Banquete da Palavra · 19 de julho
A Impaciência do Homem e a Calma de Deus
Domingo XVI do Tempo Comum
A obra criadora teve início com a separação da luz das trevas (Gn 1, 4); o firmamento foi posto para separar as águas que estão por cima do céu das que se encontram na terra (Gn 1, 6-7); Deus disse: «Haja luzeiros no firmamento dos céus, para separar o dia da noite» (Gn 1, 14). No fim destas separações, o autor sagrado comenta: «Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1, 31).
Desde aquele dia, o homem – talvez pelo medo inconsciente de que os opostos possam de novo fundir-se e voltar a trazer o caos, a desordem que tornava impossível a vida – é levado instintivamente a levantar paliçadas e a estabelecer uma separação entre bons e maus, entre o que é puro e o que é impuro, entre santos e ímpios, entre os amigos de Deus e os seus inimigos. Alguns textos da Bíblia, interpretados superficialmente, parecem aprovar tais discriminações: «Sede santos para mim, porque Eu, o Senhor, sou santo e separei-vos dos povos para serdes o meu povo» (Lv 20, 26).
No mundo que saiu bom das mãos de Deus, a presença do mal continua a ser um enigma, um elemento de perturbação que o homem não suporta, e então, impaciente como os servos da parábola, pergunta-se: «De onde vem o joio?» É invadido pelo frenesi de resolver imediatamente as tensões que experimenta, e acaba por recorrer a remédios que são piores que o mal: torna-se impiedoso e intolerante consigo mesmo e com os outros, castiga de forma cruel, desencadeia guerras santas e deixa-se levar por aquela ira que «não deixa fazer o que é justo aos olhos de Deus» (Tg 1, 20).
Desta forma comete dois erros: não aceita serenamente a realidade do mundo onde o bem e o mal estão destinados a conviver, e confunde a estação do crescimento com a da colheita.
A presença do mal no mundo não põe em perigo o êxito do Reino de Deus.
Primeira leitura
O livro da Sabedoria foi o último do Antigo Testamento a ser escrito. O seu autor – um judeu de Alexandria, no Egipto – provavelmente ainda era vivo quando Jesus nasceu.
Há séculos que a maioria dos israelitas vivia dispersa pelo mundo. Em cada cidade do Império Romano constituíam uma comunidade à parte: tinham as suas próprias sinagogas, os seus rabis, os seus tribunais, as suas festas, as suas tradições. Não contraíam matrimónio com os pagãos e tomavam todas as precauções para não se deixarem corromper pelos seus costumes, para não se deixarem influenciar pela sua moral e pelas suas práticas religiosas.
Alguns destes israelitas, da chamada Diáspora, tinham encontrado óptimas situações no estrangeiro, exerciam profissões muito rentáveis, mas a maior parte vivia com dificuldades e eram também objecto de discriminações. Estes perguntavam-se: porque é que nós, mesmo sendo fiéis à lei de Deus, somos oprimidos e humilhados, enquanto que os idólatras prosperam? Por que é que Deus tolera que soframos insolências e injustiças? Os nossos pais contavam-nos que, no passado, Ele realizava prodígios e sinais em favor do seu povo; como é que agora já não intervém? Terá diminuído a sua força?
No trecho de hoje, o autor responde a estas perguntas. A força do Senhor – garante ele – é sempre a mesma, é infinita, porém, Ele não a usa para punir, utiliza-a somente para o bem do homem. Esta é a sua justiça: usar de indulgência para com todos. O seu domínio é universal, estende-se sobre justos e ímpios: não pode querer apenas o bem de alguns (v. 16).
Os homens usam a sua força para incutir temor e respeito, para subjugar os mais fracos e obrigá-los a permanecerem submissos. Deus, pelo contrário, mesmo que seja o Senhor da força, não a usa para impor a sua soberania; não recorre aos castigos, às retaliações, às vinganças, mas para com todos, mesmo para com os maus, mostra-se manso e indulgente (vv. 17-18).
