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«As vocações ao serviço da Igreja - missão» - Mensagem de Bento XVI para o 45º Dia Mundial de Oração pelas Vocações 2008-02-28 22:17:28 Caros irmãos e irmãs!
1. Tendo em vista o Dia Mundial de Orações pelas Vocações, que será celebrado em 13 de Abril de 2008, escolhi o tema: As vocações a serviço da Igreja- missão. Aos Apóstolos Jesus ressuscitado confiou o mandato: “Ide, pois, fazei discÃpulos meus entre todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do EspÃrito Santo†(Mt 28,19) e assegurando: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo†(Mt 28,20).
A Igreja é missionária no seu conjunto e em cada um dos seus membros. Se, graças aos sacramentos do Batismo e da Confirmação, cada cristão é chamado a testemunhar e a anunciar o Evangelho, a dimensão missionária é especialmente e intimamente ligada à vocação sacerdotal. Na aliança com Israel, Deus confiou a homens selecionados, chamados por Ele e enviados ao povo em seu nome, a missão de serem profetas e sacerdotes. Assim fez, por exemplo, com Moisés: “E agora, vai! – lhe disse Javé – Eu te envio ao Faraó [...] para que libertes meu povo, [...] quando tiveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus sobre esta montanhaâ€. (Ex 3,10. 12). Igualmente acontece com os profetas.
2. As promessas feitas aos pais se realizaram plenamente em Jesus Cristo. A este respeito, afirma o ConcÃlio Vaticano II: “Veio pois o Filho, enviado pelo Pai, que n’Ele nos escolheu antes de criar o mundo, e nos predestinou para sermos filhos adotivos [...] Por isso, Cristo para cumprir a vontade do Pai, inaugurou na terra o Reino dos Céus e revelou-nos o seu mistério, realizando-o, com a própria obediência, a redenção†(Const. Dogm. Lumen Gentium, 3). Durante a pregação na Galiléia, na vida pública, Jesus escolheu os discÃpulos como seus diretos colaboradores no ministério messiânico. Por exemplo, na multiplicação dos pães, quando disse aos Apóstolos: “Dai-lhes vós mesmo de comer†(Mt 14,16), animando-os assim, a assumir o peso das necessidades das multidões, à s quais queria oferecer o alimento para saciar-lhes a fome, mas também revelar o alimento “que dura para a vida eterna†(Jo 6,27). Movia-se de compaixão pelo povo, porque, ao percorrer cidades e aldeias, via multidões cansadas e abatidas, “como ovelhas sem pastor†(cf Mt 9,36). Do seu olhar de amor brotava o convite aos discÃpulos: “Pedà ao Senhor da messe, que mande operários para sua messe†(Mt 9,38), enviando antes os Doze, com precisas instruções, “à s velhas perdidas da casa de Israelâ€. Se nos detemos a meditar esta página do Evangelho de Mateus, conhecida comumente como “discurso missionárioâ€, observamos todos aqueles aspectos que caracterizam a atividade missionária de uma comunidade cristã, que deseja ser fiel ao exemplo e ao ensinamento de Jesus. Corresponder ao chamado do Senhor supõe enfrentar cada perigo com prudência e simplicidade, e inclusive as perseguições, pois “um discÃpulo não é mais que seu mestre, nem um servo mais que o seu patrão†(Mt 10,24). Feitos uma coisa só com o Mestre, os discÃpulos não ficam sós para anunciar o Reino dos Céus, mas é o mesmo Jesus que age neles: “Quem vos acolhe, a mim acolhe; e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou†(Mt 10, 40). Além disso, como verdadeiras testemunhas, “revestidos da força do alto†(Lc 24,49), estes pregam “a conversão e o perdão dos pecados†(Lc 24,47) a todos os povos.
3. Precisamente por terem sido enviados pelo Senhor, os Doze receberam o nome de “apóstolosâ€, chamados a percorrer os caminhos do mundo anunciando o Evangelho, como testemunhas da morte e ressurreição de Cristo. Escreve São Paulo aos cristãos de Corinto: “Nós – isto é os Apóstolos – anunciamos Cristo crucificado†(1Cor 1,23). Neste processo de evangelização, o Livro dos Atos dos Apóstolos considera também muito importante o papel de outros discÃpulos, cuja vocação missionária surge através circunstânciasprovindenciais, à s vezes dolorosas, como a expulsão da própria terra enquanto seguidores de Jesus (cf. 8,1-4). O EspÃrito Santo permite transformar esta prova em ocasião de graça, fazendo com que o nome do Senhor seja anunciado a outros povos, ampliando assim o cÃrculo da comunidade cristã. Trata-se de homens e de mulheres que, como escreve Lucas no livro dos Atos, “arriscaram a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo†(15,26). O primeiro entre todos, chamado pelo Senhor mesmo para ser um verdadeiro Apóstolo, é, sem dúvida, Paulo de Tarso. A história de Paulo, o maior missionário de todos os tempos, descreve, em muitos aspectos, qual seja o nexo entre a vocação e a missão. Acusado pelos seus adversários de não ter sido autorizado para o apostolado, ele mesmo, repetidas vezes, apela ao chamado recebido diretamente pelo Senhor (cf. Rm 1,1; Gal 1,11-12.15-17).
