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1 Domingo, 1 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXI do Tempo Comum

Música de fundo

Música da capela Em pausa

Banquete da Palavra · 6 de dezembro

Não Percorras Caminhos Antigos, Procura Vias Novas

Domingo II do Advento

Um dia, os discípulos de um rabi irromperam na aula e, radiantes, referiram a grande notícia: «Chegou o Messias!» Sem se perturbar, o mestre foi à janela, olhou à volta e observou as pessoas que, como habitualmente pela manhã, se moviam apressadas pelas ruas; viu os pobres que pediam esmola nas esquinas, os patrões que invectivavam os servos, as crianças que choravam, os cegos que eram levados pela mão, os aleijados que caminhavam com dificuldade. Voltou a sentar-se, convidou os alunos a conti-nuar o estudo e depois disse: «Como pode ter chegado o Messias se no mundo continua tudo na mesma?»

Quando se cumprirão os oráculos dos profetas? Até quando devemos esperar «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2Pd 3, 13)?

A história parece testemunhar contra as promessas do Senhor, parece um desmentido da fé cristã em Jesus Messias. Passados milénios, não desapareceram «choros e lamentos» (Is 65, 19), as espadas não foram transformadas em relhas de arados nem as lanças em foices (Is 2, 4).

As dúvidas acerca da fidelidade de Deus ao compromisso assumido de fazer surgir um mundo novo só aparecem quando se esquece que o tempo das pessoas apaixonadas não é marcado pelos ponteiros do relógio, mas pelo amor: uma hora passa num instante e um momento pode parecer uma vida. Quem ama é paciente e sabe esperar. Para ter Raquel, Jacob serviu o sogro durante sete anos e «pareceram apenas alguns dias, tanto era o amor que por ela sentia» (Gn 29, 20).

Também o Senhor espera que o homem lhe abra a via do seu coração e, para Ele, «mil anos» de espera são «como um só dia» (2Pd 3, 8).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Senhor, faz com que abandonemos os caminhos antigos, e ensina-nos a preparar-te uma estrada nova.

Primeira leitura

Os primeiros anos de exílio na Babilónia foram difíceis, mas depois os Israelitas adaptaram-se à sua nova condição e muitos conseguiram até atingir posições sociais prestigiosas.

Passados uns quarenta anos, surge um profeta. Era um homem iluminado, um poeta sensível, um teólogo genial; seguia com atenção os acontecimentos políticos do seu tempo e dera-se conta que o reino da Babilónia está a desfazer-se, ao mesmo tempo que crescia vertiginosamente o poder de Ciro, rei da Pérsia. Tinha chegado o momento de despertar nos exilados a esperança pelo fim da escravidão e o regresso iminente à terra de seus pais. Começou a fazer circular entre os deportados as suas intuições, os seus presságios e as suas esperanças e, para não despertar suspeitas nas autoridades da Babilónia – que o poderiam acusar de subversão – recorreu a uma linguagem cifrada, utilizou imagens que só os filhos do seu povo podiam compreender. Anunciou a libertação iminente da escravidão da Babilónia referindo-se aos milagres que tinham acontecido durante o êxodo do Egipto e prometendo prodígios ainda maiores.

Eram poucos, entre os deportados, os que cultivavam esta sua sensibilidade espiritual. A maioria, seduzida pela atracção da vida pagã, integrara-se na nova realidade social e religiosa, esquecera o glorioso passado e considerava a evocação das promessas feitas a Abraão como fábulas sem valor. Estes exilados, enfraquecidos na fé, incapazes de entender os apelos de Deus, não tiveram nem a coragem nem a força de iniciar uma vida nova e dispersaram-se entre os pagãos. A história da salvação continuou sem eles. O maior perigo do exílio não foi a sua dureza, mas sim as suas sedutoras atracções.

A experiência destes deportados é um aviso para quem, como eles, se adapta a uma vida banal e sem perspectivas, mesmo se cómoda, e rejeita o convite insistente do Senhor para que se deixe libertar, para que olhe o futuro com os olhos de Deus.

A mensagem deste profeta é então dirigida também a nós.

