III DOMINGO DA PÁSCOA - Quando Chora Uma Esposa? A mulher enamorada prova a necessidade irresistível de estar ao lado de quem ama. No silêncio da noite pensa nele, pronuncia o seu nome, sonha com as suas carícias: «Com a sua mão esquerda debaixo da minha cabeça, a sua direita me abraça» (Ct 8, 3). Fica consternada se não recebe um seu recado, e quando ouve a sua voz toda ela estremece, corre à entrada, roda o ferrolho e abre a porta. Mas o amado já lá não está, foi-se embora, desapareceu e ela desfalece (Ct 5, 5-6).
«Levaram o meu Senhor» – exclama em lágrimas Madalena. Caminham tristes os dois discípulos de Emaús, inclinam o rosto para o chão as mulheres que no sepulcro procuram entre os mortos aquele que está vivo (Lc 24, 5): são o retrato vivo da comunidade que já não encontra «o amado do seu coração». Com Ele cada noite se transforma em luz, o ocaso em prelúdio da aurora, a dor no anúncio de um nascimento, as lágrimas no esboçar de um sorriso.
«Fica connosco» – implora a esposa quando o seu Senhor parece fazer «menção de ir para diante». Prometeu ficar com ela, todos os dias, até ao fim dos tempos (Mt 28, 20), então por que a deixa sozinha?
Ele, porém, não se afasta, é ela que é incapaz de o reconhecer.
Logo que Ele começa a explicar-lhe as Escrituras, o seu coração volta a arder. Como a mulher amada do Cântico, reconhece a voz do seu amado e, na fracção do pão, os seus olhos iluminam-se e reconhece-o. Não a tinha abandonado, nunca a abandonará.
Para interiorizar a mensagem, repetiremos: - Faz com que escutemos a tua voz nas Escrituras, e reconhecer-te-emos na fracção do pão.
PRIMEIRA LEITURAAssim como aconteceu na Páscoa, também hoje a primeira leitura é tirada de um discurso de Pedro. Se compararmos estes dois trechos podemos facilmente verificar que seguem o mesmo esquema: apresentam a vida de Jesus em quatro momentos:
– relatam as obras prodigiosas que Ele fez;
– indicam qual foi a resposta dos homens a estes gestos de amor e salvação: em vez de o acolherem, rejeitaram-no, crucificaram-no e mataram-no porque o consideravam um impostor;
– porém, a pedra do sepulcros não significou o fim da história: Deus interveio e libertou-o do poder da morte;
– na conclusão temos uma referência às Escrituras: tudo isto que aconteceu tinha sido previsto pelos profetas.
Estes discursos não são a transcrição do que Pedro disse, mas uma síntese da catequese dos primeiros tempos da Igreja acerca de Jesus; esta catequese é posta na boca do primeiro dos Apóstolos para sublinhar a sua importância e oficialidade.
Na terceira parte do discurso (v. 24), a intervenção de Deus sobre a morte é introduzida com uma imagem que, no texto grego original, é particularmente incisiva: Deus – diz Pedro – obrigou a morte a dar à luz. Os antigos imaginavam que os fetos eram mantidos no ventre materno ligados por laços que, no momento do parto, se quebravam causando as dores. A morte queria segurar para sempre Jesus no seu seio, mas Deus interveio, desfez os laços, libertou-o e fê-lo nascer. Esta foi a maior das suas obras poderosas: do ventre da morte fez nascer a vida.
SEGUNDA LEITURAContinua a catequese baptismal iniciada no domingo passado.
O pregador – que fala em nome de Pedro – convida os recém- -baptizados a reflectirem sobre a sua condição de filhos. Vós – diz ele – renascestes, e agora podeis dirigir-vos a Deus chamando-o Pai, recebestes dele uma vida nova. Fostes introduzidos numa condição sublime, que comporta, porém, responsabilidades graves, já que exige uma conduta moral coerente. Deus não tem preferências; se durante a vossa «peregrinação», neste mundo, não fordes fiéis às promessas baptismais que fizestes, então de nada vos servirá ter recebido materialmente o sacramento (v. 17).
