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27 Terça-feira, 27 de outubro Outubro de 2026 Terça-feira da semana XXX

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Banquete da Palavra · 26 de julho

A Alegria de Descobrir Um Tesouro

Domingo XVII do Tempo Comum

O arqueólogo Carter ficou por alguns instantes estupefacto, atónito, quase paralisado quando, tendo introduzido uma vela num buraco do túmulo inviolado de Tutancámon, viu o tesouro mais rico que alguma vez foi descoberto. Os três amigos que estavam com ele interpelavam-no com insistência, ansiosos por saber o que o fascinava. Conseguiu balbuciar: «Coisas maravilhosas, coisas maravilhosas!» Se não fosse por este tesouro, quem sabe se não recordaríamos de Tutancámon – um faraó da XVIII dinastia, morto aos dezanove anos – pouco mais do que o nome.

Salomão viveu no fausto: «Para mim – dizia – amontoei prata e ouro, riquezas de reis e de províncias, juntamente com as delícias dos filhos dos homens» (Ecl 2, 8), mas não foram estes tesouros que o tornaram famoso.

«Tesouro» é o epíteto mais ouvido da boca dos enamorados. Não se pode viver sem ligar o coração a um tesouro; nem mesmo Deus pode passar sem ele, de facto «escolheu para si Israel» (Sl 135, 4).

O tesouro dos sábios é a sabedoria: «a sabedoria vale mais do que as pérolas, não se pode comparar com o topázio da Etiópia nem cotejar com o ouro mais puro» (Job 28, 18-19). A ela os rabis dedicavam tempo e energias, porque está escrito: «medita-a constantemente, noite e dia» (Js 1, 8) e comentavam: «vai e procura ver qual a hora em que não é nem dia nem noite, e consagra-a às outras ciências.»

Na escolha do tesouro podemo-nos enganar, porque é fácil ser-
-se iludido, confiar no que é inconsistente. Jesus avisa: «não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu. Pois, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6, 19-21).

A vida é um capital a investir, não se pode deixar de fazer uma opção: é preciso apostar num tesouro. Qual?

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Ensina-nos a contar os nossos dias e chegaremos à sabedoria do coração.

Primeira leitura

Os últimos anos do reino de David não foram nem felizes nem tranquilos: tumultos, revoltas, tentativas de o relegar do trono. Nas intrigas pela obtenção do poder, três dos seus filhos tiveram morte violenta. As desordens continuaram até que Salomão conseguiu apoderar-se do poder. Salomão não foi um guerreiro como o seu pai, não tinha inimigos para combater, foi um homem de paz. Herdou um grande reino que devia manter unido e governar com justiça e equidade. E conseguiu.

Foi um político hábil, um grande construtor, um homem riquíssimo, mas ficou famoso pela sua sapiência. No Antigo Testamento o seu nome é citado quase trezentas vezes e significa «paz», «prosperidade». Acorriam pessoas de todo o mundo a Jerusalém para o conhecer e ouvir. A visita mais célebre foi a da rainha de Sabá que, admirada com a sua sabedoria, exclamou: «É realmente verdade o que tenho ouvido na minha terra acerca das tuas palavras e da tua sabedoria. Felizes os teus homens, felizes os teus servos que estão sempre contigo e ouvem a tua sabedoria! É porque o Senhor ama Israel com amor eterno que Ele te constituiu rei para exercer o direito e a justiça» (1Rs 10, 6-9).

De onde lhe vinha tanta sabedoria? É o que nos relata a leitura de hoje.

Antes de começar a governar, Salomão foi ao santuário de Guibeon para oferecer sacrifícios. Durante a noite, o Senhor apareceu-lhe em sonhos e convidou-o a exprimir um desejo; ser-lhe-ia concedido aquilo que pedisse. Não pediu nada para si próprio: nem riqueza, nem saúde, nem a morte dos seus inimigos (v. 11).

