Saltar para o conteúdo
26 Segunda-feira, 26 de outubro Outubro de 2026 Segunda-feira da semana XXX

Música de fundo

Música da capela Em pausa

São Lucas

São Lucas 3

II. PRELÚDIO DA MISSÃO MESSIÂNICA (3,1-4,13)

Pregação de João Baptista (Mt 3,1-6; Mc 1,1-6; Jo 1,19-23)

1 *No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, 2 *sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto.
3 *Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um baptismo de penitência para remissão dos pecados, 4 *como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías:
«Uma voz clama no deserto:
'Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas
.
5 Toda a ravina será preenchida,
todo o monte e colina serão abatidos;
os caminhos tortuosos ficarão direitos
e os escabrosos tornar-se-ão planos.

6 *E toda a criatura verá a salvação de Deus.'»

Julgamento e conversão (Mt 3,7-10)

7 *João dizia, então, às multidões que acorriam para serem baptizadas por ele: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para chegar? 8 *Produzi frutos de sincero arrependimento e não comeceis a dizer para convosco: 'Nós temos Abraão como pai'; pois eu vos digo que Deus pode, destas pedras, suscitar filhos a Abraão. 9 O machado já se encontra à raiz das árvores; por isso, toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo.»
10 *E as multidões perguntavam-lhe: «Que devemos, então, fazer?» 11 Respondia-lhes: «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça o mesmo.» 12 Vieram também alguns cobradores de impostos, para serem baptizados e disseram-lhe: «Mestre, que havemos de fazer?» 13 Respondeu-lhes: «Nada exijais além do que vos foi estabelecido.»
14 Por sua vez, os soldados perguntavam-lhe: «E nós, que devemos fazer?» Respondeu-lhes: «Não exerçais violência sobre ninguém, não denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo.»

Anúncio da vinda do Messias (Mt 3, 11-12; Mc 1,7-8; Jo 1,26-27)

15 Estando o povo na expectativa e pensando intimamente se ele não seria o Messias, 16 *João disse a todos: «Eu baptizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 17 *Tem na mão a pá de joeirar, para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; mas queimará a palha num fogo inextinguível.» 18 E, com estas e muitas outras exortações, anunciava a Boa-Nova ao povo.

Prisão de João Baptista (Mt 14,3-4; Mc 6,17-18)

19 Mas Herodes, o tetrarca, a quem João censurava por causa de Herodíade, mulher de seu irmão, e por todas as más acções que tinha praticado, 20 *acrescentou a todas as más acções, mais esta: encerrou João na prisão.

Baptismo de Jesus (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Jo 1,31-34)

21 Todo o povo tinha sido baptizado; tendo Jesus sido baptizado também, e estando em oração, o Céu rasgou-se 22 e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado.»

Genealogia de Jesus Cristo (Mt 1,1-17)

23 Ao iniciar o seu ministério, Jesus tinha cerca de trinta anos. Supunha-se que era filho de José; e este de Eli, 24 e assim sucessivamente: de Matat, de Levi, de Melqui, de Janai, de José, 25 de Matatias, de Amós, de Naum, de Esli, de Nagaí, 26 de Maat, de Matatias, de Chimei, de Josec, de Jodá, 27 de Joanan, de Ressa, de Zorobabel, de Salatiel, de Neri, 28 de Melqui, de Adi, de Cosam, de Elmadam, de Er, 29 de Jesua, de Eliézer, de Jorim, de Matat, de Levi, 30 de Simeão, de Judá, de José, de Jonam, de Eliaquim, 31 de Meleá, de Mená, de Matatá, de Natan, de David, 32 de Jessé, de Obed, de Booz, de Salá, de Nachon, 33 de Aminadab, de Admin, de Arni, de Hesron, de Peres, de Judá, 34 de Jacob, de Isaac, de Abraão, de Tera, de Naor, 35 de Serug, de Ragau, de Péleg, de Éber, de Chela, 36 de Quenan, de Arfaxad, de Sem, de Noé, de Lamec, 37 de Matusalém, de Henoc, de Jared, de Maleleel, de Quenan, 38 de Enós, de Set, de Adão, de Deus.

