Banquete da Palavra · 15 de novembro
Parece Prudência, Mas é Preguiça
Domingo XXXIII do Tempo Comum
Jesus recomendou que fôssemos «prudentes como as serpentes» (Mt 10, 16), mas o seu comportamento e as suas palavras estão muito longe daquilo que normalmente se entende por prudência: censurou os escribas e os fariseus (Mt 23) e ironizou acerca das suas exibições solenes e majestosas em «longas vestes» (Mc 12, 38), virou contra Ele os saduceus, desacreditando as suas convicções teológicas (Mt 22, 23-33), chamou «raposa» a Herodes (Lc 13, 32) e fez alusões pouco simpáticas aos reis que «usam roupas luxuosas» e vivem em palácios sumptuosos (Mt 11, 8). Violava o sábado, convivia com gente mal-afamada e impura, chamava «serpentes, raça de víboras» aos guias espirituais do povo (Mt 23, 33) e garantia que os publicanos e as prostitutas haveriam de
precedê-los no Reino dos Céus (Mt 21, 31)... Que tipo de prudência é esta?
Tinha alternativas: não sair de Nazaré e limitar-se ao trabalho com a plaina, manter a boca fechada ou abri-la apenas para adular; ignorar as multidões famintas, cansadas e em debandada «como ovelhas sem pastor» (Mc 6, 34); fechar o coração à compaixão perante o homem com a mão paralisada e resignar-se com o facto de, por vezes, uma pessoa contar menos que uma ovelha (Mt 12, 12); tapar os ouvidos para não ouvir o grito dos leprosos (Lc 17, 13) e deixar que a mulher adúltera fosse apedrejada (Jo 8, 5).
A prudência de Deus não é a dos homens – um alibi para a preguiça, a inércia, o desinteresse. É melhor correr o risco de errar por amor do que renunciar a lutar pelos grandes valores; é melhor ver a semente da palavra rejeitada por um terreno estéril – como aconteceu a Paulo no areópago (Act 17, 32-34) – do que escondê-la, por medo, envolvendo-a em silêncio.
Alegria plena é deixar-se arrastar pelos projectos do Senhor, sem medo.
Primeira leitura
«Nas mulheres podem-se encontrar quatro qualidades: são gulosas, curiosas, preguiçosas e ciumentas. São também choramingonas e tagarelas». Assim se exprimiam os rabis do tempo de Jesus e, meio a sério meio a brincar, acrescentavam: «Quando Deus criou o mundo, tinha à disposição dez cestos de palavras; as mulheres ficaram com nove e os homens com um.»
Gracinhas (muitas vezes infelizes) sobre as mulheres encontram-se em provérbios de todos os povos, e não é de admirar que se encontrem também nos livros da Bíblia. Há textos do Antigo Testamento nos quais a mulher aparece como sedutora, tagarela, ciumenta, curiosa, vaidosa (Eclo 25, 13-26; 26, 1-27); são um reflexo da mentalidade da época.
A leitura de hoje propõe um trecho no qual, pelo contrário, se faz o elogio da mulher. Garante-se que a mulher perfeita tem um valor inestimável: comparadas com ela, as pérolas – muito apreciadas na Antiguidade – são desprezíveis (v. 10).
Mas a mulher também pode constituir um perigo, pode transformar-se numa sedutora. É fácil – adverte o Sirácide – cair nos laços da mulher leviana, ou ser seduzido pelas artimanhas de uma artista (Eclo 9, 3-4). Como poderemos distinguir uma mulher de valor de uma feiticeira? Que características permitem reconhecê-
-la? Eis a lista.
Antes de mais, é uma mulher de valor: torna feliz o marido e difunde a paz, a serenidade e a harmonia na família (vv. 10-12).
É laboriosa (vv. 13.19), não fica de braços cruzados, não perde tempo em tagarelices frívolas, trabalha para que em sua casa tudo esteja em ordem e cada um seja feliz. Não se preocupa apenas com o marido e os filhos, quer que também os seus servos andem bem vestidos e tenham alimento em abundância.
A laboriosidade da mulher era sublinhada também pelos ra-
bis: «A mulher – admitiam eles – trabalha sempre, mesmo quando fala. Não é hábito da mulher estar sentada em casa sem fazer nada.»
A terceira qualidade: tem um coração grande. Não se fecha no doce ninho familiar que conseguiu constituir, mas olha à sua volta, e comove-se diante de quem é menos afortunado do que ela, corre a ajudar quem tem necessidade, partilha os seus bens com os miseráveis (v. 20).
A quarta e última característica: é religiosa, devota, fiel aos mandamentos de Deus (v. 30). Diziam os rabis: «o pensamento da mulher vai só para a sua beleza.» A mulher ideal, de que fala a leitura, desmente este estereótipo: não liga o seu coração à vaidade, mas interessa-se por aquilo que realmente vale na vida.
Há muitas mulheres assim? O trecho de hoje inicia com uma pergunta provocatória: «Quem poderá encontrar uma mulher virtuosa?» (v. 10). Podemos responder, sem receio de sermos desmentidos, que sim, existem muitas; e é significativo o facto de, neste domingo, a liturgia – falando-nos de laboriosidade, dedicação e empenho – ter associado estas virtudes à mulher. É um convite a reflectir.
