Saltar para o conteúdo
27 Terça-feira, 27 de outubro Outubro de 2026 Terça-feira da semana XXX

Música de fundo

Música da capela Em pausa

Banquete da Palavra · 2 de agosto

Os Que Estão Saciados Também Têm Fome

Domingo XVIII do Tempo Comum

«O Senhor salva os oprimidos e dá pão aos que têm fome» (Sl 146, 7) – são as palavras com que o israelita piedoso professa a sua fé na providência. O mesmo diz Maria no seu canto de louvor: «aos famintos encheu de bens» (Lc 1, 53).

Mas como podem ser verdadeiras estas afirmações se um quarto da humanidade vive em condições de miséria absoluta, se em cada dia morrem de fome dezenas de milhar de crianças, se mi-lhões de pessoas procuram comida nas lixeiras? Deus, que veste os lírios do campo e alimenta os pássaros do céu, ter-se-á talvez esquecido dos seus filhos? Por que é que o Pai não ouve a oração de quem todos os dias lhe pede «o pão nosso de cada dia nos dai hoje»?

Os indigentes têm fome, mas também os que vivem na abundância estão tristes, frustrados, sós; a gratificação de possuir dura poucos dias, ou até mesmo poucas horas, e depois volta a ansiedade, e o vazio interior obriga a procurar desesperadamente outros bens. Querer ter mais não sacia, mas aumenta a fome, e desencadeia um vórtice de morte sem saída.

Esta espiral pode ser interrompida. É possível encontrar o pão que sacia e o banquete onde abunda o vinho da alegria, mas há só um caminho para lá chegar, não há atalhos. As estradas que passam pelas boutiques, pelas ourivesarias e pelos antiquários são vistas como «vias da felicidade», mas são enganadoras. O caminho milagreiro, aquele de quem convida a suplicar por intervenções sobrenaturais, é igualmente ilusório; o Senhor não tem intenções de se substituir ao homem.

Há, porém, um prodígio que Ele promete, e que é realizado pela sua palavra: lá, onde o Evangelho é acolhido, os corações desintoxicam-se do egoísmo e desabrocha a solidariedade e a partilha. Quando emergem estes sentimentos, a fome de pão desaparece e é saciada a sede de amor.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Deus serve-se das mãos do homem para saciar a fome dos seus filhos.

Primeira leitura

Estamos na Babilónia, passaram já mais de cinquenta anos desde que Jerusalém foi destruída e teve início o triste período do exílio. Os Israelitas, que vivem desencorajados em terra estrangeira, ouvem um dia a voz de um profeta; anuncia que está iminente a queda do império babilónico, a libertação e o regresso à pátria.

No trecho de hoje, esta nova situação é comparada a um banquete, onde haverá abundância de comida e bebidas. Para se poder participar nele não será preciso gastar dinheiro, bastará ter fome e sede (v. 1).

O profeta, porém, dá-se conta que a maior parte dos exilados não tem nem fome nem sede. Estabeleceram-se na Babilónia, bem ou mal adaptaram-se à situação, não pensam sequer em construir uma nova vida na pátria de origem. Preferem ficar por ali, e se conseguiram fazer alguma poupança investem-na em casas e campos na Mesopotâmia; não estão para correr riscos, para se lançar em aventuras que podem até reservar alguma surpresa desagradável. Enfim, para eles «o banquete» não interessa, recusam o convite.

O profeta insiste, tenta levá-los a reflectir: esta não é uma verdadeira vida, e quem usa o dinheiro que tem para se acomodar definitivamente em terra estrangeira «gasta dinheiro naquilo que não alimenta» (v. 2). Só quem tiver a coragem de partir experimentará a alegria da nova realidade social preparada pelo Senhor.

Não é ouvido. Os grupos de israelitas que deixaram a Babilónia foram poucos e pequenos, a maior parte não quis arriscar um novo êxodo. E, para mais, aqueles que voltaram... não encontraram nenhum banquete, foram mal acolhidos, tiveram que enfrentar dificuldades de todo o tipo, e, assim, em muitos ficou a dúvida de terem sido enganados.

Foi preciso tempo até que Israel entendesse o verdadeiro significado das promessas do Senhor. Não deviam ser interpretadas materialmente; realizar-se-iam, mas não no futuro imediato. O banquete era o símbolo da salvação dada por Deus a toda a humanidade.

A condição em que se encontravam os deportados da Babilónia é a imagem de todo o tipo de escravidão com que se debate cada homem. A tentação de gastar dinheiro naquilo que não sacia, a desconfiança em relação a quem convida para o banquete e promete a verdadeira alegria, o medo de empreender a caminhada em direcção à terra da liberdade estão sempre presentes.