Notas

3, 1-2
Lc situa o início da missão de João Baptista na história do mundo de então e na do povo israelita (1,5; 2,1-2). O mesmo vale para Jesus (v.23). Segundo o cômputo adoptado por Lc, tratar-se-ia do ano 28. A partir deste texto, Dionísio, o Pequeno, calculou, com erro de alguns anos, o início da era cristã (2,1 nota; Mt 3,1 nota). Pôncio Pilatos, governador da Judeia do ano 26 a 36. Segundo uma inscrição, era "prefeito". Herodes Antipas, governador da Galileia e Pereia, de 4 a.C. a 39 d.C.. É chamado tetrarca, para o distinguir de seu pai, Herodes, o Grande (1,5; 9,7-9; 13,31-32; 23,7-12; Mt 14,1 nota; Act 13,1). Filipe, governador de vários territórios a NE do lago de Tiberíades, de 4 a.C. a 34 d.C.. Lisânias, príncipe pouco conhecido, governou territórios que dependiam do rei judeu Herodes Agripa II.
2
O Sumo Sacerdote Anás, chefe do povo, é indicado no fim da lista de nomes, em antítese a César, imperador de Roma. Caifás era o Sumo Sacerdote em função, do ano 18 a 36. Anás, seu sogro, deposto no ano 15, exercia grande influência (Jo 18,13-24; Act 4,6).
3
Enquanto Mt e Mc apresentam João a pregar no deserto (Mt 3,1 nota), Lc afirma que ele deixa o deserto para pregar na região do Jordão, bastante povoada e onde surgiram grandes construções do tempo de Herodes. O verbo pregar ("kêrussô") designa a proclamação pública de um arauto e faz parte do vocabulário missionário do cristianismo primitivo. Lc aplica este termo à proclamação de Jesus (4,18-19.44), à pregação dos Apóstolos ou dos outros missionários (9,2; 12,3; Act 8,5; 10,42; 20,25). O baptismo de penitência era o sinal exterior da mudança de vida, em ordem ao acolhimento do Messias (Mt 3,2.6 notas).
4
Com as expressões o caminho do Senhor e as suas veredas, Lc torna possível a aplicação do texto de Is 40,3-5 a Jesus. A imagem do monte e colina que serão abatidos (v.5) significa que Deus vai abaixar as grandezas terrestres (1,52; 14,8-11 nota; 18,14 nota; Sl 68,16-17; Is 2,2-14).
6
Lc encurta o v.5 do texto de Isaías, para sublinhar a ideia de que Jesus é o portador da salvação para toda a criatura (1,31-33.69 notas; Act 28,28).
7-9
As ameaças de João dirigem-se a todos os seus ouvintes; os pecadores têm necessidade de se converter. Segundo Mt, as ameaças visam apenas fariseus e saduceus (Mt 3,7 nota).
8
Frutos, no plural, sugere os actos concretos de que se fala a seguir (v.10-14) e que são sinal da mudança de vida (Mt 3,8 nota).
10-14
Nesta secção, que lhe é própria, Lc realça a disponibilidade para a conversão daqueles que eram vistos como pecadores (cobradores de impostos e soldados). Também nos Actos o primeiro sinal da conversão é: Que havemos de fazer, irmãos? (Act 2,37; 16,30; 22,10).
15
O Messias, título que é tradução do hebreu Mashiah (1,35 nota); os judeus atribuíam-lhe um sentido nacionalista e político (20,41; 22,67; 23,2.35.39). A tradução grega Christós (Cristo) convém aos textos sobre a novidade cristã (2,11.26; 4,41; 9,20; 24,26.46). Em ambos os casos, o significado é o daquele que recebeu a unção divina.
16
