Banquete da Palavra · 8 de novembro
Não é Difícil Acreditar, Difícil é Perseverar na Fé
Domingo XXXII do Tempo Comum
Israel fez a experiência da fidelidade do seu Deus, e para Ele criou a expressão hesed we ‘emet, que se encontra muitas vezes na Bíblia e que pode ser traduzida como: fiel no amor. Quando o Senhor estipula uma aliança, cumpre-a, mesmo que a outra parte traia os compromissos assumidos; quando faz uma promessa, Ele nunca falta à palavra dada.
Paulo estava profundamente certo disso mesmo: «Fiel é Deus, por quem fostes chamados» (1Cor, 1, 9); «Se formos infiéis, Ele permanecerá fiel, pois não pode negar-se a si mesmo» (2Tm 2, 13); e, lembrando a infidelidade de Israel, exclama: «Irá, porventura, a infidelidade deles anular a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma!» (Rm 3, 3-4).
Mas poderá, alguma vez, o ser humano corresponder a este amor?
Na Bíblia fala-se dos hasidim (os fiéis; de hesed, fiel) e, ainda antes de Cristo, um grupo de homens piedosos e virtuosos – que tinham adoptado este nome – propunham-se encarnar o israelita leal, cumpridor da Lei, disposto a ir até ao martírio para não trair a sua fé. Esta corrente espiritual manteve-se até aos nossos dias no povo judeu. Este texto foi escrito por um destes hasidim diante da câmara de gás: «Deus de Israel, fizeste tudo o que era possível para que eu não acreditasse em Ti. Se, porventura, Tu pensavas conseguir fazer com que me desviasse do meu caminho, pois bem, eu Te digo, meu Deus, Deus de meus pais, não o conseguirás. Podes espancar-me, tirar-me o que de mais precioso e querido eu tenho aqui na terra, podes atormentar-me até à morte, mas eu acreditarei sempre em Ti. Amar-Te-ei sempre. Morro como vivi, acreditando firmemente em Ti.»
Quando sopra o vento da prova, «a luz do justo brilha alegremente, mas a lâmpada dos ímpios extinguir-se-á» (Pr 13, 9).
Faz, ó Senhor, que no último dia possa repetir como Paulo: «Terminei a minha corrida, conservei-me fiel.»
Primeira leitura
Mais do que a riqueza, a beleza e a força, os Israelitas – assim como todos os povos da Antiguidade – estimavam a «sabedoria». Apreciavam quem perscrutava os segredos da natureza, quem compunha provérbios, cantos e poesias, quem reflectia sobre os enigmas do mundo, sobre a vida e sobre a morte, sobre a alegria e sobre a dor. O mais famoso dos sábios foi Salomão, cuja sabedoria «excedia a de todos os filhos do Oriente e toda a sabedoria do Egipto» (1Rs 5, 9-14).
Mas quando a Bíblia fala de «sabedoria» refere-se, sobretudo, à arte de orientar bem a própria vida. Sábio é quem, reflectindo sobre a própria experiência, os ensinamentos dos sábios que o precederam, os acontecimentos da história do seu povo, retira daí ensinamentos que são úteis para si e para os outros; sabe distinguir o que é justo do que é errado, consegue controlar os seus próprios instintos e paixões, age com ponderação, é leal no falar e no agir, é humilde e modesto.
Mas, no mundo, não existe uma só sabedoria: ao lado da sabedoria de Deus está também a da «serpente» que a Bíblia apresenta como a mais astuta das criaturas feitas pelo Senhor Deus (Gn 3, 1). É a imagem da esperteza do homem que pretende ser dono absoluto do seu próprio destino, mas que, excluindo Deus da sua vida, acaba por decretar a sua ruína. Poderá este homem adornar-se com o título de «sábio»? A resposta da Bíblia é: não. É o insensato que, no seu coração, exclama: «Não há Deus!» (Sl 14, 1).
É, portanto, fundamental para cada pessoa, para cada família, para cada povo, verificar qual é a «sabedoria» que a guia, que a leva pela mão: é a de Deus ou a da «serpente»? De qual «sabedoria» dependem as decisões que são tomadas? Trata-se de fazer uma escolha entre a vida e a morte.
O autor do trecho que hoje nos é proposto é um sábio que descobriu a sabedoria de Deus e quer que os seus leitores se enamorem dela; por isso é que a apresenta, personificada, como uma rapariga esplêndida, como uma jovem que brinca e se diverte diante de Deus: é luminosa e incorruptível, quem a ama nunca se cansa de a contemplar (v. 12).
E as penas de amor? Experimenta-as quem se sente rejeitado, quem vê continuamente fugir a amada, quem descobre que a mulher dos seus sonhos é inatingível. Será assim tão árduo obter a sabedoria de Deus?
