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1 Domingo, 1 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXI do Tempo Comum

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Música da capela Em pausa

Banquete da Palavra · 13 de dezembro

A Alegria de Quem Aguarda a Aurora

Domingo III do Advento

A língua hebraica não é muito rica de sinónimos, mas apesar disso, para exprimir a alegria são utilizados na Bíblia vinte e sete vocábulos. Nas sagradas Escrituras encontramos os gritos desesperados de quem não encontra resposta para o mistério da dor, mas encontramos também – e com frequência maior – as «vozes de alegria e de louvor da multidão em festa» (Sl 42, 5) e os hinos de gratidão para com Deus: «O meu coração alegra-se com a tua salvação, cantarei ao Senhor pelo bem que Ele me fez» (Sl 13, 6).

Nos Evangelhos deparamos com pessoas de rosto entristecido: o jovem rico que não teve a coragem de se desapegar dos seus bens (Mt 19, 22), os dois discípulos a caminho de Emaús (Lc 24, 17). Nalguns momentos escurece-se também o rosto de Jesus (Mc 3, 5; Mt 26, 38). Mas é um clima de alegria o que sobressai de todas as páginas evangélicas, desde a promessa de um filho feita a Zacarias – «Será para ti motivo de regozijo e de júbilo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento» (Lc 1, 14) –, até à «grande alegria» anunciada aos pastores (Lc 2, 10-11), da alegria de Zaqueu que acolhe o Senhor na sua casa (Lc 19, 6), até à alegria irreprimível dos discípulos no dia de Páscoa (Jo 20, 20).

Há, no entanto, uma personagem que nos é difícil imaginar com um rosto sorridente: é João, filho de Zacarias, o pregador encarregado de nos preparar para o advento do Senhor. Vivia no deserto, e quando saía, parecia que o fazia apenas para meter medo, ameaçando com o fogo do céu, com machados prontos a cortar a árvore pela raiz, com castigos tremendos (Mt 3, 7-12). E, no entanto, também ele, por uma vez, se alegrou. Quando reconheceu a voz do esposo que estava para chegar, exclamou: «O amigo do esposo sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria, e tornou-se completa!» (Jo 3, 29).

A vinda de Jesus é sempre acompanhada pela alegria e nenhum rosto – nem sequer o do Baptista – pode ficar triste.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Alegremo-nos e exultemos, porque chegou o tempo das núpcias do Cordeiro.

Primeira leitura

Na primeira leitura de domingo passado ouvimos o convite angustiado do profeta anónimo que, da Babilónia, convidava o povo exilado a preparar a via do Senhor, que vinha para os libertar e reconduzir à terra de seus pais. Prometia prodígios: rios de água fresca a brotar no deserto, brados de alegria e cânticos de festa que acompanhariam o seu regresso a Jerusalém.

Passaram poucos anos e os acontecimentos políticos deram-
-lhe razão: em 538 a.C., Ciro entrou triunfante na Babilónia e emanou o édito de liberdade para todos os deportados (Esd 6, 3-5).

Confiantes nas palavras do profeta, no ano seguinte, um grupo de israelitas empreendeu o caminho de regresso. Foi uma viagem difícil, cheia de perigos, e que se concluiu com a mais desagradável das surpresas: um acolhimento frio, ou melhor, hostil, da parte dos israelitas que tinham lá ficado.

Fortes de entusiasmo e de esperança, os repatriados conseguiram superar as primeiras dificuldades, mas depois as desilusões sucederam-se, cada vez mais amargas, a um ritmo alucinante: a cidade estava indefesa e sem muralhas, as casas decadentes, os terrenos de seus pais ocupados; houve até alguns anos de seca que reduziram à indigência numerosas famílias. Os recém-chegados acabaram por se encher de dívidas e tornaram-se escravos de proprietários exploradores e sem escrúpulos. Eram então enganadoras as promessas ouvidas na Babilónia?

