São Lucas 10
Missão dos setenta e dois discípulos (9,1-6; Mt 9,37-38; 10,5-16; Mc 6,7-11)
1 *Depois disto, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2 *Disse-lhes:«A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3 Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. 4 *Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho. 5 *Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' 6 E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. 7 *Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário.
Não andeis de casa em casa. 8 Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, 9 *curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus já está próximo de vós.' 10 Mas, em qualquer cidade em que entrardes e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: 11 *'Até o pó da vossa cidade, que se pegou aos nossos pés, sacudimos, para vo-lo deixar. No entanto, ficai sabendo que o Reino de Deus já chegou.'»
Lamentação sobre as cidades do lago (Mt 10,40; 11,21-24)
12 «Digo-vos: Naquele dia haverá menos rigor para Sodoma do que para aquela cidade. 13 Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sídon se tivessem operado os milagres que entre vós se realizaram, de há muito que teriam feito penitência, vestidas de saco e na cinza. 14 Por isso, no dia do juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sídon do que para vós. 15 *E tu, Cafarnaúm, porventura serás exaltada até ao céu? É até ao inferno que serás precipitada.16 Quem vos ouve é a mim que ouve, e quem vos rejeita é a mim que rejeita; mas, quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou.»
Regresso dos discípulos
17 Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se sujeitaram a nós, em teu nome!» 18 *Disse-lhes Ele:«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. 19 Olhai que vos dou poder para pisar aos pés serpentes e escorpiões e domínio sobre todo o poderio do inimigo; nada vos poderá causar dano. 20 *Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu.»
Revelação aos humildes (Mt 11,25-27; 13,16-17)
21 Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 22 *Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho.»23 *Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: «Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. 24 Porque - digo-vos - muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!»
O mandamento do amor (Mt 22,34-40; Mc 12,28-34; Jo 13,33-35)
25 Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» 26 Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?»27 *O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» 28 Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.»
Parábola do bom samaritano
29 *Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30 *Tomando a palavra, Jesus respondeu:«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. 31 Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. 32 Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.
33 *Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.' 36 Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»
37 *Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»
Marta e Maria (Jo 11,1-3)
38 Continuando o seu caminho, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nomeMarta, recebeu-o em sua casa. 39 Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. 40 Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.»
41 O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; 42 *mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»
Notas
- 10, 1
- Setenta e dois. Em muitos códices lê-se "setenta" (v.17). Uma e outra leitura indicam o número de nações pagãs, tal como o judaísmo o via em Gn 10 (segundo o texto hebreu, 70, ou o texto grego, 72). A missão aos gentios começará após a Páscoa e Pentecostes (24,47; Act 1,8), mas Lc procura mostrar já uma prefiguração dessa missão. É o único a referir esta missão, para mostrar que a missão não é reservada aos Doze e ela simboliza, na Palestina, a missão aos pagãos. Sobre a missão dos Setenta, ver Ex 18,13-27 nota; Nm 11,6 nota.
- 2
- Sob a imagem da messe, os profetas do AT descreviam muitas vezes o juízo de Deus (Is 41,15.16; Jl 4,13). Para João Baptista, a messe é obra de Deus (3,16.17 notas). Jesus associa os discípulos, pela oração e pela pregação, à sua obra (Mt 9,37 nota).
- 4
- É urgente o anúncio da mensagem. Não se pode perder tempo com saudações, muito longas entre os orientais (2 Rs 4,29 nota).
- 5-6
- Ao contrário de Mt 10,11-14, Lc distingue o comportamento dos discípulos numa casa (v.5-7) e numa cidade (v.8-11). Paz: saudação usual no AT (1 Sm 25,6), que inclui votos de bem-estar, prosperidade, saúde. Aqui trata-se da bênção, dom messiânico que acompanha o Evangelho. Sobre a paz messiânica, ver 1,79 nota; 2,14 nota; Sl 46,10 nota; Is 11,1-9 nota; Zc 9,10 nota.
- 7
- A regra do salário também é indicada por Paulo, como lei pertinente à missão, embora ele renunciasse a beneficiar dela (Mt 10,10 nota; 1 Cor 9,14-18; 2 Cor 11,7-11 nota; 1 Tm 5,18).