São comoventes os dois motivos que, no último versículo (v. 19), explicam o comportamento surpreendente de Deus. Ele é paciente, acima de tudo, porque quer ensinar ao seu povo que o justo deve ser humano, deve amar as pessoas. Há, sem dúvida, acções ignóbeis, obras infames, mas nenhuma pessoa é desprezível, todas merecem amor. O segundo motivo: Deus não intervém com retaliações e castigos porque não quer a morte do mau, mas alegra-se «com o facto de ele se converter e viver» (Ez 18, 23); por isso dá--lhe sempre a possibilidade de se arrepender (v. 19). Quem espera de Deus uma intervenção punitiva está apenas a projectar nele os seus próprios instintos vingativos.
Segunda leitura
26O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, pois é em conformidade com Deus que o Espírito intercede pelos cristãos.
Como se faz para rezar? Se bastasse repetir fórmulas seria simples. Mas Jesus disse que a oração dos seus discípulos não é deste tipo: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições porque pensam que serão atendidos» (Mt 6, 7).
Na leitura de hoje, Paulo reconhece candidamente: nós não sabemos rezar, não temos ideia daquilo que devemos pedir a Deus e as nossas invocações são muitas vezes apenas tentativas de fazer com que Ele adira aos nossos projectos.
Na nossa fraqueza, o Espírito vem em nossa ajuda, e sugere-nos as palavras que devemos dirigir ao Pai (v. 26). Rezar-lhe é abrir a mente e o coração à sua luz, e dispor-se a acolher a sua vontade em cada instante da nossa vida. Quem nos oferece a luz de Deus e nos dá a força de o seguir é o Espírito, aquele que «tudo penetra, até as profundidades de Deus» (1Cor 2, 10) e nos faz participar dos seus mistérios. Mas os pensamentos do Senhor são incompreensíveis para a sabedoria deste mundo (1Cor 2, 3-7), por isso Paulo os define como «gemidos inefáveis» (v. 27).
Evangelho
Com mais três parábolas, Jesus vai revelando, progressivamente, o mistério do Reino dos Céus. A primeira – a do trigo e do joio (vv. 24-30) – tem uma explicação (vv. 36-43), como aconteceu com a do semeador do passado domingo; trata-se de uma homilia de um pregador do tempo de Mateus, que actualizou o relato e aplicou-o às necessidades das suas comunidades. Depois são contadas mais duas parábolas – a do grão de mostarda e a do fermento (vv. 31-33) – introduzidas neste contexto para pôr em relevo a força irresistível do bem. Os versículos 34-35 retomam o que já tinha sido dito nos versículos 10-17, e esclarecem o motivo pelo qual Jesus fala em parábolas. Examinemos então as principais partes do trecho.
De onde vem o joio? (vv. 24-30)
Já a própria existência do mal – a que o homem nunca soube dar uma resposta satisfatória – constitui um problema angustiante. Para além deste, os cristãos das comunidades de Mateus tinham que enfrentar um segundo problema, não menos sério: tinham passado cinquenta anos desde a morte e ressurreição de Jesus e, olhando à sua volta, verificavam que no mundo estava, sem dúvida, presente o bem, mas que também o mal continuava a crescer, bem viçoso. Como é que o Reino dos Céus, inaugurado por Jesus, não tivera um sucesso total e imediato?
A questão era embaraçosa. Havia quem a formulasse em termos irónicos e provocantes: «Desde que os pais morreram, tudo continua na mesma, como desde o princípio do mundo» (2Pd 3, 4).
O enigma da existência do mal exige uma explicação, que o evangelista dá com uma parábola de Jesus.
A primeira personagem a entrar em cena é o dono da casa. Representa Deus. É Ele quem semeia, ou, pelo menos, é Ele o responsável pela qualidade da semente, que é «boa» (v. 24). Este não é um adjectivo qualquer, mas evoca explicitamente o refrão que é repetido dez vezes no primeiro capítulo do Génesis: «E Deus viu que isto era bom.» Era bom tudo aquilo que Deus fizera: não no sentido de não acontecerem cataclismos ou catástrofes naturais, de não haver dor, doença ou morte, mas tudo era bom porque perfeitamente apropriado à realização do projecto do Senhor.
