Banquete da Palavra · 21 de junho
É Mesmo Perigoso Andar em Contramão!
Domingo XII do Tempo Comum
Antes de embocar numa estrada é preciso olhar para a sinalética, é necessário verificar se, por acaso, não nos estamos a aventurar num sentido proibido.
Quando observa o sentido em que se movem as outras pessoas, o discípulo de Cristo tem a sensação imediata e nítida de estar a conduzir em contramão. Se escolhe o caminho da renúncia, da partilha dos bens, do amor desinteressado, do perdão sem limites, da fidelidade à palavra dada, vê o tráfego mover-se no sentido oposto e dá-se conta que, mesmo que conduza com prudência, o embate é inevitável e será sempre ele a sofrer mais, a ser considerado deslocado, a ser acusado de quebrar as regras aceites por todos.
O justo é incómodo para o ímpio, «só o acto de o ver incomoda» (Sb 2, 14); irrita-o porque «a sua vida não é semelhante à dos outros e os seus caminhos são muito diferentes» (Sb 2, 1).
Nos momentos de perseguição, pode surgir também no cristão a dúvida de estar no sentido errado.
Depois de ter verificado que está realmente a seguir as indicações do Mestre, não deve deixar-se tomar pelo receio: é aquele o sentido justo, é ele quem está a conduzir com os olhos abertos e caminha na luz.
Não nos perguntarão se ganhámos ou perdemos, mas se lutámos pela causa justa.
Primeira leitura
Jeremias vive num dos momentos mais dramáticos da história do seu povo. O exército de Nabucodonosor cercou Jerusalém, está para a tomar de assalto e saqueá-la. O rei e os comandantes do exército perderam completamente a cabeça e tomam decisões insensatas. Os chefes religiosos, em vez de se darem conta que se aproximava a ruína, abençoam as escolhas dos militares e incitam o povo exclamando: Tudo corre bem, não vos acontecerá nada de mal (Jr 6, 13-14), enquanto que, pelo contrário, tudo corre mal e está próxima a catástrofe.
Jeremias parece ser a pessoa menos indicada para entrar neste conflito: é jovem, tímido, sensível, amante da vida tranquila, alheio às polémicas; o seu sonho é viver tranquilo em Anatot com a sua família, mas o Senhor chama-o para uma missão difícil e arriscada contra «os reis de Judá e os seus chefes, os sacerdotes e o povo da terra». «Cinge os teus rins – diz-lhe o Senhor – levanta-te e diz-lhes tudo o que Eu te ordenar... Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar» (Jr 1, 17-19).
Inimigo jurado de Jeremias é um sacerdote, Pachiur, filho de Émer, superintendente do templo. Este mandou espancar e prender o profeta. No dia seguinte, tendo sido libertado da prisão, Jeremias encontra-o e, ironicamente, deturpa-lhe o nome, chamando-
-lhe Magòr, que significa terror, terror por toda a parte (Jr 20, 1-
-3). Pachiur – garante o profeta – já não assustará mais ninguém, mas dentro em pouco será ele que, espantado e aterrorizado, irá procurar refúgio em algum esconderijo da cidade, quando os soldados da Babilónia o perseguirem. Será capturado e reduzido à escravatura, será levado para o exílio e lá morrerá juntamente com aqueles a quem enganou com mentiras: prometia paz, enquanto se aproximavam dias de terror.
A leitura de hoje inicia com as palavras de Jeremias que lembra a reacção da multidão às suas denúncias. Retomando a alcunha atribuída a Pachiur – terror por toda a parte – as pessoas ridicularizam o profeta chamando-lhe terror por toda a parte, como que a dizerem: agora és tu quem está aterrorizado, não Pachiur, vê-se bem que morres de medo.
Os inimigos de Jeremias não se limitam à brincadeira e ao sarcasmo; procuram razões para organizar um processo-farsa e assim poderem condená-lo. Chegam a pensar num linchamento (v. 10).
Misturados entre a multidão que grita, estão também os seus melhores amigos. O profeta, tendo ficado só, vê fracassar a sua missão, sente-se rejeitado pelo seu povo e abandonado por todos. É inevitável o desencorajamento, a incerteza, o desconforto e até mesmo a dúvida se a sua vocação não teria sido um engano. Então desabafa com o Senhor, grita-lhe toda a sua dor, chega a amaldiçoar o dia do seu nascimento (Jr 20, 14-18).
