Daniel 7
II. APOCALIPSE DE DANIEL<br>(7,1-12,13)
Primeira visão: as quatro feras (Ap 13,1-18)
1 *No primeiro ano do reinado de Baltasar, rei da Babilónia, estando Daniel na cama, teve um sonho e visões. Consignou por escrito este sonho e o essencial dos factos.2 *Assim se exprimiu Daniel: «Considerava eu, na minha visão nocturna, os quatro ventos do céu precipitarem-se sobre o grande mar. 3 *Surgiram do mar quatro grandes animais, diferentes uns dos outros.
4 *O primeiro era semelhante a um leão, mas tinha asas de águia. Enquanto o contemplava, foram-lhe arrancadas as asas. Levantavam-no da terra e endireitavam-no sobre os pés como um homem. Depois, deram-lhe um coração de homem.
5 *Em seguida, apareceu um segundo animal semelhante a um urso; erguia-se sobre um dos lados e segurava na goela, entre os dentes, três costelas. Diziam-lhe: 'Vamos! Devora muita carne!'
6 *Depois disto, vi um terceiro animal parecido com uma pantera, que tinha sobre o dorso quatro asas de ave e também quatro cabeças. Foi-lhe entregue a soberania.
7 *Enfim, quando contemplava estas visões nocturnas, divisei um quarto animal, horroroso, aterrador, e de uma força excepcional. Tinha enormes dentes de ferro; devorava, depois fazia em pedaços e o resto calcava-o aos pés. Era diferente dos animais anteriores, pois tinha dez chifres.
8 *Quando eu contemplava os chifres, eis que surgiu do meio deles um outro chifre mais pequeno. Para dar lugar a este chifre, três dos primeiros foram arrancados. Este chifre tinha olhos como um homem e uma boca que proferia palavras arrogantes.»
O Ancião e o filho de homem
9 *«Continuava eu a olhar, até que foram preparados uns tronos, e um Ancião sentou-se. Branco como a neve era o seu vestuário, e os cabelos da cabeça eram como de lã pura; o trono era feito de chamas, com rodas de fogo flamejante. 10 *Corria um rio de fogo que jorrava da parte da frente dele. Mil milhares o serviam, dez mil miríades lhe assistiam.O tribunal reuniu-se em sessão e foram abertos os livros. 11 *Eu olhava. Por causa do ruído das palavras arrogantes que o chifre proferia, esse animal foi morto e o seu corpo desfeito e atirado às chamas do fogo. 12 Quanto aos outros animais, também lhes foi tirado o poderio; no entanto, a duração da sua vida foi-lhes fixada a um tempo e uma data.
13 *Contemplando sempre a visão nocturna, vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. 14 *Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído.»
Interpretação da primeira visão
15 Perante semelhantes visões, eu, Daniel, senti-me esmagado, com o espírito perturbado. 16 Aproximei-me de um dos assistentes e interroguei-o sobre a realidade de tudo aquilo. Respondeu-me e deu-me a explicação: 17 «Estes portentosos animais, que são em número de quatro, são quatro reis que se levantarão da terra. 18 *Os santos do Altíssimo são os que hão-de receber a realeza e guardá-la por toda a eternidade.»19 Quis, então, conhecer exactamente o que se referia ao quarto animal, diferente dos outros, excessivamente aterrador, cujos dentes eram de ferro e as garras de bronze, que devorava, depois desfazia em pedaços e o que restava calcava-o aos pés. 20 Desejei ser esclarecido acerca dos dez chifres que tinha na cabeça, bem como daquele outro chifre que tinha despontado e diante do qual três chifres tinham caído. É que esse chifre tinha olhos e uma boca que proferia palavras arrogantes e parecia maior que os seus companheiros. 21 Tinha visto este chifre fazer guerra aos santos e levar vantagem sobre eles. 22 Mas o Ancião, quando veio, fez justiça aos santos do Altíssimo. A hora deles era aquela e obtiveram a posse do reino.
23 *Respondeu-me assim: «O quarto animal será um quarto reino terrestre, que será diferente de todos os reinos, devorará o mundo, o calcará e o reduzirá a pó. 24 Os dez chifres designam dez reis, que surgirão neste reino, mas após estes surgirá um outro, diferente dos anteriores, o qual vencerá três reis. 25 *Proferirá insultos contra o Altíssimo, perseguirá os santos do Altíssimo. Pensará em mudar os tempos sagrados e a religião. Os santos viverão sob a sua alçada, apenas durante um determinado espaço de tempo. 26 Mas o julgamento continuará e tirar-lhe-ão o domínio, para o suprimir e aniquilar definitivamente. 27 A realeza, o império e a grandeza de todos os reinos, situados sob os céus, serão então devolvidos ao povo dos santos do Altíssimo. O seu reino é eterno e todas as soberanias lhe prestarão preito de obediência.»
