Saltar para o conteúdo
25 Domingo, 25 de outubro Outubro de 2026 Domingo XXX do Tempo Comum

Música de fundo

Música da capela Em pausa

Daniel

Daniel 4

1 *«Eu, Nabucodonosor, vivia tranquilo em minha casa e cheio de êxito no meu palácio. 2 Tive um sonho que me apavorou; na cama sofri horrores e as visões perturbaram-me.
3 Dei ordem para que fizessem vir à minha presença todos os sábios da Babilónia, a fim de me darem a interpretação do sonho. 4 Vieram, então, os escribas, os magos, os caldeus e os feiticeiros, a quem narrei este sonho, mas não me souberam indicar o seu sentido.
5 *Por último, apresentou-se diante de mim Daniel, apelidado Beltechaçar - conforme o nome do meu deus - e nele reside o espírito do Deus santo. Contei-lhe o sonho e disse-lhe: 6 'Beltechaçar, chefe dos magos, sei que reside em ti o espírito do Deus santo e que nenhum mistério te embaraça. Dá-me a interpretação do sonho que tive.'
7 *Foram assim, no meu leito, as visões do meu espírito: vi, no meio da terra, uma árvore muito alta. 8 *Esta árvore cresceu e tornou-se vigorosa. O cimo tocava no céu; avistava-se desde os confins de toda a terra. 9 *A sua folhagem era bela e os frutos abundantes; a todos forneciam alimentos. À sombra dela, abrigavam-se os animais do campo; nos ramos moravam as aves do céu, e toda a criatura tirava dela a sua subsistência.
10 *Nas visões do meu espírito, contemplei um Vigilante. Era como um santo que descia do céu 11 e se pôs a gritar com uma voz forte: 'Derrubai a árvore, cortai-lhe os ramos; fazei-lhe cair as folhas e atirai para longe os seus frutos. Que os animais fujam de debaixo dela e que as aves deixem a sua ramagem. 12 *Contudo, deixai ficar na terra o tronco e suas raízes, mas ligados com cadeias de ferro e de bronze. Que o tronco seja molhado pelo orvalho do céu e que tenha o seu quinhão de erva com os animais da terra. 13 *Que se lhe mude o coração; que, em vez de um coração humano, lhe seja dado um coração de animal e que sete tempos passem por ele. 14 *Esta sentença é um decreto dos Vigilantes, esta resolução é uma ordem dos santos, a fim de que os vivos saibam que o Altíssimo domina sobre a realeza dos homens, e que Ele a dá a quem lhe apraz e a ela pode elevar o mais humilde dos mortais.'
15 *Tal foi o sonho que eu, rei Nabucodonosor, tive. Tu, Beltechaçar, dá-me a interpretação dele, porque nenhum dos sábios do meu reino é capaz de o fazer. Mas, quanto a ti, tu podes, porque em ti reside o espírito do Deus santo.»

Daniel interpreta o sonho

16 Então Daniel, chamado Beltechaçar, ficou aterrorizado, por instantes, e perturbado com os seus pensamentos. O rei recomeçou: «Beltechaçar, que este sonho e o significado dele não te perturbem!» Beltechaçar respondeu: «Meu senhor, que o sonho seja para os teus inimigos e a sua interpretação para os teus adversários!
17 A árvore que viste crescer e adornar-se, cujo cimo tocava o céu e que se avistava do extremo da terra, 18 essa árvore de bela folhagem, de frutos abundantes, que a todos dava de comer, debaixo da qual se acolhiam os animais do campo e em cuja folhagem se abrigavam as aves do céu, 19 essa árvore és tu, ó rei, que te tornaste grande e poderoso, crescendo sempre até atingires os astros e exercendo o teu império até aos extremos da terra.
20 *E o rei viu descer do céu o santo Vigilante que gritava: 'Abatei a árvore, cortai-lhe os ramos, mas deixai na terra o tronco das suas raízes, ainda que ligado com cadeias de ferro e de bronze, no meio da erva dos campos; que seja molhado pelo orvalho do céu e que viva com os animais do campo até que sobre ele tenham passado sete tempos'. 21 Eis o que significa: trata-se, ó rei, de um decreto do Altíssimo que vai atingir o rei, meu senhor: 22 Expulsar-te-ão de entre os homens e far-te-ão habitar com os animais dos campos; pastarás erva como os bois e serás molhado pelo orvalho do céu. Sete tempos passarão sobre ti, até que reconheças que o Altíssimo domina sobre a realeza dos homens e que Ele a dá a quem lhe apraz. 23 *Se se ordenou deixar intacto o tronco das raízes da árvore, é que a realeza te será confirmada, conquanto tenhas reconhecido a soberania do Céu.
24 Cuida, pois, ó rei, de aceitar o meu conselho: redime o teu pecado pela justiça, e as tuas iniquidades, pela piedade para com os infelizes; talvez isto consiga prolongar a tua prosperidade.»

