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27 Terça-feira, 27 de outubro Outubro de 2026 Terça-feira da semana XXX

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Banquete da Palavra · 5 de julho

«Pequeno»: o Único Título Honorífico Reconhecido no Céu

Domingo XIV do Tempo Comum

Nas assembleias litúrgicas, nas refeições comuns, nas viagens em caravana, durante as reuniões públicas, em todas as ocasiões, punha-se à sociedade judaica o problema de quem era o maior, de quem tinha direito à maior honra.

Nesta corrida aos primeiros lugares tinham sido envolvidos também os bem-aventurados do Céu – que eram catalogados em sete classes, estando os mártires em primeiro lugar – e o próprio Deus de Israel, que não podia ser menos do que as divindades orientais, gregas e egípcias, às quais era atribuído o título de «grande». Por este motivo, Jetro proclamava: «O Senhor é maior que todos os deuses» (Ex 18, 11) e Moisés garantia aos israelitas: «O Senhor, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus supremo, poderoso e temível» (Dt 10, 17).

Nos últimos séculos antes de Cristo, as afirmações sobre a grandeza de Deus tinham multiplicado desmesuradamente. Ele era «o altíssimo, o infinitamente grande» (Est 8, 12q); «o Senhor grande e glorioso, maravilhoso em poder e invencível» (Jt (16, 13) e esperava-se, consequentemente, uma manifestação da sua grandeza: «Aguardamos a gloriosa manifestação do nosso grande Deus» (Tt 2, 13).

Ele apareceu, em toda a sua grandeza: uma criança débil, pobre, indefesa, «envolvida em panos» por uma mãe doce e extremosa, uma jovem de catorze anos. Foi apenas o início da sua manifestação, que culminou na cruz.

A partir daquele dia, inverteram-se todos os critérios de grandeza.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Só os pequenos estão em condições de entender os mistérios do Reino de Deus.

Primeira leitura

Esta profecia foi pronunciada quando Israel não era sequer uma nação independente. Não estava em guerra com ninguém, mas era um povo insignificante no xadrez internacional; tinha sido colonizado, explorado e oprimido por potências estrangeiras. Trata-se do período histórico imediatamente posterior às conquistas de Alexandre Magno.

Neste tempo difícil, a filha de Sião, a filha de Jerusalém é convidada a alegrar-se e a rejubilar (v. 9). Sião era o nome da colina onde tinha nascido a cidade de David; depois tinha-se tornado um sinónimo de Jerusalém. Com a expressão filha de Sião ou filha de Jerusalém era indicado o bairro mais pobre da cidade, o subúrbio que tinha surgido a norte (como uma ramificação, uma filha da capital) quando tinham chegado os fugitivos provenientes da Samaria, destruída pelos Assírios em 721 a.C.

É a estes refugiados, a estas pessoas indigentes e desfavorecidas que o profeta se dirige para lhes anunciar alegria e esperança: um rei justo e vitorioso está para chegar e virá instaurar uma era de paz e prosperidade.

A dinastia de David tinha desaparecido há séculos. O rei que «socorrerá o pobre que o invoca e o indigente que não tem quem o ajude, que terá compaixão do humilde e do pobre e salvará a vida dos oprimidos, e há-de livrá-los da opressão e da violência» (Sl 72, 12-14) não podia ser um homem, tinha que ser o próprio Deus.

Até aqui, nenhuma novidade em relação ao que tinha sido prometido pelos outros profetas. «O Senhor afastou o teu inimigo. O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti» – predissera Sofonias (Sf 3, 15). A surpresa vem em seguida: o salvador não irá chegar à frente de um forte exército, montando fogosos ginetes, guiando carros de guerra, esmagando os inimigos feitos prisioneiros, mas entrará em Jerusalém «humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta» (v. 9).

O sonho dos reis de Israel tinha sido sempre o de dotar o exército de uma cavalaria impetuosa, e para o conseguirem tinham chegado ao ponto de vender os filhos do seu próprio povo como escravos e mercenários aos Egípcios (Dt 17, 16). Mas Deus quer pôr fim a estas manias de poder e de grandeza: «Eliminarei os teus cavalos no meio de ti, destroçarei os teus carros de combate» – tinha dito pela boca de Miqueias (Mq 5, 9).

Na segunda parte da leitura (v. 10), é descrito o reino pací-
fico instaurado pelo Senhor: o arco de guerra será quebrado e a
paz anunciada às nações. O reino estender-se-á do Mediterrâ-
neo ao golfo Pérsico e do rio Eufrates até às extremidades da
terra. Segundo a geografia da época, eram estes os limites do mundo.

