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Inteligência Espiritual

  Segunda-feira, 7 de Setembro de 2026 - SEGUNDA-FEIRA da semana XXIII    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis
XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Como Ajudar Deus a Encontrar o Seu TesouroO Banquete da Palavra

Subtilmente, quase imperceptivelmente, como uma serpente que se introduz nas fissuras de uma rocha, ganha espaço entre os cristãos a mentalidade deste mundo, que vê as pessoas com base no sucesso que obtêm, nas capacidades que têm, na riqueza que acumulam. Os génios, os atletas, as personalidades eminentes, quem quer que seja que demonstre ter capacidades particulares é admirado e pretendido; os fracos, os pobres, os incapazes, os deficientes são para muitos – mesmo que isso dificilmente seja admitido – quase um fardo incómodo.

A comunidade que se gloria com os seus «heróis» e experimenta uma repulsa inconfessável pelos pecadores a quem considera um peso, ramos secos, uma «desonra» para toda a família, mostra ter assimilado os critérios deste mundo, não os de Deus que se enamora dos últimos, daqueles que não contam. Ele declarou o seu amor ao mais insignificante dos povos, Israel, desta forma: «és precioso aos meus olhos, Eu te estimo e te amo» (Is 43, 4).

A perspectiva de Jesus é idêntica: no centro das atenções da sua comunidade pôs «os pequenos». Eles são o tesouro de Deus, a pérola preciosa pela qual vale a pena revistar todos os cantos do mundo, a jóia que enche de alegria irreprimível quem a encontra (Mt 13, 44-46). Diziam os rabis: «o Senhor alegra-se com a ressurreição dos justos e com a ruína dos ímpios.» Pelo contrário, o Deus de Jesus faz mais festa por um pecador que regressa do que por noventa e nove justos (Mt 18, 13).

Somente se compreendemos os gostos de Deus, que «escolheu os pobres» (Tg 2, 5) e olha para os humildes (Is 66, 2), é que estamos na justa disposição para acolher a mensagem das leituras de hoje.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos:
- Quem traz de volta à vida um irmão experimenta a alegria de Deus.



PRIMEIRA LEITURA

«Porventura me hei-de comprazer com a morte do pecador – diz o Senhor Deus – e não com o facto de ele se converter e viver?» (Ez 18, 23). A preocupação do Senhor é que o homem escolha caminhos de morte; por isso coloca Ezequiel como sentinela e encarrega-o de vigiar (v. 7). Contra quem? Quem é o inimigo que se aproxima para aniquilar Israel?

Mesmo que possa parecer estranho, é o Senhor quem está para atingir o seu povo com a mais grave das desventuras: a destruição da cidade de Jerusalém e a deportação para uma terra estrangeira.

E o que deve fazer Ezequiel? Deve comportar-se como as sentinelas que tocam a trompeta, que dão o alarme de modo que todos se possam pôr a salvo.

A imagem da vinda do Senhor para punir o povo aparece muitas vezes na Bíblia; quase sempre para cada preceito é acrescentada uma promessa de bem para quem o observa e a ameaça do castigo para os transgressores (Dt 28). Na realidade, não é Deus quem castiga, é o pecado que leva o homem à perdição. O Senhor quer salvar; quem se afasta do caminho da vida que Ele traçou decreta a própria morte.

No trecho de hoje são postas em evidência, de forma dramática, a paixão e o cuidado do Senhor pelo homem. Preza tanto a salvação do seu povo que ameaça Ezequiel com a morte se este não alertar os Israelitas, e não os avisar do perigo que correm: as esco-lhas que fazem estão a levá-los à ruína.

O profeta é um homem com uma grande sensibilidade espiritual. É o primeiro a intuir os caminhos do Senhor, é aquele que consegue perceber imediatamente se as decisões dos homens estão ou não de acordo com o pensamento de Deus. Por isso é seu dever intervir, falar com franqueza, advertir quem corre o perigo de se afastar de Deus. Se não cumprir esta missão, torna-se responsável pela ruína dos seus irmãos (v. 8); se, pelo contrário, repreender quem se comporta mal e este não lhe ligar, então a culpa não será dele (v. 9).

Cada cristão é profeta, é sentinela, é portanto, responsável, em parte pela sorte dos seus irmãos.




SEGUNDA LEITURA

No capítulo 13 da Carta aos Romanos, Paulo trata o tema dos deveres do cidadão para com a autoridade do Estado. Os cristãos perguntavam-se até que ponto devia ir a sua fidelidade. Que posição assumir perante instituições incompatíveis com o Evangelho de Cristo. Como comportar-se com um imperador excêntrico como era Nero. Muitos estavam insatisfeitos com o sistema político, e é provável que entre aqueles que pensavam numa revolta estivessem também alguns cristãos.

Nos primeiros versículos do capítulo (vv. 1-7), o Apóstolo recomenda a todos que não se deixem envolver em aventuras, que se comportem como cidadãos exemplares, respeitando os chefes, as leis e os bens do Estado.

Na segunda parte (vv. 8-10) – a da leitura de hoje –, Paulo enuncia um princípio geral que ajuda a resolver não só este, mas qualquer outro problema moral.

