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29 Quinta-feira, 29 de outubro Outubro de 2026 Quinta-feira da semana XXX

Música de fundo

Música da capela Em pausa

Banquete da Palavra · 27 de setembro

Um Sim Convicto Passa Por Um Não

Domingo XXVI do Tempo Comum

Há quem diga sim sem saber por quê, e quem, com mais lealdade, diga não porque não está convencido e quer compreender melhor. O seu não é apenas uma forma pouco elegante de pedir explicações e de dizer que gostaria de um esclarecimento. Quem imediatamente diz sim a Deus talvez não se tenha dado conta de quem Ele é, do que pensa, daquilo que propõe.

Na nossa sociedade é apreciada a pessoa que produz. O velho, o doente, o deficiente, são certamente respeitados, amados, ajudados, mas são também sentidos como um peso; não é imediata a percepção do seu valor e da preciosidade do seu contributo em tornar mais humano o nosso mundo. Premiamos quem é eficiente e capaz; estimamos quem conseguiu subir na vida sozinho, remuneramos quem trabalha. Deus, pelo contrário, está do lado dos últimos, interessa-se pelos últimos, privilegia e premeia os últimos. Gratuitamente.

A parábola do passado domingo desconcertou-nos, e talvez, durante a semana, tenhamos reflectido acerca do comportamento ilógico do proprietário que retribui aos trabalhadores da última hora da mesma forma que aos primeiros. É difícil renunciar à religião dos méritos e acreditar na gratuidade do amor de Deus. A leitura de hoje parece responder às nossas objecções: «Vós dizeis: a maneira de proceder do Senhor não é justa. Escutai, casa de Israel: Será a minha maneira de proceder que não é justa? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto?» (v. 25).

Dizer sim a Deus significa renunciar aos próprios pensamentos e aceitar os dele. Ele não procura quem está saciado, mas quem tem fome para o encher dos seus bens (Lc 1, 53); não estima os poderosos que se sentam nos seus tronos, mas abaixa-se para elevar os humildes (Lc 1, 52); não dá o prémio aos justos pelos seus méritos, mas faz-se companheiro dos fracos e faz entrar em primeiro lugar no seu Reino os publicanos e as prostitutas (Mt 21, 31). Só quem se reconhecer como último, pecador e necessitado da sua ajuda poderá experimentar a alegria de ser salvo.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
O senhor ensina os seus caminhos aos humildes, aos pobres e aos pecadores.

Primeira leitura

De que falavam os deportados da Babilónia senão da destruição da sua cidade e dos responsáveis pela catástrofe? Davam a volta à cabeça, mas chegavam sempre à mesma conclusão: somos vítimas de erros cometidos por outros; os nossos pais pecaram e nós carregamos com as consequências; e repetiam, como um refrão, o provérbio: «Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que ficaram embotados» (Ez 18, 2).

As previsões para o futuro eram sombrias. Longe de Jerusalém, privados do lugar santo, do templo onde poderiam implorar o perdão do Senhor e oferecer-lhe sacrifícios de expiação pelos pecados, sentiam-se destruídos e tinham perdido toda a esperança.

Entre estes deportados estava também Ezequiel, que tomou posição contra as convicções difusas entre o povo. É verdade – dizia ele – que há uma solidariedade no mal; é verdade que as consequências do pecado atingem não só quem o comete, mas também os inocentes e, por vezes, arrastam-se durante gerações; porém, não é um destino inelutável. É possível quebrar esta cadeia, e a cada um é pedido que dê o seu contributo para mudar a rota da história. Quem cruza os braços e se resigna não pode atribuir a culpa aos pais, a responsabilidade recai sobre ele que se comporta como imbele, que «morrerá por causa do mal cometido» (v. 26).

A libertação do pecado não se obtém mediante a execução de ritos; é inútil repetir: «agora não há nem príncipe, nem profeta, nem chefe, nem holocausto, nem sacrifício, nem oblação, nem incenso, nem um local para te oferecer as primícias e encontrar misericórdia» (Dn 3, 38). A triste herança do pecado cancela-se com a conversão: «quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida» (v. 27).

A mensagem de Ezequiel é consoladora: o não do homem a Deus está prenhe de consequências, mas não é definitivo, nunca é a última palavra. A cada momento pode tornar-se um sim: «se abrir os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, há-de viver e não morrerá» (v. 28).

