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O sacramento da Páscoa
2005-03-13 18:04:32

Sob o ícone dos discípulos de Emaús, o papa João Paulo II inaugurou o Ano dedicado à Eucaristia com a publicação da Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine - «Fica connosco, Senhor» (Lc 24,29).

A narração evangélica atinge o seu ápice quando o desconhecido peregrino, sentando-se à mesa com os dois discípulos desiludidos com o fim trágico de Jesus de Nazaré, «tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram» (Lc 24, 30-31). Jesus (o Ressuscitado) manifesta-se vivo com o mesmo gesto (fractio panis) que realizou na noite da instituição da Eucaristia.
Na verdade, o relato pascal de Emaús apresenta uma verdadeira e própria celebração eucarística (Salmos/Profetas, homilia, procissão de entrada até ao lugar da celebração, abertura dos olhos e da mente) – paradigma de toda a liturgia cristã – proclamar/escutar; revelar/ver; gostar/experimentar. A Igreja recebeu a Eucaristia do Senhor Jesus Cristo como o dom por excelência, porque é dom d’Ele mesmo, por isso, é verdadeiramente o mistério da fé e o sacramento do mistério da Páscoa. Um texto do século II afirma claramente: «O mistério da Páscoa é Cristo» (Melitão de Sardes, Sobre a Páscoa, 65). Como em S. Paulo (cf. Ef 1,4-12; 3, 1-13), este mistério indica o plano divino da salvação realizado em Cristo, cujo ponto central é o mistério da Páscoa. Deste único e fontal mistério de Cristo nasce a Eucaristia, a partir dos modelos sacrificial, anamnético e convivial.

1. Eucaristia-sacrifício
A Eucaristia é sacramento do sacrifício de Cristo. A Igreja celebra o sacrifício de louvor através de Cristo e oferece ao Pai o que Ele próprio lhe deu, isto é, os dons da criação, o pão e o vinho, tornados, pelo poder do Espírito Santo e pelas palavras de Cristo, Corpo e Sangue do mesmo Jesus Cristo.
À Eucaristia atribui-se o conceito de sacrifício, porque torna presente o sacrifício da cruz, conforme as palavras da narração da ceia «Isto é o meu Corpo que será entregue por vós» e «Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados». No sacrifício da Missa, Cristo torna-se presente sacramentalmente e «esta presença chama-se “real”, não por exclusão como se as outras não fossem “reais”, mas por antonomásia, porque é substancial, quer dizer, por ela está presente Cristo completo, Deus e homem» (Paulo VI, Carta Encíclica Mysterium Fidei).
A comunidade reunida oferece ao Pai o sacrifício de Cristo e associa-se a Cristo (ao mesmo tempo, o cordeiro, o altar e o sacerdote), com a oferta da sua vida e do seu compromisso cristão, porque o mistério de Cristo, alfa e ómega, torna-se contemporâneo a todo o homem em todos os tempos.

2. Eucaristia-memorial
O modelo da Eucaristia recorre à categoria de memorial, «Fazei isto em memória de mim» (Lc 22,19; 1Cor 11,25b-26), surgindo como o elemento estrutural da narração da instituição realizada por Jesus na noite da última ceia. Ao agregar estas palavras à narração da ceia, a Oração eucarística torna-se uma declaração de querer fazer o que Jesus disse para fazer, uma menção explícita à sua memória, qual presença sacramental permanente de Cristo.
A Eucaristia é, pois, a obediência ao mandamento de Cristo de fazer o que Ele mesmo fez, conforme as quatro tradições neotestamentárias (Mc 14,22-24; Mt 26,26-28; Lc 22,17-20; 1Cor 11,23-25), tornando-se a anamnese do mistério da morte e ressurreição de Cristo, como se aclama na liturgia: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus». Trata-se da comemoração do mandato de Cristo, não apenas como recordação do passado, mas como proclamação das maravilhas que Deus operou na história da salvação por amor dos homens, imprimindo ao caminho cristão o passo da esperança.

3. Eucaristia-banquete
O sacramento da Eucaristia é banquete pascal, por se tratar da refeição que o Senhor tomou com os seus discípulos antes da sua paixão e morte e por podermos participar no corpo e sangue do Senhor, para entrar numa comunhão plena com Ele.
A acção da última ceia desenvolve-se em nove momentos: tomou o pão; deu graças; partiu-o; deu-o; dizendo...; tomou o cálice; deu graças; deu-o; dizendo..., partes essenciais e constitutivas do rito da Igreja. Este articula-se no ordinário da Missa em: preparação dos dons, Oração Eucarística, fracção do pão e comunhão.

Ao dizermos que a Eucaristia é o sacramento da Páscoa, salientamos a realização sacramental dos mistérios de Cristo no centro da liturgia, e mesmo de toda a vida cristã, como testemunham os Padres da Igreja: «o que no nosso Redentor era visível, passou para os seus sacramentos» (S. Leão Magno, Sermão da Ascensão do Senhor, 74,2). Sacrifício, memorial e banquete são, portanto, três dimensões inseparáveis do mesmo e único mistério eucarístico, o sacramento da Páscoa de Cristo.

Pe. José Manuel Garcia Cordeiro
Vice-Reitor do
Pontifício Colégio Português

Fonte Ecclesia

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