Não! – responde o nosso autor. Ela pode ser encontrada por quem quer que a procure (v. 12); aliás, é ela mesma que se antecipa a quem a ama, que manifesta mil encantos para se fazer notar, para se dar a conhecer (v. 13). Logo, desde a manhã, vai à procura de um homem sábio para o alegrar com a sua beleza e, para o seduzir, espera-o à porta de sua casa (v. 14).
De alguns, é ela mesma que se encanta; fica fascinada porque «são dignos dela». Quando os descobre, nunca mais os abandona, segue-os para todo o lado, acompanha-os em todos os pensamentos (v. 16).
O trecho termina proclamando feliz e sem canseiras quem faz sua a sabedoria de Deus, quem lhe confia a sua vida (v. 15).
Segunda leitura
Nas primeiras comunidades cristãs tinha-se difundido a convicção de que Jesus voltaria rapidamente para levar consigo os discípulos e introduzi-los no Reino do Pai. Também Paulo partilhava esta ideia. De onde tinha vindo? Como tinha surgido?
É espontâneo e natural imaginar que a própria geração será a última, e que o mundo acabará connosco. Até aqui, nada de estranho. Os problemas começam quando aparecem os chamados milenaristas que, aproveitando-se da ingenuidade das pessoas, anunciam acontecimentos espaventosos e fazem perder a cabeça a qualquer um, convencendo-o de que «chegaram os últimos dias». As consequências destes fanatismos podem até ser trágicas.
No tempo de Paulo, a expectativa da iminência do fim do mundo era alimentada, antes de mais, pelos rabis. Estes diziam que, devido às inúmeras desgraças que tinham atingido o seu povo, assim como devido aos muitos sofrimentos, humilhações e violências de todo o género que Israel continuava a suportar, Deus estava para intervir e dar início ao seu Reino. Mas também algumas frases de Jesus, interpretadas à letra e de forma incorrecta, tinham contribuído para suscitar esta expectativa (Mt 24).
Em Tessalónica esta situação começava a criar sérios problemas, tanto que Paulo sentiu a necessidade de intervir. Havia quem, convencido de que faltava pouco tempo para viver e que as reservas de comida eram suficientes, tinha deixado de trabalhar e passasse a levar uma vida de mandrião, desacreditando assim toda a comunidade.
Havia também um problema teológico que suscitava dúvidas e perplexidade: tinha a ver com a sorte dos defuntos. As pessoas perguntavam-se: se o Senhor vier buscar-nos a nós, os vivos, o que será dos nossos parentes e amigos que já morreram?
Na leitura de hoje é esclarecido o segundo problema. Ao da abstenção ao trabalho, Paulo responderá com uma segunda carta, escrita a esta mesma comunidade.
Paulo começa por lembrar algumas verdades fundamentais: diante da morte, pagãos e cristãos encontram-se em posições não só diferentes, mas opostas; os primeiros «não têm esperança» e portanto, diante da morte, não podem fazer mais nada se não desesperar: para eles é o fim de tudo. Pelo contrário, os cristãos acreditam na vida eterna, sabem que a vida de Deus, recebida no Baptismo, não é interrompida pela morte; mesmo que sofram pela separação de uma pessoa querida, não se entristecem «como os outros, que não têm esperança» (v. 13).
A segunda verdade, a que os tessalonicenses se devem referir, é a ressurreição de Cristo (v. 14). Jesus venceu a morte, entrou na glória do Pai e levará consigo todos aqueles que, no Baptismo, se uniram a Ele.
A terceira verdade consoladora (vv. 15-17) é que, aquando da vinda de Cristo, não haverá diferença entre os que já estão mortos e os que ainda vivem: todos serão recolhidos e ficarão para sempre com o Senhor.
Nestas verdades – que constituem o centro da fé – os cristãos devem encontrar a resposta ao enigma que, desde sempre, angustiou os homens, o da morte.
Evangelho
Na parábola de hoje há alguns pormenores estranhos, pouco verosímeis, até mesmo contraditórios. Enumero alguns: por que motivo as virgens insensatas não entraram para o banquete nupcial com o pouco azeite que ainda tinham? Em que terão pensado quando decidiram ir comprar mais azeite ao mercado? À meia-
-noite não há mercados abertos. As virgens prudentes entram para a festa no meio de grandes honras, mas a nós vem uma grande vontade de as mandar embora: não saberíamos o que fazer de amigas tão egoístas. A recomendação com que termina o relato: «Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora» (v. 13) não tem nada a ver com a parábola, porque também as virgens prudentes adormeceram e ninguém esteve vigilante.