Segunda leitura

A comunidade de Filipos era muito boa e Paulo estava orgulhoso dela, mas, como acontece muitas vezes, havia também alguma inveja entre os cristãos. Havia quem procurasse chamar a atenção sobre si próprio, assumindo-se como chefe e impondo a sua vontade.

Devido a esta situação, Paulo, na primeira parte da carta, recomenda com consternação: «Fazei com que seja completa a minha alegria: procurai ter os mesmos sentimentos, assumindo o mesmo amor, unidos numa só alma, tendo um só sentimento; nada façais por ambição, nem por vaidade; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós próprios, não tendo cada um em mira os próprios interesses, mas todos e cada um exactamente os interesses dos outros» (Fl 2, 2-4).

Para melhor imprimir na mente e no coração dos filipenses este ensinamento, apresenta o exemplo de Cristo. Fá-lo citando um hino estupendo, conhecido em muitas das comunidades cristãs do  século I.

Em duas estrofes o hino conta a história de Jesus.

Ele existia já antes de se fazer homem; encarnando-se, «esvaziou-se» da sua grandeza divina e aceitou entrar numa existência escrava da morte. Não se revestiu da nossa humanidade como se fosse uma roupagem externa, da qual depois se libertou. Tornou-se para sempre semelhante a nós: assumiu a nossa fraqueza, a nossa ignorância, a nossa fragilidade, as nossas paixões, os nossos sentimentos e a nossa condição mortal. Mostrou-se aos nossos olhos na humildade do mais desprezado dos homens, o escravo, aquele a quem os Romanos reservavam o suplício ignominioso da cruz
(vv. 6-8).

Mas o caminho que Ele percorreu não terminou com a humilhação e a morte na cruz.

A segunda parte do hino (vv. 9-11) canta a glória à qual Ele foi elevado: o Pai ressuscitou-o, estabeleceu-o como modelo para cada pessoa e deu-lhe o poder e o domínio sobre todas as criaturas. Toda a humanidade acabará por ser assimilada a Ele e nesse momento realizará o projecto de Deus.

Evangelho

A terra prometida por Deus ao seu povo não é só aquela «onde corre leite e mel», mas também onde abundam o trigo, o azeite... e o vinho (Dt 8, 6-10). «Convidar o seu vizinho sob a videira e a figueira» era o sonho de qualquer israelita (Zc 3, 10).

Num tempo como o nosso, em que tudo é mecanizado, em que se olha apenas à quantidade dos produtos e ao seu valor comercial, falar de uma relação afectiva com a própria vinha poderia parecer ingénuo e até mesmo patético. Em Israel não era assim. Enquanto podava, o camponês acariciava, com o olhar comovido de quem está enamorado, as próprias videiras, dirigia-lhes palavras doces e ternas. Os poetas cantaram muitas vezes este amor e Deus serviu-
-se dele para descrever a paixão que o une ao seu povo (Is 5, 1-7). Israel é «a vinha mais apreciada; Eu, o Senhor, sou o seu guarda; rego-a a cada momento, e guardo-a dia e noite, para impedir qualquer assalto» (Is 27, 2-3).

Jesus utilizou muitas vezes esta imagem: falou de trabalhadores enviados, em diferentes horários, a trabalhar na vinha (Mt 20, 1-
-15), de vinhateiros homicidas que se recusam a entregar os frutos (Mt 21, 33-40) e sobretudo apresentou-se a si próprio como «a videira verdadeira» (Jo 15, 1-8).

A parábola do Evangelho de hoje põe em cena três personagens: um pai e dois filhos.

Os ouvintes de Jesus intuem imediatamente que o pai representa Deus, mas ficam surpreendidos pelo facto de Ele ter dois filhos. O filho de Deus é um só, Israel; o Senhor dissera pela boca do profeta Oseias: «chamei do Egipto o meu filho» (Os 11, 1), e ao faraó declarara: «o meu filho primogénito é Israel» (Ex 4, 22). A Escritura afirma que apenas «os Judeus são filhos do Altíssimo, do grande Deus vivo» (Est 8, 12q), «filhos que não me renegarão» (Is 63, 8). Ouvir falar de dois filhos de Deus é desconcertante para um israelita; mas é apenas o início, porque a continuação da parábola é ainda mais provocatória.

Perante o convite do pai a ir trabalhar na vinha, o primeiro filho responde: «Não quero.» Mas depois, arrependendo-se, foi (v. 29).  O segundo filho, pelo contrário, responde com prontidão: Sim, senhor (literalmente: Eu, senhor!, como que a dizer, não penses em mais ninguém, estou cá eu!), mas depois não foi (v. 30). Não se diz que, talvez por falta de interesse ou por uma proposta interessante dos amigos, ele tenha «mudado de ideias»; não, ele, mesmo tendo dito sim, não estava de acordo com o programa do pai; tinha pronunciado apenas palavras, palavras vazias.