O título messiânico do Forte reaparecerá em 11,22 nota (Is 9,5 nota; 11,2; Mt 3,11 nota). Lc contrapõe o baptismo de água, conferido por João, ao baptismo no Espírito, inaugurado com o Pentecostes (Act 1,5 nota; 11,6). Com a imagem do fogo, que purifica e transforma, Lc anuncia já o Pentecostes (Act 2,3-4). Ver Act 2,3 nota; 1 Pe 1,13-2,10 nota.
17
Com raiz nos profetas, estas imagens, próprias da ceifa, descrevem o juízo divino (Is 5,24; 47,14; Jl 2,5). Num fogo inextinguível (Is 66,24), evoca a dimensão escatológica de tal juízo. Sobre o juízo divino, ou dia do Senhor, ver Sl 7,8 nota; Is 13,9 nota; Ez 13,5 nota; Dn 8,19 nota; Am 5,18-20 nota; Mt 25,31-46 nota; 1 Cor 3,13.15 notas; 1 Ts 2,19 nota.
19
Herodíade, neta de Herodes, o Grande, abandonou o marido, que era seu tio, para se juntar com Herodes Antipas (Mt 14,3.4-5 notas).
20
Lc refere o fim da missão do Baptista, antes do Baptismo de Jesus. A missão de João e a de Jesus representam dois períodos distintos da História da Salvação (1,56 nota).
21-22
Recebendo o baptismo, Jesus manifesta a sua solidariedade com o povo e dá sentido ao movimento da conversão deste. É um facto público no centro do qual estava o Profeta ungido pelo Espírito (1,35 nota; 4,18-19 nota), o Filho de Deus, o Messias anunciado no AT. Lc indica que o baptismo de Jesus vem cumprir o do povo israelita. A referência à oração de Jesus constitui, em Lc, o quadro habitual do encontro do Filho com o Pai (10,21; 22,42; 23,34.46). As menções da oração de Jesus são frequentes: 5,16; 6,12; 9,18.28-29 nota; 11,1-13 nota; 22,32.40-46; 23,34 nota. Com a citação do Sl 2,7, Lc indica a entronização messiânica de Jesus pelo Pai e, com ela, o início da sua missão entre o povo. A palavra do Pai é a revelação por excelência do mistério de Jesus (Mt 3,16 nota). Sobre a oração, ver Sb 7,7 nota; Mt 14,23 nota; 18,20 nota; Mc 1,35 nota; Cl 4,12-16 nota. Sobre os céus rasgados, ver Is 63,19.
23
Lc é o único Evangelho a referir-se à idade de Jesus, os trinta anos, com que David começou a reinar (2 Sm 5,4). A expressão supunha-se que era filho de José recorda a concepção virginal de Jesus (1,27 nota).
23-38
Com a lista genealógica, Lc expõe a descendência davídica de Jesus e fundamenta a sua legitimidade messiânica. Tanto Mt como Lc, que falam do nascimento virginal de Jesus, apresentam a sua genealogia através de José, porque tal uso no AT se limitava à parte masculina. As duas "genealogias" são diferentes e bastante artificiais, cruzando-se nos nomes de Abraão a David, nos de Salatiel e Zorobabel, no regresso do Exílio, e no de José, pai oficial de Jesus. De Abraão até Jesus, Mt 1,1-17 conta 42 gerações (3x14), passando pelos reis de Judá; Lc v.23-38 conta 77 gerações (11x7), de Jesus até Adão, não nomeando outro rei senão David. Enquanto Mt coloca a genealogia no início do seu livro, Lc insere-a depois de referir a sua filiação divina (v.22; 1,35). Além disso, liga Jesus a Adão, e não a Abraão, para acentuar a sua ligação com toda a humanidade (Mt 1,1-16.17 notas).

Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.