Começa com um convite premente: «Consolai, consolai o meu povo... falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos... porque recebeu da mão do Senhor duplo castigo por todos os seus pecados» (vv. 1-2). Assim como os ladrões, que deviam pagar o dobro do que tinham roubado (Ex 22, 3), assim também Israel descontara os seus erros, pagara-os duramente, de forma desmedida, precisamente como sempre acontece a quem se afasta dos caminhos de Deus.

Na linguagem corrente, consolar equivale quase sempre a pronunciar palavras de conforto, a comunicar alguma serenidade a quem está aflito, mas não altera a situação penosa que é causa de dor. A consolação de Deus não se reduz a uma carícia terna que anima; Deus consola, socorrendo quem se encontra em condições desesperadas, consola o miserável levantando-o do pó do chão (1Sm 2, 8), transformando o seu lamento em dança e o seu grito em canto de alegria (Sl 30, 12).

O Espírito Santo é chamado por Jesus, Consolador (Jo 14, 15) porque, com a sua vinda, renova a face da Terra (Sl 104, 30).

Deus consola, ou seja, liberta as pessoas de todo o tipo de escravidão, através da sua palavra, que não é frágil como a erva que seca ou caduca como a flor que murcha, mas é viva e eterna (Is 40, 6-8) e não regressa a Deus sem ter operado aquilo que Ele deseja, sem ter realizado aquilo para que foi enviada (Is 55, 10-11).

Na segunda parte da leitura (vv. 3-5), uma voz anónima grita: «Preparai no deserto o caminho do Senhor... sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas.»

A construção de uma estrada é a condição para que Deus possa vir consolar o seu povo.

Um imenso deserto separa a Palestina da Mesopotâmia; a estrada que na antiguidade unia a Babilónia às cidades da costa mediterrânea não o atravessava, mas, subindo em direcção a norte, rodeava-o ao longo de quase mil quilómetros. A voz misteriosa convida os exilados a traçarem uma via nova, espaçosa e direita, que lhe permita alcançar, fácil e rapidamente, a meta a que o Senhor os quer conduzir.

O profeta junta uma série de imagens para pôr em relevo os compromissos que deve assumir quem quer dar espaço a Deus na sua vida. Pede que se prepare a via ao Senhor, não uma via que conduza o homem a Deus, mas que permita a Deus chegar ao homem.

A abertura desta nova estrada indica a disposição interior para abandonar os caminhos antigos, aqueles que Deus sempre rejeitou: «Os meus planos não são os vossos planos, os vossos cami-nhos não são os meus caminhos» (Is 55, 8). Os montes a abater e os vales a altear representam os impedimentos a este encontro, à comunicação, à estima recíproca entre os povos de diferentes culturas, raças ou religiões. Somente removendo estes obstáculos é que será possível preparar a via ao Senhor, a via do entendimento, do perdão, da reconciliação.

Numa visão grandiosa, na terceira parte da leitura (vv. 9-11), o profeta descreve o regresso dos exilados à cidade santa. Não são guiados por um homem, como acontecera durante o êxodo do Egipto, é o próprio Senhor quem os precede e, como um pastor, conduz as suas ovelhas tomando «os cordeiros em seus braços, conduzindo as ovelhas ao seu descanso» (v. 11).

A imagem é comovente, mostra a ternura de Deus para com os mais fracos. Cheio de ternura, doce e paciente, Ele respeita os tempos e os ritmos espirituais de cada pessoa: aprecia quem é despachado, mas a sua atenção e cuidados vão para quem avança com dificuldade, para quem se atrasa ao longo do caminho.

Quando o grupo dos exilados já está perto da cidade, algumas pessoas separam-se do grupo e correm a anunciar a «boa nova» da libertação. Sião é convidada pelo profeta a tornar-se anunciadora de «boas novas». A sua mensagem de alegria, o «evangelho» por que ela proclama é: Deus nunca mais abandonará o homem, irá sempre à sua procura à terra de escravidão, pegará nele em seus braços e acompanhá-lo-á ao longo do caminho que leva à liberdade.

Segunda leitura

Os primeiros cristãos tinham a certeza que o Senhor Jesus haveria de mudar rapidamente o mundo, mas, passadas algumas dezenas de anos, deram-se conta que as suas esperanças não se realizavam. Começaram a admirar-se deste atraso, e surgiram as primeiras dúvidas acerca da fidelidade de Deus às suas promessas. Quem não acreditava ria-se destas expectativas e perguntava em tom zombeteiro: «Em que fica a promessa da sua vinda? Desde que os pais morreram, tudo continua na mesma, como desde o princípio do mundo!» (2Pd 3, 4).

