Juízes 9
Abimélec: crimes para reinar (2 Rs 10,1-14)
1 *Abimélec, filho de Jerubaal, foi a Siquém ao encontro dos irmãos de sua mãe para lhes falar, bem como a toda a família da casa paterna de sua mãe, e disse-lhes: 2 *«Peço-vos que faleis a todos os senhores de Siquém. Que será melhor para vós: governarem sobre vós setenta homens, todos filhos de Jerubaal, ou governar sobre vós um único homem? Lembrai-vos de que eu mesmo sou dos vossos ossos e da vossa carne!»3 Os irmãos de sua mãe disseram todas estas palavras acerca dele a todos os grandes proprietários de Siquém, e o coração deles inclinou-se para Abimélec, pois diziam: «Ele é nosso irmão!» 4 Então deram-lhe setenta siclos de prata, do templo de Baal-Berit, com os quais Abimélec assalariou homens sem eira nem beira, aventureiros que seguiram atrás dele. 5 *Depois, entrou em casa de seu pai, em Ofra, e matou violentamente os seus irmãos, filhos de Jerubaal, setenta homens, sobre a mesma pedra. Escapou apenas Jotam, filho mais novo de Jerubaal, porque se havia escondido. 6 Juntaram-se, então, todos os senhores de Siquém e toda a casa de Milo, e foram proclamar rei Abimélec, junto do terebinto do monumento que está em Siquém.
Apólogo de Jotam
7 *Isto foi comunicado a Jotam. E ele foi colocar-se no cimo do monte Garizim; ergueu a voz e gritou; depois, disse-lhes: «Ouvi-me, senhores de Siquém, e que Deus vos oiça! 8 As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei para si próprias. Disseram, então, à oliveira: 'Reina sobre nós.' 9 *Disse-lhes a oliveira: 'Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar por cima das árvores?' 10 As árvores disseram, depois, à figueira: 'Vem tu, então, reinar sobre nós.' 11 Disse-lhes a figueira: 'Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as árvores?' 12 Disseram, então, as árvores à videira: 'Vem tu reinar sobre nós.' 13 *Disse-lhes a videira: 'Irei eu renunciar ao meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as árvores?' 14 Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: 'Vem tu, reina tu sobre nós.' 15 Disse o espinheiro às árvores: 'Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde, abrigai-vos à minha sombra; mas, se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há-de devorar os cedros do Líbano!'16 Agora, pois, se agistes com boa intenção e com integridade em proclamar Abimélec como rei, se procedestes bem para com Jerubaal e para com a sua casa, se agistes para com ele segundo o mérito das suas acções, 17 enquanto meu pai combateu por vós, expôs a sua vida, livrou-vos das mãos de Madian, 18 vós, hoje, levantastes-vos contra a casa de meu pai; vós matastes seus filhos, setenta homens, sobre uma só pedra, e proclamastes vosso rei Abimélec, o filho da sua serva sobre os senhores de Siquém, por ele ser vosso irmão; 19 se, pois, agistes de boa mente e com integridade para com Jerubaal e para com a sua casa neste dia, encontrai a vossa alegria em Abimélec, e que ele encontre a sua em vós. 20 Se, porém, não é assim, um fogo sairá de Abimélec e há-de devorar os senhores de Siquém e de Bet-Milo e há-de devorar Abimélec.»
Revolta contra Abimélec
21 *Jotam fugiu e desapareceu, indo para Beer, e habitou lá, longe da vista de Abimélec, seu irmão. 22 Reinou Abimélec sobre Israel durante três anos.23 Deus colocou um espírito mau entre Abimélec e os senhores de Siquém; os senhores de Siquém tornaram-se infiéis a Abimélec. 24 De facto, urgia que a violência cometida contra os setenta filhos de Jerubaal fosse vingada e que seu sangue caísse sobre Abimélec, seu irmão, que os matara violentamente, e sobre os senhores de Siquém, que lhe fortaleceram os braços para assassinar seus irmãos.
25 *Os senhores de Siquém colocaram-lhe ciladas no alto dos montes e despojavam todo o que passava junto deles pelo caminho; tudo isto foi comunicado a Abimélec.