Deus não nos confronta com a evidência, não dá provas convincentes, Ele pede uma confiança incondicional naquilo que promete. Só quem já entrou na sala do banquete do Reino dos Céus pode testemunhar ter encontrado a mesa preparada. A sua alegria pode tornar-se contagiosa e pode convencer até mesmo os mais desconfiados a entrar.

Segunda leitura

O que leva o homem a abandonar a fé?

As mais variadas circunstâncias: tanto os acontecimentos tristes como a fortuna e o sucesso. Quando tudo corre bem na vida, pode-
-se ter a tentação de prescindir de Deus, visto que já se tem tudo aquilo que se deseja. Mas são sobretudo as contrariedades, os trabalhos penosos, as dificuldades, as desventuras que geram desconforto e podem afastar de Deus e de Cristo.

Paulo enumera sete destas dificuldades: «a  tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada» (v. 35). Estas são apenas algumas – as que Paulo experimentou na própria carne (cf. 2Cor 11, 24-33) – mas a lista pode ser completada por cada um de nós acrescentando as próprias. Tento enumerar aquelas que nos nossos dias mais põem em perigo a adesão a Cristo: o medo de perder ocasiões e oportunidades para ser feliz; o desencorajamento, o abatimento perante a constatação das próprias fraquezas e misérias morais; a vergonha que leva a não admitir serenamente os próprios erros; o remorso que nos faz sentir miseráveis, que angustia, leva ao desespero e à dúvida de sermos ainda amados por Deus.

A tentação de escolher uma vida oposta aos princípios evangélicos está sempre à espreita, mas Paulo garante: «nada poderá separar-
-nos do amor de Deus e de Cristo» (vv. 35.39). Foi Deus quem deu início à partida, com a Humanidade, e será também Ele a encerrá-la, depois de a ter conduzido como só Ele sabe fazer: vencendo-a.

Evangelho

Se quisermos reduzir este milagre a um gesto de omnipotência realizado por Jesus para provar os seus poderes divinos, então temos que encarar uma série de objecções às quais não se pode fugir. Não é muito verosímil a deslocação de uma multidão de muitos milhares de pessoas; a hora tardia que anuncia o cair da noite não é a mais apropriada para proceder à distribuição do pão a tanta gente; de onde saíram os doze cestos, alguém os tinha levado consigo vazios?... Mas a consideração mais provocante é outra: que interesse pode ter para o homem de hoje o facto de Jesus, há dois mil anos, ter matado a fome a cinco mil homens, se, hoje, Deus permite que se continue a morrer por falta de pão?

É difícil determinar o que terá acontecido naquela tarde junto ao lago de Tiberíades, e também não é isso que importa; de facto, os evangelistas referem o episódio em seis versões diferentes, cada uma com a sua mensagem específica. Tentemos ver o que o trecho de hoje nos quer dizer.

 

No tempo de Jesus havia a convicção de que o messias iria realizar sinais e prodígios extraordinários, reuniria o povo e levá-lo-ia para o deserto, onde se repetiria o milagre do maná.

Apresentando-nos Jesus que entra no deserto seguido por uma imensa multidão de pessoas que abandonaram as suas cidades (v. 13), o evangelista quer fazer-nos ver nele o novo Moisés. Israel tinha saído do Egipto e entrado na terra prometida, mas não tinha atingido ainda a liberdade, não tinha entrado ainda em comunhão com o seu Deus. Agora é levado de novo ao deserto.

Se quisermos evidenciar ainda mais o paralelismo, basta colocar o trecho no seu contexto. Mateus acabou de descrever o banquete organizado para o aniversário de Herodes, aquele em que se deu a execução do Baptista (Mt 14, 3-12), um banquete que mostra de forma muito viva a sociedade corrupta, opressiva e sanguinária que deve ser repudiada por quem segue Cristo. É no deserto que são colocadas as bases de uma sociedade nova.

São estas as suas características: tem, antes de mais, Jesus como guia, e, como norma para os relacionamentos recíprocos, os seus próprios sentimentos. Ele sente compaixão (v. 14). O verbo utilizado – splagknizomai – não indica apenas um vago sentimento de comoção, mas uma emoção profunda, visceral (spagkna em grego são as vísceras). Tínhamos encontrado já este termo: «contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36).

Perante as necessidades do homem, Jesus não fica insensível, participa delas, envolve-se intimamente, aperta-se-lhe o coração, mas a sua comoção não o leva ao desencorajamento, não acaba em imprecações, em palavras vãs de pesar ou num pranto estéril; torna-se estímulo para a acção imediata a favor de quem sofre: «ao desembarcar, viu uma grande multidão... curou os seus doentes» (v. 14).

