Banquete da Palavra · 18 de outubro
Ocupados no Mundo, Mas não do Mundo
Domingo XXIX do Tempo Comum
A pessoa não vive só, é parte de uma sociedade civil e deve estabelecer relações de colaboração com as outras pessoas. Da necessidade de organizar a convivência, deriva a necessidade de determinar direitos e deveres, de criar instituições, de estabelecer formas de contribuir para o bem comum. Não é fácil estabelecer aquilo que é justo: entram em jogo diferentes interesses, perspectivam-se diferentes objectivos; há quem pretenda favores, quem reivindique privilégios, e, então, as tensões surgem, inevitavelmente.
Para complicar ainda mais o problema, há as relações entre o ordenamento estatal e as instituições religiosas, com os seus princípios, normas, hábitos, tradições e pretensões irrenunciáveis. Muitas pessoas, sentindo-se súbditas de dois poderes em competição – que muitas vezes vão para além das próprias atribuições, lançando-se depois acusações recíprocas de invasão do próprio terreno – têm a consciência lacerada. Para resolver o conflito, há quem escolha posições fanáticas e integralistas, pretendendo impor a toda a gente as suas próprias convicções, e quem renuncie a um confronto do qual teme sair derrotado e se afaste.
Na célebre Carta a Diogneto, composta em meados do século II, são sugeridos princípios sapientes e actuais: «Os cristãos, nem por razão, nem por voz, nem por costumes se distinguem das outras pessoas. Vivendo em cidades gregas e bárbaras, como a cada um aconteceu, e adequando-se aos costumes locais no que diz respeito à roupa, à alimentação e a tudo mais, testemunham um método de vida social admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam em tudo como cidadãos, e de tudo estão desapegados como estrangeiros. Cada pátria estrangeira é a sua pátria, e cada pátria é estrangeira. Casam como toda a gente e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem em comum a mesa, mas não a cama. Moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu. Obedecem às leis estabelecidas, e com a sua vida superam as leis. Numa palavra, assim como a alma está no corpo, assim no mundo estão os cristãos» (Carta a Diogneto, V, 1-10; VI, 1).
Resplandeçam os cristãos como astros no mundo; cidadãos exemplares, coerentes com as próprias ideias, respeitosos das ideias dos outros.
Primeira leitura
Há uns trinta anos que os Israelitas se encontravam na Babilónia quando, entre eles, surgiu um profeta. Permaneceu anónimo, porém, dos oráculos que os seus discípulos recolheram e inseriram no livros de Isaías, transparece a sua personalidade eminente: era um poeta, um dos mais requintados que Israel teve, uma pessoa sensível, culta e atenta aos acontecimentos sociais e políticos que diziam respeito ao seu povo. Era um teólogo genial, que soube vislumbrar o plano de salvação de Deus para além de tudo aquilo que eram os simples acontecimentos, as alianças, as intrigas diplomáticas ou as campanhas militares.
No trecho de hoje, ele revela o que o Senhor está para realizar em favor do seu povo: Babilónia, a sanguinária, a maldita, é potente, mas por pouco tempo; no horizonte surgiu um novo astro, o rei dos Persas, Ciro. Este hábil chefe, com uma série de expedições vitoriosas, conquista e submete todos os reinos da Ásia Menor e do Oriente. Por fim, dirige-se contra a Babilónia, onde não encontra resistência e entra triunfante. Dominador incontestável do mundo, publica um édito no qual se apresenta como o salvador dos oprimidos, o defensor dos fracos, o homem piedoso de quem Deus se serve para realizar os seus planos. Ordena que sejam libertados todos os deportados: se assim o desejarem, podem voltar à terra dos seus pais e praticar a sua religião; mais ainda, ele mesmo quer contribuir para a reconstrução dos lugares de culto destruídos pelos soldados da Babilónia (Esd 1, 1-4).
Depois desta introdução histórica, é fácil compreender a leitura de hoje, onde – pela boca deste profeta – Ciro é apresentado como o eleito do Senhor: «O Senhor tomou-o pela mão direita, para subjugar diante dele as nações, para abrir as portas à sua frente sem que nenhuma lhe seja fechada» (v. 1). Depois, como acontece nos oráculos de entronização de um rei (Sl 2; 110), Deus dirige-se directamente ao novo soberano: «Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso quando ainda não me conhecias... Eu te cingi, quando ainda não me conhecias» (vv. 4-5).