Um pastor de almas da segunda metade do século i d.C. dirige a estes cristãos em dificuldade uma palavra de encorajamento, e esclarece os motivos do atraso da vinda do Senhor.

O trecho que hoje nos é proposto retoma duas destas razões. Antes de mais, o modo como Deus mede o tempo é diferente do nosso: para Ele mil anos são como um dia (v. 8), e se Ele não destrói o mundo, não obstante transborde iniquidade, é porque quer que todas as pessoas tenham o tempo de se converterem e salvar (v. 9). Não apressa os tempos porque respeita o ser humano e procura conquistá-lo para o seu amor. O seu atraso aparente deve ser visto como um sinal da sua misericórdia, da sua paciência e do seu desejo de não perder nenhum dos seus filhos.

O autor da carta pretende também esclarecer um equívoco: a vinda do Senhor não deve ser imaginada como um regresso em glória, para aniquilar os seus inimigos – como pregam, ainda hoje, algumas seitas apocalípticas. Por detrás desta concepção esconde-se a ideia que a sua primeira vinda, na manjedoura de Belém, e o seu sacrifício no Calvário, foi um fracasso, e que, então, Ele regresse para impor, pela força, o projecto que não conseguiu realizar com a doçura e o amor.

Não é assim. Todas as suas vindas são gloriosas, todas são revelação da sua bondade, da sua justiça, da sua vontade de não perder nenhuma das suas criaturas.

Evangelho

«Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus» (Mc 1, 1). É com estas palavras que Marcos começa o seu livro. Parece um versículo inútil: que necessidade tem de dizer que esta é a primeira linha do Evangelho? De facto, trata-se de um frase introdutória composta por Marcos com muita atenção. Com a primeira palavra do seu livro ele quis lembrar aos leitores o início do livro dos Génesis: «No princípio, quando Deus criou os céus e a terra...» (Gn 1, 1).

O mundo, que saiu bom das mãos de Deus, foi-se depois corrompendo e os Israelitas já desde há muitos séculos esperavam que Deus realizasse a sua promessa: «Eu vou criar um novo céu e uma nova terra; o passado não será mais lembrado» (Is 65, 17).

Aqui está – exclama o evangelista – a boa nova: surgiu a nova realidade, podem verificá-la, no mundo está presente o reino de Deus.

«Onde, como e quando teve origem o mundo novo no qual entrámos mediante a fé? – perguntavam os cristãos do século i d.C.
– Qual é a nossa história?»

Para responder a estas perguntas, nos anos 60 d.C., quando estão ainda vivas muitas das testemunhas oculares, em Roma decide-se escrever um texto oficial que relate a origem e apresente o conteúdo da «boa nova»; para o redigir é encarregado Marcos, um discípulo muito estimado, identificado pela tradição como o «filho de Maria», a proprietária da casa onde habitualmente se reunia a primeira comunidade cristã de Jerusalém (Act 12, 12-17). Poderia ser aquele rapaz que se encontrava no Getsémani, no momento da captura de Jesus, e que fugiu nu quando os guardas agarraram o lençol com que estava coberto (Mc 14, 51).

Marcos teria podido sintetizar o Evangelho em densas fórmulas teológicas, mas preferiu utilizar um outro género literário, o relato.

Tudo começou – escreve ele – quando João apareceu no deserto da Judeia para chamar o seu povo à conversão e Jesus de Nazaré foi ter com ele para ser baptizado. Ali teve início a nossa história, ali começou o Evangelho.

Para muita gente, os Evangelhos são apenas quatro livros onde são narrados os acontecimentos da vida de Jesus; no entanto, este termo só começou a ser aplicado a estes textos várias dezenas de anos depois de terem sido escritos. Antes, a expressão evangelho não indicava um livro, mas simplesmente uma boa nova trazida por um mensageiro. Eram evangelhos os anúncios de vitória, de acontecimentos felizes, de acordos de paz e, sobretudo, as notícias relativas ao nascimento, à vida e às acções gloriosas do imperador de Roma, já que suscitavam esperança de bem-estar, de saúde e de paz. Quem as ouvia estremecia de alegria. Na célebre inscrição de Priene, na Ásia Menor, do ano 9 d.C., diz-se que o dia do nascimento de Augusto «foi para o mundo o início dos Evangelhos recebidos graças a ele».