Esta parte da leitura evoca uma outra frase de Jesus: «Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu» (Mt 7, 21).

Este segundo filho representa evidentemente os Israelitas, que já Moisés tinha definido «filhos degenerados, geração perversa», «filhos em quem não se pode confiar» (Dt 32, 5.20). Não todos os israelitas, naturalmente, mas aqueles que, por palavras, tinham assumido os empenhos da aliança e depois os tinham reduzido a ritos exteriores, a cerimónias sem valor, convencidos de estarem em regra com o Senhor porque lhe ofereciam sacrifícios, holocaustos, orações. No tempo de Jesus, era esta a religião praticada pelos sacerdotes do templo e pelos notáveis do povo. Não produzia os frutos que Deus queria: «esperou deles a justiça e eis que só há injustiça; esperou a rectidão e eis que só há lamentações» (Is 5, 7). As solenes liturgias eram folhas, não frutos (Mt 21, 18-22).

Na resposta do primeiro filho há uma alusão explícita, aos odiados pagãos – que são elevados à categoria de filhos. Eles não tiveram uma adesão formal à vontade do Senhor, mas foram os primeiros a entrar no Reino de Deus.

Quando Mateus escreveu este trecho tinham passado já cinquenta anos da morte e ressurreição de Cristo, e a profecia já se realizara: as comunidades cristãs são compostas sobretudo por pagãos, enquanto que a maior parte dos filhos de Abraão não reconheceu em Jesus o Messias de Deus, não entrou na vinha.

Esta constatação poderia gerar a perigosa ilusão de que estes dois filhos são personagens pré-históricos, que não têm nada a ver connosco. Os cristãos seriam assim «o terceiro filho», aquele que diz sim e faz a vontade do pai. Professam uma fé clara e imune de erros teológicos, empenham-se em cumprir os mandamentos e os preceitos e louvam o Senhor com cantos e orações.

Mas perguntemo-nos que incidência têm na vida de todos os dias (vai hoje trabalhar na vinha!) as nossas fórmulas, as nossas declarações, as nossas tomadas de posição formais, os nossos ritos? Acabam com os ódios, as guerras, os abusos? Mesmo continuando a professarmo-nos cristãos, não será que nos resignamos facilmente a uma vida de equilíbrios muitas vezes ambíguos? Não será que nos adequamos muitas vezes aos critérios deste mundo e ao bom senso das pessoas? Não convivemos, talvez, com as injustiças, as desigualdades, as discriminações?

O terceiro filho existe, mas não somos nós. Apenas «o Filho de Deus, Jesus Cristo – escreve Paulo –, não foi um “sim” e um “não”, mas unicamente um “sim”. Nele, todas as promessas de Deus se tornaram “sim”» (2Cor 1, 19). Ele é o único que sempre disse: «Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado» (Mt 11, 26).

 

A conclusão da parábola (vv. 31b-32) contém aquela que é talvez a afirmação mais provocatória de Jesus: «Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus.» No texto original, o verbo está no presente, trata-se de uma constatação: os pecadores públicos que não têm biombo religioso atrás do qual se esconder, aqueles que não podem fingir porque a sua condição está à vista de toda a gente, até de si mesmos, estão em vantagem relativamente àqueles que se consideram justos. Estes sentem-se seguros e protegidos pelas práticas religiosas que cumprem fielmente, e nem sequer se dão conta de quanto estão longe da vinha do Senhor.

«Os publicanos e as prostitutas» que sabem que estão longe de Deus não se iludem de fazer a sua vontade, estão conscientes de ter dito não, não tentam enganar-se a si mesmos cumprindo preceitos inventados por eles, não tranquilizam a consciência com práticas que nada têm em comum com a verdadeira religião. O facto de saberem que são pobres, fracos, que precisam de ajuda coloca-os na atitude certa para serem os primeiros a receber o dom de Deus.

O outro irmão entrará na vinha quando deixar de se considerar justo, quando renunciar ao orgulho daquelas que considera as suas boas obras, quando reconhecer a própria hipocrisia, quando abandonar as seguranças que lhe advêm do facto de ter sempre dito que sim por palavras e se alegrar ao sentir-se salvo pelo amor gratuito do Pai.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.