Êxodo 12
A Páscoa (23,15; 34,18; Lv 23,5-8; Nm 9,1-5; 28,16-25; Dt 16,1-8; Mt 26,17 par.; 1 Cor 5,7; 11,23-27)
1 *O SENHOR disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2 *«Este mês será para vós o primeiro dos meses; ele será para vós o primeiro dos meses do ano. 3 *Falai a toda a comunidade de Israel, dizendo que, aos dez deste mês, tomará cada um deles um animal do rebanho para a família, um animal do rebanho por casa. 4 *Se a família for pouco numerosa para um animal do rebanho, tomar-se-á com o vizinho mais próximo da casa, segundo o número das pessoas; calculareis o animal do rebanho conforme o que cada um puder comer. 5 *O animal do rebanho para vós será sem defeito, um macho, filho de um ano, e tomá-lo-eis de entre os cordeiros ou de entre os cabritos. 6 *Vós o tereis sob guarda até ao dia catorze deste mês, e toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo.7 *Tomar-se-á do sangue e colocar-se-á sobre as duas ombreiras e sobre o dintel da porta das casas em que ele se comerá. 8 *Comer-se-á a carne naquela noite; comer-se-á assada no fogo com pães sem fermento e ervas amargas. 9 *Não a comereis nem crua nem cozida na água, mas assada no fogo, a cabeça com as patas e as entranhas. 10 Não deixareis dela nada até pela manhã; e o que restar dela pela manhã, queimá-lo-eis no fogo. 11 *Comê-la-eis desta maneira: os rins cingidos, as sandálias nos pés, e o cajado na mão. Comê-la-eis à pressa. É a Páscoa em honra do SENHOR.
12 E Eu atravessarei a terra do Egipto naquela noite, e ferirei todos os primogénitos na terra do Egipto, desde os homens até aos animais, e contra todos os deuses do Egipto farei justiça, Eu, o SENHOR. 13 *E o sangue será para vós um sinal nas casas em que vós estais. Eu verei o sangue e passarei ao largo; e não haverá contra vós nenhuma praga de extermínio, quando Eu ferir a terra do Egipto.
14 *Aquele dia será para vós um memorial, e vós festejá-lo-eis como uma festa em honra do SENHOR. Ao longo das vossas gerações, a deveis festejar como uma lei perpétua.
Festa dos Ázimos (13,3-10; 23,15; Lv 23,6-8; Dt 16,3-4)
15 Durante sete dias comereis pães sem fermento. No primeiro dia, fareis desaparecer o fermento das vossas casas, pois todo aquele que comer pão fermentado, do primeiro dia ao sétimo dia, será eliminado de Israel.16 *No primeiro dia, tereis uma convocação sagrada, assim como no sétimo dia. Não se fará nenhum trabalho nesses dias; apenas aquilo que será comido por cada pessoa, só isso será feito por vós.
17 *Guardareis a festa dos pães sem fermento, porque foi precisamente neste dia que Eu fiz sair os vossos exércitos da terra do Egipto. Guardareis este dia nas vossas gerações como uma lei perpétua.
18 No primeiro mês, no dia catorze à tarde, comereis pães sem fermento até ao dia vinte e um do mês, à tarde. 19 Durante sete dias, não se encontrará fermento nas vossas casas, porque todo aquele que comer pão fermentado, essa pessoa será eliminada da comunidade de Israel, quer seja estrangeiro residente, quer natural da terra. 20 Não comereis nenhum pão fermentado. Em qualquer lugar em que habitardes, comereis pães sem fermento.»
Prescrições sobre a Páscoa
21 Moisés chamou todos os anciãos de Israel e disse-lhes: «Escolhei e tomai para vós um animal do rebanho, segundo os vossos clãs, e imolai a Páscoa. 22 *Tomareis depois um ramo de hissopo, mergulhá-lo-eis no sangue que estiver na bacia, e marcareis o dintel e as duas ombreiras da porta com o sangue que estiver na bacia, e nenhum de vós sairá da porta da sua casa até pela manhã. 23 *O SENHOR passará para ferir o Egipto, verá o sangue sobre o dintel e sobre as duas ombreiras da porta, e o SENHOR passará ao largo da porta e não deixará que o Exterminador entre nas vossas casas para ferir.24 Observareis isto como uma prescrição para vós e para os vossos filhos para sempre. 25 Quando tiverdes entrado na terra que o SENHOR vos dará, como Ele falou, observareis este serviço cultual.
