Banquete da Palavra · 4 de outubro
Cristo: Pedra Que Despedaça os Nossos Ídolos
Domingo XXVII do Tempo Comum
O último versículo do salmo 137 – o célebre canto do exilado – é sempre cuidadosamente ignorado. Depois do pungente apelo ao pranto dos deportados ao longo dos rios da Babilónia, o poeta, dirigindo-se à cidade sanguinária, exclama: «Feliz de quem agarrar nas tuas crianças e as esmagar contra as rochas!» (Sl 137, 9). Não menos embaraçoso é o versículo que conclui a parábola do Evangelho de hoje e que não consta do texto do leccionário. Referindo-
-se a Cristo – a pedra que os construtores rejeitaram e que Deus pôs como pedra angular – o evangelista comenta: «Quem cair sobre esta pedra, ficará despedaçado; aquele sobre quem ela cair, ficará esmagado» (Mt 21, 44).
São imagens desconcertantes, mas que de repente se iluminam se as virmos como referência à cena descrita no livro de Daniel; uma pedra – sem intervenção de mão humana – desprende-se da montanha e atinge uma estátua colossal, de aparência esplêndida mas terrível, que cai e se desfaz (Dn 2, 31-35). É o ídolo que, na sua insensatez, o homem construiu e do qual já não consegue libertar-se; é a sociedade injusta, corrupta e desumana que criou para si mesmo e da qual acaba por ser vítima.
Cristo e o seu Evangelho são «a pedra» lançada por Deus contra esta estrutura monstruosa, são «a pedra» que desfaz as lógicas deste mundo, as astúcias, as espertezas e, sobretudo, as imagens insensatas que os homens fizeram de Deus. Contra esta pedra estão destinados a desfazerem-se os projectos dos ímpios e «a esmagarem-se os seus filhos»: quer isto dizer que os maus não terão descendência, ficaram sem posteridade, sem futuro, porque Deus fará desaparecer do mundo novo todos os operadores de iniquidade. Esta é a boa notícia!
Os grandes deste mundo – construtores da nova «torre de Babel» – rejeitam esta pedra porque não se adapta aos seus planos, entrava os seus sonhos, provoca a destruição dos seus reinos.
Procuraram eliminá-la; mas Deus escolheu-a como rocha de salvação, e quem a põe como alicerce da sua própria vida não será desiludido.
Somos a vinha do Senhor, que frutos lhe podemos apresentar?
Primeira leitura
«Acontecerá no fim dos tempos... um povo não levantará mais a espada contra outro... Cada um repousará debaixo da sua parreira e da sua figueira, sem que ninguém o amedronte» (Mq 4, 1-4). Com esta graciosa imagem bucólica, Miqueias descreve a vida serena e tranquila a que aspirava qualquer israelita. A vinha era o símbolo da paz, da união familiar, da alegria, da festa. A amada do Cântico dos Cânticos sonhava correr entre as fiadas de videiras, mão na mão do seu dilecto, numa manhã fresca de Primavera: «Madruguemos pelos vinhedos, vejamos se as vides rebentam e se abrem os seus botões, e se brotam as romãzeiras; ali te darei as minhas carícias» (Ct 7, 13). A esposa do homem abençoado por Deus é «como videira fecunda» na intimidade do seu lar (Sl 128, 3).
Neste contexto cultural, no qual está associada à vinha a ideia do amor, nasceu a poesia que nos é proposta hoje e que, justamente, está entre as obras-primas da literatura mundial. Descreve a paixão de um agricultor pela sua vinha, um afecto ardente, como o do enamorado pela mulher da sua vida. Em casa, na rua, com os amigos, só fala dela.
O poeta imagina ser o amigo deste «esposo» e conta: «o meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina...» (v. 1). Uma vinha excelente, com videiras adquiridas no estrangeiro, castas escolhidas, preferidas entre mil outras. Fora plantada num declive soalheiro, o lugar ideal para obter aqueles cachos que já a partir de Julho se tingem de violeta, sinal de uma uva de sabor delicado e presságio de um vinho forte e bom. O terreno fora limpo de espi-nhos, ervas daninhas e pedras, e estas, recolhidas para a margem do campo, constituíam o muro de cerca e a torre de protecção contra ladrões e animais selvagens.
Nenhuma atenção, nenhum cuidado, nenhum esforço eram poupados. A ternura do amado transparece também da insistência com que repete a expressão minha vinha: «habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha. Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito? Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha» (vv. 3-5).
Nesta altura, o leitor está ansioso por conhecer a continuação da história. O que produzirá a vinha que foi tão bem cuidada? Na segunda parte (vv. 3-4), é narrada a surpresa dramática do lavrador: esperava uma uva excelente, mas encontra uva selvagem, agraz, que não se pode comer (v. 4). Como no coração do enamorado traído e desiludido, o amor pela vinha transforma-se em desapontamento, em ressentimento, em agastamento. O agricultor decide castigar de forma terrível a sua vinha: irá abater o muro de cerca, deixará que os viajantes entrem para a pisar, que os animais selvagens a devastem e os espinheiros e as silvas a invadam até que ela sufoque; deixará de a podar e de limpar o terreno à volta das suas videiras; ordenará às nuvens que não derramem sobre ela a chuva benéfica e o orvalho (vv. 5-6).