Com esta profecia, Zacarias inverte o conceito de realeza: o soberano não é aquele que é servido, mas aquele que põe os outros no centro das suas atenções. Não são os fracos que lhe estão submetidos, é ele que se coloca ao seu serviço. A sua força é aquela que os homens consideram fraqueza.

Jesus realizará literalmente esta profecia ao entrar em Jerusalém cavalgando um burro. Com este gesto, mostrará ser Ele o rei pacífico anunciado por Zacarias.

Segunda leitura

As pessoas morrem, e também Jesus, sendo um homem, morreu, tinha que morrer. Mas Ele ressuscitou. Que força o fez ressuscitar?

Na leitura de hoje, Paulo diz que isto aconteceu porque Ele tinha em si a plenitude do Espírito, a potência de Deus (v. 11).

A vida do homem tem um início e um fim, mas a vida de Deus não teve início e não terá fim. Jesus morreu para a vida material, mas o Espírito que estava nele ressuscitou-o, fê-lo viver da vida de Deus.

Desta verdade, Paulo deduz que, tendo nós recebido como dom este mesmo Espírito, já não podemos morrer. Quando chegar o momento em que a nossa vida biológica se concluirá, o Espírito que ressuscitou Jesus ressuscitará também os nossos corpos mortais (v. 11).

Na segunda parte da leitura (vv. 12-13), o Apóstolo indica as consequências morais que derivam da nova condição em que se encontra quem recebeu o Baptismo: deve fazer aquelas obras que estão em sintonia com a vida de Deus, com os impulsos do Espírito; se continuar a «viver segundo a carne», faz escolhas de morte.

Evangelho

No início da sua vida pública, ao longo do lago da Galileia, Jesus suscitou muito entusiasmo e obteve um sucesso notável; mas bem cedo começaram os conflitos, as incompreensões e as hostilidades. Muitos discípulos, desconcertados com as suas propostas, perderam a coragem e abandonaram-no (Jo 6, 66). Até mesmo os seus familiares se mostraram sempre um pouco desconfiados (Jo 7, 5). Com Ele ficou apenas um grupo muito pequeno de discípulos pertencentes às classes mais pobres e desprezadas da sociedade judaica (Jo 6, 67-69).

O nosso trecho constitui o epílogo de um capítulo carregado de tensões e polémicas. Iniciou com a crise de fé do Baptista que enviou alguns discípulos a perguntarem a Jesus: «És Tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» (Mt 11, 3); continuou com o pesado juízo de Jesus sobre a sua geração (Mt 11, 16-19) e com as ameaças: «Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida!» (Mt 11, 21-24).

A meio do período de vida pública, o balanço tinha que ser considerado desilusivo. Perante um tal fracasso, nós teríamos deixado cair os braços; porém, Jesus alegra-se e bendiz o Pai por tudo o que aconteceu.

A exclamação solene com que inicia o Evangelho de hoje é uma das poucas orações de Jesus reatadas pelos Evangelhos: «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (v. 25).

Os sábios e os inteligentes são muitas vezes citados juntos na Bíblia e, com frequência, em sentido negativo. São aqueles que professam estar em busca da sabedoria, que pensam até ter o monopólio dela, enquanto, de facto, se limitam a dar cabo da cabeça com coisas sem importância e gostam de se entreter em disquisições vãs. Contra eles, o profeta Isaías dissera: «Ai dos que se têm por sábios e que se julgam espertos» (Is 5, 20-21). Jesus não diz que estão fora da salvação, limita-se a constatar um facto: os pobres, os humildes, as pessoas marginalizadas foram as primeiras a acolher a sua Palavra de libertação. É normal – diz Ele – que isto aconteça, porque são os pequenos quem, mais do que os outros, necessitam da ternura de Deus, têm fome e sede de justiça, choram, vivem no luto e esperam que o Senhor intervenha para lhes levantar a cabeça e enchê-los de alegria. São bem-aventurados porque chegou para eles o Reino de Deus. E depois acrescenta: este facto faz parte do projecto do Pai: «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (v. 26).

Está profundamente radicada a convicção de que Deus é amigo apenas dos bons e dos justos, que prefere quem se comporta bem e suporta com dificuldade quem peca. Este é o Deus criado pelos «sábios» e pelos «inteligentes», é o produto da lógica e dos critérios humanos. O Pai de Jesus, pelo contrário, vai buscar aquelas pessoas que nós deitámos ao lixo, prefere quem é desprezado, que não é tido em conta por mais ninguém, os pecadores públicos (Mt 11, 19) e as prostitutas (Mt 23, 31), porque são as pessoas que mais necessitam do seu amor. Os ricos, os que estão saciados, quem é orgulhoso do próprio saber, esses não sentem a necessidade deste Pai, conservam zelosamente o seu Deus. Também eles chegarão à salvação, certamente, mas somente quando se tornarem «pequenos». O problema é que poderão chegar atrasados, perdendo um tempo precioso.

