Génesis 38
Judá e Tamar (Mt 1,2-3)
1 *Naquele tempo, Judá apartou-se dos seus irmãos e encaminhou-se para junto de um dos habitantes de Adulam, chamado Hirá. 2 Judá viu ali a filha de um cananeu, de nome Chua: tomou-a por mulher e uniu-se com ela. 3 Ela concebeu e deu à luz um filho, que ele chamou Er. 4 Voltou a conceber e teve um filho que chamou Onan. 5 Concebeu de novo e deu à luz um filho que chamou Chelá. Judá estava em Quesib, quando ela deu à luz Chelá.6 Judá escolheu para Er, seu primogénito, uma mulher chamada Tamar. 7 Er, primogénito de Judá, desagradou ao SENHOR e Ele feriu-o de morte. 8 *Então Judá disse a Onan: «Casa com a mulher do teu irmão, pois é essa a tua obrigação como cunhado, para dares descendência ao teu irmão.» 9 *Mas Onan compreendeu que essa descendência não seria a sua e, quando se aproximava da mulher de seu irmão, derramava no chão o sémen, a fim de não dar descendência a seu irmão.
10 A sua conduta desagradou ao SENHOR, que também lhe deu a morte. 11 E Judá disse a Tamar, sua nora: «Conserva-te viúva na casa de teu pai, até que meu filho Chelá cresça.» Judá, porém, temia que ele também morresse como os irmãos. E Tamar foi morar para casa de seu pai.
12 *Muito tempo depois, morreu a filha de Chua, mulher de Judá. Passado o luto, foi Judá a Timna com o seu amigo Hirá, de Adulam, a fim de vigiar a tosquia das ovelhas. 13 Informaram disso Tamar, nestes termos: «Teu sogro sobe neste momento para Timna, para a tosquia das ovelhas.» 14 Então ela tirou as vestes de viúva, cobriu-se com um véu e sentou-se à entrada de Enaim, no caminho de Timna, porque via que Chelá já havia crescido e ela não lhe fora dada por mulher.
15 Ao vê-la, Judá tomou-a por uma prostituta, porque tinha a cara coberta com um véu. 16 Aproximou-se dela e disse-lhe: «Deixa-me ir contigo.» Pois ignorava que ela fosse a sua nora. Ela respondeu: «O que me darás para vires comigo?» 17 Judá respondeu: «Mandar-te-ei um cabrito do meu rebanho.» Tamar replicou: «Está bem, se me deres um penhor, enquanto espero que o envies.» 18 *Judá perguntou-lhe: «Que penhor te hei-de dar?» Ao que ela respondeu: «O teu selo, o teu cordão e o bastão que tens na mão.» Judá deu-lhos, uniu-se a ela, e Tamar concebeu um filho. 19 Depois, levantando-se, partiu e tirou o véu da cabeça, voltando a vestir as roupas de viúva.
20 Judá enviou o cabrito por intermédio do seu amigo Hirá de Adulam, a fim de retirar o penhor das mãos daquela mulher; mas ele não a encontrou. 21 Interrogou os habitantes daquela terra, dizendo: «Onde está a prostituta, que aparece em Enaim, à beira do caminho?» Responderam-lhe: «Nunca houve aqui nenhuma prostituta.»
22 Voltou então para junto de Judá e disse-lhe: «Não a encontrei e, além disso, os habitantes daquela terra disseram que ali nunca houve prostituta alguma.» 23 Judá disse: «Que ela fique com o que tem, para que não tenhamos de nos envergonhar: eu que lhe enviei o cabrito, e tu que não a pudeste encontrar.»
24 *Cerca de três meses depois, disseram a Judá: «Tamar, a tua nora, prevaricou e até ficou grávida com a sua prostituição. Judá respondeu: «Levai-a, e que seja queimada.»
25 *Quando a levavam, ela mandou dizer ao sogro: «Na verdade, estou grávida do homem a quem estas coisas pertencem.» E continuou: «Verifica, peço-te, a quem pertence este selo, este cordão e este bastão.» 26 Judá reconheceu-os e disse: «Ela é mais justa do que eu, pois é verdade que não lhe dei o meu filho Chelá.» Contudo, a partir de então, não voltou a conhecê-la.
