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1 Domingo, 1 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXI do Tempo Comum

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Banquete da Palavra · 22 de novembro

Deus, Juiz... Para Salvar

Domingo XXXIV - Nosso Senhor Jesus Crito Rei do Universo do Tempo Comum

«Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que está preparado para o diabo» (Mt 25, 41). Estas são as palavras mais terríveis que encontramos no Evangelho, e não são únicas na boca de Jesus. Mateus lembra outras: «Serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes» (Mt 8, 12). «O Filho do Homem enviará os seus anjos, que hão-de tirar do seu Reino todos os escandalosos e todos quantos praticam a iniquidade, e lançá-los na fornalha ardente; ali haverá choro e ranger de dentes» (Mt 13, 41-42.50). «Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores» (Mt 22, 13). «O senhor desse servo virá no dia em que ele não o espera e à hora que ele desconhece; vai afastá-lo e dar-
-lhe um lugar com os hipócritas, e ali haverá choro e ranger de dentes» (Mt 24, 50-51).

Estas frases estão bem marcadas na nossa mente. Inspiraram gerações de artistas, que pintaram cenas de terror, desespero e tormento; sugeriram obras líricas como o Dies irae, a mais impressionante descrição do juízo universal; serviram de motivo a compositores musicais, que traduziram em sons a angústia do momento crucial em que Cristo pronuncia a sentença inapelável.

O juízo de Deus foi apresentado, e ainda hoje continua a ser visto assim, como um dramático ajuste de contas; desta forma, o encontro com o Senhor, longe de ser desejado e esperado, é para toda a gente – até mesmo para os justos – uma grande incógnita. Diante daquele que «até mesmo nos seus anjos encontra defeitos» (Job 4, 18) quem pode sentir-se seguro? Muitos cristãos já se consideram afortunados se conseguirem resolver a questão com uns anos de purgatório.

É esta a justiça de Deus?

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Alegre-se o céu, exulte a terra, porque o Senhor julga o mundo com a sua justiça.

Primeira leitura

Em 587 a.C., Jerusalém e o seu templo maravilhoso foram destruídos, as muralhas arrasadas, os soldados da Babilónia cometeram todo o tipo de violência e barbárie; o povo procurou salvar-se, e houve quem escapasse ao massacre refugiando-se no deserto ou fugindo para o Egipto, mas muitos foram aprisionados e deportados para uma terra estrangeira. Ficaram apenas os mais pobres: alguns vinhateiros, alguns camponeses, alguns artesãos.

Passaram alguns anos e, entre os que ficaram no país, começam a emergir aqueles que, mais hábeis e espertos, sabem aproveitar-
-se da situação de extrema necessidade em que se encontra a maior parte do povo, e exploram quem se encontra na miséria devido a desgraças e desventuras. Compram, vendem, negoceiam sem escrúpulos, conseguindo, assim, enriquecer.

É neste momento triste que é pronunciada a profecia que, hoje, nos é proposta. Pensando nas desventuras que atingiram o seu povo, Ezequiel compara os israelitas a um rebanho tresmalhado e sem pastor, ao mesmo tempo que pronuncia uma mensagem de salvação. Não anuncia o advento de outros reis – não seriam melhores do que os precedentes, que tinham levado o povo à ruína –, mas promete que Deus, pessoalmente, tomará conta das suas ovelhas (v. 11), reunindo-as de todos os lugares para onde foram dispersas «num dia de nevoeiro e de trevas» (v. 12) e há-de reconduzi-las às suas pastagens nos montes de Israel (v. 15).

Depois, lança uma ameaça àqueles que acumularam bens pisando os direitos dos mais fracos. Ao seu «rebanho» o Senhor garante: «Hei-de fazer justiça entre ovelhas e ovelhas, entre carneiros e cabritos» (v. 17). É a promessa da sua intervenção a favor dos oprimidos, dos pobres, dos explorados.

Segunda leitura

Os rabis consideravam que, com a vinda do messias, teria início um primeiro reino – chamado «reino do messias» –, a que se seguiria um segundo –, o «Reino de Deus». Paulo – educado nessa escola – tinha assimilado esta ideia, e pensava que o primeiro reino teria a duração do tempo da história da Humanidade, concluindo-se com o fim do mundo.

É nesta perspectiva histórica que se compreende a leitura de hoje. Paulo acredita que, progressivamente, o messias destruirá, durante o seu reino, todos os inimigos, e que esta vitória será completa quando também o último adversário – a morte – for derrotada (vv. 25-26).