Depois é lembrada aos neófitos a condição em que se encontravam antes de se tornarem cristãos: levavam uma vida dissoluta, adequavam-se a princípios imorais recebidos dos seus antepassados pagãos; eram como escravos submetidos a um tirano, o pecado. O seu resgate custou um preço muito caro: Cristo derramou o seu sangue para os libertar (vv. 18-19). O cordeiro pascal, branco, sem mancha e sem defeito, que o povo de Israel sacrificava durante a celebração da Páscoa era apenas uma imagem. É Jesus o verdadeiro cordeiro sem mancha que, com o seu sangue, resgata os homens do mal.
São estas as exortações com que o pregador de Roma encoraja os neófitos a conduzirem uma vida santa e irrepreensível. Não podem tornar vão o sacrifício de Cristo.
EVANGELHOÉ o mês de Abril do ano 30 d.C.
Dois discípulos de Jesus foram a Jerusalém para celebrarem a Páscoa e testemunharam factos dramáticos: o seu mestre, profeta poderoso em obras e palavras, foi justiçado.
Passados os dias daquela triste festa, preparam-se para voltar a Emaús quando, de manhã cedo, alguém vai ter com eles levando notícias perturbantes: o sepulcro foi encontrado vazio, algumas mulheres garantem ter tido uma visão de anjos e diz-se que Jesus esteja vivo. Eles, porém, têm as famílias que os aguardam em suas casas, é Primavera, é a época da colheita da cevada e têm que partir. Ao longo do caminho junta-se a eles um viajante: acompanha- -os e ao cair da noite acontece algo de extraordinário.
O relato dos discípulos de Emaús é uma das páginas mais belas dos Evangelhos. Transporta a um mundo celestial, onde o sonho, em vez de se dissolver, se transforma em realidade; mas após esta impressão de encanto surgem algumas perplexidades e interrogações: onde fica Emaús? Existia, sem dúvida, mas a 30 km de Jerusalém, não a uma dezena como diz o texto (Lc 24, 13). Alguns manuscritos antigos, talvez para ir ao encontro desta dificuldade, referem 160 estádios (cerca de 30 km), mas assim criam outra: transformam os dois discípulos em maratonistas.
Também é pouco provável que, tendo ouvido dizer que algo de extraordinário acontecera (vv. 21-24), os dois tenham partido sem antes terem verificado o que teria realmente acontecido (a história da família que os aguardava e da colheita foi inventada por mim, para dar um mínimo de sentido lógico à sua decisão).
Por que não conseguiam reconhecer Jesus no viajante? Que sentido tem um milagre deste tipo: serve para criar suspense? Note-se que o texto não diz que Jesus estava dissimulado sob outra aparência, mas que os seus olhos eram incapazes de o reconhecer... e será importante determinar o motivo desta cegueira.
Por que não nos é dito também o nome do segundo discípulo? Lucas já não se lembrava?
Regressando a Jerusalém, os dois relatam aos Apóstolos a experiência do Ressuscitado que fizeram, e são informados de que o Senhor aparecera também a Simão (vv. 33-35). Depois o relato continua: enquanto estão reunidos e falam destas coisas, Jesus aparece no meio deles. Ficam admirados e assustados, convencidos de estarem a ver um fantasma, não conseguem acreditar que Ele esteja vivo. Para os convencer, Jesus tem que comer pão e peixe diante deles (Lc 24, 36-42). A reacção dos discípulos é verdadeiramente inexplicável: parecem ter sido apanhados de surpresa, como se antes nada tivesse acontecido.
Estas são apenas algumas das dificuldades que levanta uma interpretação literal do texto. Mas há alguns indícios que nos orientam para uma leitura menos superficial. Como não notar, por exemplo, que a frase: «Quando se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho» evoca de forma explícita a celebração da Eucaristia? E, antes de se sentarem à mesa, o misterioso viajante preside também uma solene liturgia da Palavra com as suas três leituras («Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras...»; v. 27) e a sua brilhante homilia («Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos explicava as Escrituras?»; v. 32). Enfim... presidiu a uma liturgia perfeita em todos os seus pormenores.
E ainda: a frase: «Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» (v. 26), é a prova irrefutável de que quem fala é aquele Jesus que já subiu ao Céu. Esta situação, mais do que à dos dois discípulos de Emaús, assemelha-se à dos cristãos das comunidades de Lucas. Vamos tentar reconstituí-la.
