Juízes 7
Derrota dos madianitas (Dt 9,4-7)
1 *Jerubaal, isto é, Gedeão, levantou-se de manhã cedo, ele e todos os homens que estavam com ele, e acamparam junto da fonte de Harod, enquanto o acampamento dos madianitas lhes ficava mais a norte, ao lado da colina de Moré, na planície.2 O SENHOR disse a Gedeão: «São demasiado numerosos os homens que estão contigo, para que Eu entregue os madianitas em suas mãos. Israel poderia gloriar-se à minha custa e dizer: 'Foi a minha mão que me salvou!' 3 *Peço-te, pois, que proclames aos ouvidos do povo o seguinte: 'Quem temer e tremer que volte para casa, e deixe a montanha de Guilead.'» Então, regressaram vinte e dois mil homens, ficando apenas dez mil.
4 O SENHOR disse a Gedeão: «Ainda são muitos homens; leva-os à fonte e lá os submeterei a uma prova. Assim, aquele de quem Eu te disser: 'Que ele vá contigo!' esse irá contigo; mas aquele de quem Eu te disser: 'Que ele não vá contigo!', esse não te seguirá.» 5 Então, Gedeão levou os homens à fonte, e o SENHOR disse-lhe: «Todo aquele que lamber a água com a língua, como o cão, põe-no de um lado; e porás do outro lado todo aquele que se puser de joelhos para beber.» 6 *Ora o número dos que beberam a água com a língua, levando-a com a mão à boca, foi de trezentos homens, e todos os restantes puseram-se de joelhos para beber a água.
7 Disse o SENHOR a Gedeão: «É com os trezentos homens que beberam a água com a língua que Eu vos salvarei e entregarei os madianitas nas tuas mãos; o resto do povo que volte para sua casa.» 8 Tomaram as provisões em suas mãos bem como as suas trombetas, e depois Gedeão mandou a multidão do povo de Israel cada um para a sua casa; reteve consigo apenas os trezentos homens. O acampamento dos madianitas ficava abaixo do seu, na planície. 9 Nessa noite, disse-lhe o SENHOR: «Levanta-te e vai atacar o acampamento, pois entreguei-o nas tuas mãos. 10 Mas, se tens medo de ir sozinho, vai com Purá, teu servo, ao acampamento. 11 Escutarás o que eles dizem; a tua coragem será robustecida, e poderás atacar o acampamento.»
Então, desceram, ele e Purá, seu servo, até aos postos avançados do acampamento que se encontrava na planície. 12 *Os madianitas, os amalecitas e todas as tribos do Oriente estendiam-se pela planície, numerosos como gafanhotos; os seus camelos nem se podiam contar, tão numerosos como grãos de areia na praia do mar. 13 *No momento em que Gedeão chegou, um homem estava a contar um sonho ao seu companheiro; dizia ele: «Acabo de ter um sonho: eis que um pão de cevada, rolando pelo acampamento dos madianitas, chegou junto da tenda, sacudiu-a violentamente provocando a sua queda.» 14 O seu companheiro respondeu, dizendo: «Isso não pode significar senão a espada de Gedeão, filho de Joás, o israelita, a quem Deus entregou Madian e todo o seu acampamento!»
15 Sucedeu então que, mal Gedeão ouviu contar o sonho e a sua interpretação, prostrou-se por terra e regressou ao acampamento de Israel e disse: «Levantai-vos, porque o SENHOR entregou nas vossas mãos o acampamento de Madian.» 16 Dividiu, então, os trezentos em três grupos; pôs uma trombeta na mão de todos eles, bem como cântaros vazios com tochas dentro deles. 17 E disse-lhes: «Olhai para mim e fazei como eu fizer; quando eu tiver chegado junto do acampamento, fazei o que eu fizer. 18 Eu e os que estão comigo tocaremos a trombeta; então, também vós tocareis as trombetas à volta de todo o acampamento, e haveis de gritar: 'Pelo SENHOR e por Gedeão!'» 19 *Gedeão e os cem homens que estavam com ele chegaram junto do acampamento ao princípio da vigília da meia-noite, quando terminava a rendição das sentinelas. Então, puseram-se a tocar as trombetas, ao mesmo tempo que quebravam os cântaros que levavam nas mãos.
