Ester 4
Conspiração de Haman contra os judeus
1 *Depois destes acontecimentos, o rei Assuero elevou em dignidade Haman, filho de Hamedata, o agagita, e deu-lhe um lugar superior ao de todos os príncipes que o rodeavam. 2 *Todos os servos do rei que estavam à porta, dobravam o joelho e prostravam-se diante de Haman, por ordem expressa do rei; só Mardoqueu não dobrava o joelho nem se prostrava.3 Disseram-lhe os servos do rei que estavam à porta do palácio: «Porque desobedeces assim à ordem do rei?» 4 E, como lhe repetissem isto todos os dias e ele não fizesse caso, denunciaram-no a Haman, para ver se Mardoqueu persistia na sua obstinação, pois este dissera-lhes que era judeu. 5 Haman, vendo que Mardoqueu não queria dobrar o joelho nem prostrar-se diante dele, ficou furioso. 6 Mas pareceu-lhe pouco vingar-se só de Mardoqueu, pois fora informado sobre o povo a que pertencia; procurou, então, maneira de exterminar o povo de Mardoqueu, todos os judeus que habitavam no reino de Assuero.
7 *No primeiro mês, que é o mês de Nisan, no décimo segundo ano do reinado de Assuero, foi lançado o «pur», isto é, a sorte, diante de Haman, para cada dia e cada mês. Saiu o décimo segundo mês, que é o mês de Adar.
8 Então, Haman disse ao rei Assuero: «Em todas as províncias do teu reino existe um povo, disperso e separado dos outros; as suas leis são diferentes das dos outros povos, e este povo não observa as leis do rei. Não convém aos interesses do rei deixar esse povo em paz. 9 Se ao rei lhe parecer bem, dê-se ordem para os exterminar, e eu pesarei dez mil talentos de prata que passarei para as mãos dos funcionários, para que os recolham no tesouro real.»
10 *Então, o rei tirou o anel do seu dedo e entregou-o a Haman, filho de Hamedata, o agagita, inimigo dos judeus, e disse-lhe: 11 «Entrego-te esse dinheiro e também esse povo; faz dele o que quiseres.»
12 No dia treze do primeiro mês foram convocados os secretários do rei e escreveu-se, pontualmente, tudo o que Haman ordenava aos sátrapas do rei, aos governadores de cada província e aos príncipes de cada nação; a cada província, segundo a sua escrita, e a cada nação, segundo a sua língua. O édito estava assinado com o nome de Assuero e levava o selo real. 13 Expediram-se cartas, por correios, para todas as províncias reais, no sentido de destruir, matar e exterminar todos os judeus, jovens, velhos, crianças e mulheres, num só dia, no dia treze do décimo segundo mês, que é o mês de Adar, e para entregar à pilhagem os seus despojos.
Notas
- 4, 1
- Haman representa o inimigo do povo judeu, o herói negativo; este é mesmo o seu título funcional, que se repete com frequência ao longo deste livro. Provavelmente por isso, é apresentado como descendente de Agag, rei dos amalecitas, antigos inimigos dos hebreus e da tribo de Benjamim, da qual descende o seu opositor, o herói positivo, Mardoqueu (E 10; Nm 14,45; 1 Sm 15).
- 2
- Com a palavra prostravam-se, que em hebraico se usa com o sentido de adorar a Deus, o texto dá a entender que Mardoqueu se negava a proceder como os demais servidores do rei, não por simples atitude de rebeldia ou inveja, mas porque via naquelas cortesias símbolos de um culto de que só Deus era merecedor. Nesta recusa exprime-se uma sensibilidade muito própria dos judeus, que é explicitada no v.4. É esta a explicação de Mardoqueu ao revelar, no v.4, a sua identidade étnico-religiosa. Na realidade, os persas e os orientais em geral não prestavam propriamente adoração a nenhum rei ou funcionário.
- 7
- O mês de Nisan corresponde a Março-Abril e o de Adar, a Fevereiro-Março. Na Babilónia, Nisan era o mês em que os deuses distribuíam os destinos (pur) que iriam reger os humanos durante o ano seguinte. Ironicamente, o destino dos hebreus encontra-se agora nas mãos do seu inimigo, Haman (3,13). Ver CALENDÁRIO JUDAICO, p. 2117.
- 10
- Trata-se de um tipo de anel, no qual estavam gravados em relevo os símbolos com os quais o rei selava ou mandava selar os seus documentos oficiais (Gn 41,42; Jr 22,24).
Bíblia Sagrada, tradução da Difusora Bíblica.