O último versículo (v. 7) explica o sentido da imagem: a vinha é Israel; é ele a videira nobre e escolhida que o Senhor adquiriu no Egipto. Já o profeta Oseias, alguns anos antes, tinha dito: «Israel é uma vinha frondosa» (Os 10, 1).
O autor do salmo 80 desenvolve o pormenor da remoção das «pedras» – os povos que ocupavam a Palestina antes da chegada dos Israelitas – detalhe esse que no nosso texto é apenas mencionado: «Arrancaste uma videira do Egipto, expulsaste outros povos para a plantar. Preparaste-lhe o terreno; ela foi deitando raízes e acabou por encher toda a terra» (Sl 80, 9-10).
A torre de protecção era a dinastia de Israel.
A todo este amor, Israel respondeu com a infidelidade e a rebelião. Os frutos (a uva boa e doce) que o Senhor esperava era a fidelidade à aliança, a justiça social, a ajuda ao pobre, ao órfão, à viúva. E o que encontrou? Gritos de pessoas oprimidas e exploradas, mentiras nos tribunais, ódio, derramamento de sangue, uma religião feita de procissões, peregrinações ao templo, ritos que não correspondiam à conversão do coração.
No texto original, há um curioso jogo de palavras: justiça e rectidão (que Deus esperava do seu povo) são termos semelhantes
a derramamento de sangue e gritos de oprimidos (que é aquilo
que Israel produz). Quem os ouve pronunciar até os pode confundir (mishpat = rectidão e mishpah = derramamento de sangue; tzedaqah = justiça e tze’aqah = gritos de oprimidos). À primeira vista até mesmo a uva selvagem pode parecer boa, porém, é só aparência.
Na alegoria da vinha são contrapostas duas atitudes: a de Deus, que manifesta um amor concreto (prepara o terreno, planta videiras escolhidas, protege-as com uma torre, escava um lagar) e a do povo, que, desleixando a justiça, contenta-se com ritos exteriores, com orações devotas (cf. Is 1, 11-17).
A severa denúncia de Isaías é proposta de novo aos cristãos de hoje: é sobre eles que incumbe o perigo da ilusão de estarem em ordem com Deus só porque executam impecavelmente as práticas religiosas.
Devido à sua infidelidade, Israel caiu num desastre nacional: foi invadido por povos estrangeiros (os Assírios, os Babilónios...) que devastaram «a vinha do Senhor» e reduziram Jerusalém a «uma choça num pepinal» (Is 1, 8).
Esta destruição é o símbolo da esterilidade a que fica reduzido quem ignora as atenções e os cuidados que Deus tem para com ele.
Segunda leitura
Nos primeiros versículos da leitura (vv.6-7), Paulo afirma que nada pode destruir a paz e a alegria de um cristão, nada pode angustiá-lo se permanecer unido a Deus na oração.
Na segunda parte (v. 8), é apresentada uma lista de virtudes humanas que os cristãos são convidados a cultivar na sua vida; são qualidades e comportamentos apreciados por toda a gente, sempre. Tudo o que torna a pessoa simpática, amável, honrada e respeitada deve ser praticado pelo cristão; não se pode pensar em ser discípulo de Cristo se não for leal, honesto, íntegro, respeitável.
Sem receio de ser desmentido, Paulo, pondo de lado a falsa modéstia, ousa apresentar-se como modelo destes comportamentos (v. 9). A sua recomendação é um convite aos cristãos de hoje a terem uma atitude doce, simpática, respeitosa em relação a toda a gente, e de modo particular em relação a quem não acredita.
Evangelho
Como fizera o profeta Isaías, também Jesus recorre à imagem da vinha para descrever a obra de Deus e a resposta do homem; a cena, porém, é um pouco diferente. Mudam as personagens: em primeiro plano já não está Deus e a vinha que dá uva agraz e selvagem, mas um proprietário, Deus, e os seus trabalhadores, identificados com os sumos sacerdotes e os guias espirituais do povo ao qual é dirigida a parábola (Mt 21, 23). Depois a vinha não é estéril, parece que dá frutos, mas estes frutos não são entregues. Por fim, a conclusão é diferente: não há o abandono, a devastação da vinha, mas um novo início, uma intervenção salvífica, a substituição dos trabalhadores inaptos.
Vejamos a parábola. Um proprietário planta uma vinha, circunda-a com uma sebe, escava um lagar, constrói uma torre, confia-a
a uns vinhateiros e parte.