Era muito novo quando David, por sugestão de Betsabé – a mulher de Urias, que se tornou depois a favorita –, o tinha designado como seu sucessor. Dava-se conta de ser ainda inexperiente, e estava consciente da facilidade com que quem comanda se pode deixar corromper pelo frenesi do poder, e assim cometer erros e injustiças. Pediu a Deus «um coração inteligente para governar o seu povo, e saber distinguir o bem do mal» (v. 9). Foi ouvido. O Senhor concedeu-lhe um coração sábio e inteligente, como nunca tinha havido antes nem nunca mais haverá (v. 12).

Foi o início da sua fortuna: «Dou-te também – disse o Senhor – o que nem sequer pediste: riquezas e glória, de tal sorte que, durante a tua vida, não existirá rei que te seja igual» (v. 13). Da sabedoria vieram todos os outros bens. A rainha de Sabá, quando «viu toda a sabedoria de Salomão, bem como a casa que ele tinha construído, as vitualhas da sua mesa, o alojamento dos seus criados, as habitações e os uniformes dos seus oficiais, os copeiros do rei e os holocaustos que imolava no templo do Senhor, ficou deslumbrada» (1Rs 10, 4-5).

Se nos encontrássemos perante a lâmpada de Aladino e pudéssemos exprimir um desejo, provavelmente não pediríamos «um coração capaz de escutar a voz do Senhor». Não temos a sabedoria de Salomão: não compreendemos que a «sabedoria de Deus» não só não exige a renúncia aos verdadeiros bens, mas é a fonte de todos os bens.

Segunda leitura

É fácil acreditar que Deus existe e criou o mundo; já é mais difícil acreditar na sua providência e, não obstante os sinais aparentemente contraditórios que vemos todos os dias, concluir que Ele conseguirá levar a bom fim o seu projecto.

As palavras com que começa a leitura são um convite à esperança: nada daquilo que acontece escapa a Deus, nada o pode apanhar de surpresa. Ele faz com que «tudo concorra para o bem» e para a realização da salvação (v. 13).

Na segunda parte do trecho (vv. 29-30), são lembradas as etapas do caminho que leva à salvação. Há, antes de mais, a predestinação eterna: Deus escolhe aqueles que estão destinados a tornarem-se seus filhos; depois o chamamento: através da pregação àqueles que foram predestinados, é anunciado o Evangelho e dirigido o convite a acolhê-lo. Ao chamamento segue-se a justificação, ou seja, a transformação interior que acontece no Baptismo. Por fim, há a glorificação, o momento em que a nova condição de filhos de Deus se manifesta.

De todo este processo, o momento que nos deixa algo desconcertados é o primeiro: a predestinação. Significa isto que Deus escolhe alguns e rejeita outros? Não, de maneira nenhuma. Quer dizer que, ainda antes de sermos chamados à salvação, nós, todos nós, somos objecto do amor eterno de Deus. Naturalmente, apenas uma parte terá a sorte de conhecer o Evangelho e de receber o Baptismo; mas Deus quer que também os outros, todos os outros, se salvem (1Tm 2, 4).

Evangelho

Os arqueólogos encontram muitas vezes, por baixo do pavimento das casas, caixas ou vasos com moedas. Provavelmente foram colocados ali pelos proprietários antes de uma fuga precipitada. Na iminência de uma guerra ou de uma invasão inimiga, toda a gente procurava esconder rapidamente as coisas preciosas que possuía e não podia levar consigo, esperando poder recuperá-las um dia, logo que passasse o perigo. Muitas vezes, porém, os verdadeiros donos não voltavam, e a casa era ocupada por outras pessoas que nem imaginavam a riqueza que estava por debaixo dos seus pés.

No tempo de Jesus contavam-se muitas fábulas acerca de tesouros descobertos por acaso. Contava-se a história de uns pobres trabalhadores que, ao tentarem arar um campo que não lhes pertencia, embateram num obstáculo; inclinando-se para investigar, viram uma arca a trasbordar de brilhantes, gemas, jóias, pedras preciosas. A fantasia popular adorava iludir-se com estes sonhos de golpes de sorte inesperados.

A primeira parábola do Evangelho de hoje (v. 44) usa uma destas histórias: por mero acaso, um homem descobre no campo onde trabalhava um tesouro; volta a escondê-lo, vai vender tudo o que tem e compra o campo.