A própria figura do esposo (que representa claramente Cristo) não é nada simpática. É um tipo estranho: chega a uma hora impossível, e, depois, precisamente no dia em que deveria mostrar-
-se afável para com todos, começa a ameaçar e a expulsar as pessoas por erros insignificantes. No seu banquete, todos nós participaríamos com apreensão.
Para compreender estes pormenores estranhos, é preciso considerar, antes de mais, que estamos perante uma parábola, e nas histórias nem sempre tudo é lógico; por vezes, são introduzidos elementos que têm por finalidade estimular a fantasia do ouvinte, mantê-lo interessado e atento, de modo que assimile mais facilmente a mensagem. Os pormenores dramáticos da nossa parábola são devidos – como tive ocasião de dizer outras vezes – ao típico gosto oriental pelas imagens impressionantes. Não é nelas que se deve fixar a atenção, mas no ensinamento central.
Há, depois, outro elemento importante a ter em conta, para compreender a parábola: o relato inicial de Jesus foi retocado por Mateus, que o adaptou às necessidades catequéticas das suas comunidades. Veremos como o fez.
A festa nupcial em Israel era muito solene, e durava cerca de uma semana. No primeiro dia, o esposo ia a casa dos sogros para trazer a esposa consigo. Era recebido pelas damas de honra – as raparigas solteiras da aldeia – que, cantando, dançando e, se era noite, empunhando tochas, acompanhavam a amiga que casava até à sua nova casa onde se desenrolava a festa.
Jesus inspira-se nesta cerimónia – a que certamente assistiu e na qual participou muitas vezes – para compor uma parábola com a qual possa transmitir a sua mensagem.
Considerando que o número cinco e a virgem são símbolos do povo de Israel, e que o número dez indica a totalidade, é fácil perceber o significado que a parábola teve na boca de Jesus. As dez virgens representam o povo de Israel que espera o messias (o esposo): uma parte deste povo (as cinco virgens prudentes) está preparada para o acolher e entra na comunidade cristã; outra parte, pelo contrário (as cinco virgens insensatas) não está atenta aos projectos de Deus, é infiel e fica fora da sala do banquete.
Passados cinquenta anos, quando Mateus escreve o seu Evangelho, já o contexto histórico, cultural e religioso mudou, nasceram comunidades no mundo pagão, os problemas com que os discípulos se confrontam são diferentes, e nesta nova situação sente-se, mais do que nunca, a necessidade da palavra iluminante do Mestre. Mateus – sendo um verdadeiro pastor de almas, atento às necessidades espirituais da sua Igreja – pega na parábola de Jesus e adapta-a à nova realidade.
Quais eram os problemas das comunidades cristãs no final do século I?
Vimos na segunda leitura que, nos primeiros decénios da vida da Igreja, tinha-se difundido a convicção de que o Senhor voltaria em breve «nas nuvens do céu» para levar consigo, para a glória, os seus discípulos. Mas não acontecia nada, a expectativa febril tinha passado, surgiam as primeiras dúvidas, começava a aparecer nas comunidades um certo cansaço e desencorajamento, e, como consequência, registavam-se entre os cristãos muitos abandonos. Havia até algum apóstata que dirigia piadas irónicas aos seus antigos irmãos na fé: «Em que fica a promessa da sua vinda? Desde que os pais morreram, tudo continua na mesma, como desde o princípio do mundo» (2Pd 3, 4).
Desiludidos pelo facto de não se verificar o regresso do Senhor, muitos retomavam a vida dissoluta que tinham vivido antes do Baptismo, voltavam a ocupar-se do comércio e dos negócios, assumiam novamente atitudes arrogantes para com os seus dependentes e exploravam os escravos, como se nunca tivessem ouvido falar do Evangelho de Cristo. Tinham caído num perigoso sono espiritual, estavam à mercê do mais completo embotamento da consciência.
É para apelar a estas pessoas que deixaram apagar nelas a chama da fé, para dar um abanão a quem permite que a sua fé se reduza a um pavio fumegante, que Mateus altera a parábola. A cena é a do juízo de Deus, as tintas são carregadas, a linguagem dura, mas é a situação que o exige. É ainda acrescentada uma exortação que Jesus pronunciou certamente noutra ocasião – «Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora» (v. 13) –, mas que o evangelista considera oportuno colocar neste contexto.
Na primeira parte da parábola (vv. 1-5), são introduzidas as personagens e descritos os preparativos para a festa.
Na nova versão – a que Mateus adaptou para a sua comunidade – as dez virgens já não indicam Israel, mas a Igreja que aguarda o regresso do seu Senhor, do seu Esposo. Assim tem também uma explicação lógica o facto de não aparecer a esposa: é a comunidade cristã, representada pelas dez virgens.
«Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes» (v. 2).