26 Quando os vossos filhos vos disserem: 'O que é este serviço cultual para vós?', 27 *vós direis: 'É o sacrifício da Páscoa em honra do SENHOR, que passou ao largo das casas dos filhos de Israel no Egipto, quando feriu o Egipto e salvou as nossas casas.'» O povo inclinou-se e prostrou-se.
28 Os filhos de Israel foram e fizeram como o SENHOR tinha ordenado a Moisés e a Aarão. Assim fizeram.
<i>X</i>. Morte dos primogénitos (11,4-8; 12,12; Sl 78,51; 136,10; Sb 18,6-18)
29 E aconteceu que, no meio da noite, o SENHOR feriu todos os primogénitos na terra do Egipto, desde o primogénito do faraó, que havia de sentar-se no seu trono, até ao primogénito do prisioneiro, que está na prisão, e todos os primogénitos dos animais. 30 *O faraó levantou-se durante a noite, ele, todos os seus servos e todo o Egipto, e houve um grande clamor no Egipto, porque não havia casa que não tivesse lá um morto.31 Ele chamou Moisés e Aarão durante a noite e disse: «Levantai-vos e saí do meio do meu povo, vós e também os filhos de Israel, e ide servir o SENHOR, como tendes falado. 32 *Tomai também as vossas ovelhas e os vossos bois, como tendes falado, ide e abençoai-me também a mim.»
SAÍDA DO EGIPTO (12,33-15,21)
33 Os egípcios pressionaram o povo para que partisse depressa da terra, pois diziam: «Morreremos todos!»34 *O povo levou a sua farinha amassada antes de levedar, e sobre os ombros as suas amassadeiras envoltas nos seus mantos. 35 *Os filhos de Israel fizeram como tinha falado Moisés, e pediram aos egípcios objectos de prata, objectos de ouro e mantos. 36 O SENHOR fez com que o povo alcançasse benevolência da parte dos egípcios, que acederam aos seus pedidos. E assim despojaram os egípcios.
Partida (13,17-22; Nm 33,3-5)
37 Os filhos de Israel partiram de Ramessés para Sucot, cerca de seiscentos mil a pé, só os homens fortes, sem contar as crianças. 38 Também uma turba numerosa partiu com eles, juntamente com ovelhas, bois e gado em grande quantidade. 39 *Eles cozeram a farinha amassada com que tinham saído do Egipto em bolos sem fermento, pois não tinha fermento. Tinham, na verdade, sido expulsos do Egipto, e não puderam demorar-se; nem sequer fizeram provisões para eles.40 *A estadia dos filhos de Israel que residiram no Egipto foi de quatrocentos e trinta anos. 41 *No final dos quatrocentos e trinta anos, precisamente naquele dia, saíram todos os exércitos do SENHOR da terra do Egipto. 42 *Aquela foi uma noite de vigília para o SENHOR, quando Ele os fez sair da terra do Egipto. Esta noite do SENHOR será de vigília para todos os filhos de Israel nas suas gerações.
Ritual da Páscoa (Nm 9,2-14)
43 SENHOR disse a Moisés e a Aarão: «Esta é a prescrição da Páscoa: nenhum filho de estrangeiro comerá dela. 44 Todo o escravo adquirido com dinheiro, tu o circuncidarás, e então comerá dela. 45 Os estrangeiros, residentes ou assalariados, não comerão dela. 46 *Comer-se-á numa só casa. Não se fará sair carne da casa para fora, e não lhe quebrareis nenhum osso. 47 Toda a comunidade de Israel a celebrará. 48 E se morar contigo um estrangeiro residente que queira fazer a Páscoa do SENHOR, será circuncidado todo o macho da sua casa, e então se aproximará para a fazer, e será como um natural da terra, mas nenhum incircunciso comerá dela. 49 Haverá uma só lei para o natural e para o estrangeiro residente que habite no meio de vós.»50 Todos os filhos de Israel fizeram assim; fizeram exactamente como o SENHOR tinha ordenado a Moisés e a Aarão. 51 *Foi precisamente neste dia que o SENHOR fez sair os filhos de Israel da terra do Egipto, segundo os seus exércitos.
Notas
- 12, 1-13, 16
- O núcleo antigo desta longa secção reside no relato dos acontecimentos da libertação do Egipto (v.21-23.29-42). À volta do relato destes acontecimentos, que constituem o verdadeiro começo da História de Israel como povo de Deus, as redacções sacerdotal e deuteronomista inseriram algumas peças de teor legislativo, litúrgico e exortativo que dizem respeito a três celebrações assim associadas àqueles importantes acontecimentos: o ritual da Páscoa (12,1-14.21-28.43-51), o ritual dos pães sem fermento (12,15-20; 13,3-10) e o ritual da oferta dos primogénitos (13,1-2.11-16). Os grandes acontecimentos vão sendo actualizados. Daí o aglomerado de materiais históricos, legislativos e celebrativos.