Muita gente se deteve a reflectir sobre o comportamento moral deste homem, e sobre a licitude da operação financeira que ele realizou, mas não é esta a questão que se coloca. Outro pormenor curioso para muitos comentadores é o facto de o tesouro, depois de ter sido encontrado, ter sido novamente escondido. Aparentemente ilógico e supérfluo, este detalhe é precioso: leva a supor que o trabalhador, atraído pelo brilho inconfundível de um objecto de ouro que aflorava do terreno, tenha imediatamente intuído que sob a terra poderia estar uma riqueza imensa; e então, para não perder nada, decidiu comprar o terreno inteiro.

Somos assim introduzidos na parábola: o tesouro de que Jesus fala é o Reino dos Céus, a condição nova em que entra quem acolhe a proposta das bem-aventuranças. Tem um valor incalculável, e vai sendo progressivamente descoberto somente por quem decide apostar nele a própria vida.

O facto que este tesouro seja encontrado por acaso indica a sua gratuitidade: Deus oferece-o aos homens sem nenhum mérito da parte deles; não é um prémio pelas suas boas obras.

Mas há um comportamento que é preciso assumir perante este dom. Quem o descobre não pode ter hesitações, perplexidades, dúvidas. Se hesita, perde um tempo precioso, a ocasião favorável pode escapar-lhe e nunca mais se apresentar. A decisão tem que ser tomada com urgência, a escolha é inadiável. Não se pode faltar ao encontro marcado com o Senhor.

E depois é preciso apostar tudo. Não é pedido que se renuncie a alguma coisa, mas que se concentrem os pensamentos, as atenções, os interesses, todos os esforços no novo objectivo.

O tesouro – como irá acontecer também com a pérola – não é adquirido para ser depois vendido outra vez e assim permitir que se volte a possuir os bens antigos; é adquirido em substituição de tudo aquilo que, até àquele momento, tinha dado sentido à vida. A descoberta do Reino de Deus comporta uma mudança radical. É este o significado da decisão de «vender tudo quanto se possui para comprar o campo».

Foi o que aconteceu a Paulo, o judeu irrepreensível e fanático, convencido de que a Tora era o tesouro que lhe daria a salvação. Um dia, na estrada para Damasco, encontrou Cristo, e tudo aquilo que para ele podia constituir um ganho foi considerado uma perda. «Tudo quanto para mim era ganho – declara ele – isso mesmo considerei perda por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor» (Fl 3, 7-8).

Uma tal mudança provoca surpresa, admiração, perplexidade. Quem não descobriu o mesmo tesouro não se consegue capacitar, não encontra uma explicação que justifique a novidade de vida para quem entrou no Reino de Deus.

Quem viu o camponês vender tudo para comprar o campo deve ter pensado que tinha enlouquecido: a terra árida e pedregosa da Palestina não justificava tais sacrifícios. Só ele estava consciente da sua escolha: aquele era o negócio da sua vida.

Quem conhecia Paulo – o rabi escrupuloso e cumpridor da lei – e de repente o viu abandonar as suas seguranças para apostar tudo num homem justiçado, certamente considerou-o louco: «Estás doido, Paulo – diz-lhe o procurador Festo – a tua grande sabedoria faz-te perder o juízo» (Act  26, 24). Mas, pelo contrário, ele tinha encontrado o bem mais precioso, «um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1Cor 1, 23).

Mas havia um sinal, pelo qual todos – quer os vizinhos do camponês quer os correligionários de Paulo – deveriam ter percebido que agiam com lucidez e sabendo o que faziam: a alegria. Quem percebeu ter nas mãos um tesouro inesperado não pode deixar de se encher de alegria: «Transbordo de alegria» (2Cor 7, 4) – garante o Apóstolo – «é grande a alegria que sinto no Senhor» (Fl 4, 10); «o Reino de Deus é alegria» (Rm 14, 17).

Enfim, quem observa o rosto radiante de quem descobriu o Reino de Deus deveria intuir que vislumbrou, como o arqueólogo Carter, «coisas maravilhosas».

