Êxodo 15
Cântico de vitória (Jz 5,2-32)
1 Então, Moisés cantou, e os filhos de Israel também, este cântico ao SENHOR. Eles disseram:«Cantarei ao SENHOR
que é verdadeiramente grande:
cavalo e cavaleiro lançou no mar.
2 *Minha força e meu canto é o SENHOR:
Ele foi para mim a salvação.
É este o meu Deus: glorificá-lo-ei;
o Deus de meu pai: exaltá-lo-ei.
3 O SENHOR é um guerreiro:
SENHOR é o seu nome.
4 Os carros de guerra do faraó e o seu exército Ele atirou ao mar;
e os seus combatentes escolhidos
foram afundados no Mar dos Juncos.
5 Cobrem-nos os abismos:
desceram às profundezas como uma pedra.
6 *A tua direita, SENHOR,
resplandeceu de força;
a tua direita, SENHOR,
apanhou o inimigo.
7 *Com a grandeza da tua majestade,
destróis os que se levantam contra ti:
envias a tua ira,
que os devora como palha.
8 *Com o sopro das tuas narinas,
as águas amontoaram-se,
as ondas ficaram paradas como um muro,
os abismos coalharam no coração do Mar.
9 *O inimigo disse: 'Perseguirei, alcançarei,
repartirei os despojos:
neles se saciará a minha alma.
Desembainharei a minha espada:
a minha mão os exterminará.'
10 *Sopraste com o teu vento,
e o mar os recobriu.
Afundaram-se como chumbo nas águas alterosas.
11 *Quem como Tu, entre os deuses, SENHOR?
Quem como Tu, enaltecido de santidade,
temível de glória,
fazendo maravilhas?
12 Estendeste a tua direita:
a terra engoliu-os.
13 *Com o teu amor conduziste este povo que resgataste.
Com a tua força o guiaste para a tua morada santa.
14 *Os povos ouviram e estremecem:
um tremor se apoderou dos habitantes da Filisteia;
15 transidos de pavor ficaram então os chefes de Edom;
um tremor se apoderou dos poderosos de Moab;
esmorecem todos os habitantes de Canaã.
16 Cairão sobre eles o pavor e o tremor;
com a grandeza do teu braço, ficarão paralisados como pedra,
até que passe o teu povo, SENHOR,
até que passe este povo que resgataste.
17 *Fá-lo-ás entrar e plantá-lo-ás na montanha que é a tua herança,
lugar que fizeste para Tu habitares, SENHOR,
santuário que as tuas mãos, Senhor, estabeleceram.
18 O SENHOR reinará eternamente e para sempre.»
19 De facto, os cavalos do faraó, com os seus carros de guerra e os seus cavaleiros, entraram no mar, e o SENHOR fez voltar sobre eles as águas do mar, mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar.
20 *Maria, a profetisa, irmã de Aarão, tomou nas mãos uma pandeireta, e todas as mulheres saíram atrás dela com pandeiretas, a dançar. 21 E Maria entoou para eles:
«Cantai ao SENHOR, que é verdadeiramente grande:
lançou no mar cavalo e cavaleiro.»
II. CAMINHADA PELO DESERTO<br>(15,22-18,27)
As águas de Mara (Nm 33,8-9)
22 Moisés fez partir Israel do Mar dos Juncos, e saíram para o deserto de Chur. Caminharam três dias no deserto e não encontraram água. 23 *Chegaram a Mara, mas não puderam beber a água de Mara, porque era amarga. Por isso se chamou àquele lugar Mara.24 *O povo murmurou contra Moisés, dizendo: «Que beberemos?» 25 *E ele clamou ao SENHOR, e o SENHOR indicou-lhe um tronco que ele lançou à água; e a água tornou-se doce. Foi lá que o Senhor deu ao povo um preceito e uma norma; foi lá que o pôs à prova.
26 E disse: «Se escutares com atenção a voz do SENHOR, teu Deus, e se fizeres o que é recto aos seus olhos, se deres ouvidos aos seus mandamentos e se guardares todos os seus preceitos, não farei vir sobre ti nenhum dos flagelos que infligi ao Egipto, porque Eu sou o SENHOR que te cura.»
27 *Chegaram a Elim, onde estão doze nascentes de água e setenta palmeiras, e acamparam ali à beira da água.
Notas
- 15, 2
- Senhor. Aqui Yah, abreviatura poética de Javé. Também em 17,16; Sl 118,14; Is 12,2; 26,4; 38,12...
- 6
- Resplandeceu... apanhando. Formas verbais raras e arcaicas, deixando ver a antiguidade da composição. Apanhando, sugere o movimento das ondas do mar sobre o náufrago.
