2 Cr 13,5). A sublinhar a lição, segue-se a imagem da luz (v.14-16; Jo 8,12; Ef 5,8-9). Alqueire, ver Mc 4,21 nota.
- 17
- Levar à perfeição. O verbo grego (plerôsai) pode também significar cumprir, realizar ou completar. O contexto do Sermão da Montanha recomenda o sentido de perfeição: Jesus quer conduzir a Lei e a Profecia à sua perfeição, restituindo-as à sua simplicidade original (19,3-8; Rm 3,31).
- 18
- O jota (iod, letra mais pequena do alfabeto hebraico e grego) e o ápice (pequeno traço para distinguir certas letras) significam que a Lei será respeitada por Jesus na sua integridade. Sem que tudo se cumpra: Jesus revaloriza a Lei, propondo-a com toda a sua autoridade (Lc 16,17; 21,33).
- 19
- Grande... pequeno, modo de os rabinos se exprimirem, ao aprovarem ou não os comportamentos das pessoas. Estes adjectivos não exprimem uma hierarquia no Reino.
- 21
- Ver Ex 20,13; Dt 5,6-21 nota; Tg 2,11.
- 22
- Conselho ou Sinédrio era o supremo tribunal dos judeus, composto de 71 membros e com sede em Jerusalém; os simples tribunais encontravam-se espalhados pelo país e eram constituídos por 23 membros (10,17 nota; Mc 15,1 nota; Act 5,21 nota). A Geena, vale a sul de Jerusalém no qual se sacrificou ao deus Moloc e, depois, se lançava o lixo da cidade, tornara-se símbolo de maldição eterna (18,8 nota; Lv 18,21 nota; Ne 11,30 nota; Is 30,33 nota; Jr 7,31-34 nota; Mc 9,43-48 nota). Mt usa a palavra dez vezes nesse sentido.
- 27
- Jesus aperfeiçoa o Decálogo quanto à proibição do adultério (Ex 20,14; Dt 5,18; 24,1-4) e a cobiça da mulher do próximo (Ex 20,17), colocando na mesma linha de exigência actos, pensamentos e desejos. Não condena todo o desejo da mulher por parte do homem (e vice-versa), mas o desregramento da concupiscência (19,18; Mc 10,19; Lc 16,18 nota; Rm 13,9; 2 Pe 2,14).
- 29-30
- Origem de pecado, lit., "escandalizar"; segundo a Bíblia, "escândalo" é um obstáculo, uma pedra de tropeço, uma ocasião de queda. A mutilação de qualquer membro é utilizada como imagem forte para significar a conversão interior (Mc 9,43-48 nota; Lc 17,1-6 nota; 1 Pe 2,8 nota) e para realçar a gravidade do pecado. Jesus serve-se do único exemplo de mutilação permitido pela Bíblia (Dt 25,11-12 nota).
- 31-32
- Não se trata de divórcio no sentido moderno da palavra, mas do direito que o esposo tinha de repudiar a mulher (19,3-9); direito que Jesus corrige no versículo seguinte. A excepção introduzida, da união ilegal (porneia), é interpretada de três modos: 1) algo de reprovável, sem precisão ulterior dos motivos para o repúdio (Dt 24,1-4 nota); 2) o adultério por parte da mulher; 3) união conjugal ilegal, de acordo com os casos previstos em Lv 18,6-18. Em qualquer dos casos, o texto de Mt acentua a indissolubilidade da união conjugal. Ver Ml 2,14-16.
- 33
- Ver Ex 20,7; Lv 19,12; Nm 30,3.
- 34-35
- Ver Is 66,1; Sl 48,2; 99,5.
- 37
- A fórmula do sim ou do não pode entender-se no sentido de que a boca deve proferir o que está no coração (2 Cor 1,17-20 nota; Tg 5,12). Mas, segundo fórmulas orientais, também pode significar uma linguagem tão verdadeira que não precise de recorrer ao juramento, o qual envolvia uma relação com a divindade.
- 38-39
- O verbo resistir é utilizado no sentido de replicar, imediatamente ou em tribunal, aos golpes sofridos, tirando vingança segundo a lei de talião (Gn 9,1-17 nota; Ex 21,23-25 nota; Lv 24,17-21 nota; Dt 19,21; 2 Sm 14,7 nota; Sb 11,16-24 nota; Ez 35,6-7 nota). Não se trata de não-resistência ao mal em geral nem de proibição a opor-se aos ataques injustos (Jo 18,22-23).
- 43-44
- O ódio aos inimigos não é prescrito no AT, como a antítese parece indicar (Lv 19,18). Jesus corrige com o amor cristão a mentalidade de aversão aos pecadores, a paixão individual e colectiva contra aqueles que não pertenciam à mesma comunidade de amigos, de que alguns textos da Bíblia pareciam fazer-se eco (Sir 12,4-7).
- 45-48
- O amor universal é condição para o discípulo se tornar filho do Pai do Céu (v.48), amando os bons e os maus, justos e pecadores (Lv 19,2). A recompensa não é de tipo salarial, mas a que provém da bondade gratuita de Deus, o qual não exclui ninguém do seu amor; a novidade do amor cristão estava em ir além do que já faziam os cobradores de impostos, considerados pecadores públicos, e os próprios pagãos, que os judeus consideravam excluídos do Reino de Deus (v.46-47). Sobre o amor universal de Deus, ver 1 Rs 8,23-53 nota; Sir 18,13 nota; Is 19,16-25 nota; Dn 3,4 nota; Jn 4,1.11 notas; Zc 14,20-21 nota; Mc 4,30-32 nota.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.