X DOMINGO DO TEMPO COMUM - Como Ajudar Quem Errou? Excluindo-o do Banquete? Se odeias o pecador, isso significa que amas o pecado, porque o consideras um bem sobre o qual um rival, mais empreendedor e desinibido que tu, se antecipa. Deste ciúme inconfessável nasce a intolerância, o fanatismo e a imagem do Deus justiceiro, encarregado de restabelecer a equidade com prémios e castigos.
Quem odeia o pecado evita-o como a uma doença, como a lepra, mas ama o pecador, circunda-o de atenções e cuidados, porque está convencido de que é alguém infeliz e necessitado de compreensão e de ajuda.
É difícil fazer com que os «justos» aceitem a ideia de um banquete preparado gratuitamente por Deus para todos os povos (Is 25, 6); é difícil fazer com que se sentem ao lado de quem não mereceu o convite para a festa. Até mesmo na relação com Deus, os «justos» introduzem a competição, consideram os outros como concorrentes molestos que, não tendo esse direito, açambarcam as bênçãos e predilecções de Deus.
O publicano que estava sentado no posto de cobrança dos impostos, quando Jesus o chamou, era um destes excluídos. Segundo Lucas, chamava-se «Levi» (Lc 5, 27); Marcos diz que era «Levi, filho de Alfeu» (Mc 2, 14). No Evangelho de hoje é chamado Mateus.
É surpreendente a mudança de nome! A explicação que recolhe maior consenso diz que, como Simão Pedro, também este homem tinha dois nomes: Levi, o que recebera dos pais, e Mateus, o que lhe foi atribuído em seguida. É este segundo nome que nos interessa: significa dom do Senhor.
Parece impossível: Levi, o pecador público, mal-afamado e desprezado, é um dom do Senhor! Rejeitá-lo, excluí-lo do banquete, seria uma perda para todos os comensais.
Para interiorizar a mensagem, repetiremos: - Jesus convida para um banquete no qual ninguém merece participar.
PRIMEIRA LEITURAEste trecho deve ser lido no contexto da guerra fratricida que eclodiu em Israel na segunda metade do século VIII a.C. As tribos do Norte, ansiosas por se libertarem do jugo assírio, atacam a tribo de Judá, que prefere permanecer vassala; apoderam-se das cidades de Guibeá e Ramá e preparam-se para conquistar também Jerusalém. O pávido Acaz, rei de Judá, negligenciando os insistentes avisos do profeta Isaías, pede a intervenção do rei da Assíria e, com a sua ajuda, devasta o território do reino do Norte. É uma explosão de violência: vinganças, brutalidade, vandalismo conduzido com ferocidade. As consequências desta guerra insensata são catastróficas para todos os contendores, e parecem ser o merecido castigo do Senhor por não terem dado ouvidos aos profetas (v. 5).
Como muitas vezes acontece quando nos encontramos em situações terrivelmente complicadas, quando se toma consciência de ter provocado desgraças às quais não se sabe dar remédio, os Israelitas recorrem a Deus. Agora só Ele – estão certos – pode pôr fim ao massacre entre irmãos. Vão repetindo uns aos outros: «Vinde, voltemos para o Senhor; Ele feriu-nos, Ele nos curará» (Os 6, 1) e até vão pensando na maneira de obter o perdão: com ritos expiatórios, práticas religiosas, sacrifícios no templo.
É uma ilusão, uma esperança vã. Antes de mais porque não se dão conta que o seu arrebatamento de conversão, o seu amor a Deus, não é sincero, firme, decidido, mas é ditado pela emoção do momento, é como a névoa ligeira da manhã, como o orvalho que, quando surge o Sol, imediatamente se dissolvem (v. 4). Logo que recuperarem das desgraças que causaram voltarão a ser infiéis ao Senhor. Eles não entenderam que a Deus não interessam os gestos exteriores, as liturgias solenes. Ele pede a conversão do coração e as obras de misericórdia: «Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos» (v. 6).
Esta última frase – de que Jesus tanto gosta – é a síntese das denúncias frequentes dos profetas do culto hipócrita, da religiosidade vã de quem se ilude que a justiça e a atenção às necessidades dos irmãos possam ser substituídas pela recitação de orações e pelas práticas piedosas (Is 1, 10-20; 58; Am 5, 18-24). «Com que me apresentarei ao Senhor, e me prostrarei diante do Deus excelso? Irei à sua presença com holocaustos, com novilhos de um ano? Porventura o Senhor receberá com agrado milhares de carneiros ou miríades de torrentes de azeite? Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que o Senhor requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus» (Mq 6, 6-8).