Os inimigos dos quais é anunciada a aniquilação, não são as pessoas, mas as forças do mal, tudo aquilo que impede o ser humano de viver plenamente a sua existência no mundo: a doença, a fome, a nudez, a ignorância, a escravidão, o medo, o ódio, o egoísmo, o pecado. Quando estas realidades negativas desaparecerem, então poderá dizer-se que o reino do messias se realizou plenamente. É por este motivo que quem se empenha em vencer estes males – mesmo que não seja cristão, mesmo que não acredite – colabora na realização do projecto do messias.

Quando este reino for instaurado no mundo e os inimigos de Cristo – incluindo a morte – forem vencidos, então Ele entregará ao Pai o seu Reino e terá início o reino de Deus, que durará por toda a eternidade (v. 28).

Depois desta explicação é mais fácil perceber os primeiros versículos da leitura (vv. 20-24). Cristo não eliminou a morte biológica: o organismo do ser humano, como o de qualquer outro ser vivo, vai-se desgastando e acaba por se consumir. Ele venceu a morte porque a privou do seu significado de aniquilação, de destruição total, e transformou-a num nascimento para a vida plena e definitiva.

Evangelho

Um Deus que condena sem piedade é, para um cristão, muito embaraçante. Não se compreende como é que as ameaças terríveis mencionadas nos versículos 41 a 46 possam ser consideradas «evangelho», «boa nova», «anúncio de salvação».

Há uma dificuldade ainda maior: como pôr de acordo o Deus severo, que aparece no trecho de hoje, com o Pai de quem se fala ao longo de todo o Evangelho? Ele, que «faz com que o sol se levante e a chuva caia sobre os justos e os pecadores», que exige dos seus filhos que não façam distinções entre bons e maus (Mt 5, 43-48), como pode, a certa altura, operar uma separação que a nós ordena que não façamos? Se lança no fogo eterno os seus inimigos, não pode exigir que nós os amemos (Mt 5, 44). Jesus, que veio «procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 19, 10) e que se gloriava de ser «amigo de cobradores de impostos e de pecadores» (Lc 7, 34), poderá um dia virar-se contra eles?

Ao mesmo tempo, é também a «justiça» deste Deus que não satisfaz: poderá o pecado do ser humano (criatura frágil, limitada, finita) ser punido com um castigo infinito, «eterno»? Não haveria equivalência nenhuma entre a culpa e a pena. E se o ser humano – e assim é – permanece livre por toda a eternidade, como se pode pensar que aqueles que agiram mal continuarão obstinados no seu erro? O que os poderá tornar assim tão teimosos? Talvez o encontro com Deus?

São estas algumas das perguntas que, diante deste trecho do Evangelho, muita gente se coloca. São questões sérias, mas que poderiam ter origem numa interpretação não correcta do texto.

A dúvida surge logo que se considera o contexto no qual a descrição do «juízo» é colocada. Basta ler a continuação. Depois da cena grandiosa em que o Filho do Homem dá mostra – por assim dizer – de todo o seu poder, eis o que acontece: «Como sabeis – diz Jesus – a Páscoa é daqui a dois dias, e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado» (Mt 26, 2). É de ficar estupefacto: da celebração do triunfo passa-se à mais ignóbil das derrotas. Parecem ser duas situações opostas, inconciliáveis, mas trata-se de dois momentos gloriosos da mesma vitória, a do amor. O Cristo que «julga» é o mesmo que se entrega nas mãos daqueles que ama, e é precisamente como «vítima de amor» que se torna juiz: Ele é «o ser humano realizado» segundo Deus, o ser humano autêntico, aquele com quem todos se devem confrontar para determinar – desde já – se estão a construir a vida ou se estão a cavar o próprio fracasso. Mais à frente retomaremos o argumento, para já, vamos examinar o texto.

 

Na Palestina, quando cai a noite, é habitual os pastores separarem as ovelhas das cabras. Estas, mais sensíveis ao frio, precisam de ficar abrigadas, enquanto que as ovelhas – estando cobertas de lã – gostam da frescura da noite e podem ficar ao ar livre. Jesus serve-se desta imagem, tomada do dia-a-dia, para transmitir a sua mensagem.

Para a entendermos é preciso, antes de mais, ter em atenção o género literário. Uma leitura deste trecho que seja apressada, superficial, talvez até um pouco ingénua, leva-nos a correr o risco de retirar dele certas conclusões teológicas que, num estudo mais atento e cuidado, se revelarão infundadas.

