São João 21
Aparição na margem do Lago (Lc 5,1-11)
1 *Algum tempo depois, Jesus apareceu outra vez aos discípulos, junto ao lago de Tiberíades, e manifestou-se deste modo: 2 estavam juntos Simão Pedro, Tomé, a quem chamavam o Gémeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos. 3 Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar.» Eles responderam-lhe: «Nós também vamos contigo.» Saíram e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. 4 Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. 5 Jesus disse-lhes, então: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-lhe: «Não.» 6 Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.»Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. 7 *Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou a capa, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. 8 *Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros.
9 Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão. 10 Jesus disse-lhes: «Trazei dos peixes que apanhastes agora.» 11 Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. 12 Disse-lhes Jesus: «Vinde almoçar.» E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-lhe: «Quem és Tu?», porque bem sabiam que era o Senhor. 13 Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe.
14 Esta já foi a terceira vez que Jesus apareceu aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.
Missão pastoral de Pedro
15 *Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.» 16 Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me?» Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.» 17 E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?» Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: 'Tu és deveras meu amigo?' Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas. 18 *Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres.»19 E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras, acrescentou: «Segue-me!»
20 *Pedro voltou-se e viu que o seguia o discípulo que Jesus amava, o mesmo que na ceia se tinha apoiado sobre o seu peito e lhe tinha perguntado: 'Senhor, quem é que te vai entregar?' 21 Ao vê-lo, Pedro perguntou a Jesus: «Senhor, e que vai ser deste?» 22 Jesus respondeu-lhe: «E se Eu quiser que ele fique até Eu voltar, que tens tu com isso? Tu, segue-me!»
23 Foi assim que, entre os irmãos, correu este rumor de que aquele discípulo não morreria. Jesus, porém, não disse que ele não havia de morrer, mas sim: «Se Eu quiser que ele fique até Eu voltar, que tens tu com isso?»
Última conclusão
24 *Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e que as escreveu. E nós sabemos bem que o seu testemunho é verdadeiro.25 Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas fossem escritas, uma por uma, penso que o mundo não teria espaço para os livros que se deveriam escrever.
Notas
- 21, 1
- Depois da conclusão de 20,30-31, este capítulo tem um certo carácter de apêndice, o que confirma que a redacção joanina não foi levada a cabo de uma só vez. E é precisamente esta parte final que fornece pistas para identificar o autor de toda a obra: o discípulo amado de Jesus (v.7.20-23; 13,23-25; 19,26-27; 20,2-10). Especialmente os dois versículos finais têm todo o carácter de um acrescento posterior dos discípulos de Jo: "E nós sabemos".
- 1-14
- Esta pesca milagrosa tem um acentuado carácter simbólico, aludindo à missão da Igreja no mundo: Jesus na praia e os discípulos ("pescadores de homens": Mc 1,17; Lc 5,10) no meio do mar, com Pedro à sua frente (v.3.7.11). Ao acentuar que "a rede não se rompeu" (v.11), em contraste com Lc 5,6-7, parece que se alude à unidade da Igreja, estando a universalidade aludida na grande quantidade de peixes (v.6); esta universalidade apareceria reforçada se se considerasse que o número cento e cinquenta e três (v.11) pode ser um número simbólico de plenitude, que se obtém somando 3x50+3. Também há quem veja em 153 um recurso à gematria (valor literal dos números), para aludir à Igreja como comunidade de amor (qahal hahaváh). Também se pode ver na refeição e nos gestos de Jesus (v.13) uma alusão à Eucaristia, pois é Ele quem oferece pão e peixes, que eles não tinham pescado (v.9; 6,1-13). Sobre a universalidade, ver 1 Rs 8,23-53 nota; Sir 18,13 nota; Is 19,16-25 nota; Dn 3,4 nota; Jn 4,1.11 notas; Zc 14,20-21 nota; Mt 5,45-48 nota; 24,31 nota; Mc 4,30-32 nota; Lc 2,14 nota; Act 8,1-4 nota.
- 7
- Ver 13,23; 19,26; 20,2.
- 8
- Noventa metros, lit., "200 côvados".
- 15-18
- É fácil ver na tríplice confissão de amor de Pedro uma reparação da sua tríplice negação (18,17.25-27); mas, na redacção do texto grego, pode ver-se também um jogo de palavras muito expressivo, pois na 1.ª e 2.ª perguntas Jesus interroga Pedro com um verbo de amor mais divino, profundo e intelectual (agapâs me = amas-me?), ao passo que Pedro responde com um verbo de simples afeição e amizade (filô se = gosto de ti); à 3.ª vez, Jesus condescende com Pedro, usando este segundo verbo, e Pedro ficou triste por se lembrar que esta mudança de Jesus se devia à imperfeição do seu amor. A Tradição católica viu neste encargo de pastorear todo o rebanho de Cristo (cordeiros e ovelhas) o cumprimento da promessa do primado (Mt 16,18.19 notas; Lc 22,32-34 nota; 1 Pe 5,2.4 notas).
- 18-19
- Estenderás as mãos é uma provável alusão à crucifixão de Pedro em Roma, na perseguição de Nero, no ano 64 ou 67 (13,36; 2 Pe 1,14.
- 20-22
- Que ele fique até que Eu volte. Jesus não satisfaz curiosidades inúteis, mas apela à fidelidade: Segue-me. Tendo em conta que Pedro já morrera havia uns 40 anos, não deixa de impressionar a ligação tão íntima entre o discípulo predilecto de Jesus (v.20) e Pedro, aparecendo este sempre numa posição de superioridade (v.1-12.15.20-23; 13,24; 18,15-16; 20,1-8).
- 24
- Ver 15,27; 19,35; 3 Jo 12.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.