- 9
- É a primeira vez que Lc se refere à chegada do Reino de Deus (17,20-21 nota; Mt 3,2 nota; 4,23 nota; 6,10 nota; 13,13-15 nota; Mc 1,15 nota; 4,26-29.30-32 notas).
- 11
- Ver 9,5 nota.
- 12-14
- Lamentação de Jesus, à maneira dos profetas do AT, sobre as cidades que não acolherem os seus enviados. Em Mt 11,21-24, Jesus censura a recusa em aceitarem os seus sinais. Não obstante os milagres, essas cidades não se converteram. Ver Gn 19,28-29 nota; Ez 27,1.4.30-32 notas; Am 1,9 nota; Mt 11,21 nota; 15,21 nota; Mc 7,24 nota).
- 15-16
- O vaticínio contra Cafarnaúm é inspirado em Is 14,13-15. A conclusão da lamentação de Jesus faz ressaltar a tarefa dos enviados e a participação na sua missão. A sentença (v.16) encontra-se em forma positiva (Mt 10,40 nota; 18,5; Jo 13,20) e negativa (10,16; Jo 5,23).
- 18-19
- Jesus exprime o sucesso dos discípulos sobre Satanás. Esse poder sobre o inimigo e sobre outras adversidades era sinal do Reino de Deus (5,17 nota; 11,20 nota; Mc 16,17-18).
- 20
- Os nomes inscritos no Céu é uma imagem comum na apocalíptica, para indicar o julgamento divino escrito no livro da Vida (Dn 12,1; Ap 3,5 nota; 13,8; 17,8; 20,12.15; 21,27 nota).
- 21
- Lc salienta muitas vezes a acção do Espírito Santo em Jesus (1,35; 4,1.14.18). Trata-se também da declaração mais explícita de Jesus acerca do Pai, pondo em relevo o dom magnífico que é concedido aos beneficiários desta revelação: os pequeninos (7,22-23 nota; Mt 21,16 nota; Mc 10,23-27 nota; 12,41-44 nota).
- 22
- Este oráculo é o centro da mensagem evangélica: a revelação do Pai no Filho.
- 23-24
- Em Mt 13,16, a bem-aventurança dirige-se só aos discípulos. Lc alarga-a a todos os que acreditam, porque eles se tornaram beneficiários da revelação de Jesus. Onde Mt fala de justos (13,17), Lc refere profetas e reis (v.24).
- 25-28
- Mt e Mc colocam este episódio nos últimos dias de Jesus em Jerusalém. Lc situa-o no início da viagem a Jerusalém. O doutor da Lei que faz a pergunta sobre o próximo é introduzido por Mt e Lc como alguém que põe Jesus à prova. De acordo com Mc 12,34, Lc vê nele um interlocutor disposto a acolher Jesus (v.27-28.37).
- 27
- Em Lc é o doutor da Lei que responde (com o chemá), enquanto em Mt 22,37 e Mc 12,29 é Jesus quem o faz. Lc mostra que a mensagem de Jesus tinha sido preparada pelo AT (Lv 19,18; Nm 15,37-41 nota; Dt 6,4-9 nota; 26,5-9 nota; Mc 12,29-33 nota).
- 29
- O próximo era todo o membro do seu povo, com exclusão do estrangeiro (Ex 20,16-17; 21,14.18.35; Lv 19,11.13.15-18).
- 30
- Jesus responde com uma parábola onde, segundo o uso de Lc, aparecem três personagens.
- 33
- Os samaritanos, por causa da sua origem semi-pagã, não eram bem vistos pelos judeus, que evitavam ter contactos com eles (9,52 nota). O samaritano é valorizado no confronto com as outras duas figuras do templo. Nas parábolas de Lc, é frequente encontrar três personagens (7,40-43; 14,16-24; 19,16-24; 20,10-12). Sobre os samaritanos, ver 2 Rs 17,24-41 nota; Esd 4,2 nota; Mt 10,5 nota; Jo 4,9 nota.
- 37
- O verbo fazer (v.25.28) indica o essencial da caridade dos discípulos.
- 38-39
- Marta e Maria são as duas irmãs de quem também fala Jo 11,1-45; 12,1-11.
- 42
- A conclusão - escuta da Palavra - é o ápice do episódio: a Palavra de Jesus é a melhor parte para o discípulo (8,35 nota; 12,31; Act 6,2).
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.