A linguagem utilizada é típica dos pregadores da época; estes, para abalar os seus ouvintes, costumavam recorrer a imagens impressionantes: castigos tremendos, fogo inextinguível, penas eternas. Dizia-se, por exemplo: «Aflija-se a estirpe humana, mas os animais que se alegrem; para eles as coisas correm muito melhor do que para nós, já que não os espera um juízo.» Porém, tomemos atenção a um pormenor: quando os rabis falavam de «fogo da Geena» não se referiam ao Inferno, mas ao fogo que ardia perenemente no vale que passa ao lado de Jerusalém e que servia de lixeira da cidade. E, depois, o adjectivo «eterno» não tinha a conotação filosófica que assumiu nos nossos dias; era utilizado numa acepção popular muito genérica: significava simplesmente «longo», «indefinido».

Normalmente, este trecho é considerado uma parábola, mas isso não é exacto; pertence ao género literário chamado cena de juízo, que se encontra quer na Bíblia quer na literatura rabínica. Tem um esquema fixo: há a entronização do juiz, acompanhado pelos anjos que desempenham o papel de assistentes e de guardas; depois a convocatória de todas as gentes e a separação em dois grupos; é pronunciada a sentença e, por fim, os justos são premiados e os maus punidos.

A finalidade deste género literário – digamo-lo claramente desde já – não é informar sobre o que irá acontecer no fim do mundo, mas dar ensinamentos sobre o modo como comportar-se nos dias de hoje.

Como exemplo, temos um trecho de uma obra rabínica onde a cena do juízo tem uma impressionante analogia com o nosso texto. Diz assim: «No mundo futuro, será perguntado a quem é julgado: “Quais são as tuas obras?” Se responder: “Dei de comer a quem tinha fome”, ser-lhe-á dito: “Esta é a porta do Senhor, entra por ela” (Sl 118, 20). Se responder: “Dei de beber a quem tinha sede”, ser-
-lhe-á dito: “Esta é a porta do Senhor, entra por ela.” Se responder: “Vesti quem estava nu”, ser-lhe-á dito: “Esta é a porta do Senhor, entra por ela.” O mesmo acontecerá a quem educou os órfãos, a quem deu esmolas e a quem fez obras de amor» (Midrash do Salmo 118, 17).

É claro que, referindo este diálogo, os rabis não tinham a pretensão de desvelar as palavras que Deus pronunciará no fim do mundo, mas de inculcar os valores sobre os quais orientar a vida neste mundo.

 

Examinemos agora a estrutura do trecho de Mateus. É fácil defini-la. Tem início com uma introdução (vv. 31-33), seguida por dois diálogos (vv. 34-40; 41-46) que se desenvolvem de forma idêntica e paralela: o rei pronuncia a sentença (de aprovação, num caso, e de condenação, no outro) e justifica-a. Em ambos os casos é levantada uma objecção a que o juiz responde.

É simples também determinar a mensagem que Jesus pretende dar: os anos da vida do homem são um bem precioso, um tesouro que deve ser investido. Não se pode errar, porque há só uma vida: Ele sugere como utilizá-la.

Os rabis diziam: o mundo actual é como a terra seca, o mundo futuro é como o mar; se uma pessoa não preparar o alimento na terra, o que comerá, depois, no mar? Este mundo é como a terra cultivada, o mundo futuro é como o deserto; se uma pessoa não preparar o alimento na terra cultivada, o que comerá, depois, no deserto? Há-de ranger os dentes e morder-se a carne e, desesperado, rasgar as vestes e arrancar os cabelos.

Mais do que os rabis, Jesus considera a vida do ser humano importante; por isso, revela aos seus discípulos os valores nos quais apostar em segurança. Quais são? Descobrem-se facilmente, já que ocupam metade do relato; e são tão importantes que Jesus, correndo o risco de parecer monótono, reafirma-os quatro vezes: são seis obras de misericórdia.

A lista das pessoas a ajudar – quem tem fome, sede, quem é peregrino, não tem roupa, está doente ou na prisão (vv. 35-36.42-43) – era conhecida em todo o antigo Médio Oriente (cf. Is 58, 6-7). É celebre a passagem do capítulo 25 do Livro dos Mortos, o texto que no Egipto, desde finais do segundo milénio a.C., era colocado ao lado do defunto. Isto é quanto ele deveria declarar perante o tribunal de Osíris: «Eu fiz aquilo que dá alegria aos deuses. Dei pão a quem tinha fome, dei água a quem tinha sede, vesti quem estava nu, ofereci transporte a quem não tinha uma barca.» A única novidade acrescentada por Jesus é o facto de Ele se identificar com estas pessoas: tudo aquilo que é feito a um destes mais pequenos é feito a Ele.

