São João 18
7. Paixão e Ressurreição<br>(18,1-20,29; ver Mt 26,1-28,20; Mc 14,1-16,20; Lc 22,1-24,53)
Prisão de Jesus (Mt 26,47-56; Mc 14,43-49; Lc 22,47-53)
1 *Tendo dito estas coisas, Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cédron, onde havia um horto, e ali entrou com os seus discípulos. 2 Judas, aquele que o ia entregar, conhecia bem o sítio, porque Jesus se reunia ali frequentemente com os discípulos. 3 *Judas, então, guiando o destacamento romano e os guardas ao serviço dos sumos sacerdotes e dos fariseus, munidos de lanternas, archotes e armas, entrou lá.4 *Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, adiantou-se e disse-lhes: «Quem buscais?» 5 Responderam-lhe: «Jesus, o Nazareno.» Disse-lhes Ele: «Sou Eu!» E Judas, aquele que o ia entregar, também estava junto deles. 6 *Logo que Jesus lhes disse: 'Sou Eu!', recuaram e caíram por terra. 7 E perguntou-lhes segunda vez: «Quem buscais?» Disseram-lhe: «Jesus, o Nazareno!» 8 Jesus replicou-lhes: «Já vos disse que sou Eu. Se é a mim que buscais, então deixai estes ir embora.»
9 *Assim se cumpria o que dissera antes: 'Dos que me deste, não perdi nenhum.' 10 Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. 11 Mas Jesus disse a Pedro: «Mete a espada na bainha. Não hei-de beber o cálice de amargura que o Pai me ofereceu?»
Jesus levado a Anás (Mt 26,57-58; Mc 14,53-54; Lc 22,66-71)
12 Então, o destacamento, o comandante e os guardas das autoridades judaicas prenderam Jesus e manietaram-no. 13 *E levaram-no primeiro a Anás, porque era sogro de Caifás, o Sumo Sacerdote naquele ano. 14 Caifás era quem tinha dado aos judeus este conselho: 'Convém que morra um só homem pelo povo'.Primeira negação de Pedro (Mt 26,69-70; Mc 14,54.66-68; Lc 22,55-57)
15 Entretanto, Simão Pedro e outro discípulo foram seguindo Jesus. Esse outro discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e pôde entrar no seu palácio ao mesmo tempo que Jesus. 16 Mas Pedro ficou à porta, de fora. Saiu, então, o outro discípulo que era conhecido do Sumo Sacerdote, falou com a porteira e levou Pedro para dentro. 17 Disse-lhe a porteira: «Tu não és um dos discípulos desse homem?» Ele respondeu: «Não sou.»18 Lá dentro estavam os servos e os guardas, de pé, aquecendo-se à volta de um braseiro que tinham acendido, porque fazia frio. Pedro ficou no meio deles, aquecendo-se também.
Jesus interrogado por Anás (Mt 26, 59-68; Mc 14,55-65; Lc 22,66-71)
19 Então, o Sumo Sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20 Jesus respondeu-lhe: «Eu tenho falado abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21 Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que Eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.»22 *Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: «É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?» 23 Jesus replicou: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?» 24 Então, Anás mandou-o manietado ao Sumo Sacerdote Caifás.
Segunda e terceira negações de Pedro (Mt 26,71-75; Mc 14,69-72; Lc 22,58-62)
25 Entretanto, Simão Pedro estava de pé a aquecer-se. Disseram-lhe, então: «Não és tu também um dos seus discípulos?» Ele negou, dizendo: «Não sou.» 26 Mas um dos servos do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe: «Não te vi eu no horto com Ele?» 27 Pedro negou Jesus de novo; e nesse instante cantou um galo.Jesus diante de Pilatos (Mt 27,1-2.11-26; Mc 15,1-15; Lc 23,1-7.13-25)
28 De Caifás, levaram Jesus à sede do governador romano. Era de manhã cedo e eles não entraram no edifício para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa.29 Pilatos veio ter com eles cá fora e perguntou-lhes: «Que acusações apresentais contra este homem?» 30 Responderam-lhe: «Se Ele não fosse um malfeitor, não to entregaríamos.» 31 Retorquiu-lhes Pilatos: «Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa Lei.» «Não nos é permitido dar a morte a ninguém», disseram-lhe os judeus, 32 *em cumprimento do que Jesus tinha dito, quando explicou de que espécie de morte havia de morrer.