É um título extraordinário este que foi dado por Deus a Ciro: ungido, ou seja, messias, cristo. Mas, o Senhor atribuiu-lhe outros: «Digo a Ciro: és o meu pastor, e ele cumprirá a minha vontade» (Is 44, 28); «ele reconstruirá a minha cidade e libertará os meus deportados», «suscitei-o para a justiça» e diante dele «aplanarei todos os seus caminhos» (Is 45, 13). São expressões que quase levam a pensar que Ciro é considerado pelo profeta o salvador esperado, o messias, o rei que «dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra» (Sl 72, 8).
Não o era; Ciro foi somente o instrumento do Senhor para libertar o povo da escravidão da Babilónia e – esta é a surpresa – realizou esta obra de salvação sem estar consciente dela. Note-se a insistência do autor sobre este facto: «quando ainda não me conhecias...» (vv. 4-5). A confirmação vem do célebre Cilindro de Ciro, no qual as vitórias extraordinárias deste rei não são atribuídas ao Senhor mas à protecção do deus Marduc: «Marduc olhou para todas as nações procurando uma que as governasse com rectidão e pronunciou o nome de Ciro para que dominasse o mundo. Marduc, o grande deus, gostou dele e pôs-se a seu lado, como um verdadeiro amigo.» Ciro, que se considerava o eleito do deus dos Babilónios, de facto era guiado pelo Deus de Israel, o único Deus, o único Senhor «e mais ninguém» (v. 6).
As palavras do profeta são um convite a olhar para os acontecimentos e para a história do mundo com outros olhos: as pessoas e os povos agitam-se, são movidos por interesses e paixões, têm arrebatamentos de generosidade e muitos momentos de egoísmo, mas o Senhor está presente e faz com que tudo entre no seu desígnio de salvação. Até mesmo os ateus e os não-crentes têm dado muitas vezes um contributo à purificação da fé e da religião, bem como à libertação do homem. Sem o saber, estão envolvidos nos projectos de Deus.
Segunda leitura
Hoje e durante os próximos quatro domingos, serão propostos à nossa atenção trechos da primeira Carta aos Tessalonicenses.
Tessalónica era uma rica metrópole comercial que se erguia na parte mais interna do golfo de Salónica; o nome provinha da irmã de Alexandre Magno, esposa do general Cassandro, fundador da cidade. Estava protegida por uma imponente muralha que, partindo do mar, circundava a colina sobre a qual surgia a acrópole. O geógrafo Estrabão descreve-a como uma cidade «populosa, despreocupada e aberta a todas as novidades, boas e más». Como qualquer cidade portuária, também esta não era um modelo de moralidade: pelas ruas circulavam prostitutas, vagabundos, gente ociosa, charlatães; contudo, era habitada também por pessoas ho-nestas e trabalhadoras.
Paulo chega lá por volta do ano 50 e, como era seu costume, anuncia Cristo antes de mais aos judeus que, ao sábado, se reuniam na sinagoga. Os resultados foram, de certa forma, desoladores, pouca gente acreditou na sua pregação. Teve mais sucesso quando se dirigiu aos pagãos, que aderiram à fé em número considerável; contando-se entre eles não poucas mulheres da nobreza (Act 17, 1-9).
Passadas poucas semanas, um tumulto provocado pelos judeus obrigou Paulo a abandonar à pressa a cidade, antes de ter conseguido explicar aos discípulos os temas centrais da fé; é devido a esta situação que ele está convencido de ter deixado para trás uma comunidade frágil.
As etapas sucessivas da sua viagem foram também marcadas por dificuldades e insucessos. No areópago de Atenas tentou um contacto com os intelectuais da Grécia, mas a experiência foi uma desilusão: «Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos, uns começaram a troçar, enquanto outros disseram: “Ouvir-te-emos falar sobre isso ainda outra vez.” Alguns, no entanto, concordaram com ele e abraçaram a fé» (Act 17, 32-34).
De Atenas passou para Corinto, a cidade com dois portos, conhecida em todo o mundo pela vida dissoluta dos seus habitantes, e, portanto, terreno aparentemente pouco apropriado para a semente do Evangelho. Paulo encontrava-se desencorajado, tanto que decidiu falar de Cristo apenas ao sábado, na sinagoga, e dedicar o resto da semana à sua profissão de construtor de tendas (Act 18, 1-4).