Segunda leitura
Dissemos já, no passado domingo, que em Tessalónica havia tensões e desassossego porque se tinha difundido a convicção de que o fim do mundo e a vinda do Senhor estavam iminentes.
Desejosos de um esclarecimento, os tessalonicenses tinham encarregado Timóteo e Silas de perguntar a Paulo se ele estava em condições de poder dar indicações precisas acerca do tempo no qual estes factos iriam acontecer.
Na leitura de hoje, o Apóstolo responde: não é possível sabê-lo (v. 1) e diz o motivo. Deus – diz ele – age normalmente de forma imprevista, intervém quando menos se espera, comporta-se como o ladrão que chega sem ser esperado, quando as pessoas estão a dormir; é como as dores da mulher que está para ser mãe, que aparecem subitamente (vv. 2-3).
Não vale a pena – conclui Paulo – tentar descobrir o dia e a hora da vinda do Senhor. O que importa é evitar deixar-se envolver pelas trevas do mal. Os cristãos não deveriam correr este perigo, porque, a partir do dia do seu Baptismo, são filhos de luz e filhos do dia; é impossível que sejam apanhados de surpresa, como acontece a quem está imerso na escuridão e entontecido pelo sono (vv. 4-6).
Evangelho
A dureza do patrão para com o terceiro servo parece excessiva. Podia – na nossa opinião – mostrar-se mais compreensivo, porque o seu dependente, para além de se sentir atemorizado, muito provavelmente tinha ficado com a impressão de ter sido também subestimado. É nesta óptica que, nos primeiros séculos da Igreja, alguém retocou a parábola, concluindo-a assim: o terceiro servo não era desonesto, apenas tinha medo e, por isso, o patrão limitou-se a censurá-lo, com doçura. Havia ainda um quarto servo, ao qual tinham sido entregues alguns talentos; este entregou-se à boa vida e gastou tudo com prostitutas e tocadores de flauta; o patrão meteu-
-o na prisão. Mas nenhum foi tratado sem piedade.
Quem modificou deste modo o relato não entendeu que Jesus não queria dar uma lição moral acerca da honestidade, ou sobre a forma de investir o dinheiro, mas sobre o esforço de pôr a render os tesouros que lhe pertencem. No que diz respeito à pouca estima do patrão pelo terceiro servo, esta deve ser excluída: um talento, naquela época, era uma soma considerável; correspondia ao salário de vinte anos de trabalho de um operário.
Comecemos por esclarecer o significado dos talentos. Foi-se formando a ideia – difícil de extirpar – de que os talentos representam os dotes que cada pessoa recebeu de Deus, dotes esses que não devem ficar escondidos, mas desenvolvidos e postos a render. Esta interpretação não está de acordo com o que é dito no versículo 15, onde os talentos são entregues «conforme a capacidade de cada um». Portanto, talentos e qualidades da pessoa não são a mesma coisa.
Vejamos agora as personagens. Elas são introduzidas na primeira parte da parábola (vv. 14-15).
O protagonista é um rico senhor oriental; tendo que partir para uma longa viagem, confia os seus bens aos seus servos de confiança. Conhece as capacidades, as aptidões, as competências, e, com base nesse conhecimento, determina quanto confiar a cada um. Este senhor representa claramente Cristo que, antes de deixar o mundo, entregou todos os seus bens aos discípulos.
O patrão não dá indicações acerca de como gerir os talentos, mostrando ter plena confiança na inteligência, perspicácia e sagacidade dos seus servos, bem como respeito pela sua liberdade.
Vamos, agora, definir no que consistem estes bens. Trata-se daquilo que Jesus entregou à sua Igreja: o Evangelho, ou seja, a mensagem de salvação destinada a transformar o mundo e a criar uma humanidade nova; o seu Espírito que «renova a face da terra» (Sl 104, 30); e Ele mesmo, nos sacramentos. E, depois, o seu poder de curar, de consolar, de perdoar, de reconciliar com Deus.
Os três servos representam os membros da comunidades cristãs. A cada um é confiada uma tarefa, que deve ser desempenhada de modo que esta riqueza do Senhor possa frutificar. Conforme o próprio carisma (1Cor 12, 28-30), cada pessoa é chamada a produzir amor. De facto, o ganho é o amor, o fruto que o Senhor pretende.
A segunda parte da parábola (vv. 16-18) descreve os diferentes comportamentos dos servos: dois são empreendedores, dinâmicos, diligentes, enquanto que o terceiro é temeroso e inseguro.
O tempo que os três têm à disposição é aquele em que o patrão está longe: vai desde a Páscoa até à vinda de Cristo, no final da história do mundo; é o tempo no qual a Igreja organiza a sua vida, cresce, se desenvolve e se empenha a favor do homem, na expectativa do regresso do seu Senhor.
Mateus quer estimular uma «verificação» nas suas comunidades. Estarão conscientes do tesouro que têm? Convém controlar se todos os «talentos» foram utilizados da melhor forma, se algum dom ficou escondido debaixo da terra, se há aspectos da vida eclesial que são descurados, se algum ministério definha.