Estamos na Ásia Menor, nos anos 80-90. Quase todos os que viram o Ressuscitado já desapareceram, e os cristãos da terceira geração perguntam-se: será possível para nós encontrar o Senhor? Como afirmar que Ele está vivo se nunca o vimos com os nossos olhos, nem o tocámos com as nossas mãos, e nunca nos sentámos à mesa com Ele? Teremos de acreditar apenas por aquilo que outros nos contaram, como acontece nos tribunais onde os juízes acreditam no que dizem as testemunham atendíveis? Mas a isto não se deveria chamar uma escolha de fé, seria simplesmente a conclusão de um raciocínio de bom senso. Também nós gostaríamos de encontrar verdadeiramente o Ressuscitado.
Vamos então voltar a ler o relato de Lucas na perspectiva de uma resposta aos anseios e às expectativas destes cristãos.
Começamos pelo nome. Um dos dois chama-se Cléofas (personagem muito conhecido na Igreja primitiva, porque era o irmão de José, o «pai» do Senhor) e o outro? O outro... poderia ser um convite dirigido ao leitor para que inserisse o próprio nome, um convite a percorrer juntamente com Cléofas o caminho que leva a reconhecer o Ressuscitado presente onde duas pessoas estão reunidas no seu nome.
Os dois discípulos estão tristes: viram desmoronar os seus sonhos, fracassar os seus projectos. Esperavam um messias glorioso, um rei poderoso e vitorioso, e de repente encontram-se perante um fracassado. Os rabis ensinavam que o messias viveria mil anos, e Jesus tinha morrido.
É a história dos cristãos das comunidades de Lucas! São perseguidos, são vítimas de abusos, vêem triunfar as obras da morte, os maus vencem os puros de coração: encontram-se nas mesmas condições de espírito dos discípulos de Emaús. Também eles se detêm, com o rosto triste.
É a nossa história. Também nós nos encontramos, por vezes, neste mesmo estado de espírito. Acontece quando temos que admitir que a esperteza prevalece em relação à honestidade; quando somos obrigados a reconhecer que a mentira se torna a verdade oficial, imposta por quem detém o poder; quando vemos os profetas silenciados ou mortos. Também nós nos detemos, com o rosto triste, resignados perante uma realidade inelutável, obrigados a admitir que talvez o mundo novo anunciado por Jesus nunca se realize.
Mas poderá uma comunidade nascida da fé no Ressuscitado abandonar-se a estes pensamentos de morte e ceder à tristeza? Terão algum sentido os rostos não só ensonados e distraídos, mas também desiludidos de muitos dos participantes das nossas assembleias dominicais? São sinal da certeza da vitória da vida ou testemunham desconforto e abatimento?
Os dois de Emaús conhecem muito bem a vida de Jesus. Ouvimos da boca deles um resumo perfeito, idêntico ao que é ensinado nas catequeses da Igreja primitiva (vv. 19-20), porém a sua síntese peca por um defeito grave, fica-se pela constatação da vitória da morte: «Os nossos chefes – explica Cléofas – entregaram-no para ser condenado à morte e crucificado» (v. 20) e, sendo já passados três dias, esta morte considera-se definitiva.
Lucas põe voluntariamente na boca deles os pensamentos de muitos cristãos das suas comunidades. Estes conhecem bem tudo aquilo que Jesus fez e ensinou, consideram-no um homem sábio, alguém que, com a sua mensagem de paz e de amor, transformou o coração de muita gente... mas no fim morreu, como todos.
Quem pensa desta forma descobre apenas, por assim dizer, o aspecto exterior, o acontecimento historicamente verificável da vida de Jesus, mas não chega à fé nele porque não acredita na Ressurreição, que não pode ser constatada e demonstrada. A consequência deste conhecimento incompleto é a tristeza. Sem a fé na Ressurreição, as derrotas permanecem derrotas, a vida termina com a morte, é uma tragédia sem sentido.
Como se chega a esta situação desesperada?
Os dois discípulos de Emaús têm responsabilidades, cometeram erros.
