São João 6
3. Jesus é o Pão da Vida<br>(6,1-71)
Multiplicação dos pães e dos peixes (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,34-44; 8,1-9; Lc 9,10-17)
1 *Depois disto, Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades. 2 Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes. 3 Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos.4 *Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus. 5 Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» 6 Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Filipe respondeu-lhe: 7 «Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.» 8 Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9 «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» 10 Jesus disse: «Fazei sentar as pessoas.»
Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil. 11 Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. 12 Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». 13 Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer.
14 *Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» 15 *Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte.
Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33; Mc 6,45-52)
16 Ao cair da tarde, os seus discípulos desceram até ao lago 17 e, subindo para um barco, foram atravessando o lago em direcção a Cafarnaúm. 18 Já tinha escurecido e Jesus ainda não fora ter com eles. Soprando uma forte ventania, o lago começou a agitar-se.19 *Depois de terem remado mais ou menos uma légua, avistaram Jesus que se aproximava do barco, caminhando sobre o lago, e tiveram medo. 20 *Mas Ele disse-lhes: «Sou Eu, não tenhais medo!» 21 Quiseram recebê-lo logo no barco, e o barco chegou imediatamente à terra para onde iam.
Discurso do Pão do Céu
22 *No dia seguinte, a multidão que ficara do outro lado do lago reparou que ali não estivera mais do que um barco, e que Jesus não tinha entrado no barco com os seus discípulos, mas que estes tinham partido sozinhos. 23 Entretanto, chegaram outros barcos de Tiberíades até ao lugar onde tinham comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. 24 Quando viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam ali, a multidão subiu para os barcos e foi para Cafarnaúm à procura de Jesus. 25 Ao encontrá-lo no outro lado do lago, perguntaram-lhe: «Rabi, quando chegaste cá?» 26 Jesus respondeu-lhes:«Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-me, não por terdes visto sinais miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes. 27 *Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará; pois a este é que Deus, o Pai, confirma com o seu selo.» 28 *Disseram-lhe, então: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» 29 Jesus respondeu-lhes: «A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou.» 30 Eles replicaram: «Que sinal realizas Tu, então, para nós vermos e crermos em ti? Que obra realizas Tu? 31 *Os nossos pais comeram o maná no deserto, conforme está escrito: Ele deu-lhes a comer o pão vindo do Céu.»
32 E Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu, mas é o meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do Céu, 33 *pois o pão de Deus é aquele que desce do Céu e dá a vida ao mundo.» 34 Disseram-lhe então: «Senhor, dá-nos sempre desse pão!» 35 Respondeu-lhes Jesus:
«Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome e quem crê em mim jamais terá sede. 36 Mas já vo-lo disse: vós vistes-me e não credes. 37 Todos os que o Pai me dá virão a mim; e quem vier a mim Eu não o rejeitarei, 38 porque desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. 39 E a vontade daquele que me enviou é esta: que Eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas o ressuscite no último dia. 40 Esta é, pois, a vontade do meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.»
41 Os judeus puseram-se, então, a murmurar contra Ele por ter dito: 'Eu sou o pão que desceu do Céu'; 42 *e diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a mãe? Como se atreve a dizer agora: 'Eu desci do Céu'?»
43 Jesus disse-lhes, em resposta: «Não murmureis entre vós. 44 Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não atrair; e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. 45 *Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. 46 *Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. 47 Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê tem a vida eterna. 48 Eu sou o pão da vida. 49 Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram. 50 Este é o pão que desce do Céu; se alguém comer dele, não morrerá. 51 *Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»
52 Então, os judeus, exaltados, puseram-se a discutir entre si, dizendo: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?!» 53 Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54 Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia, 55 porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue, uma verdadeira bebida. 56 Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele. 57 Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim. 58 Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os antepassados comeram, pois eles morreram; quem come mesmo deste pão viverá eternamente.»
59 Isto foi o que Ele disse em Cafarnaúm, ao ensinar na sinagoga.
Reacção dos discípulos
60 *Depois de o ouvirem, muitos dos seus discípulos disseram: «Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?» 61 Mas Jesus, sabendo no seu íntimo que os seus discípulos murmuravam a respeito disto, disse-lhes:«Isto escandaliza-vos? 62 E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? 63 *É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse são espírito e são vida. 64 *Mas há alguns de vós que não crêem.» De facto, Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam e também quem era aquele que o havia de entregar. 65 *E dizia: «Por isso é que Eu vos declarei que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for concedido pelo Pai.»
66 A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. 67 Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» 68 Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! 69 *Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.»
70 Disse-lhes Jesus: «Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.» 71 Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois esse é que viria a entregá-lo, sendo embora um dos Doze.
Notas
- 6, 1
- A tradição cristã da Palestina considera que a outra margem do lago não é a margem oriental, mas o outro lado de um golfo existente na mesma margem (Tabga).