Um dia, chegam de Tessalónica os seus companheiros no trabalho apostólico, Silas e Timóteo, portadores de notícias inesperadas e surpreendentes: a comunidade dos tessalonicenses desenvolvera-
-se, crescera frondosa e tornara-se um modelo de fé e da prática da caridade fraterna; enfrentava com coragem a perseguição e os vexames dos não-crentes e gozava da estima dos pagãos pela vida íntegra que os baptizados levavam; todos recordavam Paulo com nostalgia e lhe estavam imensamente gratos, já que através dele conheceram a fé e foram entregues a Cristo, e aguardavam com ânsia a sua visita...
Admirado, quase incrédulo, Paulo ouvia os amigos. De novo encorajado, decidiu dedicar-se novamente, a tempo inteiro, ao anúncio do Evangelho (Act 18, 5). Ainda emocionado, escreveu – também em nome de Silas e Timóteo – uma carta aos tessalonicenses.
Foi assim que nasceu o primeiro escrito do Novo Testamento. Estávamos no ano de 51 d.C.
Nos cinco primeiros versículos – os da leitura de hoje –, Paulo confessa a alegria que experimenta sempre que, na oração, pensa nos cristãos de Tessalónica; porque lhe disseram que esta comunidade era fundada na fé, na esperança e na caridade (v. 3).
Estas três virtudes são caracterizadas e unidas. Antes de mais, o empenho na fé: os tessalonicenses não se limitaram a aceitar e a repetir algumas fórmulas abstractas, mas traduziram a sua fé em gestos concretos, numa caridade operativa, em acções que toda a gente podia verificar.
Também a sua esperança é inabalável, não desmorona diante das dificuldades e das provas, nem mesmo perante o perigo de vir a perder a vida.
No progresso espiritual realizado pela comunidade de Tessalónica, Paulo vê a obra de Deus e a potência do Espírito. Estava desencorajado porque constatara a sua própria fraqueza e, agora, alegra-se, verificando como Deus consegue sempre realizar a sua obra.
Evangelho
A frase com que termina este trecho é uma das mais conhecidas, mas também das mais enigmáticas; não é fácil determinar o seu significado, pelo que nem sempre é citada a propósito. Por vezes, é utilizada por quem detém o poder para convidar as hierarquias eclesiais a não se imiscuirem nas questões políticas; outras vezes, são estas a recordá-la aos governantes para afirmarem o seu próprio direito de defender e proclamar os valores do Evangelho. Foi usada, inclusivamente, por quem defendia a hierocracia papal e por quem sustentava a autoridade religiosa do Imperador, por quem defendia a laicidade do estado e por quem sonhava com uma subordinação deste ao poder religioso, por quem sacralizava as instituições e por quem justificava o poder temporal da Igreja. Há também quem, de forma banal, a utilize para convidar a dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido.
Para compreender esta frase, é preciso colocá-la no contexto que lhe deu origem.
O imperador de Roma exigia de cada um dos seus súbditos – que tivesse feito catorze anos no caso dos homens, e doze no caso das mulheres, até aos sessenta e cinco anos – que entregasse ao tesouro público um denário por ano. Era o tributum capitis, para o qual se faziam os recenseamentos odiosos que muitas vezes provocavam revoltas populares (Lc 2, 1-5; Act 5, 37). Contar o povo que pertencia a Deus era, para o israelita piedoso, subtraí-lo à autoridade do Senhor e sujeitá-lo a um poder humano. Por este motivo é que David, depois de ter feito o recenseamento, sentiu bater forte o coração e exclamou: «cometi um grande pecado ao fazer isto; procedi como um insensato» (2Sm 24, 10).
Um dia, os fariseus, acompanhados pelos herodianos, apresentaram-se a Jesus; de forma muito reverente, depois de terem reconhecido o seu amor pela verdade e a sua integridade, dirigem-lhe uma pergunta insidiosa: «Sabemos que és sincero, não te deixas influenciar por ninguém e não fazes acepção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É licito ou não pagar tributo a César?» (cf. vv. 16-17).
É curiosa esta aliança entre fariseus e partidários de Herodes. Os primeiros consideravam um pecado apoiar a ocupação romana, enquanto que os segundos eram apoiantes de Herodes Antipa, o fantoche sem personalidade, submetido ao imperador Tibério, e eram colaboracionistas. Aliaram-se contra Jesus porque Ele incomodava tanto uns como outros; era leal e rejeitava todo o tipo de hipocrisia.
A pergunta é formulada de tal forma que não deixa escapatória: ou se pronuncia contra o pagamento dos impostos, e pode ser denunciado às autoridades romanas como um subversivo (e de facto, segundo refere Lucas, é acusado diante de Pilatos de não pagar os tributos a César; Lc 23, 2), ou se declara favorável e ganha a antipatia do povo que odeia os colonizadores romanos.