Na terceira parte da parábola (vv. 19-30), assistimos ao ajuste de contas. A cena, inicialmente tranquila e serena, torna-se escura e – como acontece muitas vezes no Evangelho de Mateus – termina de forma dramática. Vejamos.
Apresentam-se os dois primeiros servos que, com justificado orgulho, declaram ao senhor ter duplicado os seus haveres. No trecho paralelo do Evangelho de Lucas, os dois servos parecem querer reconhecer que um resultado tão surpreendente, mais do que aos seus esforços, deve-se à qualidade do capital: «A tua mina – dizem eles – rendeu...» (Lc 19, 16.18). Em Mateus, pelo contrário, são postos em evidência a habilidade e o mérito pessoais: «eu ganhei...» – declara cada um dos dois servos (vv. 20.22). A recompensa que recebem é «a alegria do seu Senhor», a felicidade que deriva do estar em sintonia com Deus e com o seu projecto.
Depois vem o outro, aquele que, mesmo não sendo o protagonista, é a personagem principal da parábola, o terceiro servo. «Eu sabia – diz ao patrão – que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence» (vv. 24-25).
A imagem que este servo tem do seu senhor, mesmo se aterradora, não é corrigida, mas confirmada. Mateus serve-se dela para indicar o quanto Cristo quer o bem do homem, o quanto deseja que se instaure rapidamente no mundo o Reino de Deus. «A ira do Senhor» é uma expressão bíblica com a qual se sublinha o seu amor irreprimível.
Na censura que o patrão dirige ao servo indolente, está a mensagem central da parábola: a única atitude inaceitável é a falta de empenho, é o medo de arriscar. Talvez aos dois primeiros não tenham corrido bem todas as operações económicas, todavia, só é condenado quem se deixou bloquear pelo medo.
No tempo de Mateus, havia discípulos zelosos e discípulos indolentes, assim como também hoje, nas nossas comunidades, continua a haver. Há cristãos dinâmicos e empreendedores, que se esforçam por dar um novo rosto à catequese, à liturgia, à pastoral, que se dedicam com paixão ao estudo da palavra de Deus de modo a conseguirem colher o seu significado mais autêntico e profundo, que são generosos e activos, e que, por vezes, por excesso de zelo, cometem erros e nem sempre acertam nas escolhas que fazem. Outros cristãos, pelo contrário, são preguiçosos e receosos de tudo. Limitam-se a repetir de forma monótona e entediada os mesmos gestos, as mesmas frases feitas, não estudam, incomodam-se quando alguém propõe novas interpretações, não se questionam sequer se certas mudanças não serão suscitadas pelo Espírito; só se sentem seguros dentro daquilo que sempre foi dito e feito no passado, assusta-os o futuro; não vibram com os grandes valores da liberdade e da fraternidade. Têm medo.
É incrível, mas é verdade: pode-se ficar paralisado pelo medo a Cristo. Uma certa espiritualidade do passado incitava a agir, mas recomendava, sobretudo, que não se fizessem pecados mortais, que se mantivesse a graça de Deus na fidelidade a mandamentos e preceitos; aos transgressores ameaçava com penas terríveis.
Esta espiritualidade criava o terceiro tipo de servos, os cristãos que – para evitarem os pecados – jogavam sempre pelo seguro. Não podiam errar porque, quem tenta, quem se esforça, expõe-se inevitavelmente ao risco de errar.
Quem defendia este medo, sem se dar conta, tornou-se causa da falta de amor, da esterilidade do bem, da letargia espiritual.
O «talento» da palavra de Deus, por exemplo, só frutifica quando se compreende o seu verdadeiro significado, quando se traduz numa linguagem compreensível para o homem de hoje, quando é aplicada à vida e às situações concretas da comunidade; doutra forma permanece um capital morto, não produz nenhuma mudança, não abala as consciências, não provoca, não inquieta ninguém.
A punição para quem torna improdutivos os talentos do Senhor é a exclusão da sua alegria. Não é a condenação ao Inferno, mas o facto de não pertencer desde já ao Reino de Deus.
O que deve fazer quem não consegue empenhar-se, quem não tem a coragem de fazer frutificar os bens do Senhor? Não deve continuar a ocupar inutilmente um encargo ou um lugar de responsabilidade, mas deve entregar o seu ministério ao «banco», à comunidade, de modo que ela possa actuar e confiar esse serviço a outra pessoa que esteja disposta a desempenhá-lo, porque os irmãos precisam que todos os ministérios sejam cumpridos.
A conclusão da parábola – «A todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado» – é um provérbio popular que reflecte um dado de facto facilmente verificável: a riqueza tende a acumular-se e o rico torna-se sempre mais rico. Citado nesta parábola, quer significar que, com as riquezas do Reino de Deus, acontece a mesma coisa: as comunidades generosas e atentas aos sinais dos tempos progridem e adquirem cada vez mais vitalidade; as que preferem fechar-se em si mesmas envelhecem, e ninguém ficará admirado por vê-las, um dia, desaparecer.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.