26 Ora Gaal, filho de Ébed, passou por Siquém com seus irmãos; os senhores de Siquém puseram nele a sua confiança. 27 Saíram para os campos a vindimar as suas vinhas, pisaram as uvas e organizaram festejos de regozijo. Entraram no templo do seu deus, comeram, beberam e amaldiçoaram Abimélec. 28 *Gaal, filho de Ébed, disse: «Quem é Abimélec em Siquém para lhe prestarmos obediência? O filho de Jerubaal e de Zebul, seu lugar-tenente, não prestavam vassalagem aos homens de Hamor, pai de Siquém? Por que razão, pois, havemos nós de servi-lo? 29 Ai, se me confiassem esse povo em minhas mãos, como eu havia de escorraçar Abimélec! Eu diria, então, a Abimélec: 'Junta o teu exército e sai!'»
30 Zebul, governador da cidade, escutou as palavras de Gaal, filho de Ébed, e encheu-se de cólera. 31 Enviou mensageiros a Abimélec, que estava em Aruma, para lhe dizer: «Eis que Gaal, filho de Ébed, e seus irmãos chegaram a Siquém; e estão a sublevar a cidade contra ti. 32 Portanto, levanta-te de noite, tu e os homens que estão contigo, e montai uma emboscada no campo. 33 Amanhã muito cedo, ao nascer do Sol, partirás e farás um ataque contra a cidade. Quando Gaal e todos os homens que estão com ele saírem ao teu encontro, faz-lhes quanto puderem as tuas mãos!»
Vitória de Siquém
34 Abimélec levantou-se pela noite, com todos os homens que estavam com ele e puseram-se de emboscada junto de Siquém, em quatro pontos estratégicos. 35 Gaal, filho de Ébed, saiu e foi colocar-se à entrada da porta da cidade. Foi então que Abimélec e os que estavam com ele surgiram da emboscada. 36 Gaal viu a multidão e disse a Zebul: «Eis uma horda que desce do alto das montanhas.» Zebul, porém, disse-lhe: «É a sombra dos montes que tu estás a tomar por homens!» 37 *Gaal retomou a palavra e disse: «Eis uma multidão que desce do lado do centro da terra e outra que vem pelo caminho do Carvalho dos Adivinhos.»38 Zebul disse-lhe, então: «Onde está a tua língua, tu que dizias: 'Quem é Abimélec, para lhe prestarmos obediência?' Não está aí essa horda que tu desprezavas? Sai, então, agora e combate contra eles.» 39 Gaal saiu à frente dos senhores de Siquém e travou combate contra Abimélec. 40 Abimélec, porém, perseguiu Gaal, que fugira diante dele; muitas vítimas tombaram até à entrada da porta. 41 *Abimélec fixou-se em Aruma, e Zebul expulsou Gaal e seus irmãos para que não pudessem morar em Siquém.
Destruição de Siquém
42 Ora, na manhã do dia seguinte, o povo saiu para o campo e comunicaram-no a Abimélec. 43 Então, ele tomou os seus homens e dividiu-os em três grupos; depois, pôs-se de emboscada no campo. Mal viu o povo sair da cidade, correu para ele e derrotou-o. 44 Abimélec e os chefes que estavam com ele irromperam e tomaram posições à entrada da porta da cidade, enquanto os outros dois grupos se lançavam sobre todos os que estavam no campo, ferindo-os. 45 *Abimélec lutou todo aquele dia contra a cidade; depois, apoderou-se dela e massacrou toda a população que lá se encontrava; destruiu a cidade e semeou-a com sal.46 *Quando o souberam, todos os senhores de Migdal-Siquém se refugiaram na gruta do templo de El-Berit. 47 Alguém comunicou a Abimélec que se tinham reunido em assembleia todos os senhores de Migdal-Siquém. 48 Então, Abimélec subiu ao monte Salmon, ele e todos os homens que estavam com ele; tomou nas suas mãos um machado e cortou um ramo de árvore; ergueu-o ao alto, e pô-lo sobre os ombros, dizendo aos homens que estavam com ele: «O que me vistes fazer, apressai-vos a fazer como eu.» 49 Todos os seus homens cortaram também um ramo cada um e seguiram atrás de Abimélec; depois, puseram-nos sobre a gruta e deitaram-lhes fogo. Morreram assim, por igual, todos os habitantes de Migdal-Siquém, cerca de mil homens e mulheres.
50 *Depois disto, Abimélec pôs-se a caminho em direcção a Tebes; montou-lhe cerco e conquistou-a. 51 Havia aí uma torre fortificada, no meio da cidade, onde se haviam refugiado todos os homens e todas as mulheres, bem como todos os senhores da cidade; fecharam as portas e subiram para o terraço da torre. 52 Abimélec chegou junto da torre, atacou-a e aproximou-se até à porta da torre, para lhe deitar fogo. 53 Então, uma mulher agarrou numa mó e lançou-a sobre Abimélec e despedaçou-lhe a cabeça. 54 *Abimélec chamou logo o seu escudeiro e disse-lhe: «Tira a tua espada e mata-me, para que não digam de mim: 'Foi uma mulher que o matou!'» Então, o escudeiro trespassou-o, e ele morreu.
