Saltar para o conteúdo
1 Domingo, 1 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXI do Tempo Comum

Música de fundo

Música da capela Em pausa

Banquete da Palavra · 29 de novembro

À Espera da Sua Vinda

Domingo I do Advento

«Um homem nobre partiu para uma região longínqua, a fim de tomar posse de um reino e em seguida voltar. Chamando dez dos seus servos, entregou-lhes dez minas e disse-lhes: “Fazei render a mina até que eu volte”» (Lc 19, 12-13).

Desta parábola e da tradução imprecisa de algumas frases do Senhor, como, por exemplo, «Não vos deixarei órfãos; Eu voltarei a vós» (Jo 14, 18), nasceu a ideia que, no dia da Ascensão, Jesus se despedira dos discípulos para voltar, no esplendor da sua glória, no fim dos tempos. A expressão vinda do Senhor, mesmo se entrou no uso comum, presta-se a mal-entendidos, e os textos litúrgicos evitam-na porque Jesus não nos deixou, não se afastou, a nossa vida não se desenrola na sua ausência.

Os gregos imaginavam Zeus imperturbável no Olimpo, acima das misérias humanas. Ele era, segundo o oráculo de Pausânia, «aquele que era, que é e que será». O Deus dos cristãos é diferente, é «aquele que é, que era e que há-de vir» (Ap 1, 8); não «o Senhor que volta», mas aquele que nunca cessa de vir. Entra, compromete-se com a história do mundo e renova, juntamente com o homem, toda a criação: cura os doentes, sara as feridas causadas pelo pecado, apaga os ódios, prega o amor e conduz o mundo «pelo caminho da paz» (Lc 1, 79).

Os primeiros cristão imploravam: «Maranà tha: vem, Senhor!» (1Cor 16, 22).

«Vem, Senhor Jesus», é a invocação com que termina o livro do Apocalipse (Ap 22, 20).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Vem, Senhor Jesus! Vem e connosco renova o mundo!

Primeira leitura

O povo de Israel estava exilado na Babilónia. Tinham passado poucos anos desde a destruição de Jerusalém e nos deportados mantinha-se viva a lembrança da humilhação sofrida. Nos seus olhos estavam ainda impressas as imagens arrepiantes daquele terrível dia do mês de Julho de 587 a.C.: os soldados de Nabucodonosor que demoliam as muralhas, os palácios do rei em chamas, as mulheres que fugiam aterrorizadas com os filhos nos braços e, como chacais atrás dos leões, os edomitas que se lançavam sobre a presa mortalmente ferida (Sl 137, 7).

Enquanto procuravam a razão para uma desgraça tão grande, um dos seus poetas compôs a comovente oração donde é tirada a leitura de hoje, uma das mais belas de toda a Bíblia.

O trecho começa com uma angustiada invocação a Deus: «Vós, Senhor, sois nosso Pai e nosso Redentor, desde sempre, é o vosso nome» (v. 16).

Ao contrário dos outros povos, que normalmente atribuíam aos seus deuses o apelativo de pai, os hebreus eram um pouco avessos a dar este título ao seu Deus. Não lhe chamavam pai porque, antes de mais, não o queriam equiparar aos deuses pagãos que – como se dizia – geravam filhos e filhas e muitas vezes até se apaixonavam pelas mulheres da terra (Gn 6, 2); e também porque já tinham um pai, Abraão.

Mas na Babilónia deram-se conta que nem Abraão, nem Isaac, nem Jacob os podiam socorrer. Os patriarcas tinham todos os motivos para se envergonhar dos seus filhos degenerados: «Abraão não nos conhece e Israel não se lembra de nós» (Is 63, 16).

É neste contexto histórico que, pela primeira vez na Bíblia, Deus é invocado como pai, expressão esta que virá a ser depois constantemente utilizada por Jesus para indicar Deus. Nos Evangelhos iremos encontrá-la 184 vezes posta na sua boca.

Também o termo redentor é muito significativo. Esta expressão referia-se ao parente mais próximo, àquele que tinha a responsabilidade de resgatar um membro da família que tivesse perdido a liberdade, quer porque fosse feito prisioneiro, quer porque, carregado de dívidas, se tivesse entregado como escravo ao seu credor. Este dever irrevogável era cumprido de duas formas: juntando o montante exigido para o resgate, ou entregando-se a si mesmo em substituição do próprio familiar.

Depois da destruição de Jerusalém, a situação de Israel era catastrófica: já não podia contar com nenhum redentor, porque todos eram escravos. Não restava senão recorrer a Deus, suplicando-lhe que assumisse a tarefa de redentor.

Após esta invocação inicial, a oração transforma-se em lamento: «Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer o nosso coração, para que não vos tema?» (v. 17).

A pergunta é dramática, é a expressão do angustiante enigma que as pessoas de todos os tempos vivem: por que é que Deus, sendo omnipotente, não impede o mal? Por que não nos preserva do fracasso e das escolhas de morte? Por que permite que os vícios e as paixões nos afastem do seu amor?

Perguntas às quais ninguém conseguiu nunca dar uma resposta racional! Perguntas para as quais somente na oração se pode entrever uma luz.