Esta oração, feita de expressões audazes mas sinceras, faz emergir nele a certeza da fidelidade de Deus. As desilusões, as contrariedades, as perseguições fizeram vacilar, por um momento, a sua confiança e a sua esperança, mas não conseguiram sufocá-
-las e apagá-las; ele proclama: «O Senhor está comigo como herói poderoso» (v. 11). Agora está certo: Deus irá intervir, fará resplandecer a verdade e fará triunfar quem defendeu a causa justa.
Os últimos versículos da leitura (vv. 12-13) contêm um desabafo algo violento contra os inimigos. As palavras de Jeremias não devem ser vistas como uma explosão de ódio, mas como um desejo, justo e humano, de ver triunfar as suas razões, reconhecida a sua inocência e desmascarada a malvadez dos adversários.
É difícil ser profeta, é difícil dizer a verdade, ser o primeiro a levantar a voz para denunciar o que não está bem. É mais cómodo esconder-se, fazer de conta que não se vê, deixar que sejam os outros a falar. E, no entanto, se queremos uma sociedade nova, uma igreja mais adequada ao Evangelho e mais dócil ao Espírito, se aspiramos a uma novidade de vida, então são necessários profetas que, como Jeremias, tenham a coragem de dizer aquilo que o Senhor lhes sugere, mesmo arriscando a vida.
Segunda leitura
Neste trecho muito difícil da Carta aos Romanos, Paulo compara Adão com Jesus: contrapõe as consequências do pecado do primeiro homem com a justificação operada por Cristo.
Diz que, logo desde o início, as pessoas pecaram e não se inseriram no projecto de Deus. Depois, ao longo dos séculos, continuaram a cometer erros e a praticar a injustiça, seguindo o exemplo de Adão que tinha desobedecido e se afastara de Deus.
Jesus fez precisamente o contrário: foi obediente ao Pai, fez a sua vontade até à morte.
A consequência do pecado de Adão foi a morte. Não a morte biológica – que é um facto natural – mas a «não-vida» escolhida por todos aqueles que se recusam a seguir o caminho traçado por Deus. No entanto, a graça obtida pela obediência de Cristo é muito superior às desgraças provocadas pela insensatez humana. Por mérito de Cristo, Deus comunicou a todos os homens a sua vida.
Evangelho
«O nosso senhor e nosso deus manda que se faça tudo aquilo que se segue...» Começam assim os documentos oficiais emanados em nome de Domiciano (81-96 d.C.), o imperador que mandou levantar, por todo o lado, estátuas em sua honra e queria ser venerado como um deus. O cônsul Flávio Clemente, seu primo, que se converteu a Cristo e que, por causa da sua fé, não pode aderir a tais exigências excêntricas, é condenado à morte, e a sua mulher Domitila é exilada na Sardenha.
O culto ao imperador difunde-se sobretudo na Ásia Menor. Em Éfeso são erigidos um templo e uma estátua colossal ao «deus Domiciano», e as autoridades locais, subservientes ao poder, querem que toda a gente se prostre e adore aquele que o vidente do Apocalipse define como «a Besta» (Ap 13, 4.13).
Os cristãos não podem prestar honras divinas ao soberano, e assim começam a sofrer castigos, discriminações, confiscações de bens. Muitos não conseguem aguentar estes abusos contínuos, estão no limiar da paciência e paira o risco da apostasia. Como ajudá-los a superar este momento difícil?
Mateus escreve o seu Evangelho neste contexto histórico, e, para encorajar os cristãos das suas comunidades, insere no seu Evangelho as palavras do Mestre que dizem respeito às dificuldades e às perseguições que os discípulos haveriam de sofrer.
Para o cristão, a perseguição não é um incidente de percurso, é um facto inelutável. Também o autor da segunda Carta a Timóteo (escrita mais ou menos no mesmo período) o lembra: «Todos os que quiserem viver a fé em Cristo Jesus serão perseguidos» (2Tm 3, 12).
E o que diz Jesus aos discípulos perseguidos?
Começa por alertá-los para o medo. O medo tem uma função vital positiva: assinala os perigos, impede gestos ousados, arriscados, insensatos; porém, fora de controlo, é um obstáculo às acções corajosas e às escolhas resolutas.
Para quem tomou a decisão de seguir Cristo, o medo constitui muitas vezes o pior inimigo. Manifesta-se no temor de perder a própria posição, de ver diminuir a estima dos superiores, de perder amizades, da privação dos próprios bens; no receio da punição, do degredo, e até mesmo da morte. Quem tem medo já não é livre. É normal ter medo, mas ai de quem se deixa dominar e conduzir pelo medo: acaba paralisado.
No Evangelho de hoje, por três vezes, Jesus insiste: «não te-nhais medo» (vv. 26.28.31) e de cada vez acrescenta um motivo para justificar a sua recomendação.