Nesta situação difícil eis que surge outro profeta. A leitura de hoje traz as palavras com que ele se apresenta a estes israelitas desencorajados e abatidos. Fui enviado – diz ele – para dar coragem e esperança a quem está desiludido, para sarar quem tem o coração despedaçado, para trazer uma boa notícia a quem sofre, para anunciar a liberdade aos escravos e promulgar, da parte do Senhor, um ano de graça (vv. 1-2).

Não tem armas, dinheiro ou poder político para se impor; possui apenas a palavra, é portador de uma promessa, uma promessa segura porque é formulada por Deus: chegou o ano jubilar, o ano no qual «cada um voltará à sua propriedade» (Lv 25, 10). A partir de agora ninguém se deve resignar a viver na miséria e na escravidão; chegou para os pobres o momento de levantar a cabeça e recuperar a própria dignidade.

Realizaram-se estas promessas? Houve, sem dúvida, uma ligeira melhoria, mas as injustiças, a corrupção e os vexames continuaram a acontecer.

É difícil continuar a acreditar e a esperar perante desilusões tão pungentes. Havia todas as razões para abandonar a fé, e, no entanto, o povo não perdeu a esperança, certo de que não seria traído pelo seu Senhor e certo também de que, mesmo se não imediatamente, a palavra de Deus se realizaria.

Na sinagoga de Nazaré, no início da sua vida pública, depois de ter lido as promessas confortadoras deste profeta, Jesus proclamou solenemente: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir» (Lc 4, 21). Era o anúncio de que tinha chegado o dia esperado há séculos, o dia que marcava o fim de todo o tipo de escravatura, miséria e dor.

E, no entanto, nem mesmo com Cristo se realizou plenamente a profecia, assim como não se realizara quinhentos anos antes, no tempo do regresso do exílio.

Quem não entra na óptica dos profetas é levado a pensar que eles confundem as miragens com a realidade e tomam por certezas aquilo que é apenas veleidade ou esperança. Não é assim. Os profetas tinham um olhar novo, viam o mundo de maneira diferente e sabiam descortinar, já ao despontar da aurora, o pleno esplendor do dia. Assim como os profetas, também Jesus olhava mais além e contemplava o mundo novo, já plenamente realizado, mundo esse onde «já não haverá luto nem pranto» (Ap 21, 4).

Só quem tem olhos como os seus é que não se desencoraja diante da realidade, por vezes absurda e cruel, acredita na realização das promessas de Deus e dá o seu contributo para que a semente do reino dos céus, lançada na terra de Cristo, se desenvolva e rapidamente amadureça.

Na segunda parte da leitura (vv. 10-11), o profeta entoa um canto de louvor: «Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila.» São as palavras que encontramos também na boca de Maria (Lc 1, 46).

Por que é que estes israelitas, que se encontravam no meio de aflições, atingidos por desventuras, movimentando-se no meio de tantas dificuldades, elevam a Deus um hino de louvor? Porque possuem o olhar do crente. Estão tão certos da fidelidade do seu Deus, tão seguros que Ele libertará os pobres, consolará os aflitos, curará os corações despedaçados, que vêem já realizadas as suas promessas.

O profeta toma a palavra em nome de Jerusalém e põe na boca da cidade, ainda em ruínas, o canto de alegria da esposa. Posta de lado a roupa triste da viúva, a cidade é revestida pelo Senhor com um vestido feito de tecidos preciosos: as «vestes da salvação» cobrem as feridas da violência, «um manto de justiça» tomou o lugar dos trapos já gastos das prepotências e dos vexames, «as jóias» substituíram as correntes da escravidão.

Ainda não aconteceu nada, e, no entanto, o olhar do profeta vê já, para além do horizonte limitado da mesquinhez humana. Ele convida a cultivar, até mesmo nas situações mais dramáticas, o optimismo e a esperança, com a certeza de que Deus realizará o seu projecto para o mundo.

A imagem da semente que brota e cresce até se tornar uma grande árvore conclui a visão: todos os povos hão-de contemplar Jerusalém, que se tornou um jardim onde germina e donde se difunde a justiça (v. 11).