27 *E quando chegou a ocasião de dar à luz, Tamar trazia dois gémeos no seio. 28 Durante o parto, um deles estendeu a mão e a parteira pegou nela, atando-lhe um fio escarlate, para indicar que era o primogénito. 29 *Mas ele retirou a mão e nasceu seu irmão. Então a parteira disse: «Que passagem abriste para ti!» E chamaram-lhe Peres. 30 *Em seguida, nasceu o irmão; numa das mãos trazia o fio escarlate, e chamaram-lhe Zera.
Notas
- 38, 1-30
- Este cap., que interrompe a história de José, apresenta-se como uma novela, que tem uma mulher cananeia, Tamar, como personagem central. Tamar, que significa "palmeira", para poder ter filhos - já que morreram seus maridos Er e Onan - tem que recorrer ao estratagema de se disfarçar de prostituta para seduzir o sogro, Judá. Condenada à morte pelo sogro, como prostituta (Lv 21,9), defende-se, apresentando as provas de que o causador da gravidez era ele próprio. Deste modo, ela continua a raça de Judá e garante o cumprimento das promessas feitas aos patriarcas. Por isso, Tamar aparece nos ascendentes de David e de Jesus (ver Rt 4,18-22; Mt 1,2-3). Trata-se de uma história antiga que mostra a ligação da grande tribo de Judá com os povos cananeus.
- 8
- Trata-se da lei do levirato (do lat. levir, "cunhado"), codificada em Dt 25,5-10. Prescrevia que, se um homem casado morresse sem ter filhos, o seu irmão ou parente mais próximo deveria desposar a "cunhada" viúva. O primeiro filho nascido de tal matrimónio era considerado como primogénito e herdeiro do defunto (Dt 25,5-10 nota; Mt 22,24 nota). Mas era possível fugir a esta lei (Dt 25,7-10, Rt 1,11-13; 4; Mt 22,23-28; Mc 12,18-23; Lc 20,27-33).
- 9-11
- De Onan deriva o vício do "onanismo", contra a procriação. Aqui, o que directamente se reprova não é o derramar o sémen, mas a violação da lei do levirato, ao negar-se a dar descendência à esposa, que lhe deve fidelidade sob pena de morte. Sua morte prematura é castigo do "onanismo". A viúva sem filhos deveria ir novamente para a casa do pai (Lv 22,13; Rt 1,8).
- 12-13
- Tosquia das ovelhas. Ver 31,19 nota; 1 Sm 25,2 nota; 2 Sm 13,23-25 nota.
- 18
- O selo servia para autenticar os documentos e era comum na Caldeia e no Egipto; o cordão servia para levar o selo pendente do pescoço; o bastão era sinal de autoridade. No v.25, ver-se-á o uso que Tamar pretende fazer desse penhor (Ct 8,6; Jr 22,24; Ag 2,23).
- 24
- Tamar, vivendo na casa paterna, era considerada como esposa de Chelá, em força de lei do levirato; pela acção praticada, torna-se culpável de adultério e, como tal, digna da pena de morte. A morte pelo fogo estava reservada à filha de um sacerdote que se prostituísse (Lv 21,9); para os outros casos, tal pena era substituída pela lapidação (Lv 20,10; Dt 22,21-24; Ez 16,40; Jo 8,4-5).
- 25-26
- Não voltou a conhecê-la. Eufemismo para indicar relações conjugais (v.18 nota; 4,1 nota).
- 27-28
- Ver 25,24-26.25.26 notas.
- 29
- Peres, isto é, "passagem". Ver Rt 4,12.18-22; Mt 1,3-6.
- 30
- Peres, significa "brecha", e dominou Zera, que significa "brilho" (do fio vermelho). Do clã de Peres veio David, por Rute (Nm 26,20-21; Rt 4,12.18-22; 1 Cr 2,4-17). O termo Zera está relacionado, nas línguas semitas, com a cor vermelha.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.