Chegada a época da vindima, envia os seus servos a receber a colheita, mas eis que surge a surpresa: os agricultores não querem entregar os frutos. Pensa-se logo que eles, certamente, queriam ficar com os frutos para si; mas há outra possibilidade, talvez até mais provável, de que não tenham nenhum fruto a apresentar. Pode ser que não tenham trabalhado, que tenham passado o tempo na pândega e na devassidão, ou, então, que tenham trabalhado mal.
Alguns deles começam com as piadas para com os enviados do proprietário, depois seguem-se os insultos, por fim o espancamento e a morte de alguns dos servos. O proprietário não desanima, ama muito a sua vinha, e então manda outros servos, mais numerosos que os primeiros, mas também estes não têm melhor sorte. Como última tentativa, envia o seu próprio filho, mas os vinhateiros expulsam-no também a ele e matam-no, convencidos de poderem mandar no campo que lhes foi confiado.
Como acontece com a primeira leitura, também no Evangelho todos os pormenores do relato têm um significado simbólico.
O proprietário é o Senhor, que teve tantos cuidados e manifestou um amor imenso pelo seu povo (v. 33). A sebe é a Tora, a Lei que Deus revelou ao seu povo para o proteger dos inimigos, das propostas de vida insensatas que o levariam à ruína. Os vinhateiros representam os chefes, os guias religiosos e políticos, cuja função é colocar o povo nas condições ideais para produzir os frutos que o proprietário espera e que a primeira leitura permite identificar: são as obras de amor ao próximo e de justiça social.
Os dois grupos de enviados indicam os profetas que, antes e depois do exílio na Babilónia, foram mandados, cada vez em maior número, para lembrar a Israel a fidelidade à aliança. Assim se exprime Deus pela boca de Jeremias: «Desde o dia em que os vossos pais deixaram o Egipto até hoje, Eu vos enviei todos os meus servos, os profetas, dia após dia. Eles, porém, não me ouviram, não me prestaram atenção; endureceram a sua cerviz e agiram pior que os seus pais» (Jr 7, 25-26). A sorte destes homens foi dramática: espancamentos, apedrejamentos (2Cr 24, 21), cepos e cadeias (Jr 20, 2), morte pela espada (Jr 26, 23). Era de esperar: eles eram os porta-vozes de Deus e da sua sabedoria, demasiado distante dos pensamentos dos homens, absurda, inaceitável. Por isso, os vinhateiros querem apoderar-se do campo, recusam qualquer outro ponto de referência, querem gerir sozinhos «a vinha». Representam aqueles que querem viver sem Deus e consideram os seus dons um bem do qual apropriar-se.
O filho é Jesus.
O tempo da vindima representa o momento do juízo de Deus, que – é preciso não esquecer – não deve ser visto como o «ajuste de contas», mas como uma intervenção de salvação. Eu explico-
-me. No final da parábola, Jesus procura envolver os seus ouvintes, e pede-lhes um parecer sobre qual deverá ser a atitude do proprietário, ao que eles respondem, convictos: «mandará matar sem piedade esses malvados» (v. 41).
Esta imagem severa é fruto da efervescente fantasia oriental, que – como muitas outras vezes vimos já – gosta de utilizar cores fortes nas suas imagens.
Mas Jesus segue outra lógica. Em vez de aprovar as palavras ameaçadoras e de destruição pronunciadas pelos seus ouvintes (v. 41), propõe a acção de Deus: o Senhor não reagirá destruindo o malvado, mas também não fingirá que não foi praticado o mal. Este permanece, não pode ser anulado. Deus intervém para fazer com que sirva para o bem, para fazer daquela situação uma obra-
-prima de salvação. Aqui podemos recordar o que José diz aos irmãos que o tinham vendido aos egípcios: «Premeditaste contra mim o mal. Mas Deus aproveitou-o para o bem, a fim de que acontecesse o que hoje aconteceu, e um povo numeroso fosse salvo» (Gn 50, 20).
Os versículos 39.42 e 43 constituem a parte central da parábola: descrevem a morte e a ressurreição de Jesus. Os chefes do povo prendem o Filho e lançam-no fora da vinha. Foi o que aconteceu a Jesus: foi considerado um blasfemo, um impuro, e por isso foi levado para fora das muralhas da cidade e justiçado. Mas Deus, ressuscitando-o, glorificou-o, constitui-o Senhor, pedra angular de um novo edifício.
O resultado final da intervenção do proprietário é a entrega da vinha a outros trabalhadores que irão dar fruto. Não se trata de uma reacção de despeito do proprietário, mas de um gesto de amor e de salvação. Nem mesmo a rejeição e a morte do Filho conseguem torná-lo inimigo do homem.
Referindo esta parábola, o evangelista Mateus pensava certamente na infidelidade dos chefes do seu povo e na sua rejeição do messias de Deus. Mas não pensava apenas neles; pensava também nas suas comunidades e no mundo inteiro: cada pessoa é um vinhateiro do qual o Senhor espera frutos.
A boa notícia com que se conclui o trecho evangélico (v. 43) é que, não obstante todas as recusas do homem, Deus acaba por encontrar sempre o modo de atingir o seu fim e obter os frutos que deseja.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.