- 7
- Devorar como palha. É conhecido o antropomorfismo da "ira de Javé" como fogo devorador que arrasa todos os obstáculos (Is 5,24.25; 47,14; Jl 2,3; Abd 18; Na 1,10; Ml 3,19).
- 8
- Composição poética belíssima e antiga, glosando claramente os factos descritos em 14,21 (vento do oriente = sopro das narinas: a respiração violenta e alterada revela a ira) e 14,22.29 (as águas formando um muro = águas amontoadas/paradas). Há ainda o espanto do mar profundo que fica como que coalhado.
- 9
- Alma saciada. Na antropologia semítica, a nephesh (= alma, garganta) é a sede das emoções, paixões, desejos, apetites. Daí que signifique também "garganta", e que a ânsia se traduza por sede ardente e que a respiração acelerada simbolize o desejo.
- 10
- Afundaram-se. Como quem se afunda num pântano. O texto poético continua a seguir os factos do cap. 14.
- 11
- Temível (hebr. norah). É um título atribuído a Deus (terrível, tremendo), o qual, contudo, deve ser contextualizado. Estamos, de facto, diante de uma linguagem que deve ser posta em relação com todo o vocabulário usado para falar das manifestações de Deus, também em linguagem poética, no sentido do Deus tremendum et fascinosum. Assim, não corresponde exactamente ao nosso conceito de medo que paralisa e impede a relação. Diferentemente disto, este conceito aponta para uma realidade de temor reverencial pela transcendência de Deus, a ser amado com reverência e dentro de uma dimensão relacional que é fonte de acção e princípio de conhecimento e de sabedoria. Ver Gn 28,17; 35,5 nota; Dt 7,21; 10,17.21; 28,58; Jz 13,6; 2 Sm 7,23; 1 Cr 17,21; Ne 1,5; 4,8; 9,32; Jb 37,22; Sl 47,3; 65,6; 66,3; 68,36; 76,8.13; 89,8; 99,1-3; 106,22; 111,9; 139,14; 145,6; Dn 9,4; Jl 2,11; 3,4; Sf 2,11; Ml 1,14; 3,23. Fazer maravilhas (3,20 nota).
- 13
- Morada santa. Aqui, não é o templo de Jerusalém, mas a Terra Prometida aos Patriarcas (Sl 78,54).
- 14-15
- Tremor. A imagem é a da mulher que está para dar à luz (v.11 nota; Sl 48,7; Jr 6,24; 22,23; 50,43; Mq 4,9-10).
- 17
- Montanha da tua herança... lugar... santuário. Parece começar por aludir a toda a terra de Canaã (Dt 3,25; Sl 78,54; 79,1; Is 11,9; Jr 2,7), particularizando depois Sião e o templo (1 Rs 8,13; Sl 132,13-14; Sf 3,11).
- 20
- Maria. É a primeira vez que aparece no relato do Êxodo. É apresentada como irmã de Aarão, antes de o ser como irmã de Moisés (Nm 26,59: genealogia sacerdotal).
- 22
- Partir. O verbo hebraico é um termo técnico que designa entre os nómadas o acto de arrancar as estacas e levantar o acampamento. Deserto de Chur. Chur significa "muro" ou "muralha". Está situado a sudoeste das terras cultivadas palestinenses e a ocidente de Cadés-Barnea até ao Delta. Aqui, na sua extremidade ocidental, uma muralha impedia a entrada dos nómadas no Egipto. Significativamente, a ideologia "sacerdotal", que a crítica conhece pela sigla P, muda Chur em Sin (Nm 33,11). Ver Gn 16,7; 20,1; 25,18; 1 Sm 15,7.
- 23
- Mara. Significa "amargo". Indica provavelmente um lugar situado entre o lago Sirbonis e Cadés-Barnea, a que hoje se dá o nome de El-Mura, e que constitui uma mancha verde no amarelo monótono das dunas. Tem alguns poços de água salgada e amarga, não potável. Porém, as árvores que lá crescem indicam de imediato que têm as raízes mergulhadas nalguma nascente de água doce. Ver Nm 32,8-9.
- 24
- Murmurar. O termo aparece aqui pela primeira vez e, com a excepção de Js 9,18 refere-se sempre às deambulações no deserto em Êxodo e Números.
- 25
- Indicar. Trata-se do verbo yarah, que está na origem do importante termo tôrah = instrução.
- 27
- Elim. Significa "árvores grandes", certamente sagradas, pois a palavra acusa a mesma raiz do termo deus, deuses. Trata-se provavelmente do principal oásis do Wadi el-Arish = Rio do Egipto, a sudeste do lago Sirbonis, fronteira entre o Egipto e a Palestina no tempo de David e Salomão.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.