28 Aqui findou o relato. Quanto a mim, Daniel, os meus pensamentos perturbaram-me a tal ponto que mudei de cor. Todavia, conservava tudo isto no meu coração.
Notas
- 7, 1
- Os cap. 7-12 formam o corpo apocalíptico do livro de Daniel. Cada cap. constitui uma unidade distinta dentro do conjunto apocalíptico. A sua redacção é do pós-exílio (184-68 a.C.). A finalidade histórica funde-se com a teológica: a derrota do rei pagão e a implantação futura do reino de Deus e do seu povo santo.
- 2
- O grande mar, ou Oceano primordial, simbolizava o mal e o paganismo (Jb 7,12; Is 27,1; 51,9-10).
- 3
- Esses animais simbolizavam os quatro reinos, referidos no cap. 2. Ver Ap 13,1.
- 4
- O leão representava o império babilónico; ao serem-lhe arrancadas as asas, perdeu a força. O Apocalipse de João (cap. 13) aplica este texto ao império romano.
- 5
- O urso simboliza o império dos Medos. As três costelas representam as três principais conquistas dos reis Medos.
- 6
- A pantera representa a monarquia persa, cujos quatro reis (Ciro, Assuero, Artaxerxes, Dario), a que se refere Daniel, são simbolizados pelas quatro asas. Ver Hab 1,8; Ap 13,2.
- 7
- Segundo a mentalidade bíblica e oriental, o chifre simboliza o poder (Ex 19,19 nota; 1 Rs 22,11; Zc 2,1-4 nota).
- 8
- O chifre mais pequeno refere-se a Antíoco IV Epifânio (175-163 a.C.). Sobre a sua atitude arrogante, ver 11,36; 1 Mac 1,24. Olhos como um homem. O termo homem está em contraste com Deus. Ver 11,20; 1 Rs 2,3; Ap 13,5.
- 9
- O Ancião é Deus. A cor branca e as rodas de fogo que transportam o trono simbolizam a santidade de Deus. Deus senta-se no tribunal para julgar (condenar) os quatro impérios. Estas imagens acentuam a transcendência de Deus (Ez 1), em conformidade com a espiritualidade judaica do pós-exílio. Ver Ap 1,14 nota; 20,4.
- 10
- Sobre os livros da vida, ver Sl 139,16; Ml 3,16; Ap 17,8 nota; 20,12-13 nota.
- 11
- Ver Ap 19,20; 20,10.
- 13
- O filho de homem está descrito em contraste com os quatro animais: Ele vem das nuvens (de Deus) e os animais vêm do poder do mal (o mar). O filho de homem representa o reino messiânico (v.18.22). É o seu chefe e o seu modelo (ver os apócrifos Henoc 37-71; 2 Esd 13). Jesus aplicou a si mesmo esta figura (Mc 14,53-65 nota; Lc 5,24 nota). Ver Ez 2,1 nota; Mt 8,19-24 nota; 24,30; 26,64; Lc 22,69-70 nota; Act 7,56 nota; Ap 1,7; 14,14).
- 14
- Ver 2,44; 4,31; Sl 145,13.
- 18
- Os santos do Altíssimo rodeiam o Ancião e condenam os quatro reinos, juntamente com o Juiz Supremo. Esta maneira de pensar é própria dos Apocalipses da época (Henoc 45,3; 90,2) e faz parte da mensagem cristã (Mt 19,28; Lc 22,30; Ap 3,21; 20,4).
- 23-25
- O quarto animal é o reino de Alexandre. O último rei a levantar-se e a fazer guerra é Antíoco IV, que trabalhou para acabar com a Lei e com as suas festas sagradas, incluindo o Sábado (1 Mac 1,41-64).
- 25
- Apenas durante um determinado espaço de tempo. Lit., "um ano, dois anos e metade de um ano". Estes três anos e meio são metade de sete, que é o número da perfeição; simbolizam, por isso, um período curto e de maldade (8,14; 9,27; 11,36; 12,7 nota; Ap 12,6-14 nota).
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.