Segunda leitura

Estamos no final da Carta aos Tessalonicenses e Paulo, antes das despedidas, introduz algumas exortações conclusivas que dizem respeito à vida comunitária.

Ele recomenda: «Vivei sempre alegres!» (v. 16). A alegria é um dos sinais característicos da presença do Espírito de Deus no coração do homem (Gl 5, 22).

É fácil confundir a alegria com o prazer: o prazer do álcool, da droga, da vida imoral. Paulo indica aos Tessalonicenses a fonte da verdadeira alegria. Ela nasce da oração: «Orai sem cessar, dai graças em todas as circunstâncias» (vv. 17-18).

A alegria é o fruto da abertura do coração aos impulsos do Espírito que enriquece a comunidade com os seus dons, e é concedida por Deus a quem leva uma vida irrepreensível (vv. 19-22).

Uma comunidade que tenha em consideração estas exortações do Apóstolo torna-se «santa» (vv. 23-24), ou seja, é completamente diferente dos outros grupos, associações e seitas. Esta santificação é obra de Deus.

Evangelho

«A luz é agradável e é um deleite para os olhos ver o Sol» (Ecl 11, 7). Estão associadas à luz ressonâncias positivas e emoções agradáveis; «ver a luz do dia» é sinónimo de nascer (Job 3, 16), «ter luz» equivale a «estar vivo» (Job 3, 20).

Este simbolismo, presente em toda a Bíblia, é retomado no Novo Testamento sobretudo pelo evangelista João. Já desde o prólogo, ele apresenta a vinda de Cristo ao mundo como o aparecer da luz: «Nele é que estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz brilhou nas trevas mas as trevas não a receberam» (Jo 1, 4-5).

Também a figura do Baptista é introduzida com a mesma imagem. Na primeira parte do trecho de hoje (vv. 6-8) ele é identificado como a pessoa mandada por Deus para dar testemunho da luz. Tem uma missão tão importante que, em apenas dois versí-culos, é referida três vezes.

Em finais do século i, quando João escreve o seu Evangelho, eram ainda muitos os que se consideravam discípulos do Baptista e o viam como modelo supremo de vida, até mesmo em oposição a Jesus. É por isso que o evangelista tem a preocupação de deixar muito clara a posição do percursor em relação a Jesus. A luz do mundo não era o Baptista, ele foi apenas a primeira pessoa a reconhecer «a luz verdadeira, que a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9). Não se deixou enganar pelas lisonjas de quem, admirado com o seu ensinamento e admirado com a sua rectidão, estava convencido de que ele fosse o Messias. Permaneceu no seu lugar, manteve-se fiel à sua missão.

O seu testemunho é proposto à nossa atenção durante o Advento. Assim como fez com os seus contemporâneos, também hoje mostra a cada um de nós a luz do mundo, Cristo: quem o segue não caminha nas trevas, mas terá a vida (Jo 8, 12). É oportuna esta sua chamada de atenção, porque o brilhar das propostas de vida enganadoras é grande e sedutor, mesmo se são clarões que rapidamente passam e se revelam morrões de morte. Só a luz de Cristo indica valores autênticos, valores sobre os quais nunca nos arrependeremos de ter orientado a vida.

Na segunda parte do trecho (vv. 19-23), é introduzida uma
comissão, composta por sacerdotes e levitas, enviada pela auto-ridade religiosa para obter do Baptista uma explicação acerca
da sua identidade e do seu comportamento. Em Jerusalém co-
meçavam a ficar preocupados com o seu prestígio crescente, devido às emoções que suscitava e às esperanças que desperta-
va com a sua pregação. Por três vezes os guias espirituais do po-
vo lhe dirigem, ansiosos, a mesma pergunta: «Quem és tu?» Acer-ca dela vão-se difundindo muitas vozes: há quem o considere
o Messias, quem o considere «o profeta» que, de acordo com
a promessa de Moisés, Deus haveria de suscitar para condu-
zir Israel (Dt 18, 1-5), há também que o considere Elias que voltou.

