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23 de Maio : Dia Mundial das Comunicações sociais - Os Mass Media e a FamÃlia: um risco e uma riqueza 2004-05-20 22:29:20 Queridos Irmãos e Irmãs
1. O crescimento extraordinário dos meios de comunicação e a sua aumentada disponibilidade trouxeram oportunidades excepcionais para o enriquecimento da vida não apenas dos indivÃduos, mas também das famÃlias.
Ao mesmo tempo, hoje as famÃlias estão a enfrentar novos desafios, que derivam das mensagens, diversificadas e muitas vezes contraditórias, apresentadas pelos mass media. O tema escolhido para o Dia Mundial das Comunicações - "Os mass media na famÃlia: um risco e uma riqueza" - é um tema oportuno, dado que convida a uma reflexão sóbria sobre o uso que as famÃlias fazem dos meios de comunicação e, em contrapartida, do modo como os mass media tratam as famÃlias e as solicitudes familiares.
O tema deste ano recorda também a todos, tanto aos comunicadores como aos seus destinatários, que toda a comunicação tem uma dimensão moral. Como o próprio Senhor disse, é da abundância do coração que a boca fala (cf. Mt 12, 34-35). As pessoas crescem ou diminuem de estatura moral, de acordo com as palavras que elas pronunciam e com as mensagens que preferem ouvir. Consequentemente, a sabedoria e o discernimento no uso dos mass media são exigidos de maneira particular da parte dos profissionais das comunicações, dos pais e dos educadores, uma vez que as suas decisões influenciam enormemente as crianças e os jovens, por quem eles são responsáveis e que, em última análise, são o futuro da sociedade.
2. Graças à expansão sem precedentes do mercado das comunicações nas últimas décadas, numerosas famÃlias no mundo inteiro, mesmo as que dispõem de meios bastante modestos, agora têm acesso, no seu próprio lar, a recursos mediáticos imensos e diversificados. Por conseguinte, elas têm oportunidades virtualmente ilimitadas nos campos da informação, da educação, da expansão cultural e até mesmo do crescimento espiritual – oportunidades estas que excedem em grande medida as que eram disponÃveis para a maioria das famÃlias no passado recente.
Não obstante, estes mesmos meios de comunicação possuem a capacidade de causar prejuÃzos graves à s famÃlias, apresentando uma visão inadequada e mesmo deformada da vida, da famÃlia, da religião e da moral. Este poder, tanto para reforçar como para desprezar os valores tradicionais, como a religião, a cultura e a famÃlia, foi compreendido com clareza pelo ConcÃlio Vaticano II, que ensinou que, "para o recto uso destes meios, é absolutamente necessário que todos os que se servem deles conheçam e ponham em prática, neste campo, as normas da ordem moral" (Inter mirifica, 4). Os mass media, em qualquer forma que seja, devem inspirar-se sempre no critério ético do respeito pela verdade e pela dignidade da pessoa humana.
3. Estas considerações dizem respeito de forma particular à abordagem das famÃlias pelos meios de comunicação. Por um lado, o matrimónio e a vida familiar são frequentemente descritos de maneira sensÃvel e realista, mas também com simpatia, de modo a exaltar virtudes como o amor, a fidelidade, o perdão e a abnegação generosa em prol dos outros. Isto é também verdade no que se refere à s apresentações dos mass media que reconhecem os fracassos e as desilusões, inevitavelmente experimentados pelos cônjuges e pelas famÃlias – tensões, conflitos, derrotas, escolhas negativas e actos prejudiciais – mas, ao mesmo tempo, fazem um esforço em vista de separar o justo do injusto, de distinguir o amor verdadeiro das suas imitações e de mostrar a importâcia insubstituÃvel da famÃlia como unidade fundamental da sociedade.
Por outro lado, a famÃlia e a vida familiar são também, com muita frequência, descritas de maneira inoportuna pelos meios de comunicação. A infidelidade, a actividade sexual fora do matrimónio e a ausência de uma visão moral e espiritual do vÃnculo matrimonial são descritas de maneira não crÃtica, enquanto à s vezes se apresentam de modo positivo o divórcio, a contracepção, o aborto e a homossexualidade. Estas visões, promovendo as causas contrárias ao matrimónio e à famÃlia, são prejudiciais para o bem comum da socidade.
4. A reflexão conscienciosa sobre a dimensão ética das comunicações deveria conduzir a iniciativas concretas, destinadas a eliminar os riscos contra o bem-estar da famÃlia, apresentados pelos mass media, e assegurando que estes poderosos instrumentos da comunicação permaneçam como fontes genuÃnas de enriquecimento. Os próprios comunicadores, as autoridades públicas e os pais têm uma responsabilidade especial, a este propósito.