Os impostos, em todo o lado, são sempre pagos com uma certa má vontade; a este facto, na Palestina, juntava-se outro, de ordem religiosa: o denário exigido tinha, num dos lados, a representação do imperador, com a inscrição «Tibério César, filho augusto do divino Augusto» e, do outro, o título «Sumo Pontífice» com a imagem de uma mulher sentada, símbolo da paz, e que representava provavelmente Lívia, a mãe de Tibério. Em 1960, foram encontradas umas trinta moedas destas, no monte Carmelo.
É conhecida a repugnância dos Israelitas pelas imagens humanas, proibidas pela lei. Usar o denário de Tibério significava consentir numa forma de idolatria.
Jesus dá-se conta da insídia que lhe estenderam, mas não foge à pergunta; como faz habitualmente, leva os seus interlocutores à raiz do problema.
Antes de mais, quer que lhe mostrem uma dessas moedas; eles, ingenuamente, levam as mãos à túnica, onde normalmente escondiam o dinheiro (naquele tempo não existiam bolsos) e apresentam-lha. Não se dão conta que Jesus lhes troca as voltas: antes de mais, se lhes pede a moeda é porque não tem nenhuma (para si, não tem sequer uma pedra onde reclinar a cabeça; Mt 8, 20), e se eles lhe apresentam uma é porque normalmente a utilizam sem problemas, recebem-na pelos seus serviços e com ela adquirem produtos no mercado. Mas há mais: a disputa tem lugar no recinto do templo (Mt 21, 23), portanto, no lugar santo, e eles não se preocupam em o profanar mostrando aquela imagem; só têm escrúpulos quando se trata de pagar os impostos.
Depois de ter observado a moeda, Jesus pergunta: «De quem é esta imagem?»; «De César», respondem eles. «Então – conclui – dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (v. 21).
A primeira mensagem que Jesus quer transmitir é clara: é um dever moral, para além de civil, contribuir para o bem comum com o pagamento do tributo; não há razão que justifique a evasão fiscal ou o furto dos bens do Estado. Seja qual for a linha política e económica escolhida pelo governo, o discípulo de Cristo é chamado a ser um cidadão honesto e exemplar, empenhado activamente na construção de uma sociedade justa; recusa os subterfúgios e faz escolhas políticas que favoreçam os mais fracos, não aqueles que salvaguardam os seus próprios interesses.
Escrevendo aos Romanos, Paulo volta a propor, em termos mais explícitos, a directiva do Mestre. Estamos no início do reino de Nero – o imperador tem pouco mais de vinte anos e governa já há três anos, felizmente de forma clemente e moderada – e eis o que o Apóstolo recomenda aos cristãos da capital: «Que todos se submetam às autoridades públicas, pois não existe autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade opõe-se à ordem querida por Deus. É por isso que é necessário submeter-se, não só por medo do castigo, mas também por razões de consciência. É também por essa razão que pagais os impostos; aqueles que têm que se ocupar disso são funcionários de Deus. Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto, a quem se deve o imposto; a taxa, a quem se deve a taxa; o respeito, a quem se deve o respeito; a honra, a quem se deve a honra» (Rm 13, 1-7).
Mas a resposta de Jesus não se limita a afirmar o dever de contribuir para o bem comum com o pagamento dos impostos; Ele acrescenta: «Dai a Deus o que é de Deus.»
O verbo que utiliza significa mais propriamente «restituir». Dirigindo-se aos presentes, de facto, Ele diz: «Restitui a César o que pertence a César e restitui a Deus o que é de Deus.» Eles não só conservam o dinheiro que deve ser entregue ao imperador, como se apoderaram também, de forma ilegal e injusta, de uma propriedade de Deus; devem devolvê-la imediatamente porque Ele a exige, é sua. De que se trata?
Já Tertuliano, no ano 200, tinha intuído que se tratava do ser humano que deve ser restituído a Deus. De facto, criando-o, Ele dissera: «“Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança.” Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus» (Gn 1, 26-27).
Se a moeda devia ser «restituída» a César, porque nela estava impresso o rosto do seu proprietário, também o ser humano devia ser «restituído» a Deus. Ele é a única criatura sobre a qual está impresso o rosto de Deus, é sagrada e ninguém se pode apropriar dela. Quem se apropria desta criatura (a escraviza, a oprime, a explora, a domina, a usa como objecto...) deve restituí-la imediatamente ao seu Senhor.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.