Quando não se sabe como comportar-se, quando há incerteza acerca das escolhas a fazer, é preciso referir-se ao mandamento no qual tem origem toda a lei: «amarás ao próximo como a ti mesmo» (v. 9). Todos os outros preceitos derivam deste, não são mais do que uma sua especificação. Quem procura fazer sempre e só o bem ao irmão, cumpre certamente todos os mandamentos.

Considerando este princípio, é fácil entender que todas as leis do Estado, quando promovem o bem comum, devem ser cumpridas e seria um pecado violá-las. Todavia, se uma lei (do Estado, da Igreja ou de qualquer outra instituição) é contrária a este preceito, então o cristão não só tem o direito, mas também o dever, de lhe desobedecer.




EVANGELHO

Para não entender mal o significado desta leitura é necessário colocá-la no seu contexto. Todo o capítulo de onde é tirada (Mt 18) trata das relações entre os membros da comunidade cristã: quem deve ser considerado o primeiro, quem é grande e quem é pequeno, como evitar os escândalos, que atitudes assumir perante quem se afasta da fé, como desenvolver o amor e favorecer a harmonia entre os discípulos, quantas vezes perdoar.

Hoje somos convidados a reflectir sobre as indicações que Jesus dá para recuperar quem errou, quem se perdeu. Para as compreendermos é preciso lê-las à luz da frase que as introduz e que, infelizmente, não consta do Evangelho de hoje: «É da vontade de vosso Pai que está no Céu que não se perca um só destes pequeninos» (v. 14). Tudo aquilo que é recomendado deve responder a este único objectivo: trazer à vida quem fez ou está a fazer esco-lhas de morte.

Certamente é tarefa do pastor encontrar a ovelhinha que se perdeu, que está ferida e que se arrisca a cair em ravinas cada vez mais profundas e escuras, mas cada cristão é também pastor do seu irmão; não pode dizer como Caim: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9).

A lei do amor obriga a que cada um se empenhe para reconduzir o seu irmão ao bom caminho; mas como proceder numa questão tão delicada?

Há um erro que deve ser absolutamente evitado: coscuvilhar, espalhar a notícia do erro cometido. Isto é difamação, serve apenas para marginalizar quem errou, para o humilhar e aumentar a sua teimosia no mal, para o fazer sofrer inutilmente. Equivale a perder para sempre a oportunidade de o recuperar.

Há quem pense que, por ter dito a verdade, pode ficar em paz. Mas não é a verdade o valor absoluto, o ponto de referência é o amor. A verdade pode opor-se ao amor, pode destruir a convivência e as boas relações, em vez de as favorecer. A difamação pode aniquilar uma pessoa – «o golpe da língua quebra os ossos» (Eclo 28, 17) – pode matar um irmão, arruinar uma família, quebrar a relação de um casal. Como negar a sabedoria do ditado: «Com a verdade me enganas?»

A verdade que não produz amor, mas que provoca perturbações, que gera desacordos, ódios e rancores é mentira. Não se pode contar tudo aquilo que é verdade e tudo aquilo que se sabe. Acima de tudo, não se deve dizer a verdade a quem se quer servir dela para o mal. A verdade que mata é diabólica, vem do maligno que «foi assassino desde o princípio... porque é mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44).

Vejamos o que sugere Jesus para «dizer a verdade» a um irmão que corre o risco de se perder. O caminho a seguir contempla três etapas.

A primeira: deve-se falar pessoalmente com o irmão, frente a frente, cara a cara; deve-se resolver tudo em segredo, de modo a evitar que alguém descubra o que aconteceu.

Esta primeira tentativa é a mais delicada, antes de mais porque exige um grande esforço e é decididamente desagradável; toda a gente prefere abrir-se com outra pessoa em vez de se confrontar com a pessoa interessada. Depois, não é fácil encontrar as palavras certas, pode-se errar no modo como se aborda o assunto, pode sempre escapar algum adjectivo a mais, às vezes basta uma referência desajustada e acaba-se tudo. Se o irmão fica ferido, fecha-se definitivamente, e quem agiu com as melhores intenções – para além de perder um amigo – sente-se responsável pela conversão fracassada.

Nesta situação pode ajudar o pensamento que se encontra na segunda leitura de hoje: pensar que somos nós quem se encontra nessa situação e tentar imaginar o que gostaríamos que os outros fizessem por nós.

Se esta primeira tentativa não der o resultado esperado, o segundo passo é pedir ajuda a um ou dois irmãos entre os mais sensíveis e sapientes da comunidade. Não se deve esquecer qual é o objectivo: recuperar o irmão. Nunca se deve dar a impressão de querer colocá-lo numa situação de aperto, ou diante de alguém que o quer condenar. Deve sentir que está a tratar com amigos que querem o seu bem e que estão prontos a testemunhar perante os irmãos a sua disposição positiva.

A última etapa é o recurso à comunidade. Isto pode acontecer apenas no caso em que o pecado cometido possa ser motivo de perturbação para todos os irmãos, principalmente para os mais fracos na fé. Se, mesmo assim, o culpado não se quiser emendar, então deve ser considerado «como um pagão ou um publicano».