Os valores que Ele indica não se assemelham àqueles pelos quais a maior parte das pessoas perde a cabeça, porém, são os que contam aos olhos de Deus.

Qual é o ideal de pessoa proposto pela nossa sociedade? É o de quem detém o poder, é rico, pode satisfazer qualquer capricho, está sempre sob as teleobjectivas das câmaras. «Pessoas de sucesso» são o atleta que faz enlouquecer os estádios, a estrela televisiva, e quem consegue tornar-se uma personagem notória e fazer uma brilhante carreira. Dois sociólogos tentaram redigir um decálogo para quem quer ter sucesso; o décimo mandamento é o seguinte: «Lembra-te sempre que a tua carreira terminará no dia em que ajudares alguém por mera generosidade e sem interesse.»

Deus vê as coisas doutra forma. Quando, para cada pessoa, se concluir a sua história na terra, quando cada um ficar a sós consigo mesmo e com Deus, um único bem será precioso: o amor. A vida será considerada um sucesso ou um fracasso de acordo com o esforço dedicado a eliminar seis situações de sofrimento e de pobreza: a fome, a sede, o exílio, a nudez, a doença, a prisão.

Há um pormenor que, no relato, é sublinhado com desvelo: nenhuma daquelas pessoas que fez obras de misericórdia se deu conta de as ter feito a Cristo. O amor só é autêntico se for desinteressado, se for isento de todas as formas de autocomplacência; quem age por uma recompensa, mesmo tratando-se da recompensa celeste, não ama ainda genuinamente.

 

E a condenação?

Os rabis costumavam repetir duas vezes os seus ensinamentos, de modo que ficassem bem impressos na mente dos discípulos. Muitas vezes apresentavam primeiro a mensagem na forma positiva, e depois na negativa. Recorriam ao conhecido artifício literário chamado «paralelismo antitético» usado também por Jesus (Lc 6, 20-26; Mt 7, 24-27; Mc 16, 16...).

O nosso trecho é um exemplo disso mesmo: a segunda parte (vv. 41-45) não acrescenta absolutamente nada à primeira; constitui um expediente estilístico que é usado para reforçar o conceito já expresso. A Jesus não interessa incutir terror, ameaçando com o Inferno, mas indicar – com imagens fortes, porque o perigo de desperdiçar a vida é muito forte – aquilo que verdadeiramente conta. Não pretende anunciar o que irá acontecer no fim do mundo, mas levar a reflectir, a abrir os olhos; Ele quer desvelar o juízo de Deus sobre as escolhas que cada um deve fazer agora.

Um exemplo simples pode ajudar a compreender. Numa joalharia estão expostas duas peças, uma de ouro puro, mas ligeiramente gasta pelo uso, e, a outra, de latão brilhante. Entra um comprador inexperiente que fica encantado pelo brilho da peça em latão. Por sorte aparece um especialista que o avisa: «Tem cuidado – diz-lhe ele – não desperdices o teu dinheiro com aquilo!» Este juízo salva-
-o, impede-o de cometer um erro. Mesmo que o especialista usasse expressões duras e ameaçadoras, as suas palavras seriam sempre uma mensagem de salvação.

Defender que a cena do julgamento descrita por Jesus se refere à condenação dos pecadores e às penas do Inferno parece-nos ousado. O Inferno existe, mas não é um lugar criado por Deus para punir, no fim da vida, quem se comportou mal. É uma condição de infelicidade e de desespero criada pelo pecado. Porém, é possível sair do inferno do pecado: a libertação dá-se por meio de Cristo, do seu juízo de salvação.

Mas Deus, no fim, não castigará os maus?

Para nós, um juiz parece ser justo quando, depois de ter avaliado o mal cometido, castiga com equidade. Mas não é esta a justiça de Deus. Ele é justo não porque dá o prémio ou o castigo conforme os nossos critérios e expectativas – se assim fosse, não haveria esperança e estaríamos todos condenados –, mas porque consegue que se tornem justos os que são maus (Rm 3, 21-26). Então, a questão não é: quem será considerado ovelha e quem será considerado cabrito no fim do mundo, mas sim em que ocasiões, hoje, somos ovelhas e em quais nos comportamos como cabritos. Somos ovelhas quando amamos o irmão, somos cabritos quando não o fazemos.

E no fim?

Bom, é difícil defender a ideia de que o bom pastor – a quem ninguém consegue roubar uma ovelha (Jo 10, 28) –, depois de nos ter deixado saltar um pouco como cabritos, para cá e para lá, não encontre o modo de fazer de nós todos... seus cordeiros.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.