- 2
- Primeiro dos meses do ano. Trata-se do mês de Abib, ou das espigas (13,4; 23,15; 34,18; Dt 16,1), e corresponde ao princípio da Primavera (Março-Abril). Chamar-se-á, mais tarde, Nîsan (Ne 2,1; Est 3,7), de acordo com o calendário babilónico. O antigo ano israelita começava no Outono, com as colheitas (23,16; 34,22), e foi sob a influência babilónica, nos séculos VIII ou VII a.C., que se operou a mudança para a Primavera. Aqui, a tradição sacerdotal está interessada em fazer coincidir o início do ano com o mês da libertação do Egipto.
- 3
- Comunidade. Termo típico do Sacerdotal, e supõe uma comunidade religiosa organizada. Animal do rebanho. Pode ser um cabrito (tradição mais antiga) ou um cordeiro (v.5).
- 4
- Número de pessoas. A tradição judaica exige o mínimo de 10 pessoas; se chegarem a 20, é necessário pôr duas mesas, devendo as pessoas de cada uma sentar-se de costas voltadas, como se estivessem em duas casas diferentes.
- 5
- De um ano. Não se fala de primogénito. Na sua origem, a Páscoa e a oferta dos primogénitos estavam separadas. Ver Lv 1,3-4 nota.
- 6
- Dia catorze. No v.3 falava-se do dia 10, aqui fala-se do dia 14. Não estarão na base duas tradições: uma, em que o mês se dividia em períodos de 10 dias, e outra, em que o mês se dividia já em semanas? A primeira acentuaria o dia 10, enquanto a segunda apontava para o dia 14, com a Lua-cheia. A tradição judaica precisa que os quatro dias de espera se destinam ao exame do animal, para se ver se é mesmo perfeito. Crepúsculo. Lit., "entre as duas tardes" (16,12; 29,39; Lv 23,5; Nm 9,3.5.11). Os samaritanos interpretam entre o pôr-do-sol e a noite; os fariseus e o Talmud, entre o declínio do sol (= depois do meio-dia) e o pôr-do-sol. A controvérsia continuou ao longo dos séculos.
- 7
- Sangue sobre as portas. É o valor expiatório do sangue, que esconjura e afasta os males. A sua marca nas portas é como que um selo divino intransponível. Mais claramente ainda no v.22.
- 8
- Pães sem fermento (= ázimos). Ver Lv 2,4; 7,12; Dt 16,3 = "pão de miséria"; 1 Cor 5,8 = "pureza e verdade". Ervas amargas. Davam paladar aos ázimos e significavam ainda a amargura da escravidão.
- 9
- Crua. Só aqui em todo o AT.
- 11
- Páscoa (pesah). Em aramaico, pasha', donde o grego páscha, que deu origem à nossa Páscoa. Nas suas origens, o ritual de imolar um animal jovem do rebanho, de partilhar a sua carne em refeição festiva e de usar o sangue com valor expiatório devia estar certamente ligado aos pastores nómadas do deserto e à primeira noite de Lua-cheia da Primavera. A etimologia popular dos v.13 e 27 liga a Páscoa à separação/discriminação que Deus faz entre egípcios e israelitas, ferindo aqueles e "saltando sobre" estes, isto é, salvando-os. Lá estão ainda a noite de Lua-cheia, a imolação do animal, a partilha das suas carnes e o carácter expiatório do sangue. Ganha um dado novo: fica ligada agora à libertação do Egipto (Lv 23,5-8 nota).
- 13
- Sangue. É expiatório e sinal de separação/discriminação: salva uns, condena outros (v.7.13.23; 4,24-26). Praga. Ver 7,8 nota.
- 14
- Festa (5,1 nota; 10,9).
- 15
- Sem fermento (= ázimos). Na origem dos ázimos deve estar o bolo folhado dos nómadas ou semi-nómadas. Os matstsôt representam a fase sedentária dos ázimos. Festa primaveril da novidade, que rompe com o passado (= fermento). Ligada em primeiro lugar à saída do Egipto (34,18), foi depois fundida com a festa da Páscoa, uma vez que caíam mais ou menos na mesma data. Desaparecer. Lit., "cessar".