Quando Marcos escreve o seu livro, Augusto tinha morrido há mais de cinquenta anos e é possível fazer um balanço daquilo que tinha acontecido depois dele: as suas legiões tinham posto fim às desordens que abalaram Roma durante um século, com ele tinha começado um período de prosperidade e de paz em toda a bacia do Mediterrâneo e muita gente pensou que tivesse começado a idade de ouro. Mas o seu nascimento não tinha sido para o mundo o início de uma boa nova perene. Dos dozes primeiros césares, sete morreram de morte violenta, Calígula e Nero não foram propriamente exemplares e, precisamente quando Marcos começa a sua obra, explode a violenta guerra civil que levará ao poder a família dos Flávios.

Pegando no termo evangelho, Marcos pretende dizer aos seus leitores: os evangelhos dos imperadores desiludiram as expectativas, a boa nova que não desilude é outra: é Jesus, o ungido do Senhor, filho de Deus.

Depois do versículo inicial, entra em cena (vv. 2-4) o Baptista, um asceta que estabelecera a sua morada no deserto de Judá e aí vivia à margem das estruturas sociais, políticas e religiosas. Era filho de um povo que desde há séculos estava em caminho: saíra do Egipto para entrar na terra prometida, tornara-se de novo escravo na Babilónia e tinha sido reconduzido por Deus a Jerusalém; quando pensava que finalmente era livre, apresenta-se João, filho de Zacarias, que o convida a partir de novo: «Preparai o caminho do Senhor – exortava ele – endireitai as suas veredas» (v. 3). São palavras conhecidas: são as do profeta anónimo que na Babilónia, quase seis séculos antes, encorajava os exilados a regressarem à sua terra.

Muitos ouvem o convite, saem da Judeia e acorrem ao Jordão para serem baptizados. Entenderam que é preciso repetir a experiência do êxodo, que devem pôr-se de novo a caminho para alcançar a verdadeira terra prometida. A Palestina não é a última meta do povo de Deus.

A que pátria os quer o Senhor conduzir? Não o sabem ainda, nem tampouco conhecem o novo Moisés que os guiará.

O evangelista dá particular relevo à roupa e ao alimento frugal de João: «vestia-se de pêlos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre» (v. 6). Não passeava vestindo roupas macias, como faziam normalmente os que viviam nos palácios das cidades; não se nutria com os produtos dos campos cultivados, mas do que encontrava e crescia espontaneamente no deserto. Ele rejeitava uma sociedade corrupta e frívola que, tendo perdido o sentido grandioso do que é simples, esquecera também o seu Deus.

Israel, a esposa, devia voltar ao deserto para ganhar de novo o afecto do seu Senhor que a esperava: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração. Aí, ela responderá como no tempo da sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egipto» (Os 2, 16-17).

O Baptista tinha uma missão a cumprir: preparar a estrada para este encontro de amor. A estranha veste que o identificava era a dos profetas (Zc 13, 4) e, em particular, de Elias que, como João, «era um homem vestido de peles, que trazia um cinto de couro em volta dos rins» (2Rs 1, 8).

O conteúdo da pregação do Baptista (vv. 7-8) era o anúncio da vinda de alguém, mais forte do que ele, que iria baptizar com o Espírito Santo.

Baptizar significa imergir. João fazia entrar na água aquelas pessoas que acolhiam o seu convite à conversão. O gesto exprimia a ruptura definitiva com a conduta anterior e a decisão de empreender uma vida completamente nova.

No entanto, este baptismo não era suficiente: a água do Jordão não comunicava a vida, lavava apenas o corpo. Era necessária outra água, uma água que entrasse na pessoa e agisse como linfa vital. O Baptista prometia-a e indicava também aquele que haveria de a dar.

A água que submerge, mata; a água que entra, que é assimilada pelas plantas, pelos animais e pelo homem, é vida. Nestas duas funções da água são evocados os dois momentos do nosso baptismo. A morte em relação ao passado é indicada pela imersão na água, o dom do Espírito é representado pela água viva oferecida por Cristo: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede» (Jo 7, 37).

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.