A criação é boa, como é boa a semente da palavra anunciada por Jesus.
A segunda personagem é o inimigo: representa a lógica deste mundo, a mentalidade antievangélica. Chega de noite e, enquanto todos dormem, semeia o joio, uma gramínea muito semelhante ao trigo: cresce até uma altura de 60 cm e produz uma espiga com grãos escuros; as suas raízes emaranham-se com as do trigo, e é impossível arrancá-las sem o arrancar também.
É quando as mentes estão entorpecidas pelo sono, é nos momentos em que a vigilância diminui, é nos períodos em que se cai na devassidão e na frivolidade que o inimigo encontra o modo de se introduzir no campo para semear o mal. Basta uma falta de atenção e acaba-se por cair numa adequação à moral corrente, por assimilar os princípios deste mundo. Não é fácil, num primeiro momento, dar-se conta disso; o mal disfarça-se, muitas vezes, em «anjo de luz» (2Cor 11, 14). É depois, quando se observam os resultados, que se vê como o germe da morte penetrou na mente e no coração. Por este motivo, Paulo recomenda: «Já é hora de acordardes do sono, pois a salvação está agora mais perto de nós do que quando começámos a acreditar. A noite adiantou-se e o dia está próximo» (Rm 13, 11-12).
A terceira personagem – muito simpática, porque nos representa – são os servos. A reacção deles – um misto de admiração e de desorientação ao constatarem a presença da cizânia – é a mesma que nós experimentamos ao darmo-nos conta da existência do mal no mundo, na comunidade cristã, em cada pessoa. O diálogo excitado com o dono da casa é comovente: mostra o interesse que os servos têm pelo campo, e seu empenho na produção. Não parecem ser pessoas estranhas à casa, mas membros da família.
É aqui que se insere a mensagem central da parábola: a sua paixão pela causa do bem leva-os a propor uma acção irreflectida. São tomados pela impaciência, pela ânsia de se desembaraçarem imediatamente do joio; não hesitam, querem agir de forma enérgica e imediata.
O dono da casa não perde o controlo, mantém a calma. Não se admira com o sucedido, não se descompõe, não partilha do mesmo desassossego. Na sua resposta (que ocupa mais de um terço do relato) é apresentada a perspectiva de Deus: neste mundo, o bem e o mal não podem ser separados, estão destinados a crescer juntos, e será assim até ao fim.
Por que é que não se podem acelerar os tempos? Se Deus é omnipotente, por que é que não elimina imediatamente todo o mal?
Porque não é omnipotente, da forma que talvez nós o imaginamos. A Bíblia nunca lhe atribui este título; chama-lhe Todo-poderoso (Lc 1, 49) ou pantokrátor (Ap 1, 8) que não significa «aquele que pode fazer aquilo que quiser», mas sim «aquele ao qual nada escapa». O homem é livre e Deus quis iniciar com ele «uma história de amor» da qual poderia até vir a sair derrotado. O seu projecto contempla a presença do mal, que deve ser aceite serenamente, como uma componente da vida. Acreditar que Ele é pantokrátor significa alimentar a convicção de que Ele conduzirá habilmente esta «história de amor» com cada um de nós e que a última palavra, aquela decisiva, vencedora, será a sua.
A presença do joio, quer em nós quer nas outras pessoas, é muito incómoda. Custa-nos admitir que «não há homem justo sobre a terra que faça o bem e não peque» (Ecl 7, 20). Gostaríamos de viver embalados na ilusão de sermos perfeitos, desejaríamos ter a confirmação da boa imagem que fizemos de nós próprios. Não que se deva justificar o mal; mas Jesus exorta a considerá-lo com os olhos serenos e pacientes de Deus.
O crescimento surpreendente do Reino dos Céus (vv. 31-35).
À parábola do trigo e do joio seguem-se outras duas, mais breves, chamadas «gémeas» porque contêm a mesma mensagem: a desproporção entre o pequeno início e o inesperado resultado final. Um grão de mostarda, quase invisível, dá origem a um arbusto capaz de atingir os quatro metros de altura; poucas gramas de fermento fazem levedar cinquenta quilos de farinha. O contraste é enorme!