Quem anuncia o Evangelho tem medo, antes de mais, porque teme que, devido à violência desencadeada pelos inimigos de Cristo, a sua missão possa fracassar (vv. 26-27).
Jesus tranquiliza: apesar das provas e das dificuldades, o Evangelho difundir-se-á e transformará o mundo. Para explicar melhor, cita o exemplo dos rabis do seu tempo. Antes de enviarem os seus discípulos a discutirem publicamente nas praças, instruíam-nos em segredo. A sua sabedoria permanecia escondida durante muito tempo, porém, um dia todo o povo era obrigado a reconhecer a sua sapiência e a sua preparação. A mesma coisa – diz Ele – acontecerá aos seus apóstolos. Talvez eles não vejam germinar as sementes de luz e de bem que – com fadiga e na dor – semearam, mas devem cultivar a jubilosa certeza que a seara crescerá e a colheita será abundante. A sua obra não será vã; mesmo que fossem condenados à morte, nenhuma força inimiga poderia impedir a realização do projecto de Deus.
É de grande luz ver o que aconteceu com Jesus: os seus inimigos estavam convencidos de o terem calado para sempre, de terem posto uma pedra enorme e inamovível sobre Ele e sobre a sua mensagem; mas na Páscoa ressuscitou, precisamente da mesma forma que a semente, ao ser lançada à terra, morre, mas para germinar, crescer e multiplicar-se.
O segundo motivo do medo são os maus tratos e a morte (v. 28).
Jesus convida a reflectir: que mal podem fazer os inimigos do Evangelho? Ofender, acusar injustamente, bater, confiscar os bens, tirar a vida? Sem dúvida, mas nada mais. Nenhuma forma de violência é capaz de privar o discípulo do único bem duradouro: a vida que recebeu de Deus e que ninguém lhe pode tirar. Disto mesmo estava convicto Paulo: «A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada... nada poderá separar-nos do amor de Deus que está em Jesus Cristo, Senhor nosso» (Rm 8, 35-39).
Mas há alguém – continua Jesus – que deve ser temido; é «aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo». Não se trata de alguém externo a nós, é o mal que, desde que nascemos, trazemos dentro de nós; é aquela força negativa que sugere caminhos opostos aos de Cristo. É preciso, antes de mais, temer a si mesmo e ao próprio medo. Quantas vezes, por medo de ficarmos sós, cultivamos amizades ambíguas ou comportamo-nos de modo velhaco, mentimos, cometemos injustiças? Quem tem medo não consegue fazer aquilo que o levaria a realizar a própria vida e por isso... «morre».
O terceiro motivo de medo da perseguição é que muitas vezes não nos toca apenas a nós, mas atinge também quem está próximo e pode vir a ser privado do necessário para a sua subsistência (vv. 29-31).
A esta objecção, Jesus responde lembrando a confiança na providência do Pai do Céu. Não promete aos seus discípulos que não irá acontecer nada, que serão sempre salvos, de forma prodigiosa, mas que Deus realizará sempre neles o verdadeiro bem se tiverem a coragem de lhe permanecer fiéis. É muito eficaz a imagem dos cabelos da cabeça, dos quais só Deus conhece o número. Nada de nosso escapa ao seu amor e ao seu cuidado. Ele que se interessa por todas as suas criaturas, mesmo as mais pequenas, defenderá também a causa de quem se bate pela vinda do seu Reino!
O trecho conclui com uma promessa: Jesus reconhecerá diante de seu Pai aqueles que o tiverem reconhecido diante dos homens (vv. 32-33). Não se refere ao juízo final, mas ao que acontece já hoje: Ele reconhece-se em alguns dos seus discípulos que agem no mundo, noutros não. Reconhece-se em quem não tem medo de anunciar o seu Evangelho, mesmo a custo da própria vida; não se reconhece naqueles que não reproduzem diante dos homens a sua imagem, naqueles que não tornam presente no mundo a sua palavra. Diante do Pai, Ele testemunha esta realidade.
Hoje em dia, são ainda muitas as pessoas que são mortas por causa do evangelho; mas também onde não há derramamento de sangue a perseguição existe e é inevitável. Manifesta-se, por vezes, abertamente, com insultos, escarnecimentos públicos; outras vezes de forma disfarçada e manhosa, através da marginalização, da discriminação, da exclusão...
Quem não perturba ninguém com a sua vida, pode estar certo: talvez sem se dar conta, adequou-se aos princípios deste mundo e renunciou ao Reino de Deus.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.