Em perseguição do inimigo
20 Então, os três grupos tocaram as trombetas e quebraram os cântaros; com a mão esquerda pegaram nas tochas, e com a direita nas trombetas para tocar, e gritaram: «Espada pelo SENHOR e por Gedeão!» 21 Enquanto cada um se mantinha de pé no seu posto, à volta do acampamento, todo o acampamento se lançou a correr e a gritar, procurando, a todo o custo, por onde fugir. 22 *E enquanto soavam as trezentas trombetas, o SENHOR fez com que, em todo o acampamento, cada um levantasse a espada contra o seu companheiro; o exército fugiu até Bet-Chitá, para os lados de Serera, até à margem de Abel-Meolá, junto de Tabat.23 Então, reuniram-se os homens de Israel: da tribo de Neftali, de Aser e de toda a tribo de Manassés, e foram em perseguição dos madianitas. 24 Gedeão enviou mensageiros por toda a montanha de Efraim, dizendo: «Descei ao encontro de Madian e ocupai antes deles os vaus das águas até Bet-Bará, bem como o Jordão.»
Todos os homens de Efraim foram convocados e ocuparam os vaus das águas até Bet-Bará, bem como o Jordão. 25 Capturaram dois chefes de Madian: Oreb e Zeeb; mataram Oreb no rochedo de Oreb e Zeeb no lagar de Zeeb; depois, conduziram a perseguição até Madian, levando as cabeças de Oreb e Zeeb a Gedeão, do outro lado do Jordão.
Notas
- 7, 1
- Fonte de Harod significa "fonte do tremor". Provavelmente, trata-se da actual Ain-Djalud, junto de Guilboa, a uns 15km a oeste de Bet-Chan. Moré significa "colina do adivinho", a actual Djebel-Dahi.
- 3
- É de notar, neste versículo, a expressão enfática temer e tremer. Segundo Dt 20,8, onde há medo falta a confiança no Senhor. A presença de medrosos poderia contaminar a fé de todo o exército. Por isso, a eliminação dos medrosos assume um carácter religioso (Is 7,7-9).
- 6-8
- É difícil precisar o significado exacto desta prova; certo é que Gedeão pretendia eliminar os medrosos, pelas razões apontadas na nota anterior. Não falta quem veja nesta prova um sinal puramente convencional. Outra certeza que nos fica neste processo de depuração é a intenção de atribuir somente a Deus o êxito da campanha contra Madian. Além desta perspectiva teológica do relato, outros vêem aqui a intenção histórica de harmonizar duas tradições sobre esta campanha: uma, em que a derrota de Madian foi obra do contributo de várias tribos: Manassés, Aser, Zabulão e Neftali (v.23-24; 6,35); outra, em que tudo se ficou a dever unicamente ao clã de Abiézer (v.7.16-22; 8,2).
- 12
- A comparação com os gafanhotos assume um duplo valor semântico: o da quantidade inumerável e o da voracidade insaciável dos inimigos a vencer (Ex 10,14-15; Jr 46,23; Jl 1,4-2,11). É claro o recurso intencional do narrador à hipérbole: além dos madianitas, cujos territórios ficavam a um e a outro lado do golfo de Akabá, apresentavam-se os amalecitas, habitantes de Négueb, e ainda os povos de além-Jordão, a que o texto chama as tribos do Oriente.
- 13
- Neste sonho simbólico, a tenda simboliza os madianitas nómadas, e o pão de cevada, os israelitas sedentários. O resto do simbolismo é intuitivo. Sobre os sonhos premonitórios, ver Gn 20,3 nota; 41,1-57 nota; Sir 34,1-8 nota; Dn 2,1 nota; Mt 1,20 nota.
- 19
- Os israelitas, nesta época, costumavam dividir o tempo nocturno em três vigílias, de quatro horas cada uma: a primeira vigília, a da meia-noite e a da manhã. O acto aqui referido deve situar-se cerca das 11 horas da noite. Mais tarde, e segundo o costume romano, a noite será dividida em quatro vigílias de três horas cada uma (Ex 14,24 nota; Mc 6,48 nota; 13,35 nota).
- 22
- A vitória é obtida sem golpes nem sangue: o ruído dos cântaros que se estilhaçavam, o som das trombetas (Nm 10,9 nota; 1 Sm 4,5 nota; Is 27,12-13 nota; Jl 2,1 nota), os gritos de guerra e o clarão das tochas bastaram para incutir terror aos inimigos e semear o pânico no acampamento (Js 6,1-21; 1 Sm 14,19-20). Em vez de Serera deve preferir-se Sereda, ou Sartan (1 Rs 7,46; 11,26). Todos os lugares mencionados neste versículo situam-se na região de Bet-Chan, para onde os madianitas tentavam fugir, no intuito de atravessar o Jordão.
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.