Não se trata de um convite a gozar o prestígio presente e a saborear os triunfos futuros da Igreja que, composta inicialmente por um grupo pouco qualificado de pescadores e de pessoas impuras e pecadoras, se tornou uma estrutura respeitada, temida, apreciada, capaz de se fazer notar e de se impor. Não é sequer um anúncio da cristianização progressiva e imparável de todo o mundo.
Assim como acontecia com a parábola precedente, que exortava à paciência e à confiança, estas duas são um convite ao optimismo, derivante da certeza que no Espírito e na palavra de Cristo – mesmo se insignificantes aos olhos do mundo – está presente a força irresistível de Deus.
O evangelista conclui as três parábolas com uma reflexão sobre o objectivo que Jesus quis atingir com elas: desvendar o projecto que, desde o início da criação, Deus tem para o mundo (v. 34-35).
A aceitação serena do mal não significa deixar de assumir o próprio empenho (vv. 36-43).
A cena muda. Jesus já não está no barco, mas em casa; já não se dirige à multidão, mas ao grupo restrito dos discípulos. É desta forma que o evangelista introduz a aplicação da parábola.
Lendo estes versículos não se pode deixar de notar que a situação a que se refere mudou completamente: as personagens já não são as mesmas; a parábola torna-se alegoria; a semente não é a lógica do reino e o joio o oposto, mas parecem ser os indivíduos bons e maus; o campo não é o mundo, mas o reino do filho do homem; e sobretudo a mensagem não é a mesma: antes o dono da casa convidava a aceitar serenamente a existência do mal ao lado do bem e reprovava a intolerância dos servos, agora também ele parece deixar-se levar pelo frenesi de «usar o fogo» (v. 42).
Trata-se – como vimos – de uma catequese dirigida às comunidades de Mateus no final do século I. Provavelmente, após os primeiros decénios de grande fervor, os cristãos tinham-se desmotivado um pouco, e já não levavam a sério as promessas do Baptismo. Que fazer? O evangelista sentiu a necessidade de abaná-los, de lhes chamar a atenção para a seriedade da vida, e fê-lo servindo-se da linguagem dos pregadores do seu tempo. Era um judeu, dirigia-se a judeus, e para se fazer entender recorria às imagens compreensíveis para a sua gente: o fogo, as fornalhas ardentes, o choro, o pranto, o ranger de dentes, a ceifa, os anjos, os diabos... São metáforas impressionantes, utilizadas frequentemente pelos rabis, e que não podem ser repetidas nos nossos dias sem lhes acrescentar os devidos esclarecimentos.
Não é correcto deduzir, a partir destas imagens, conclusões acerca do fim do mundo e do juízo de Deus, porque Mateus não estava a dar informações: não pretendia certamente descrever o que irá acontecer no futuro aos pecadores; ele fazia uma chamada de atenção, urgente e consternada, aos seus cristãos.
Uma coisa é certa: quem faz o mal provoca a sua ruína. Quanto ao futuro, mais do que tomar à letra as alegorias (onde, claramente, a férvida fantasia oriental é evidente) é melhor vermos o que a Escritura diz de forma explícita: que Deus é pai, «que quer que todos os homens sejam salvos» (1Tm 2, 4) e que «não enviou o seu filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17).
E o fogo? Deus conhece um único fogo: o seu Espírito, que desceu sobre os discípulos no Pentecostes (Act 2, 3), dado pelo Ressuscitado no dia de Páscoa como força destruidora do pecado (Jo 20, 22-23). É o fogo a que aludia Jesus: «Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado» (Lc 12, 49). É a chama imparável que queimará – esta é a grande notícia! – qualquer vestígio de joio no coração de cada pessoa, deixando apenas o trigo bom, o único que terá lugar no mundo futuro.
Na altura da ceifa serão recolhidos e deitados à fornalha «todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade». Não é uma ameaça de castigo, mas uma boa notícia: o fogo de Deus, o seu Espírito conseguirá um dia fazer desaparecer todo o tipo de mal. No reino dos céus, na sua plenitude, não haverá ninguém que cometa iniquidade.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.