4. O que “impeliu†os Apóstolos no inÃcio, e no decorrer dos tempos, foi sempre “o amor de Cristo†(cf. 2Cor 5,14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à ação do EspÃrito Santo, muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram as pegadas dos primeiros discÃpulos. Observa o ConcÃlio Vaticano II: “Embora todo discÃpulo de Cristo incumba-se da obrigação de difundir a fé conforme as suas possibilidades, Cristo Senhor chama sempre dentre os discÃpulos os que ele quer para estarem com ele e os enviarem a evangelizar os povos (cfr Mc 3,13-15)†(Decr. Ad gentes, 23). De fato, o amor de Cristo foi comunicado aos irmãos, com exemplos e palavras - com toda a vida. “A vocação especial dos missionários ad vitam – escreveu o meu venerável Predecessor João Paulo II - conserva toda a sua validade: representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem necessidade de doações radicais e totais, de Ãmpulsos novos e corajosos†(Enc. Redemptoris missio, 66).
5. Entre as pessoas que se dedicam totalmente a serviço do Evangelho estão, de modo particular, muitos sacerdotes chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por momentos difÃceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários levam o primeiro anúncio do seu amor redentor. As estatÃsticas testemunham que o número dos batizados aumenta cada ano, graças à ação pastoral destes sacerdotes, inteiramente consagrados à salvação dos irmãos. Neste contexto, seja dado um especial reconhecimento “aos presbÃteros fidei donum que edificam a comunidade, com competência e generosa dedicação, anunciando-lhe a palavra de Deus e repartindo o pão da vida, sem pouparem as suas energias ao serviço da missão da Igreja. Por fim, é preciso agradecer a Deus pelos numerosos sacerdotes que tiveram de sofrer até ao sacrifÃcio da vida por servir a Cristo [...]. Trata-se de comoventes testemunhos que poderão inspirar muitos jovens a seguirem por sua vez a Cristo e gastarem a sua vida pelos outros, encontrando precisamente assim a vida verdadeira.†(Exort. ap. Sacramentum caritatis, 26). Desta forma Jesus, através dos seus sacerdotes, se faz presente entre os homens de hoje, até à s mais distantes extremidades da terra.
6. Não são poucos os homens e as mulheres que, desde sempre na Igreja, movidos pela ação do EspÃrito Santo, escolheram de viver radicalmente o Evangelho, professando os votos de castidade, pobreza e obediência. Esta multidão de religiosos e de religiosas, pertencentes a numerosos Institutos de vida contemplativa e ativa, tem tido “até agora uma parte importantissima na evangelização do mundo†(Decr. Ad gentes, 40). Com a oração perseverante e comunitária, os religiosos de vida contemplativa intercedem incessantemente pela inteira humanidade; os de vida ativa, com suas múltiplas formas de ação caritativa, levam a todos o testemunho vivo do amor e da misericórdia de Deus. Diante destes apóstolos do nosso tempo, o Servo de Deus Paulo VI, pôde dizer: “Graças à sua consagração religiosa, eles são por excelência voluntários e livres para deixar tudo e ir anunciar o Evangelho até as extremidades da terra. Eles são empreendedores, e o seu apostolado é muitas vezes marcado por uma originalidade e por uma feição própria, que forçosamente lhes granjeiam admiração. Depois, eles são generosos: encontram-se com freqüência nos postos de vanguarda da missão e a arrostar com os maiores perigos para a sua saúde e para a sua própria vida. Sim, verdadeiramente a Igreja deve-lhes muito†(Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 69).
7. Além disso, para que a Igreja possa continuar a missão que lhe foi confiada por Cristo e não faltem os evangelizadores que o mundo necessita, será oportuno que nas comunidades cristãs, nunca falte uma constante educação na fé das crianças e dos adultos; é necessário manter vivo nos fiéis um sentido ativo de responsabilidade missionária e de participação solidária com os povos da terra. O dom da fé chama todos os cristãos a cooperarem na evangelização. Esta consciência seja alimentada através da pregação e da catequese, pela liturgia e por uma constante formação na oração; seja incrementada com o exercÃcio da acolhida, da caridade, do acompanhamento espiritual, da reflexão e do discernimento, como também com a elaboração de um plano de pastoral, do qual faça parte integrante o cuidado das vocações.
8. Somente num terreno espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para o sacerdócio ministerial e para a vida consagrada. De fato, as comunidades cristãs, que vivem intensamente a dimensão missionária do mistério da Igreja, jamais serão levadas a fechar-se em si mesmas. A missão, como testemunho do amor divino, se torna particularmente eficaz quando é partilhada comunitariamente, “para que o mundo creia†(cfr Jo 17,21). A graça das vocações é o dom que a Igreja invoca diariamente ao EspÃrito Santo. Desde o seu inÃcio a comunidade eclesial, recolhida em torno à Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, d’Ela aprende a implorar do Senhor o florescimento de novos apóstolos, que saibam viver no seu Ãntimo aquela fé e aquele amor necessários para a missão.
9. Ao confiar esta reflexão a todas as comunidades eclesiais para que a façam suas e, sobretudo, para suscitar subsÃdios de oração, encorajo o empenho de todos que trabalham com fé e generosidade ao serviço das vocações e, de coração, envio aos formadores, aos catequistas e a todos, especialmente aos jovens na caminhada vocacional, uma especial Benção Apostólica.
Vaticano, 3 de Dezembro de 2007
BENEDICTUS PP. XVI
Fonte Ecclesia
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