33 *Pilatos entrou de novo no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» 34 Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» 35 Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» 36 Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» 37 Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» 38 Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?»
Dito isto, foi ter de novo com os judeus e disse-lhes: «Não vejo nele nenhum crime. 39 Mas é costume eu libertar-vos um preso na Páscoa. Quereis que vos solte o rei dos judeus?» 40 Eles puseram-se de novo a gritar, dizendo: «Esse não, mas sim Barrabás!» Ora Barrabás era um salteador.
Notas
- 18, 1-2
- A torrente do Cédron, só nomeada aqui em todo o NT, corre no vale que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras, onde ficava a propriedade em que Jesus foi preso. Só João diz que é um horto, talvez para se ver nisso uma alusão ao jardim do Éden, onde a humanidade, o novo Adão, obtém a salvação. Ver Mt 26,36 nota; Mc 14,32 nota; Lc 22,39-46 nota.
- 3-12
- Só João fala da intervenção de soldados romanos; apenas um destacamento de uma coorte, pois esta tinha 600 homens. A prisão de Jesus não se deve à violência exercida mas à sua entrega soberana e consciente (Sou Eu! - ver 8,24 nota); preso, exige a liberdade dos seus (deixai estes: v.8). Também João revela os nomes de Pedro e de Malco, na cena do golpe de espada (v.10).
- 4
- Ver 19,28.
- 6
- Ver 8,24; Sl 56,10.
- 9
- Ver 6,39; 17,12.
- 13-14
- Só João conta que levaram Jesus ao influente Anás, que fora Sumo Sacerdote entre os anos 6 e 15. A ele vieram a suceder cinco dos seus filhos e, nesta data, o seu genro, José Caifás (11,49-53 nota).
- 15-27
- O outro discípulo (v.15-16) é provavelmente João. O interrogatório de Anás (v.19-24) versa sobre duas coisas públicas e sabidas: a doutrina e os discípulos de Jesus. As três negações de Pedro, embora contadas de forma resumida, assumem um aspecto dramático, pelo facto de se introduzir no meio delas o interrogatório de Anás (v.19-24), a quem Jesus declara: Interroga os que ouviram (v.21). Fica patente o contraste entre a afirmação do Mestre (Sou eu: v.5.8) e a negação do discípulo: Não sou (v.17.25). Jo limita-se a dizer que Jesus foi enviado a Caifás (v.24), sem relatar a sessão do Conselho ou Sinédrio que o condenou na manhã de Sexta-feira (Mt 26,59-66; Mc 14,55-64; Lc 22,66-71). Com isto pretenderia sublinhar que a condenação já estava decretada (11,49-53 nota).
- 19
- Ver 7,14.26.
- 22-23
- Ver 19,3; Act 23,2-5.
- 28-31
- João dá uma grande importância ao processo diante de Pilatos; a narrativa mostra a serenidade e segurança de Jesus, em contraste com a agitação e ansiedade dos inimigos. As sete cenas do relato desenrolam-se alternadamente no exterior e na sede do governador romano, o pretório, pois os acusadores evitam entrar em casa de um pagão, para não contraírem uma impureza legal, que os obrigaria a adiar a celebração da ceia pascal; com efeito, os sumos sacerdotes, único grupo nomeado no processo de Jesus (v.35; 19,6.15.21), eram do partido dos saduceus, que naquele ano teriam atrasado um dia a celebração da Páscoa (13,1 nota). Sobre os saduceus, ver Mt 22,23.32 notas; Lc 20,27-39 nota.
- 32
- Ver 12,32.33.32-36 nota.
- 33-37
- As razões para eliminarem Jesus eram de natureza religiosa, mas Ele é denunciado à autoridade romana como um conspirador político: rei dos judeus. Jesus, que não podia negar a sua realeza, distancia-se igualmente da expectativa nacionalista judaica, afirmando o carácter transcendente do seu reino (Rm 14,17), o que colocava a sua missão ao abrigo de qualquer suspeita: não é deste mundo (v.36) e visa dar testemunho da Verdade (v.37).
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.