A com-paixão, o sofrer-junto com os irmãos é a força que leva também o discípulo a empenhar-se na construção de uma sociedade nova. Só quem assimilou a sensibilidade do Mestre é levado a intervir, a ter os mesmos gestos de amor. «Tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus» (Fl 2, 5) – recomenda Paulo. «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram; preocupai-vos em andar de acordo uns com os outros» (Rm 12, 15-16).

Esta irresistível necessidade interior de fazer o bem é o sinal inequívoco da presença do Espírito de Cristo no discípulo.

 

Não é só com as doenças – as manifestações de fraqueza e fragilidade do homem – que Jesus se confronta. É também com a necessidade urgente de alimento e com a falta dos bens necessários à vida. Que resposta dá Jesus à fome que há no mundo?

Se a solução fosse a do milagre, o trecho de hoje não teria muito a dizer-nos, já que a nenhum de nós é dado fazer tais prodígios. Pelo contrário, com o seu gesto Jesus indica aquilo que cada discípulo pode e deve fazer para que a ninguém falte o pão. Ele não resolve o problema da fome sem a colaboração do homem.

A primeira tentação para a qual nos põe em guarda é a da falta de empenhamento, a de querer «mandar embora a multidão» para que cada um se arranje sozinho, indo às aldeias comprar comida (v. 15). Esta é a proposta avançada pelos discípulos, que não entenderam que a adesão a Cristo implica um empenho concreto a favor de quem tem necessidades. Não é preciso que se vão embora – responde Jesus – dai-lhes vós de comer (v. 16).

Levanta-se imediatamente uma dificuldade que é também a nossa: o que temos não chega (v. 17).

Se cada um conserva egoisticamente para si aquilo que tem, com o receio de que um dia lhe falte o necessário, haverá sempre fome no mundo.

Jesus pede ao discípulo que lhe entregue aquilo que tem, mesmo que lhe pareça ser pouco. Cinco pães e dois peixes – sete pedaços de alimento – são o símbolo da totalidade. Nada deve ser guardado, a generosidade não deve ter limites. A partilha dos bens é a proposta de Cristo, e é a única que está em sintonia com o projecto de Deus, que é Pai e quer que os seus filhos vivam como irmãos, que não acumulem para si próprios, que não açambarquem os bens destinados a todos. Quando cada pessoa puser à disposição dos outros aquilo que possui (não só o dinheiro, mas tudo de si mesmo: o próprio tempo, as próprias aptidões, a própria inteligência, as próprias capacidades...) assistiremos ao prodígio: haverá alimento para todos, e até sobrará. De facto, sobre a generosidade do homem Deus derrama sempre a sua bênção.

 

Mas o pão que Jesus distribui não é apenas o pão material.

Assim como a água, também o pão em Israel era símbolo da sabedoria de Deus. Quer os profetas quer os sábios do Antigo Testamento se lhe referem muitas vezes: «a sabedoria dispôs a sua mesa – diz o autor do livro dos Provérbios. Aos insensatos ela diz: “vinde e comei do meu pão”» (Pr 9, 1-5); Amós anuncia que Deus mandará a fome e a sede sobre a terra, «não fome de pão nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor» (Am 8, 11).

Um dia, Jesus afirmou: «nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O alimento que Ele dá e que nutre a vida do homem é a sua palavra, aliás, é Ele mesmo, palavra de Deus que deve ser assimilada.

«Jesus tomou os pães – diz Mateus – ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção; depois partiu-os e deu-os aos discípulos e os discípulos deram-nos à multidão» (v. 19). Estas palavras são familiares: são as palavras da Eucaristia. O evangelista utiliza-as para fazer compreender aos cristãos das suas comunidades que, depois de terem assimilado o pão do Evangelho que lhes é dado pela pregação dos Apóstolos, devem participar também no banquete eucarístico para ficarem saciados.

Os homens que comeram são cinco mil. É o número que simboliza Israel. É a este povo que é oferecido o pão, é ele o primeiro convidado para o banquete anunciado pelos profetas. Depois de Israel ter sido saciado, sobram doze cestos. Doze indica a nova comunidade, a que foi constituída, ao redor de Jesus, pelos doze Apóstolos. A este novo povo nunca faltará o pão – que é Cristo – haverá sempre um resto.

Através dos seus discípulos – a quem entregou o seu pão – é o próprio Jesus quem continua a matar a fome às pessoas de todos os tempos e de todos os lugares.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.