Êxodo 20
Decálogo moral (v.1-17; Dt 5,6-21; Mt 5,17-48)
1 *Deus pronunciou todas estas palavras, dizendo: 2 *«Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto, da casa da servidão.3 *Não haverá para ti outros deuses na minha presença.
4 *Não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas. 5 *Não te prostrarás diante dessas coisas e não as servirás, porque Eu, o SENHOR, teu Deus, sou um Deus zeloso, que castigo o pecado dos pais nos filhos até à terceira e à quarta geração, para aqueles que me odeiam, 6 mas que trato com bondade até à milésima geração aqueles que amam e guardam os meus mandamentos.
7 Não usarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não deixa impune aquele que usa o seu nome em vão.
8 Recorda-te do dia de sábado, para o santificar. 9 Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. 10 *Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao SENHOR, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas. 11 Porque em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou no sétimo dia. Por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e santificou-o.
12 Honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias sobre a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá.
13 Não matarás.
14 Não cometerás adultério.
15 Não roubarás.
16 *Não responderás contra o teu próximo como testemunha mentirosa.
17 Não desejarás a casa do teu próximo. Não desejarás a mulher do teu próximo, o seu servo, a sua serva, o seu boi, o seu burro, e tudo o que é do teu próximo.»
18 *Perante o espectáculo dos trovões, dos relâmpagos, do som da trombeta e da montanha fumegante, o povo tremia e mantinha-se à distância. 19 Disseram a Moisés: «Fala tu connosco, que nós escutaremos; mas que não fale Deus connosco, para que não morramos.» 20 Moisés disse ao povo: «Não temais, pois foi para vos pôr à prova que Deus veio, e para que o seu temor esteja diante de vós, de modo que não pequeis.»
21 O povo manteve-se à distância e Moisés aproximou-se da nuvem escura, onde estava Deus.
CÓDIGO DA ALIANÇA<br>(20,22-23,19)
Lei do altar (Dt 27,5-7)
22 SENHOR disse a Moisés: «Assim dirás aos filhos de Israel: Vós mesmos vistes que foi dos céus que Eu falei convosco. 23 Não fareis ao lado de mim deuses de prata e deuses de ouro; não fareis isso para vós.24 *Farás para mim um altar de terra e oferecerás sobre ele os teus holocaustos, os teus sacrifícios de comunhão, as tuas ovelhas e os teus bois. Em todo o lugar em que Eu fizer recordar o meu nome, virei a ti e te abençoarei. 25 *Se fizeres para mim um altar de pedras, não o construirás com pedras lavradas, porque ao vibrares o teu cinzel sobre elas, profaná-las-ias. 26 Não subirás por degraus ao meu altar, para que não seja descoberta a tua nudez sobre ele.
Notas
- 20, 1
- O quadro redaccional formado pelos v.1.18-21 mostra que o Decálogo provém de outra tradição, certamente sapiencial, mas que foi inserido no relato da teofania de que actualmente constitui o coração. Os elementos redaccionais vinculam o Decálogo e a teofania como duas partes de um único acontecimento. O termo "Decálogo" provém da expressão "dez palavras", que só encontramos em 34,28; Dt 4,13; 10,4. Entrou na tradição cristã através de Clemente de Alexandria e de Ireneu. Deste "Decálogo" temos duas recensões que apresentam ligeiras diferenças: v.1-17 e Dt 5,6-21.
- 2
- Casa da servidão. O nome hebraico plural 'abadîm equivale a um aumentativo. Ver Gn 15,7.
- 3
- Presença. Trata-se da presença divina no santuário, evocada pelo termo hebraico panay em 23,15 e 34,20.