SEGUNDA LEITURAConfiar em Deus é arriscado, porque aquilo que Ele pede parece ser insensato e aquilo que promete absurdo, irrealizável. Israel – já o vimos na primeira leitura – não confiou na Palavra do Senhor anunciada pelos profetas, preferindo seguir os seus próprios pensamentos e sentimentos.
Abraão, pelo contrário, acreditou no Senhor, permaneceu fiel apesar das numerosas provas a que foi submetido. Não acreditou apenas por um momento, ou apenas quando Deus lhe concedia prosperidade, mas pôs sempre a sua esperança no Senhor que lhe prometera uma descendência numerosa como as estrelas do céu.
Os anos passaram sem que nada acontecesse. Abraão tinha já cerca de cem anos e a mulher, Sara, noventa, quando Deus lhe repetiu a promessa (Gn 17, 16). Desatou a rir, mas continuou a acreditar que a promessa se realizaria. Contra toda a lógica humana, não deixou de confiar em Deus; não foi em vão: na sua velhice teve um filho.
Esta fé inabalável constitui a grandeza de Abraão, que se «tornou pai de muitas nações, como tinha sido anunciado» (v. 8). Para ele, olham hoje, como modelo, todos os crentes: em qualquer circunstância, alegre ou triste, mantêm firme a convicção que o Pai os guia, mesmo quando os caminhos que indica não são imediatamente compreensíveis.
Os seus pensamentos não são os nossos. Quem poderia imaginar que um homem justiçado se tornaria o Senhor e o Salvador? Nós – declara Paulo – mantemo-nos firmes nesta fé: «nós acreditamos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus, Nosso Senhor» (v. 24).
EVANGELHOO chamamento de Mateus (v. 9) não é relatado para nos informar acerca das circunstâncias em que aconteceu, mas para transmitir uma mensagem que diz respeito a todos os discípulos.
A cena descrita recalca claramente a da vocação dos primeiros quatro Apóstolos (Mt 4, 18-22); Jesus caminha, vê alguém que está fazer o seu trabalho, dirige-lhe o convite a segui-lo, este abandona tudo e segue-o.
O chamamento de Mateus é diferente do de Pedro, André, Tiago e João apenas por um detalhe significativo: a sua profissão não é a profissão simples e honrada dos pescadores, mas sim a do cobrador de impostos, um trabalho que faz com que seja malvisto pelo povo, não só porque ninguém gosta de pagar impostos, mas também porque o publicano é considerado uma pessoa impura, um colaboracionista da estrutura estatal opressiva, e também um ladrão. A sua salvação é considerada praticamente impossível, de facto, a lei estabelece que quem roubou deve restituir o produto do roubo acrescido de vinte por cento. Como poderia um cobrador de impostos satisfazer esta condição se nem mesmo ele sabe quanto – e a quem – roubou?
Nesta chamada de atenção para a profissão está a primeira mensagem do trecho. O evangelista indica quem são as pessoas que Jesus convida para o seguirem.
Os rabis não admitiam entre os próprios discípulos as pessoas de má fama, os pecadores, os pobres da terra, os pastores, os leprosos com os quais não tinham nenhum relacionamento. É precisamente a estes que Jesus dirige o seu convite. Ele não chama quem merece, quem é bem intencionado, quem está preparado espiritualmente, mas quem precisa da sua salvação.
Curiosamente, a vocação de Mateus assemelha-se à do paralítico que o evangelista acabou de relatar. Mateus não está imóvel numa cama (Mt 9, 2), mas numa cadeira, está «sentado no posto de cobrança dos impostos»; tem os olhos fixos no dinheiro e nos registos, e nenhuma força parece ser capaz de o mover, nenhuma palavra humana é capaz de o levantar. Porém, o olhar e a palavra de Jesus conseguem aquilo que ninguém ousava imaginar. Logo que ouve o convite do Mestre, Mateus levanta-se, segue-o – precisamente como fez o paralítico – e encaminha-se «para sua casa» (Mt 9, 7), onde encontra preparado um grande jantar. O prodígio aconteceu: o camelo passou pelo buraco da agulha, o rico entrou no Reino dos Céus; aquilo que «aos homens era impossível» foi realizado por Deus (Mt 19, 23-26).