Tomada à letra, esta recomendação destoa na boca de Jesus, que acabou apenas de advertir os discípulos: «livrai-vos de desprezar um só destes pequeninos» (v. 10). Como é possível que «o amigo dos publicanos e dos pecadores» (Mt 11, 19) pronuncie um sentença tão dura?

Se não for compreendida de forma justa, a frase poderá parecer estranha até mesmo no Evangelho de Mateus, onde se vê com frequência que a Igreja não é composta só de santos, mas também de pecadores. É um campo onde crescem trigo e joio, é uma rede que apanha todo o tipo de peixe, é um banquete para o qual são convidados bons e maus. Como se explica que os pecadores impenitentes tenham que ser expulsos da comunidade?

Não coloquemos uma frase de Jesus em contradição com o resto do Evangelho.

Uma coisa é certa: a comunidade não tem o direito de expulsar um dos seus membros que se comporta mal só porque o sente como um peso, como um elemento incómodo. O pecador continua a ser seu filho, e nenhuma mãe se envergonha de um filho. Porém, não se pode negar que a Igreja tem o direito, e até mesmo o dever, de pronunciar palavras de denúncia e de condenação; Jesus deu-
-lhe o poder de ligar e de desligar e prometeu ratificar as suas decisões (v. 18).

Ligar e desligar é uma expressão muito conhecida. Era usada pelos rabis para indicar a sua autoridade em declarar lícito ou ilícito um certo comportamento moral e infligir ou revogar a exclusão da comunidade.

É grande a responsabilidade confiada à Igreja: é chamada a declarar autenticamente que pensamentos, que sentimentos, que escolhas estão de acordo com o Evangelho, e quais afastam de Cristo. Não expulsa ninguém, não condena, nunca pune, só ajuda a tomar consciência da condição em que cada um se coloca ao tomar certas decisões.

No cumprimento desta delicada missão, a Igreja nunca esquecerá outra palavra severa do Senhor: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não reparas na trave que está na tua própria vista? Tira primeiro a trave da tua vista, e, então, verás para tirar o argueiro da vista do teu irmãos» (Lc 6, 41-42). No entanto, é sua tarefa declarar, de forma inequívoca, depois de se ter confrontado com o Evangelho, aquilo que põe fora da comunhão com Cristo e com a comunidade.

O modo de desempenhar este serviço pode e deve mudar: depende da sensibilidade e das concepções pedagógicas que – como sabemos – estão sujeitas a evoluções ao longo dos séculos. Houve um tempo em que se procedia de forma muito rigorosa: quem cometia faltas morais graves era afastado da comunidade (1Cor 5); temia-se que, ignorando-as ou calando um comportamento escandaloso, público e, por vezes, ostentado, se corresse o risco de desorientar os membros mais frágeis. Da mesma forma, se alguém falsificava o Evangelho, era repreendido publicamente: «Depois de uma ou duas advertências, afasta-te do sectário» (Tt 3, 10). A comunidade não pode certamente tolerar que alguém, em nome de Cristo, anuncie doutrinas prejudiciais.

Nos nossos dias estas formas de excomunhão já não são praticadas. As escolhas pastorais são diferentes, mas o objectivo permanece o mesmo: iluminar o irmão, ajudá-lo a dar-se conta da sua condição e levá-lo a emendar-se. «Se alguém não obedecer à nossa palavra comunicada nesta carta, a esse assinalai-o – dizia Paulo – não tenhais contacto com ele para que se envergonhe. Não o considereis, todavia, como um inimigo, mas repreendei-o como a um irmão» (2Ts 3, 14-15). Para obter este resultado deve ser claro que as medidas tomadas em relação a ele são ditadas pelo amor, não pela vontade de o «separar» de uma comunidade que se considera perfeita. Conseguindo fazer com que tome consciência de já não estar na plena comunhão com os irmãos de fé, pode-se suscitar nele a saudável nostalgia da casa do Pai, e o desejo e a necessidade de regressar.

Os versículos conclusivos (vv. 19-20) são uma última menção ao valor atribuído por Jesus ao «estar juntos» e à procura do acordo entre os membros da comunidade. A concórdia, a unidade de intentos, manifestam-se na tomada de consciência da presença do Ressuscitado no meio deles e na oração com que se dirigem ao Pai. Só quem entrou numa sintonia de pensamentos e de sentimentos com Deus e com os irmãos pode sentir-se seguro de interpretar o pensamento do Senhor quando «liga» e quando «desliga».

Fonte: O Banquete da Palavra / Fernando Armellini : Paulinas Editora

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DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM

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Liturgia de hoje
Leitura I:
1 Cor 5, 1-8
Salmo:
Salmo 5, 5-6a.6b-7.12(R. 9a)
Evangelho:
Lc 6, 6-11
Liturgia das Horas:
Segunda-feira III
Terço do Rosário:
Mistérios Gozosos

 

   
 


Última actualização: 2010-12-01 00:00:00

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