Para revigorar a fé, para encontrar motivos de esperança, o autor deste trecho estupendo pensa nos tempos passados (64, 1-3), recorda que Deus sempre interveio para clarear as noites escuras do seu povo; lembra de modo particular a noite da libertação do Egipto e conclui: «Nunca os ouvidos escutaram, nem os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que nele esperam» (64, 3).

Recolhidos em oração, os deportados relêem a sua história e tomam consciência dos erros cometidos: «Estais indignado contra nós, porque pecámos... as nossas faltas nos levavam como o vento... Nos deixáveis à mercê das nossas faltas» (vv. 4-6).

Esta constatação, que os deveria desencorajar, faz, no entanto, com que exclamem confiantes: «Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos» (v. 7). A paz interior, a esperança, o olhar optimista voltado para o futuro, são as graças que sempre obtém a oração bem feita. O ser humano não pode senão sentir-se seguro quando se dá conta de estar nos braços de um pai que cuida dele.

À luz de toda a revelação bíblica, a história dos exilados da Babilónia é uma imagem das desventuras a que, inevitavelmente, vai ao encontro quem escolhe caminhos que afastam de Deus. A desilusão, a solidão, a vergonha e a infelicidade são as consequências amargas do pecado.

E Deus, por que não intervém para nos impedir de cometer erros? Esta a pergunta que também nós nos colocamos.

Desde que criou o ser humano livre, Ele já não é omnipotente. Já os rabis o intuíam e falavam do zimzum de Deus: de certo modo – diziam – Ele diminuiu o seu poder e expôs-se ao risco de receber das suas criaturas um não humilhante.

Mas «forte como a morte é o amor, os seus ardores são chamas de fogo» (Ct 8, 6), nunca se resigna com as derrotas. Deus, que calculou também as nossas rejeições, é obrigado pelo seu amor a continuar a procurar-nos. Não pode impor-se, não pode dominar a nossa vontade, mas a sua paixão é tão grande que – afirmava Edith Stein – é «infinitamente inverosímil» que Ele, até mesmo num único caso, possa sair derrotado para sempre.

Segunda leitura

Estes são os versículos com que começa a primeira Carta aos Coríntios, escrita por Paulo a uma comunidade que acolhera com entusiasmo o Evangelho, mas depois, cedendo às ilusões do paganismo, caíra nos antigos vícios. O Apóstolo estava a par destas misérias morais e, na continuação da carta, condená-las-á severamente. No entanto, de início, utiliza uma linguagem doce e amável, com a qual põe em relevo as maravilhas operadas pela graça de Deus e reconhece que os Coríntios foram enriquecidos com todos os dons espirituais, os da palavra e os da ciência (v. 5).

Causa uma certa surpresa notar que não haja referências a virtudes e qualidades mais importantes, tais como a fé, a esperança e a caridade que brilhavam entre os Tessalonicenses (1Ts 1, 3), ou a generosa dedicação à causa do Evangelho em que sobressaíam os Filipenses (Fl 1, 5). De forma velada, Paulo dá a entender aos Coríntios que, na sua comunidade, nem tudo é perfeito e que a graça de Cristo poderia obter melhores resultados se houvesse maior correspondência. Por se terem virado em demasia para as realidades deste mundo, esqueceram que esperavam o Senhor que vem.

Na segunda parte do trecho (vv. 6-9), o Apóstolo lembra esta verdade: «Esperais a manifestação de Nosso Senhor.» Está consciente da fragilidade espiritual dos seus cristãos, mas certo também de que, apesar das suas fraquezas, Deus concluirá a obra iniciada. A sua fidelidade não está condicionada à resposta do homem. Se chamou os Coríntios à salvação, então continuará a acompanhar o seu crescimento espiritual até os ter introduzido na gloriosa comunhão com Cristo.

Esta afirmação não é expressão de um optimismo ingénuo e superficial, mas é o convite a cultivar a esperança cristã que se funda na gratuidade do amor de Deus.

Evangelho

Vigiar é a palavra-chave deste trecho. É utilizada com uma insistência quase excessiva: «Acautelai-vos e vigiai» (v. 33), «mandou ao porteiro que vigiasse» (v. 34), «vigiai, portanto» (v. 35), «digo-o a todos: vigiai!» (v. 37).

A recomendação de vigiar é tão importante que Jesus reforça-a com uma comparação: «Será como um homem que partiu de viagem, e que ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse» (v. 34).

Não é evidente, à primeira vista, a ligação da parábola com o que se segue: «Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa» (v. 35). O convite a vigiar era dirigido inicialmente apenas ao porteiro (v. 34), depois é estendido a todos (v. 35). Trata-se de uma pequena incongruência, devida provavelmente ao facto de Jesus ter dirigido a parábola aos seus discípulos, para lhes lembrar que deviam conservar e fazer frutificar os tesouros que Ele deixava antes de voltar ao Pai. Mais tarde, o evangelista achou bem alargá-la a todos os membros das suas comunidades, para lhe recordar a vigilância enquanto esperavam a vinda do Senhor.