Antes de mais abandonaram a comunidade, o grupo daqueles que tinham continuado a procurar uma resposta para o que acontecera. Preferiram ir-se embora sozinhos, convencidos de que, para certos dramas, nunca se encontrará um sentido. Não verificaram se a experiência feita pelas mulheres poder ser iluminante também para eles.
Era também desta forma que se comportavam muitos cristãos no tempo de Lucas: perante as dificuldades e as perseguições alguns abandonavam as suas comunidades; outros, quase por princípio, rejeitavam as respostas que provinham da fé, não verificavam sequer se podiam ter uma lógica e um sentido.
Terceiro erro: os dois de Emaús nunca tiveram a mínima dúvida de que as suas ideias acerca do Messias triunfador podiam estar erradas. Estavam apegados fortemente à tradição, ao que lhes tinha sido ensinado, eram impermeáveis às surpresas e às novidades de Deus.
Jesus não abandona as pessoas que escolhem as estradas que conduzem à tristeza. Ele torna-se para elas companheiro de viagem.
Como sempre acontece, o Ressuscitado não é reconhecível (há quem pense estar a ver um fantasma, a Madalena toma-o por um jardineiro, no lago é considerado um hábil pescador...). Não se trata de milagres. É um modo de apresentar a situação nova daquele que entrou na glória de Deus: é uma condição completamente diferente da deste mundo. A vida dos ressuscitados não é um prolongamento melhorado da vida presente, e os olhos humanos não a podem entender. Por este motivo, os evangelistas dizem que Jesus era Ele, mas já não era o mesmo; era o Jesus que tinham tocado, com quem tinham comido e bebido, era o que tinha morrido – «Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo» (Lc 24, 39) – mas era completamente diferente.
Como descobrem Cléofas e o discípulo sem nome que Jesus, o derrotado, é o Messias? Como conseguem entender que a vida nasce da morte?
O caminho que o Ressuscitado os leva a percorrer é o das Escrituras. É a palavra de Deus que revela o mistério.
Não tendo entendido a Bíblia, os dois discípulos pensam como homens, não vêem o que aconteceu através do olhar de Deus, e por isso Jesus os censura: «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» (vv. 25-26).
O caminho da cruz é inconcebível e absurdo para os homens; só quem lê as Escrituras descobre que Deus é de tal modo grande que sabe tirar, a partir do maior crime dos homens, a sua obra-prima de salvação. Não basta ler a palavra de Deus, é preciso também entendê-la, e para isso é preciso alguém que a explique; e que possivelmente o faça, não como quem transmite uma árida cultura teológica, mas «aquecendo o coração».
Ao cair da tarde daquele primeiro «domingo», os discípulos chegam a casa e Jesus está com eles. Quando se sentam à mesa, Ele «toma o pão, recita a bênção, parte-o e entrega-o» (v. 30). É fácil compreender o que Lucas quer ensinar: os olhos do cristão abrem-se e reconhecem o Ressuscitado durante a celebração litúrgica dominical.
No relato dos discípulos de Emaús estão presentes todos os elementos da celebração eucarística: a entrada do celebrante, depois a liturgia da Palavra com a homilia e, por fim, a «fracção do pão».
Só no momento da comunhão eucarística é que os olhos se abrem e os discípulos se dão conta que o Ressuscitado está no meio deles, mas sem a Palavra não teriam chegado a descobrir o Senhor no pão eucarístico.
Todos devem fazer a experiência do encontro com o Ressuscitado.
Na celebração comunitária podem-no contemplar através dos sinais sacramentais; mas no momento em que o reconhecem... então Ele já não se vê; não desapareceu, mas os olhos materiais não o podem ver.
Um último elemento importante deste trecho: os discípulos de Emaús, logo que reconheceram o Senhor, correm a anunciar a sua descoberta aos irmãos e com eles proclamam a fé: «Na verdade o Senhor ressuscitou...» Este é, poderíamos dizer, o canto final com que se conclui a celebração dominical. As suas notas acompanham os discípulos durante toda a semana, são a expressão da alegria que eles vão levar a todos os homens.
Disse que Lucas escreve para os cristãos das comunidades dos anos 80-90 d.C. e que tem por objectivo propor-lhes o caminho que leva a encontrar o Ressuscitado na «fracção do pão». Não é diferente o caminho que nós, hoje, somos convidados a percorrer.
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