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BENDADA: UMA ALDEIA POUCO CATÓLICA
2003-04-30 23:26:31

Os cristãos de Bendada andam divididos há quatro anos por causa do pároco. Não falam uns com os outros, frequentam cafés diferentes e praticam a fé em separado e como podem e alguns fazem-no através de um televisor instalado numa capela. E tudo começou por causa de uma antena.

As celebrações e festividades religiosas em Bendada, no Sabugal, não têm hoje o significado de outros tempos, quando a paz e a harmonia reinavam na aldeia. Devido a um conflito surgido há cerca de quatro anos, e que envolve o padre Manuel Janela, os populares dividiram-se e o mal-estar é agora o dia-a-

dia da localidade.

A tensão tornou-se praticamente incontrolável e chegou ao ponto dos defensores e opositores do padre se envolverem em confrontos físicos. Hoje, quem é solicitado a comentar a situação fá-lo, apenas, sob anonimato porque tem “medo†de possíveis represálias.

A freguesia, onde vivem 400 pessoas, está dividida em dois grupos. As pessoas não se falam, frequentam cafés diferentes e praticam a fé em separado. Uns defendem Manuel Janela e os outros estão contra ele, e ambas as partes envolvidas dizem estar em maioria.

Na aldeia beirã, o ambiente é “de cortar à facaâ€, como mostram os graffitis contra o padre: “padre ruaâ€, “padre lixoâ€, “padre ladrão rua†e “padre vampiro ruaâ€. Estas frases estão pintadas em locais de grande visibilidade, como no alcatrão da estrada, nos caixotes do lixo, em paredes e muros. Uma situação que já sentou dois habitantes no banco dos réus, acusados pelo pároco dos crimes de difamação e injúria, porque foram apanhados em flagrante delito a escrever algumas das tão faladas mensagens.

Os fiéis que continuam no “rebanho†do sacerdote assistem à celebração da missa dominical nas capelas anexas da freguesia e os que exigem o seu afastamento reúnem-se na Capela de São Sebastião onde, todos os domingos, assistem à missa pela televisão.

MISSA GRAVADA

“Um senhor grava, em vídeo, a missa do canal da RTP todos os domingos e depois, às 13h30, vemos a cassete na televisão que colocámos em cima do altar, no local onde devia estar o padreâ€, esclareceu uma habitante, sob anonimato.

Os populares que “não podem encarar o padre†lembram que tudo começou “há quatro anos por causa de uma antena da Optimus, que era para ser colocada num monte junto à capela da Senhora do Castelo, no ponto mais alto da freguesiaâ€. “Nessa altura, o padre e um grupo de pessoas que estavam contra a sua instalação apresentaram o caso ao Instituto do Património Arqueológico da Covilhã, considerando que no local se encontravam vestígios arqueológicos.â€

A antena que deu origem à “guerra†esteve para ser colocada noutro sítio mas, conta uma moradora, “mais tarde, os arqueólogos disseram que, afinal, não havia nada de importante no cimo da serraâ€. Foi instalada mas num local afastado do inicialmente previsto.

“A freguesia passou a ganhar 1500 euros por ano, mas ninguém perdoou o que aconteceu. Ao contrário do previsto, não foi posta luz na capela da Senhora do Castelo. Foi uma vitória do povo e o padre nunca a ‘engoliu’â€, dizem os contestatários de Manuel Janela.

A divisão instalou-se na freguesia e as situações de conflito agudizaram-se, causando confrontos físicos entre elementos das duas facções rivais e vários processos no Tribunal do Sabugal.

Um habitante, que contou os casos entregues à Justiça, afirma que entre arguidos e testemunhas, os vários processos levantados pelo sacerdote “já envolveram pelo menos 73 pessoas, só da Bendadaâ€. “Oitenta por cento da população está contra ele e qualquer dia toda a gente passa pelo Tribunal.â€

BISPO CRITICADO

Os opositores do pároco afirmam que “não se compreende que o Bispo ainda não tenha tomado uma decisãoâ€. “Nas outras terras, os padres são substituídos ao mínimo problema mas aqui não, porque será? O senhor Bispo está a tentar castigar o povo da Bendada. Os problemas já se arrastam há quatro anos e nunca fez nadaâ€, desabafam.