 

A segunda parábola (vv. 15-16) é chamada «gémea» da precedente e contém a mesma mensagem. Varia devido a alguns deta-lhes significativos: o protagonista não é um pobre trabalhador rural, mas um rico negociante que anda pelo mundo com um objectivo bem determinado – encontrar pérolas.

Na Antiguidade, as pérolas eram tão preciosas como são hoje os diamantes. Eram pescadas no Mar Vermelho, no Golfo Pérsico e no oceano Índico, e na época imperial eram consideradas a coisa mais preciosa. Afrodite, a deusa do amor e da beleza, era venerada como a deusa das pérolas; uma criança muito amada era chamada «pérola»; de um homem sábio dizia-se que da sua boca saíam pérolas; as doze portas do céu – escreve o vidente do Apocalipse – «são doze pérolas; cada uma das portas é uma só pérola» (Ap 21, 21).

Sendo consideradas de grande valor, Jesus escolheu-as como imagem do tesouro inestimável que Ele oferecia: o Reino de Deus.

Ao contrário de um camponês que embate por acaso num tesouro, o negociante encontra a pérola após uma pesquisa extenuante. Num caso, a descoberta é fruto da sorte; no outro, do empenho.

O comportamento do negociante é a imagem da pessoa que procura apaixonadamente aquilo que pode dar sentido à vida e encher de alegria os seus dias.

As duas parábolas completam-se: por um lado, o Reino de Deus é um dom gratuito do próprio Deus; por outro, é também fruto do empenho da pessoa.

 

A terceira parábola (vv. 47-50) retoma o tema da parábola do trigo e do joio, tratado no domingo passado. A imagem é tomada da pesca no lago de Tiberíades, onde eram utilizadas grandes redes de arrasto, que capturavam peixes bons mas também peixes não comestíveis ou impuros (Lv 11, 10-11). Na praia, os pescadores procediam à separação. Assim – diz Jesus – acontece no Reino dos Céus.

Segundo a concepção dos antigos, o mar era o reino das forças diabólicas, inimigas da vida. Era confiada aos discípulos a missão de «pescar homens», subtraindo-os ao poder do mal. Paixões irreprimíveis, egoísmo, inveja são como ondas impetuosas que, como um turbilhão, os arrastam para o abismo. O Reino dos Céus é uma rede que os tira para fora, os deixa respirar, os traz para a luz, para a salvação.

Nesta rede não são acolhidos apenas os bons, mas toda a gente, sem distinção. O Reino de Deus não se apresenta, hoje, em estado puro; na comunidade cristã deve ser admitida serenamente, ao lado do bem, também a presença do mal e do pecado. Ninguém, mesmo se impuro, se deve sentir excluído ou deve ser marginalizado. Este é o tempo da misericórdia e da paciência de Deus, que «não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2Pd 3, 9).

Chegará, certamente, o momento da separação, e Mateus, como costuma fazer, refere-se a ela servindo-se da linguagem dramática dos pregadores do seu tempo; utiliza as imagens com que na Bíblia é descrita a destruição dos inimigos do povo de Israel (Ez 30; 38-39): os justo hão-de gozar a paz e os maus serão punidos numa prisão de fogo.

Na literatura rabínica fala-se frequentemente neste juízo de Deus, não para ameaçar com a punição eterna os pecadores, mas para pôr em relevo a importância do tempo presente e a urgência das decisões a tomar já: cada momento desperdiçado perde-se definitivamente, e os erros cometidos neste mundo terão consequências eternas. A eventualidade de dissipar, de desperdiçar a própria existência apostando em «tesouros» errados não está longe. Todavia, no fim a separação não será entre bons e maus, mas entre bem e mal: só o bem entrará no Céu, todo o negativo será aniquilado antes... pelo fogo do amor de Deus.

O discurso de Jesus termina com a pergunta: «Entendeste tudo isto?» e com a evocação da obra do escriba. A pergunta é dirigida aos discípulos, àqueles que encontraram o tesouro e a pedra preciosa. O Reino dos Céus que agora possuem foi preparado através do Antigo Testamento (as coisas velhas) e realizado em Cristo (as coisas novas). Os cristãos são convidados a tomar consciência, pelo estudo das Sagradas Escrituras, do dom imenso que receberam de Deus.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.