Que significa vigiar? Por que se insiste tanto na noite? Por que é que o dono da casa, em vez de chegar de dia, chega de improviso, quando ninguém o espera? Quem representa o porteiro? Quem é o dono da casa? Onde foi? Que poderes deixou aos seus servos?

Antes de responder a estas perguntas, que nos irão introduzir na mensagem da parábola, é preciso acrescentar uma alteração à tradução do v. 35: «Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando vem o dono da casa.» Jesus não se refere ao seu regresso num futuro distante e impreciso, mas à sua constante presença renovadora no mundo.

Começamos então a identificar o protagonista da parábola. O dono da casa é Jesus, que no entanto não partiu, simplesmente mudou o seu modo de estar presente entre os discípulos. Ele agora está mais próximo de cada pessoa do que estava quando caminhava pelas estradas da Palestina. Tendo entrado no mundo dos ressuscitados, Ele já não está sujeito – como estava – aos limites da nossa condição humana. Por este motivo convidou os seus discípulos a manterem sempre viva a percepção da sua presença no meio deles: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Não é fácil esta percepção, já que só a pode ter quem tem um olhar capaz de perscrutar a densa escuridão da noite.

É significativo o facto de o Senhor avisar que Ele chega durante a noite. Como um ladrão, Ele vem quando o mundo está envolvido na escuridão: «Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa» (Mt 24, 43). Também as dez virgens foram surpreendidas durante o sono: esperavam o noivo que tardava, começaram todas a dormitar e acabaram por adormecer; «a meio da noite, ouviu-se um brado: “Aí vem o noivo, ide ao seu encontro!”» (Mt 25, 5-6).

Porquê esta insistência na noite?

Os mestres de Israel ensinavam que, na história do mundo, existiram quatro grandes noites. A primeira foi no momento da criação: não existiam o Sol e a Lua e era noite quando Deus disse «Faça-se a luz!» (Gn 1, 3). Houve uma segunda noite, aquela em que Deus estabeleceu a aliança com Abraão (Gn 15). Depois uma terceira, a mãe de todas as noites, aquela da libertação de Israel do Egipto, que foi «noite de vigília para o Senhor, noite de vigília para todos os filhos de Israel nas suas gerações» (Ex 12, 42).

A quarta noite é a que Israel espera: nela Deus intervirá para criar o mundo novo e dar início ao seu reino.

Quando, no Novo Testamento, se fala da vinda do Senhor durante a noite, trata-se de uma referência a esta quarta noite. É a nossa noite, é o tempo em que vivemos, tempo que é escuro, tempo no qual as propostas de vida mais consensuais são as hedonísticas, não as das bem-aventuranças de Jesus.

Esta quarta noite é cuidadosamente dividida por Marcos, de acordo com o cálculo popular romano, em quatro partes, pontualmente evocadas: o anoitecer, a meia-noite, o canto do galo e o alvorecer (v. 35) para sublinhar, de forma meticulosa, o aviso a estar vigilantes, a não dormitar nem sequer por um instante.

Quem tem um olhar orientado pelo amor deixa-se interpelar pelos acontecimentos e sabe ver neles os sinais de que as esperanças de um mundo novo começam a realizar-se. Quem é vigilante está pronto para acolher o Senhor que vem e sabe reconhecê-lo em quem procura a paz, o diálogo e a reconciliação; vê-o nos pobres que, sem recorrerem à violência, se empenham a favor da justiça; vê-o no estrangeiro que procura ajuda; abraça-o em quem está sozinho e precisa de conforto.

A escuridão incute temor, em certos momentos, torna-se tão densa que até mesmo o cristão dotado de um fino olhar de fé pode perder de vista o seu Senhor e ser apanhado pelo cansaço, pelo aborrecimento, pelo desconforto. Quando sente as pálpebras pesadas de sono, deve recordar a exortação de Paulo: «A noite (a quarta, a última noite) adiantou-se e o dia está próximo» (Rm 13, 12).

Há um segredo para permanecer acordados: a oração, vista como um diálogo constante com o Senhor. Quem não reza dormita, acaba por resignar-se e adequar-se, como todos, à escuridão da noite que envolve o mundo (Mc 14, 37-40).

Os servos, outras personagens da parábola, representam os discípulos empenhados na execução dos projectos do seu Senhor. A cada um é confiada um tarefa, uma missão a desempenhar, de acordo com as suas capacidades. Ninguém deve esperar que o dono da casa realize sozinho a sua obra. São os servos os executores.

O porteiro, que deve ser mais vigilante do que os outros, indica aquelas pessoas que, na comunidade, têm o encargo dos serviços mais importantes, aqueles dos quais depende a própria vida da Igreja: o anúncio da palavra de Deus, a celebração dos sacramentos, o apoio aos discípulos que vacilam na fé. Estes porteiros devem estar mais vigilantes do que os outros: nos seus pensamentos, nas suas palavras, nas suas escolhas de vida são convidados a comportar-se sempre como «filhos da luz», nunca como «filhos das trevas», já que devem também manter acordados os seus irmãos mais fracos, aqueles que correm o perigo de serem enganados pelos príncipes deste mundo.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.