55 Quando os homens de Israel viram que Abimélec estava morto, foram cada um para sua casa. 56 Deus fez cair sobre Abimélec o mal que ele havia feito a seu pai, assassinando os seus setenta irmãos. 57 Deus fez cair, também, sobre a cabeça dos senhores de Siquém toda a sua malvadez. Assim se cumpriu neles a maldição de Jotam, filho de Jerubaal.
Notas
- 9, 1
- Abimélec consegue reunir sob o seu comando o povo de Siquém, numa primeira experiência de realeza; mas resultou em fracasso. O texto opõe-se a esse tipo de opção política, oposição que a época do profetismo irá tornar mais explícita devido, sobretudo, a razões de índole teológica. Era a nostalgia frustrada da unidade nacional dos tempos de Moisés e Josué.
- 2
- Dos vossos ossos e da vossa carne. A ênfase da expressão significa um grau de parentesco muito íntimo, como entre Adão e Eva (Gn 2,23-24 nota), Jacob e Labão (Gn 29,14 nota), David e os anciãos de Judá (2 Sm 19,13-14 nota).
- 5
- Sobre a mesma pedra. Expressão idiomática. Poderá traduzir-se: "de uma só vez", ou "sobre uma única pedra". A Setenta prefere a segunda.
- 7
- O célebre "Apólogo de Jotam" destaca a oposição à realeza, de que já se falou. Trata-se do exemplo mais antigo deste tipo de texto literário na Bíblia. Na velhice de Samuel ainda vigorava essa mentalidade negativa quanto à realeza, como pode ver-se em 1 Sm 8,4-9.
- 9
- Ver Lv 2,1-16; 1 Sm 10,1; 16,13.
- 13
- Ver Pr 31,6; Sir 31,27-28.
- 21
- Beer ainda hoje existe a nordeste de Ofra, pátria de Gedeão, perto do monte Tabor. O seu nome árabe actual é El-Birch.
- 25
- O objectivo destas emboscadas era privar Abimélec dos direitos que lhe competiam pela cobrança de impostos sobre as mercadorias que passassem por Siquém.
- 28
- Os israelitas tinham concluído outrora uma aliança com Hamor, príncipe de Siquém, que os tornava vassalos dos senhores de Siquém (Gn 34,1-31).
- 37
- Centro da terra. Em Ez 38,12 encontramos a mesma referência geográfica em relação com Jerusalém. Poderia tratar-se do monte Garizim, ou mesmo de Siquém, como lugar sagrado, especialmente centro do mundo. Na antiguidade havia cidades e lugares com esta característica, além de Jerusalém: Delfos, Nipur, Roma, Meca... A Setenta traduz este termo (tabûr, que tem uma grafia diferente de Tabor) por "omphalos tés gés" e a Vulgata, por "umbilicus terrae". O monte Garizim era o lugar sagrado por excelência para as tribos do Norte (Jo 4,20); o seu santuário só foi destruído em 129 a.C. por João Hircano. Segundo a crença popular, esse monte não foi submerso pelo dilúvio (Gn 6-9). Carvalho dos Adivinhos. Ver Gn 12,6; Dt 11,30.
- 41
- Aruma. Localidade situada perto de Siquém, hoje Khirbey-el-Ormah.
- 45
- Semeou a cidade com sal. O sal é aqui símbolo de esterilidade. A expressão corresponde ao anátema e significa que toda a vida da cidade era destruída para sempre; portanto, Siquém ficaria amaldiçoada. Este episódio prepara a explicação do que vem a seguir, quando os habitantes fogem e se refugiam num lugar sagrado. Sobre a lei do anátema, ver Ex 22,19 nota; Nm 18,14 nota; Js 6,21 nota; Is 34,2 nota; Gl 1,8-9 nota.
- 46
- Migdal-Siquém, isto é, "Torre de Siquém". É assim designada, para explicar a sua natureza de lugar fortificado.
- 50
- Tebes. Localidade que corresponde à actual Toubas, alguns km a nordeste de Siquém.
- 54-55
- Este episódio é semelhante ao da morte de Saul (1 Sm 31,4).
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.