- 4-13
- A proximidade da Páscoa, sublinhada com a referência à muita erva (v.10), é uma chave para o leitor descobrir no milagre da multiplicação do pão a figura da Páscoa cristã e da instituição da Eucaristia. O próprio relato do milagre (v.11) está feito com palavras usadas pelos Sinópticos e por Paulo para relatar a mesma instituição e serve para introduzir o discurso do pão do Céu, que vem a seguir. Ver Mt 26,17.26 notas; Mc 14,1.22-26 notas; Lc 22,20 nota; 1 Cor 11,23-25 nota.
- 14
- Ver Dt 18,15-18 nota.
- 15
- Ver 12,13; 18,36.
- 19
- Uma légua, lit., vinte e cinco ou trinta estádios. Uns 5 km. Ver Suplemento MEDIDAS, p. 2116.
- 20
- Sou Eu! Jesus apresenta-se com as mesmas palavras com que Deus se revelara a Moisés, no Sinai (Ex 3,14-15 nota; Act 9,5 nota). Haveria aqui também uma alusão à passagem do Mar dos Juncos, ou Mar Vermelho, na primeira Páscoa (Ex 14,21-31).
- 22-59
- O discurso na sinagoga de Cafarnaúm é introduzido por um diálogo (v.25-34) que cul-mina num mal-entendido: Jesus falou do pão do Céu e os ouvintes pedem-lhe deste pão (v.34), pensando numa solução económica. A resposta de Jesus aborda dois temas diferentes: o tema do pão da vida, Jesus, em quem é preciso crer (v.35-50), e o tema do pão vivo, Jesus, que é preciso receber na Eucaristia, para se ter a vida (v.51-58). As afirmações do Senhor são contestadas (v.42.52), mas Ele não transige nem suaviza o que diz, antes reforça a maravilhosa revelação que acaba de fazer (v.43-50 e 53-58).
- 27
- O selo com que o Pai confirma Jesus como seu Filho enviado ao mundo são os sinais (milagres). Ver Mt 27,62-66 nota; 2 Cor 1,21-22 nota; Ap 5,1-14.6 notas.
- 28-29
- Ver Act 2,37; 16,30-31; 1 Jo 3,23.
- 31-33
- O texto citado parece ser o do Sl 78,24. Repare-se na força da argumentação, à maneira rabínica: "Não foi Moisés que vos deu (...); é meu Pai quem vos dá…"; o sentido mais profundo das Escrituras obtém-se lendo a mesma forma do verbo hebraico não no perfeito, mas no presente, de modo a pôr em evidência que o verdadeiro pão do Céu não é algo do passado, o maná, mas o próprio Jesus (pão da vida, isto é, que dá a vida), o qual procede do Pai. Ao longo do AT, o maná também foi tema de reflexão (Ex 16,14.31 notas; Dt 8,3 nota; Ne 9,20; Sb 16,20-21 nota; Am 8,11 nota). O judaísmo da época de Jesus, apoiando-se na promessa de Ex 16,4, esperava que, com a vinda do Messias, se renovariam os prodígios do Êxodo (ver a tentação de Jesus: Mt 4,1-10 e notas; Lc 4,3-4 nota).
- 33
- Ver v.51; 3,13.
- 42
- Ver Mt 13,55; Mc 6,3; Lc 4,22.
- 45
- Ver Is 54,13; Jr 31,33.34.
- 46
- Ver 1,18; 7,29; Mt 11,27; Lc 10,22.
- 51-58
- O pão que Eu hei-de dar (v.51). Este dar é um oferecimento pela vida (salvação) do mundo; a referência à morte de Cristo (3,15-16) e à instituição da Eucaristia (Lc 22,19; 1 Cor 11,24) é fácil de descobrir. O realismo eucarístico das palavras de Jesus não pode ser mais claro: o pão vivo é a carne (não simplesmente o corpo) de Jesus e, simultaneamente, o sangue que é preciso beber. Tema desconcertante para a fé e a cultura judaica (Lv 1,5 nota; 17,10-11 nota; Act 15,19-20 nota); mas Jesus não desfaz um mal-entendido, não apela para um sentido metafórico nem suaviza as suas palavras, antes as reforça com mais clareza. Nos v.52, 54, 56, 57 e 58, emprega-se um verbo que exprime com realismo o próprio acto de comer com os dentes (mastigar) e que traduzimos por comer mesmo (realmente).
- 60-71
- As palavras de Jesus não são insuportáveis (v.60), mas sim espírito e vida (v.63); não são palavras humanas, mas sim a revelação do Espírito de Deus e dão a vida eterna. Por isso têm de ser acolhidas com fé, a mesma fé humilde e firme de Pedro (v.68-69).
- 63
- Ver 2 Cor 3,6.
- 64
- Ver 13,11.
- 65
- Ver v.44.
- 69
- Ver 1,49; 11,27; Mt 14,33; 16,14-16; Mc 1,24; 8,29; Lc 4,34; 9,20.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.