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O inexplicável que inquieta
2006-03-13 21:35:03

Não há percurso sem obstáculos, nem obstáculos sem uma “passagemâ€. Há sempre uma “passagem†num caminho sinuoso. E mesmo quando o obstáculo se apresenta inultrapassável, há sempre um impulso no âmago da convicção, seja a teimosia do instinto ou uma qualquer intervenção do transcendente.

Os judeus evocam a Páscoa como a passagem do “anjo da morte†ao lado da casa dos filhos de Israel, poupando-os ao sacrifício. Mas fazem a festa como celebração da liberdade e encontro com a “terra prometida†após uma “passagem†pelas adversidades do deserto.
Os cristãos, moldados pela fé na vitória sobre a morte que é esperança de salvação do espírito, reenquadraram o sentido da “passagem†na inevitabilidade da própria vida.
A Quaresma, vivida no contexto cíclico de uma natureza que tem de “morrer†para voltar a ser fértil, remete para o sentido das limitações. Para o óbvio das dificuldades vividas ou por viver. “Morrer†nas contingências do quotidiano, para “nascer†de novo e descobrir a “passagem†dos obstáculos que atormentam. O deserto que os calendários religiosos lembram por estes dias é por isso uma metáfora da própria existência.

No limite do inexplicável, a liturgia cristã deste tempo lembra o episódio de um homem que, no extremo do sofrimento, perdoa os que não o compreendem e lhe causam a morte. Um absurdo?
Embora transversal e inevitável nas relações, o “perdão†é hoje uma palavra gasta, um valor incompreendido. Implica dois sentidos. Só perdoa quem promove sinceramente a valorização do outro para voltar a fazer encontro.

A paz, na dimensão utópica da plenitude ou na concretização pontual e verdadeira, é sempre uma “passagem†no final de um percurso com difíceis atalhos de perdão…

Joaquim Franco
Jornalista
opiniao@sic.pt


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