Por que é que Jesus chamou Mateus, onde queria levá-lo?
A esta pergunta responde a segunda parte do trecho (v. 10): convidou-o para uma festa. «Chamar os pecadores» não significa censurá-los, atirar-lhes à cara as misérias morais em que caíram, humilhá-los, chamar-lhes a atenção para o cumprimento de deveres e preceitos; é, antes de mais, anunciar-lhes que são esperados na sala onde está preparado um banquete. Talvez tenham experimentado todo o tipo de prazeres, mas nunca saborearam a alegria. Agora, Jesus quer levá-los à alegria do Reino de Deus, porque «o Reino de Deus é alegria» (Rm 14, 17).
Em que casa se fez a festa? Lucas afirma explicitamente que foi organizada na casa de Levi, onde, para a ocasião, ele convidou uma multidão de colegas seus (Lc 5, 29). A versão de Mateus é diferente; ele diz: «Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos». Marcos é mais explícito: «Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele» (Mc 2, 15). Então não é à casa do novo apóstolo que chegam e tomam lugar à mesa «muitos publicanos e pecadores», mas à de Jesus. Assim se explica melhor o desdenho dos fariseus que censuram o Mestre que «acolhe os pecadores e come com eles» (Lc 15, 1) e que se comporta como «amigo de cobradores de impostos e pecadores» (Mt 11, 19). Aqui a referência não é tanto ao edifício material, quanto à comunidade; é esta a casa onde Jesus acolhe todos os pecadores.
Os gestos, como sabemos, são muitas vezes mais expressivos que as palavras. Comer e beber servem para satisfazer uma necessidade biológica, mas sentar-se à mesa com alguém não equivale a matar a fome e a sede, é sinal de intimidade e comunhão. É por este motivo que, nas primeiras comunidades cristãs, os judeus cumpridores se recusavam a sentar à mesa com os seus irmãos de fé provenientes do paganismo. Também Pedro, durante um certo período, esteve hesitante: antes «comia juntamente com os gentios», depois «retirava-se e separava-se, com medo dos partidários da circuncisão» (Gl 2, 12).
O comportamento provocatório de Jesus, comendo à mesa com os publicanos, não podia ser entendido e aceite logo; constituía uma surpresa para todo o israelita piedoso, educado na expectativa do banquete do Reino de Deus reservado aos justos, aos piedosos.
Esta observação introduz-nos na terceira parte do trecho (vv. 11-13) onde é descrita a inevitável disputa com os fariseus. Perante Jesus que quebra as regras, os «justos» reagem. O que é que os irrita no seu comportamento? Não é certamente a tentativa de levar ao arrependimento e à conversão os pecadores. Se fosse apenas isto, os fariseus – que «percorriam o mar e a terra para fazer um prosélito» (Mt 23, 15) – só poderiam apreciar o seu zelo e dar-lhe os parabéns.
O gesto de Jesus contém uma mensagem explosiva para a mentalidade judaica: Ele oferece a salvação a todos, não só aos justos.
A sua resposta às críticas é articulada em três frases decididas, que não admitem réplica. Cita antes de mais um antigo provérbio, não sem uma ironia subtil: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes» (v. 12); depois introduz uma citação bíblica que é talvez a mais revolucionária de todo o Evangelho: Ide aprender o que significa: «Eu quero obras de amor ao homem, não sacrifícios» (cf. v. 13). Por fim, resume a sua escolha com a frase: «Não vim chamar (para a festa, claro!) os justos, mas os pecadores» (v. 13).
O erro dos fariseus (cujo nome significa «separados», «santos») é imaginarem que Deus «santo» não queira ter nada a ver com os pecadores, e pensarem estar a imitá-lo ao afastarem-se de quem transcura a lei de Deus, ou, pior ainda, renega o Senhor. Com a sua atitude, Jesus declara que Deus não aceita ser associado a tais discriminações.
Não há dúvida que a comunidade cristã tem o dever de apresentar, de forma íntegra, o Evangelho, e não pode fazer «descontos» em relação a tudo aquilo que Jesus ensinou. Tem também o direito de fazer notar, a quem não quer seguir Cristo, que certas escolhas colocam a pessoa fora da comunidade e do Reino de Deus; no entanto, há que perceber se é oportuno que alguém seja juridicamente expulso. O perigo de «apagar a torcida que fumega» é sempre grave e é um risco que seria melhor não correr.
|