O Papa Paulo VI ressaltava que os comunicadores profissionais deveriam "conhecer e respeitar as necessidades da famÃlia, e isto pressupõe neles, por vezes, uma coragem verdadeira e sempre um elevado sentido de responsabilidade" (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações de 1969). Não é fácil resistir à s pressões comerciais ou à s reivindicações de conformidade com as ideologias seculares, mas é isto que os comunidades respsonsáveis devem fazer. A aposta é grande, dado que cada ataque contra o valor fundamental da famÃlia constitui um ataque contra o verdadeiro bem da humanidade.
As próprias autoridades públicas têm o sério dever de promover o matrimónio e a famÃlia, para o bem da sociedade em geral. Contudo, hoje muitas pessoas aceitam e agem segundo as argumentações libertárias efémeras dos grupos que defendem práticas que contribuem para o grave fenómeno da crise da famÃlia e para o debilitamento do próprio conceito de famÃlia. Sem recorrer à censura, é imperativo que as autoridades públicas definam polÃticas de regulação e procedimentos para garantir que os meios de comunicação não ajam contra o bem da famÃlia. Os representantes da famÃlia deveriam fazer parte deste empreendimento polÃtico.
Os responsáveis pela polÃtica nos mass media e no sector público devem trabalhar também por uma distribuição equitativa dos recursos comunicativos a nÃveis nacional e internacional, enquanto respeitam a integridade das culturas tradicionais. Os meios de comunicação não deveriam parecer ter uma agenda hostil aos valores familiares sólidos das culturas tradicionais, ou a finalidade de substituir tais valores, como parte de um processo de globalização, com os valores secularizados da sociedade consumista.
5. Os pais, como os educadores primários e mais importantes dos seus filhos, são inclusivamente os primeiros a dar-lhes um ensinamento acerca dos meios de comunicação. Eles são chamados a formar os seus filhos no "uso moderato, crÃtico, atento e prudente dos mass media" em casa (Familiaris consortio, 76). Quando os pais o fazem de modo consistente e positivo, a vida familiar fica enormemente enriquecida. Até mesmo as crianças muito jovens podem receber lições importantes sobre os meios de comunicação: que os mesmos são produzidos por pessoas ansiosas de transmitir mensagens; que estas são com frequência mensagens para agir de um modo especÃfico – para comprar um produto, para assumir um comportamento ambÃguo – que não corresponde aos melhores interesses da criança, nem está em sintonia com a verdade moral; que as crianças não deveriam aceitar ou imitar sem crÃtica aquilo que encontram nos mass media.
Os pais precisam também de regular o uso dos meios de comunicação em casa. Isto incluiria um plano e uma programação do uso dos mass media, limitando estritamente o tempo que os filhos dedicam aos meios de comunicação, fazendo da diversão uma experiência familiar, eliminando de forma total alguns deles e, periodicamente, excluindo todos eles, em vantagem de outras actividades em famÃlia. Sobretudo, os pais deveriam dar bons exemplos aos filhos, através de um uso ponderado e selectivo dos mass media. Eles descobrirão com frequência que é útil reunir-se com outras famÃlias para estudar e debater sobre os problemas e as oportunidades apresentados pelo uso dos meios de comunicação. As famÃlias deveriam ser ouvidas, quando dizem aos produtores, aos publicitários e à s autoridades públicas o que gostam e o que não gostam.
6. Os meios de comunicação social têm uma enorme potencialidade positiva para promover valores humanos e familiares sólidos e, desta maneira, contribuir para a renovação da sociedade. Considerando o seu grande poder de formar ideias e de influenciar comportamentos, os comunicadores profissionais deveriam reconhecer que têm uma responsabilidade moral não apenas para dar à s famÃlias todo o encorajamento, assistência e apoio possÃveis, em vista desta finalidade, mas também para exercer a sabedoria, o bom juÃzo e a justiça na sua apresentação das questões que dizem respeito à sexualidade, ao matrimónio e à vida familiar.
Os meios de comunicação são recebidos diariamente como hóspedes familiares em muitos lares e famÃlias. Neste Dia Mundial das Comunicações, encorajo tanto os comunidades profissionais como as famÃlias a reconhecer o privilégio e a responsabilidade singulares que isto comporta. Que todas as pessoas comprometidas no campo das comunicações reconheçam que são verdadeiramente "responsáveis e administradores de um poder espiritual enorme, que pertence ao património da humanidade e que está destinado a enriquecer toda a comunidade humana" (Discurso aos especialistas das comunicações, Los Angeles, 15 de Setembro de 1987, n. 8). E que as famÃlias sejam sempre capazes de encontrar nos mass media uma fonte de ajuda, de encorajamento e de inspiração, enquanto lutam para viver como comunidade de vida e de amor, para formar os jovens nos valores morais sólidos e para fazer progredir uma cultura de solidariedade, liberdae e paz.
Vaticano, 24 de Janeiro de 2004, Festa de São Francisco de Sales.
IOANNES PAULUS II
Fonte Ecclesia
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