- 4
- Imagem esculpida. O termo hebraico pésel evoca uma escultura rudimentar em madeira (2 Rs 21,7), e não uma imagem de metal fundido (massekah), como a que existia no santuário danita de Laís-Dan, e que é combatida pelo autor de Jz 17-18, acostando-a, para o efeito, a uma "imagem esculpida" de madeira. O texto do Decálogo não faz nenhuma referência negativa à massekah. Céus, terra, debaixo da terra. Influência da velha cosmologia bíblica que divide o espaço em três regiões: céus, terra, região inferior (Cl 1,16 nota).
- 5
- Zeloso. O termo hebraico qanna' contém a ideia de rubor, de calor, que se manifesta no rosto daquele que está animado por uma grande paixão ou por uma emoção forte. Os paralelos mostram que a fórmula el qanna está em conexão com o culto de falsos deuses (34,14; Dt 4,24; 5,9; 6,15). Em Js 24,19 encontra-se a forma rara e solene el qannô. Castiga. Lit., "visita" (paqad). Deus pode visitar, quer para salvar (3,16-17; 4,31; 13,19), quer para punir.
- 10
- Dentro das tuas portas. Pode entender-se "dentro da tua casa", mas sobretudo "dentro da tua cidade", pois as portas são muitas vezes as da cidade.
- 16
- Responder. Este mandamento devia ter, na origem, um significado essencialmente jurídico. O verbo 'anah (= responder) com a preposição be (em, contra) é empregado o mais das vezes para indicar um depoimento num tribunal. A pessoa que depõe nessas circunstâncias é uma testemunha ('ed), como vemos no texto hebraico da segunda metade do versículo. As antigas versões grega e latina preferiram, porém, o "testemunho" à "testemunha".
- 18-21
- Retomam-se as imagens, os temas e a linguagem da teofania de 19,16-25. Fica claro que o "Decálogo" foi introduzido para ser o coração da própria teofania.
- 22
- Chama-se "Código da Aliança" ou "Livro da Aliança" ao corpo textual contido em 20,22-23,19. O nome advém-lhe de 24,7, em que se encontra precisamente a expressão "Livro da Aliança", embora aí se refira primeiramente ao Decálogo (v.1-17). O Livro da Aliança compõe-se de leis formuladas de forma casuística (21,1-22,16), no modo condicional, conhecidas por mishpatîm, e de leis apodícticas, no modo imperativo, conhecidas por debarîm (22,17-29). Tal como o Decálogo, também este bloco de leis foi enxertado nas tradições do Sinai, não tendo aqui a sua situação vital original.
- 24-26
- São as primeiras leis sobre "altares" que encontramos no Livro do Êxodo. O facto de serem construídos de "terra arável" ('adamah) e perto do chão, sem degraus, e de pedras não trabalhadas denota a sua função transitória, talvez em referência a um tipo de vida semi-nómada. É o tipo de altar que convém às práticas patriarcais (Gn 12,8; 35,3; 1 Sm 14,35, com Saul). Holocaustos, sacrifícios em que o animal era inteiramente consumido pelo fogo. Sacrifícios de comunhão. Só era queimada uma parte do animal, sendo o restante partilhado convivialmente (Introd. ao Levítico). Em todo o lugar. Supõe múltiplos lugares de culto: legislação certamente anterior à centralização do culto em Jerusalém de acordo com a lei do Deuteronómio (Dt 12,5-7.11.14). Foi aplicada estritamente por Josias (2 Rs 23,13.19), embora o movimento que lhe está na origem possa remontar já a Ezequias (2 Rs 18,1-6), após a queda da Samaria e dos santuários do Norte. Recordar o meu nome. Única vez no AT em que o verbo desta expressão tem Deus por sujeito.
- 25
- Os objectos adscritos ao culto devem estar o mais possível no seu estado natural, não tocados pela mão humana (Dt 27,5-7 nota; 1 Sm 6,7; 2 Rs 2,20). E, tal como os objectos, também as pessoas. A propósito do "nazirato", ver Nm 6,1-21.2 nota; Jz 13,5 nota; Am 2,9-11 nota.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.