São Mateus 19
Subida a Jerusalém (19,1-20,34; ver Mc 10,1-52; Lc 9,51-19,28)
Jesus e o divórcio (5,31-32; Mc 10,1-12; Lc 16,18)
1 *Quando acabou de dizer estas palavras, Jesus partiu da Galileia e veio para a região da Judeia, na outra margem do Jordão. 2 Era seguido por grandes multidões e curou ali os seus doentes.3 *Alguns fariseus, para o experimentarem, aproximaram-se dele e disseram-lhe: «É permitido a um homem divorciar-se da sua mulher por qualquer motivo?» 4 Ele respondeu: «Não lestes que o Criador, desde o princípio, fê-los homem e mulher, 5 e disse: Por isso, o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois um só? 6 Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.»
7 Eles, porém, objectaram: «Então, porque é que Moisés preceituou dar-lhe carta de divórcio, ao repudiá-la?» 8 Respondeu Jesus: «Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas, ao princípio, não foi assim. 9 Ora Eu digo-vos: Se alguém se divorciar da sua mulher - excepto em caso de união ilegal - e casar com outra, comete adultério.»
Casamento e celibato (1 Cor 7,1-9)
10 Os discípulos disseram-lhe: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!»11 Respondeu-lhes Jesus: «Nem todos compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado. 12 Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, compreenda.»
Jesus e as crianças (Mc 10,13-16; Lc 18,15-17)
13 Apresentaram-lhe, então, umas crianças, para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas, mas os discípulos repreenderam-nos.14 Jesus disse-lhes: «Deixai as crianças e não as impeçais de vir ter comigo, pois delas é o Reino do Céu.» 15 E, depois de lhes ter imposto as mãos, prosseguiu o seu caminho.
O jovem rico (Mc 10,17-27; Lc 18,18-27)
16 Aproximou-se dele um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei-de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?» 17 Jesus respondeu-lhe: «Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só. Mas, se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos.» 18 *«Quais?» - perguntou ele. Retorquiu Jesus: Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19 honra teu pai e tua mãe; e ainda: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 20 Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?»21 *Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» 22 Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possuía muitos bens.
23 *Jesus disse, então, aos discípulos: «Em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no Reino do Céu. 24 *Repito-vos: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino do Céu.» 25 Ao ouvir isto, os discípulos ficaram estupefactos e disseram: «Então, quem pode salvar-se?» 26 Fixando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível.»
Recompensa do desprendimento (Mc 10,28-31; Lc 18,28-30)
27 Tomando a palavra, Pedro disse-lhe: «Nós deixámos tudo e seguimos-te. Qual será a nossa recompensa?» 28 *Jesus respondeu-lhes: «Em verdade vos digo: No dia da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do Homem se sentar no seu trono de glória, vós, que me seguistes, haveis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel.29 E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna. 30 *Muitos dos primeiros serão os últimos, e muitos dos últimos serão os primeiros.»
Notas
- 19, 1
- Esta indicação teológica pretende dizer que Jesus sai da região da Galileia (considerada pagã) para se dirigir a Jerusalém, onde cumprirá o seu destino de Messias sofredor.
- 3-9
- Ao tratar o problema do divórcio, segundo Dt 24,1-4 (v.3), Jesus não se deixa enredar nas discussões das escolas rabínicas do seu tempo; mas regressa ao projecto original de Deus do matrimónio monogâmico, citando Gn 1,27; 2,24 (v.4-5). Um só, lit., "Uma só carne." O preceito de Moisés não passa de uma concessão temporária dentro do projecto eterno de Deus (v.7-9; 5,31-32 nota; Gn 2,23-24 nota; 2 Sm 19,13-14 nota; Mc 10,2-6.6-8 notas; 1 Cor 7,10-11 nota.12-14 nota).
- 10-12
- Após restabelecer o matrimónio na sua dignidade inicial, Jesus acrescenta uma novidade de carácter escatológico: aqueles que estão possuídos pelo absoluto do Reino são capazes de prescindir do próprio matrimónio. Com isto, Jesus não desvaloriza o casamento; apenas propõe uma vocação especial, como dom de Deus (v.11-12; 1 Cor 7,17). Sobre os eunucos, ver Gn 37,36 nota; Est A,12 nota; Sb 3,13-15 nota; Is 56,3 nota; Act 8,4-5 nota.27-30 nota.
- 13
- Ver 18,3-5 nota.
- 16
- A narração aparece enquadrada por duas menções da vida eterna (v.16.29), segundo o processo literário da inclusão, caro a Mt. Desse modo, o evangelista põe em realce a relação entre o desprendimento dos bens próprios deste mundo e a salvação eterna.
- 18-19
- Ver 5,43; 22,39; Ex 20,12-16; Lv 19,18; Dt 5,16-20; Lc 10,27.
- 21
- Ser perfeito entende-se da perfeição de todo aquele que, seguindo Jesus, cumpre toda a Lei (v.18-19; 5,17.48). Essa fiel correspondência pode entender-se como reservada aos colaboradores mais próximos de Jesus, chamados a renunciar às preocupações da família (v.12) e das riquezas (6,19-21; 8,19-20).
- 23
- Jesus lembra o obstáculo das riquezas para quem quer alcançar a vida eterna, mas não impõe a pobreza como regra para ser seu discípulo. Ele chama mesmo pessoas de elevada condição social, sem exigir delas o abandono total da sua posição.
- 24
- A hipérbole, de sabor oriental, sublinha os riscos postos pelas riquezas a quem deseja seguir de perto a Jesus.
- 28
- Dia da regeneração ("palingenesia"). Com origem na apocalíptica judaica (Dn 7,9-10.14), o termo significa a transformação da humanidade e do universo já iniciada por Cristo, e de que os Apóstolos serão os principais agentes, como alicerce do novo povo, no lugar das 12 tribos do AT. Essa regeneração é apresentada em forma de julgamento (25,31-46 nota; Lc 22,30; 1 Cor 6,2; Ap 20,4). 12 tronos... 12 tribos significa que eles são associados na perseguição, mas também nos privilégios da realeza de Cristo. Será o triunfo da justiça que eles representam, apesar das perseguições. Ver Lc 22,30 nota; Ap 20,4.
- 30
- Estas palavras (20,16; Lc 13,30) concluem o episódio do jovem rico e introduzem, servindo-lhe de inclusão, a narração seguinte. Por elas, Jesus pretende dizer que os critérios de Deus e dos seres humanos são muito diferentes, como acontece nas bem-aventuranças (5,3-12).
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.