O Baptista é leal, não aceita identificações, honras, títulos que não lhe pertencem; declara não ser nem o Cristo, nem Elias, nem o grande profeta, diz-se simplesmente «voz» que grita no deserto: endireitai o caminho do Senhor.

É difícil imaginar algo mais transitório e caduco do que a voz; depois de comunicar a mensagem, dissolve-se sem deixar rasto. O Baptista não quer os olhares virados para ele, mas para Cristo: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» – dirá mais tarde (Jo 3, 30). Realizada a sua missão, é feliz por poder pôr-se de parte, faz de modo que não surjam equívocos, afasta-se de qualquer forma de «culto da personalidade».

Para reconhecer Cristo-luz é necessário o testemunho de alguém que, como o Baptista, tenha conseguido descobrir a sua identidade. A fé não nasce de raciocínios ou de pseudo-revelações, mas da escuta: «Como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que o anuncie? Portanto, a fé surge da pregação» (Rm 10, 14-17).

Também o Baptista percorreu um caminho de fé. Reconhece ter chegado progressivamente à descoberta de Cristo: «Eu não o conhecia», mas depois de o ter visto comecei a dar testemunho dele e a indicá-lo como o Filho de Deus (Jo 1, 29-30).

Este caminho espiritual repete-se na vida de todos os crentes: começa-se pela descoberta da verdadeira identidade de Cristo, chega-se depois à convicção de que Ele merece confiança total e por fim dá-se testemunho da própria fé, como afirmava Paulo: «Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos» (2Cor 4, 13).

Na terceira parte (vv. 26-28), encontramos antes de mais a advertência do Baptista: «No meio de vós está alguém que não conheceis.» Este desconhecimento parece inexplicável.

Há séculos que Israel aguardava o Messias, e, no entanto, quando o viu chegar não o reconheceu. Havia um véu que impedia os olhos deste povo de reconhecer a verdadeira identidade de Jesus de Nazaré. Uma densa neblina, constituída pelas convicções religiosas inculcadas pelos guias espirituais, ofuscava as mentes e tornava pesados os corações. Israel estava convencido de constituir uma comunidade santa, vivia separado e desprezava os outros povos, considerava esta sua eleição como um privilégio e não como uma vocação ao serviço, esperava um messias que se pusesse a seu lado, não para levar a salvação aos pagãos, mas para os aniquilar.

O Baptista conseguiu abrir os olhos a alguns dos seus contemporâneos, e neste tempo de Advento dirige a cada um de nós o convite a reconhecer em Jesus a única luz, e a evitar «o caminho dos ímpios que é tenebroso» (Pr 4, 19).

A última afirmação do precursor: «Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias» (v. 27) é vulgarmente entendida como uma declaração de humildade. Trata-se, no entanto, de uma imagem, para nós enigmática mas clara para os interlocutores do Baptista, que conheciam a Lei e as tradições. Tirar a sandália era um gesto contemplado pela legislação matrimonial de Israel: significava apropriar-se do direito de tomar como esposa uma mulher destinada a outro (Dt 25, 5-10; Rt 4, 7).

Declarando não poder desatar a correia das sandálias, o Baptista afirma não ter nenhum direito de subtrair a esposa a Cristo. É Ele o Messias, é Ele o Deus-connosco que veio para celebrar as núpcias com a Humanidade. Depois, o precursor irá exprimir-se claramente, já sem recorrer a imagens: «Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente. O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa!» (Jo 3, 28-29).

O Advento é o tempo no qual a esposa (a Humanidade, a Igreja) se prepara para acolher o esposo, e o Baptista é o amigo do esposo, encarregado de favorecer este encontro de amor.

Para muitos israelitas, Jesus foi uma personagem insignificante, alguém que passou sem que se dessem conta que Ele viera para lhe trazer a alegria, para dar início à festa. Ainda hoje paira o perigo de se reconhecer a sua presença com atraso.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.