 

A segunda parte do trecho (v. 27) contém uma importante afirmação de Jesus: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.»

Na Bíblia, o verbo conhecer não significa ter encontrado ou contactado algumas vezes uma pessoa, quer dizer «ter tido dessa pessoa uma experiência profunda». É utilizado, por exemplo, para indicar a relação íntima que há entre marido e mulher (cf. Lc 1, 34).

Um conhecimento pleno do Pai só é possível ao Filho. Todavia, Ele pode comunicar esta sua experiência a quem quiser. Quem terá a disposição certa para acolher a sua revelação? Os pequenos, naturalmente.

Os escribas, os rabis, aqueles que conhecem os mínimos deta-lhes da Lei estão convencidos de possuir o conhecimento pleno de Deus, consideram saber discernir o que é bem, apresentam-se como guias dos cegos, como luz para quem está nas trevas, como educadores dos ignorantes, como mestres dos simples (Rm 2, 18-20); estes, enquanto não renunciarem à sua atitude de «sábios» e «inteligentes», estarão fechados à verdadeira e gratificante experiência de Deus.

 

A última parte do trecho (vv. 28-30) refere-se à opressão que os «pequenos», o povo simples da terra, os pobres, sofrem por parte dos «sábios e inteligentes». Estes (os escribas e os fariseus) elaboraram uma religião complicadíssima, feita de regras minuciosas, de prescrições impossíveis de observar, carregaram às costas das pessoas ignorantes «fardos insuportáveis que nem sequer com um dedo tocam» (Lc 11, 46).

A Lei de Deus é sem dúvida um jugo, e o sábio Sirácide recomendava ao filho: «mete os teus pés nos seus grilhões, e o teu pescoço nas suas correntes; inclina o teu ombro e carrega-a... e acharás nela, finalmente, o teu repouso» (Eclo 6, 24-28), mas a religião pregada pelos mestres de Israel transformou-a num jugo opressivo. Por causa deles, os pobres não só se sentem desgraçados neste mundo, mas também rejeitados por Deus e excluídos do mundo futuro. Sabem que não são capazes de observar as disposições ditadas pelos rabis, e por isso estão convictos de serem pessoas impuras. «Essa multidão que não conhece a Lei é gente maldita» – declarava o sumo sacerdote Caifás (Jo 7, 49).

A estas pessoas pobres, perdidas e desorientadas, Jesus convida-as a libertarem-se do medo e da religião angustiante que lhe foi inculcada. «Acolhei – diz-lhes Ele – a minha lei, aquela lei nova que se resume num único mandamento: o amor ao irmão.» Não propõe uma moral mais fácil e mais permissiva, mas uma ética que aponta directamente para o que é essencial e não leva a desper-
diçar energias na observância de normas que, «embora tenham uma aparência de sabedoria», na realidade não têm nenhum valor (Cl 2, 23).

O seu jugo é suave. Antes de mais porque é o seu: não no sentido de ter sido Ele a impô-lo, mas porque foi Ele quem primeiro o carregou. Jesus sempre se inclinou à vontade do Pai; abraçou-a livremente, enquanto que nunca deixou que lhe impusessem preceitos humanos (Mc 7). O seu jugo é suave porque somente quem acolhe a sabedoria das bem-aventuranças pode experimentar a alegria e a paz.

Por fim, o convite: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» (v. 29). Talvez esta afirmação nos deixe um pouco perplexos, porque parece um auto-elogio, merecido, sem dúvida, mas pouco oportuno.

Estas palavras são o contrário de uma gabarolice!

«Aprendei de mim» significa simplesmente: não sigais os mestres que agem como patrões das vossas consciências, que pregam um Deus que não está ao lado dos pobres, dos pecadores, dos últimos, e ensinam uma religião que, com as suas minúcias e os seus absurdos, rouba a alegria.

Jesus apresenta-se como manso e humilde de coração. São termos que encontramos nas bem-aventuranças e que não indicam quem é tímido, tranquilo, mas sim os pobres e os oprimidos, aqueles que, mesmo quando sofrem injustiças, não recorrem à violência.

A todos estes pobres da terra, Jesus diz: «Eu estou do vosso lado, sou um de vós, também Eu sou pobre e rejeitado!»

O trecho do Evangelho de hoje é motivo de reflexão, quer do ponto de vista pessoal quer comunitário. Qual é o Deus em que acreditamos: é o dos «sábios» ou aquele que nos revelou Jesus? A nossa comunidade, para quem é sinal de esperança: para quem está convencido de merecer os primeiros lugares ou para quem se sente indigno de atravessar a soleira da porta da igreja?

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.