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«O Código Da Vinci»: quando o objectivo é vender 2004-05-06 19:29:54 Se a promoção da “Paixão de Cristo de Mel Gibson†se fazia com a frase “o filme mais polémico do anoâ€, a Bertrand Editora fez do “Código Da Vinciâ€, último romance de Dan Brown, “o livro mais esperado do anoâ€.
Falar sobre Jesus Cristo e a Igreja Católica, goste-se ou não, tem este efeito mediático. De vez em quando surge uma revelação definitiva sobre a vida de Jesus e sobre a “falsidade†que se esconde por detrás da Igreja Católica (há sempre um "segredo que a Igreja ocultou" nestas histórias). Dan Brown traz a última... até à próxima.
Tratando-se de um romance, concebido claramente para causar escândalo e gerar lucros aos autores/editores, as teorias apresentadas por Brown neste livro, - que é, de facto, um best-seller impressionante -, não surpreendem: Jesus foi casado com Maria Madalena, que estava grávida quando Cristo foi crucificado. Os descendentes daquela criança ainda sobrevivem e mantêm-se no anonimato protegidos pelo Priorado de Sião, que é também o guardião da verdadeira fé em Jesus e Maria Madalena, baseada na teoria do sagrado feminino. A novela portanto consiste numa corrida em demanda do Santo Graal, mas em vez de buscar o cálice da Última Ceia, procura principalmente os restos mortais de Maria Madalena.
A tese mais “polémica†do autor é sobre a tela "A Última Ceia", de Leonardo Da Vinci, afirmando que quem está sentada à direita de Jesus é Maria Madalena e não São João (provavelmente ocupado a tomar apontamentos para o que seria o seu Evangelho e sem tempo para comer).
Tudo isto estava já contado, desde os anos 70, nas obras de Gérard de Sède ou de Maurice Guinguand (em torno das questões de Gisors e de Rennes-le Château, e da filiação templária) ou, mais recentemente, 1982, em “O Sangue de Cristo e o Santo Graalâ€, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln.
Dan Brown, o autor, adverte que o livro parte de dois factos reais: a existência do Priorado do Sião, uma “sociedade secreta europeia fundada em 1099†e de que teriam feito parte figuras bem conhecidas como Newton, Botticelli, Victor Hugo, Jean Cocteau e Leonardo Da Vinci; e o Opus Dei. Toda a trama do romance vai girar em torno do combate feroz entre estas duas organizações.
Segundo Brown, todos os documentos secretos citados e as descrições de obras de artes, edifÃcios e rituais secretos são exactos. O facto de o autor falar num “monge†do Opus Dei, contudo, é por si só uma boa lição sobre a capacidade de pesquisa de Brown, que também apresenta um Papa que lança ao Tibre as cinzas dos Templários que ele exterminou, exactamente na época em que o Papado estava no desterro de Avinhão.
Talvez por isso seja preciso ter mais atenção quando o mas o autor faz afirmações sobre a História, dentro da novela, apresentando-as como factos consumados e amplamente aceites. Vale a pena olhar para um mapa ou para um manual de História, para conferir.
São João e os apócrifos
O autor do “Código Da Vinci†olha para os textos bÃblicos como se fossem relatos jornalÃsticos, numa interpretação literalista que caiu em desuso há muitos anos.
“Surge no livro o problema da Ceia, que no Evangelho de São João não é, claramente, uma Ceia Pascal. O evangelista apresenta Jesus como o Cordeiro Pascal e este é um texto carregado de simbolismos de ordem teológica, retratando uma Ceia de adeusâ€, afirma o Pe. Joaquim Carreira das Neves, especialista em Sagrada Escritura.
Dan Brown utiliza ainda dados dos Evangelhos chamados “apócrifosâ€, considerados na obra como anteriores aos “canónicos†(Marcos, Mateus, Lucas e João), para partir à procura de uma imagem “original†de Jesus (profeta, humano, mas não Deus), facto que não constitui uma novidade na história da Igreja Católica.
O Pe. Carreira das Neves explica que a análise aos textos evangélicos “procura sempre o chamado Evangelho fundamentalâ€.
“Mesmo na Igreja primitiva existia a ideia de que teria existido uma fonte comum aos Evangelhos e cada um procurava o Evangelho primitivo. Apesar de não se ter descoberto nada de semelhante, os nossos Evangelhos mostram que há ali várias compilações, como as sentenças da Quelle que aparecem em Mateus e Lucasâ€, refere à Agência ECCLESIA.
Esta constatação não significa, contudo, que todos os dados apresentados no “Código Da Vinci†tenham o mesmo valor. “Uma vez que a vida de Jesus tem muitos espaços em branco, eles vieram a ser preenchidos pelos apócrifos e o nosso leitor de hoje que anda à procura desses dados lê com agrado histórias mais ou menos fantasiosasâ€, afirma Carreira das Neves.
Os estudos bÃblicos, que evoluÃram significativamente desde o séc. XIX, não deixam margens para dúvidas sobre a datação dos “apócrifosâ€, sobretudo os de origem gnóstica, nascidos depois do ano 150 e após a redacção dos Evangelhos Canónicos, que decorreu entre os anos 70-100.
Mulheres e interpretações teológicas
O papel das mulheres na construção da Igreja primitiva é outro dos destaques do “Código Da Vinciâ€. Para o Pe. Carreira, é importante lembrar que “Maria Madalena e as mulheres tinham uma certa importância na comunidade primitivaâ€.
“Algumas correntes da Igreja primitiva davam muito valor à questão da iniciação dos escolhidos, sobretudo nos escritos gnósticos, e aà Madalena era a mais iniciadaâ€, acrescenta. Nos apócrifos “O Evangelho de Filipe†e “O Evangelho de Mariaâ€, Madalena é apresentada como sendo maior do que Pedro e os outros apóstolos, ideia que inspirou Dan Brown.
A Igreja Católica acabou por seguir uma posição oficial diferente desta linha gnóstica e os apócrifos acabaram por não ter qualquer importância na vida das comunidades.
O valor teológico do “Código Da Vinci†é para o Pe. Carreira das Neves “nuloâ€.
“O autor diz claramente que isto é um romance, como fez o Saramago, mas não deixa de afirmar que vem dar a última palavra sobre o um mistério nunca antes revelado, o do Santo Graal. Apesar dessa intenção, limita-se a ser um romance policialâ€, assegura.
“O problema é muito simples: os Evangelhos canónicos são prioritários, cronologicamente, em relação aos apócrifos, ao contrário do que Brown afirma. Estamos na presença de uma pura fantasia, que não resiste a um estudo sérioâ€, acrescenta.
Fonte Ecclesia
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