- 16
- Nenhum trabalho. Lembra o repouso sabático (35,2-3) ou o do "dia da Expiação" (yôm kippûr), ainda que menos rigoroso do que estes, em que nem sequer era permitido cozinhar.
- 17
- Fiz sair. Ver 3,12 nota. Exércitos. Ver 6,26 nota.
- 22
- Hissopo. Planta aromática que cresce nas paredes velhas (1 Rs 5,13) e é usada para a purificação exterior (Lv 14,4.6.49.51.52; Nm 19,6.18) e interior (Sl 51,9; Heb 9,19). Sangue. Ver v.7.
- 23
- Sangue. Ver v.13 nota. O Exterminador, personagem misteriosa encarregada de executar os castigos divinos (ver Gn 19,13; 2 Sm 24,16; 1 Cor 10,10; Ap 18,1-2).
- 27
- Páscoa. Permanece como pano de fundo a separação/discriminação operada por Deus. Sacrifício da Páscoa. Ocorre só aqui. Ver, no entanto, 23,18 e 34,25 (= "sangue do meu sacrifício"). De notar que a Páscoa não é um sacrifício. Sacrifício é tudo o que é oferecido a Deus. O cordeiro pascal é uma comida convivial; não é oferecido a Deus. "Sacrifício da Páscoa do Senhor" era um sacrifício de ovelhas e bois (Dt 16,2) oferecido após a realização do sacrifício normal, o holocausto diário, a 'ôlat-tamîd, em que eram totalmente queimados dois cordeiros "filhos de um ano", um de manhã (9 horas) e outro à tarde (15 horas), com farinha, azeite e vinho: "sacrifício suave para o Senhor" (29,38-42; Nm 28,3-8).
- 29
- Prisão. Lit., "casa da cisterna". As cisternas serviam muitas vezes de prisão (Gn 37,24; Jr 38,6). Primogénitos. Estes herdavam e conservavam todos os valores da família. Daí a grandeza da tragédia (13,11-16 nota; Nm 3,12-13 nota; 2 Rs 3,27 nota).
- 30
- Clamor (11,6).
- 32
- Abençoai-me. Insere-se na linha dos "rezai" (8,4 nota).
- 34
- Mantos (3,22).
- 35-36
- Na linha de 3,21-22 e 11,2-3. Este clima de boas graças é dificilmente explicável logo após o relato da morte dos primogénitos (v.29-32) e do corte de relações entre egípcios e israelitas descrito no v.33 com um dos verbos técnicos do endurecimento do coração do faraó (hazaq). Estamos perante tradições diferentes, que remontam a grupos diferentes. Despojar (3,22 nota).
- 37
- Seiscentos mil a pé. Isto é, aptos para combater (13,18b). O número está claramente amplificado. Se juntarmos a estes 600.000 homens aptos para combater, as respectivas mulheres e crianças, ficamos com um número que rondará os 2-3 milhões. De notar que a população egípcia nesta época, calculada com base em documentos históricos e arqueológicos, estaria entre 3 e 5 milhões. E o exército egípcio desta altura andaria entre os 25.000 e os 30.000 homens. É verdade que outros recenseamentos fixam em 603.550 o número de homens aptos para combater em Israel (38,26; Nm 1,46; 2,32). É o exagero típico do Sacerdotal, que pretende mostrar a promessa de Deus a realizar-se. Por outro lado, a gematria (valor numérico) das letras da expressão "os filhos de Israel" (benê Yisra'el) dá 603.000, o que pode ter contribuído para essa numeração. Aqui começa o primeiro relato da partida; o segundo começa em 13,17.
- 39
- Expulsos (6,1 nota).
- 40
- 430 anos (6,14-27 nota; Gl 3,17).
- 41
- Sair (3,12 nota). Exércitos (6,26 nota).
- 42
- Fazer sair (3,12 nota). Noite de vigília. Com base nesta expressão, surgirá o famoso poema das "quatro noites", consideradas etapas importantes na vida do povo de Deus: a noite da criação, a noite em que Abraão recebeu a promessa do nascimento de Isaac, a noite da libertação do Egipto, e a noite do cumprimento definitivo da salvação. Por isso, a Páscoa fazia anamnese do passado, mas na esperança da vinda do Messias, que se pensava viria nessa noite.
- 46
- Não quebrar nenhum osso (Nm 9,12 nota; Sl 34,21; Jo 19,36).
- 51
- Fazer sair (3,12 nota). Exércitos (6,26 nota).
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.