Provérbios 30
VI. PROVÉRBIOS DE AGUR<br>(30,1-14)
1 *Palavras de Agur, filho de Jaqué, de Massá.Disse aquele varão a Itiel e a Ucal:
2 «Sou o mais insensato dos homens
e não tenho a inteligência de homem.
3 Não aprendi a sabedoria
e não tenho o conhecimento do Santo.
4 *Quem subiu ao céu e dele desceu?
Quem reteve o vento nas suas mãos?
Quem recolheu as águas no seu manto?
Quem fixou as extremidades da terra?
Qual é o seu nome, e qual é o nome do seu filho,
se é que o sabes?
5 *Toda a palavra de Deus é provada ao fogo,
é um escudo para aqueles que confiam nele.
6 Nada acrescentes às suas palavras,
para que não te repreenda e sejas achado mentiroso.
7 Peço-te duas coisas,
não mas negues antes da minha morte:
8 Afasta de mim a falsidade e a mentira,
não me dês pobreza nem riqueza,
concede-me o pão que me é necessário,
9 para que, saciado, não te renegue,
e não diga: «Quem é o SENHOR?»
Ou, empobrecido, não roube
e não profane o nome do meu Deus.
10 Não calunies o escravo diante do seu senhor,
para que não te amaldiçoe e sofras o castigo.
11 Ai da geração que amaldiçoa o seu pai
e não abençoa a sua mãe!
12 Ai da geração que se julga pura
e não se lava da sua imundície!
13 Ai da geração cujos olhos são altivos,
e cujas pálpebras são alevantadas!
14 Ai da geração cujos dentes são espadas e os maxilares são facas,
para devorar os fracos da terra e os pobres dentre os homens!
VII. PROVÉRBIOS NUMÉRICOS<br>(30,15-33)
15 A sanguessuga tem duas filhas,que se chamam: «Dá-me, dá-me!»
Há três coisas que são insaciáveis,
e quatro que nunca dizem: «Basta»:
16 a habitação dos mortos, o seio estéril,
a terra que nunca se sacia de água
e o fogo que nunca diz: «Basta!»
17 O olho que escarnece do pai
e recusa obedecer à sua mãe,
será arrancado pelos corvos,
e as águias o devorarão.
18 Há três coisas que são um mistério para mim,
e uma quarta que não compreendo:
19 *o voo da águia nos céus,
o rasto da cobra sobre a rocha,
o rumo de um navio em pleno mar,
e a atitude do homem para com a donzela.
20 *Assim procede a mulher adúltera,
a qual, depois de comer, limpa a boca, e diz:
«Eu não fiz mal nenhum.»
21 *Três coisas fazem tremer a terra,
e uma quarta que ela não pode suportar:
22 um escravo que se torna rei,
um insensato que se farta de pão,
23 uma mulher de má índole que se casa
e uma criada que se torna herdeira da sua senhora.
24 Quatro são os seres mais pequenos da terra,
que, entretanto, são sábios entre os sábios:
25 as formigas, seres sem força,
que, durante o Verão, preparam as suas provisões;
26 *os gerbos, animais sem poder,
que fazem a sua habitação nos rochedos;
27 os gafanhotos, que não têm rei,
e que saem todos ordenados em esquadrões;
28 o lagarto, que se pode apanhar à mão,
mas que entra no palácio dos reis.
29 Há três coisas que têm bela aparência
e mesmo quatro, que andam garbosamente:
30 o leão, o mais forte dos animais,
que não recua diante de nada;
31 o galo muito senhor de si, e o bode,
e o rei, à frente do seu exército.
32 Se te louvaste nesciamente, reflecte,
e, depois, tapa a tua boca com a mão,
33 porque quem bate o leite, tira dele a manteiga,
quem aperta o nariz, faz jorrar sangue,
quem excita a ira, causa discórdias.
Notas
- 30, 1
- Massá era território duma tribo de ismaelitas (Gn 25,14), mas não é possível localizá-la. Tão pouco se pode identificar quem terá sido Agur. Todavia, o valor religioso das suas sentenças mostra que se trata de um adorador de Javé. Os nomes Itiel e Ucal podem traduzir-se por "fatiguei-me por Deus" e "esgotei-me", respectivamente. Neste caso, tratar-se-ia de uma exclamação do sábio Agur que, após tanta investigação, concluiu que a verdadeira sabedoria é aquela que vem de Deus (v.2-6).
- 4
- Uma forma de realçar o mistério de Deus, a sua transcendência e omnipotência (Jb 38,1-38; ver Sir 1,2-3). A referência ao nome do seu filho é um simples paralelismo, com o intuito de corroborar a força da interrogação. Conhecer o nome significa conhecer plenamente a pessoa. E quem verdadeiramente pode conhecer a Deus? Ver 18,10 nota.
- 5
- A prova ao fogo significa genuína, autêntica, sem mistura, como o metal purificado (1 Pe 1,7).
- 15
- Os provérbios numéricos obedecem a uma técnica psicológica e mnemónica, frequente nos livros sapienciais bíblicos, mas desconhecida no Egipto e na Assíria. São uma tentativa para fixar e esclarecer os fenómenos da natureza física e animal, que constituíam um enigma para os homens. Esta colectânea deveria existir independentemente dos provérbios de Agur, porque na tradução dos Setenta vem a seguir à 2ª colecção dos sábios (24,23-34; ver Sl 62,12 nota). A sanguessuga foi sempre considerada como símbolo da avidez e do parasitismo.
- 19
- A atitude do homem para com a donzela. Não se trata apenas da atracção do homem para com a mulher, nem das manobras para a seduzir, mas sobretudo do mistério da união conjugal e da procriação.
- 20
- Indiferença e cinismo da adúltera que perdeu todo o sentido moral.
- 21-23
- Tremer... não poder suportar. Trata-se de coisas que contradizem a ordem estabelecida, porque opostas à sabedoria e às normas da justa retribuição (Ecl 10,5-7).
- 26
- Trata-se de mamíferos roedores que vivem nas fendas dos rochedos.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.