Os opositores do sacerdote também criticam o presidente da Junta de Freguesia por “deixar fugir†negócios relacionados com a instalação de uma outra antena, da TMN, e um parque eólico. “Dizem que a TMN estava interessada em dar três mil euros e que da energia eólica pagariam 7500 euros por ano. O que verificamos é que se trata de uma riqueza que não é aproveitadaâ€, referiu uma moradora.

Quanto à posição do padre Manuel Janela sobre este problema, a sua empregada respondeu ao Domingo Magazine que “o senhor padre não quer falar com nenhum jornalista, seja ele quem forâ€, e minimizou o conflito.

Alguns opositores ao padre deslocaram-se duas vezes à Diocese da Guarda para pedirem a substituição do sacerdote mas, até agora, não viram satisfeita a sua pretensão. O vigário-geral da Diocese apenas referiu que o assunto da Bendada “está a ser acompanhadoâ€. N

ELE É UM SANTO

Os apoiantes de Manuel Janela são cáusticos quanto ao conflito. Uma mulher de 80 anos responde de imediato: “Não estou de nenhum lado, nem quero saber de tal m. â€. Esta paroquiana considera que o padre “nunca fez mal a ninguémâ€. “É uma vergonha o que andam a fazerâ€, desabafa, acrescentando: “Ele aqui nunca mais disse missa e aos domingos temos que ir assistir às celebrações nas Quintas de Santo António e nos Trigais. Mas só lá vai quem tem carroâ€.

Inconformada, a mesma paroquiana diz que todo o caso “é uma vergonhaâ€. “Dizem que isto começou com a antena, mas não foi. Nunca pensei que houvesse uma coisa destas na minha terra: estar a igreja fechada e com o Santíssimo Sacramento encerrado no seu interior. O senhor Bispo deveria pôr mão nisto porque o senhor padre não faz mal a ninguém.â€

Outra mulher justifica porque está ao lado de Manuel Janela: “Então não havia de ser a favor! Ele nunca fez mal a ninguém. Só é contra quem é doidoâ€.

Maria da Conceição, de 85 anos, mostra-se revoltada com o que se está a passar. “Estamos sem missa por causa deles (opositores). Este homem é um santo, não lhe devo favores mas é uma alma caridosa, não merecia que lhe fizessem isto. Estou a seu lado porque vejo quem tem razão. Por causa disto, até já me partiram o telhado com pedradasâ€.

JUNTOS SÓ NO CEMITÉRIO

Há quatro anos que os cristãos da aldeia de Bendada, na sua maioria pessoas idosas, não participam em festividades e celebrações religiosas, apenas com uma excepção: os funerais. No Natal, na Páscoa e na Festa de Nossa Senhora do Castelo – a padroeira da aldeia –, não se realiza qualquer cerimónia na Igreja Matriz, pelo que os paroquianos vão à missa nas aldeias vizinhas, onde celebra o padre Manuel Janela, ou limitam-se a assistir à missa gravada na televisão.

A última celebração na Igreja Matriz ocorreu no Natal de 2000 e acabou à facada e com quatro feridos. No final da Missa do Galo, as partes em conflito envolveram-se em agressões físicas e a igreja nunca mais foi aberta, a não ser para funerais, mas até já houve um cortejo fúnebre sem a presença de padre. Para alguns populares, “a Páscoa e o Natal não voltaram a ser como eramâ€.

Apesar da situação, “a fé ninguém a perdeuâ€. “O povo tem fé, só queremos outro padre para praticarmos a nossa religião e o Bispo da Guarda não nos ouveâ€, adiantam. “Este homem (padre) pode estar cá muitos anos, mas se eu morrer hoje, ele não me faz o funeralâ€, garantiu uma moradora, de 71 anos, acrescentando: “Já se fez cá um funeral sem padreâ€.

Fonte CM

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