Este é um tema muito estimado por Mateus: na comunidade cristã convivem o mal e o bem; o trigo e o joio crescem juntos no mesmo campo; os peixes bons e os maus encontram-se na mesma rede; gente limpa e gente suja senta-se à mesma mesa; os sábios e os insensatos são postos lado a lado.
Note-se que as virgens insensatas são as primeiras a ser nomeadas, porque são elas que causam preocupação. Representam os cristãos em risco, aqueles discípulos que se deixaram entorpecer e que se comportam como raparigas frívolas e vaidosas, que perdem a cabeça pelos vestidos, os brilhantes, os perfumes, o look e esquecem o que é essencial. Jogam a vida naquilo que passa, esquecem os valores autênticos, a única coisa necessária, a que Maria escolheu aos pés do Senhor tornando-se sua discípula (Lc 10, 38-42).
As virgens vigilantes são os cristãos que não se deixam seduzir pelas vaidades, e permanecem concentrados no que é importante na vida.
A parábola é proposta também aos cristãos de hoje, para os ajudar a descobrir a «virgem insensata» que se encontra em cada um deles. Muitas vezes é ela que – sem que se dêem conta – os leva pela mão, os aconselha, os guia, lhes dá sugestões e os orienta para escolhas insensatas.
Na segunda parte da parábola (vv. 6-9) há, antes de mais, o grito de alguém que, mais vigilante do que os outros, intui que está para chegar o esposo; depois são confrontados os dois grupos, e o modo oposto como viveram o tempo da espera.
O comportamento desconcertante das virgens prudentes, que se recusam a dar do seu azeite às companheiras, contém uma mensagem preciosa. No passado, era frequente ouvir dos mestres espirituais a seguinte frase: «O importante é morrer na graça de Deus», como se bastasse um bom sentimento, um bom pensamento no final da vida, para pôr no lugar uma existência mal gerida. Uma vida arruinada não se pode reconstruir no último minuto, e ninguém pode emprestar parte da sua. Portanto, o que é importante não é morrer bem, mas viver bem. Deus – é verdade – encontra sempre o modo de salvar o homem, mas, no final, cada pessoa encontrar-
-se-á com aquilo que fez: com um palácio esplêndido e sólido ou com um castelo de papelão, que não resistirá ao fogo do juízo de Deus, quando Ele «provará o que vale a obra de cada um» (1Cor 3, 13-17).
A terceira parte (vv. 10-12) contém a cena do juízo: chega o esposo, algumas pessoas são admitidas na festa, outras são rejeitadas.
Em Mateus, as parábolas terminam frequentemente de forma dramática, com ameaças e castigos. Estes não são introduzidos na história para aterrorizar, mas para avisar acerca de comportamentos errados que levam ao fracasso. São um modo de lembrar a importância do momento presente, o único que nos é dado e que nem mesmo Deus nos pode fazer reviver. Se for mal investido, ficará perdido para sempre.
O encerramento da porta indica o fim de todas as oportunidades. Daqui a urgência em determinar como utilizar bem a vida, e a imagem da lâmpada acesa sugere o modo.
Será aprovado por Deus quem tiver feito escolhas evangélicas, quem tiver sido perseverante e tiver mantido acesa, na mente e no coração, a luz da fé, mesmo nos momentos em que as provas e as dificuldades foram maiores do que estava previsto. Será condenada e considerada insensata a escolha de quem, por um certo tempo, tiver seguido as propostas de Cristo, mas depois, cansado, se tiver virado para outros valores, para outros interesses.
É apenas esta a mensagem da parábola, o resto é dramatização para a tornar incisiva; não é a descrição daquilo que Jesus fará no fim do mundo com quem se tiver comportado como um insensato.
O epílogo (v. 13) é uma última chamada de atenção para a vigilância: o Esposo pode chegar de um momento para o outro, e é necessário estar sempre pronto para o acolher.
Seria um erro imaginar este mundo como uma sala de espera na qual, sentados, cheios de paciência e com uma certa sonolência, os cristãos esperam que o Senhor os venha buscar para os introduzir no mundo futuro.
Esta concepção (que era a de alguns cristãos de Tessalónica) deu origem à falta de empenho, ao imobilismo, à indiferença, ao desinteresse pelos problemas do mundo e pelas realidades terrenas, e estas atitudes são o que de mais antievangélico se possa imaginar.
Jesus não vem apenas no final da nossa vida, Ele vem a cada momento e quer encontrar os seus discípulos empenhados no serviço, no dom de si aos irmãos. No quarto do discípulo, a lâmpada deve estar sempre acesa, como ponto de referência e sinal de esperança para o pobre que procura ajuda, para o marginalizado e o estrangeiro que invocam amor e justiça, para a mulher que pede respeito, para quem é vítima de violência e anseia a paz, para quem errou e precisa de compreensão e de perdão.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.