Realização do sonho

25 Tudo isto aconteceu ao rei Nabucodonosor. 26 Doze meses mais tarde, o rei, quando passeava no palácio real da Babilónia, 27 *fazia esta reflexão: «Eis Babilónia-a-Grande, que eu edifiquei para residência real, pelo poder da minha força e para glória da minha majestade!»
28 Falava ainda, quando uma voz veio do Céu: «É-te anunciado, ó rei Nabucodonosor, que o reino te vai ser tirado. 29 Vão expulsar-te do meio dos homens, para te levarem a viver entre os animais dos campos; comerás erva como os bois. Sete tempos passarão sobre ti, até que reconheças que o Altíssimo domina sobre a realeza dos homens e que a dá a quem bem lhe apraz.»
30 No mesmo instante se cumpria o oráculo pronunciado sobre Nabucodonosor: foi afastado de entre os homens e pastava erva como os bois; o seu corpo foi ensopado pelo orvalho do céu, os cabelos cresceram-lhe como as plumas à águia, e as unhas como as unhas das aves.
31 «Ao fim dos dias marcados, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu. A faculdade da razão voltou-me e bendisse o Altíssimo; louvava e glorificava aquele que vive eternamente, cujo domínio é eterno e cujo reino perdura, de geração em geração. 32 Diante dele nenhum habitante da terra conta; age conforme lhe apraz, tanto para a milícia celeste como para com os habitantes da terra. Ninguém pode agarrar-lhe a mão e dizer-lhe: 'Que fazes?'
33 Naquela mesma altura, a razão foi-me restituída e, com a glória da minha realeza, também a minha majestade e esplendor. Os meus conselheiros e os meus grandes vieram procurar-me; fui estabelecido na chefia do reino e o meu poder cresceu extraordinariamente. 34 *Eu, Nabucodonosor, agora louvo, exalto e glorifico o rei dos céus, cujas obras são todas justas e cujos caminhos são rectos e que tem poder para humilhar os orgulhosos.»

Notas

4, 1-34
A história é semelhante à do cap. 2: só Daniel é capaz de descobrir o sonho do rei. Agora não se trata de descobrir o sentido do futuro, mas de apresentar o trágico destino do rei, que durante 7 anos viverá demente. No v.34 está a moral da história: Deus humilha os soberbos, porque só a Ele pertence a glória. O texto grego deste cap. 4 é um pouco mais extenso que o do texto hebraico. Ver 1 Sm 2,1-10 nota; Sl 18,28; Lc 1,46 nota.
5
Beltechaçar (Balatsu-usur), "deus protege a sua vida". Poderia referir-se ao deus Bel, que era deus dos caldeus.
7-9
Esta alegoria da árvore é muito parecida com a do cedro, de Ez 31, contra o rei do Egipto.
8
Ver Gn 11,4.
9
O versículo fornece-nos um tema do paraíso, como em Ez 31,8-9. Nabucodonosor julgava-se um deus, a dar a vida a toda a humanidade (Ez 17,22-24; Mt 13,31-32 nota).
10
Vigilante, lit. "um vigilante e um santo". Vigilante, ou sentinela, é um anjo de Deus. Este nome (ir) é muito usado nos apócrifos e em Qumrân. A noção de anjos-sentinelas poderá ter influência persa (Is 52,8; 62,6; Zc 4,1-2).
12
Não se trata da árvore, mas do homem, de que ela é símbolo.
13
Sete tempos. Sete anos, meses ou semanas: qualquer período de tempo que inclua o número sete, o qual, entre os hebreus ou babilónios, tinha carácter sagrado e representava uma totalidade. Ver Gn 33,3 nota; Ex 23,10-11 nota.
14
Os anjos são considerados como membros do conselho privado de Deus (Jb 1,6-12.6 nota; 2,1-6; 36,7; Sl 29,1 nota; 89,7-8; Jr 27,5.
15
Espírito do Deus santo, lit., "dos deuses santos".
20-22
A história não documenta qualquer doença mental deste rei. Trata-se de uma transferência de pessoas, já que o último rei de Babilónia, Nabónido, sofreu de doença mental. Um manuscrito de Qumrân contém a Oração de Nabónido, na qual o rei se viu obrigado a manter-se longe da sociedade humana, durante sete anos, por castigo divino. Depois, Deus enviou-lhe um judeu que o obrigou a confessar os seus pecados. O rei abandonou os ídolos e glorificou o Deus verdadeiro.
23
Soberania do Céu. No judaísmo tardio, para evitar o nome sacrossanto de Deus, utilizava-se, entre outras expressões, a de "Céu" (ver Evangelho de Mt).
27
Na Bíblia, a cidade da Babilónia ficou como o símbolo do orgulho humano (Is 13,1-22 nota). A ela se opõe a Jerusalém celeste, cidade de Deus (Ap 14,8 nota; 21,16-27).
34
Ver Dt 32,4.

Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.