Banquete da Palavra · 14 de junho
Primogénito: Uma Responsabilidade, Não Um Privilégio
Domingo XI do Tempo Comum
«Não sigais o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10, 5-6). Uma recomendação estranha, esta que Jesus dá aos seus discípulos antes de os enviar em missão. Que significa? É uma cedência aos preconceitos e ao particularismo exclusivista cultivado pela maior parte do seu povo? Se assim fosse, seria inconciliável com a ordem que se encontra no final do Evangelho: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19).
Pelo contrário, é a expressão da estratégia de Deus: para levar a salvação a todos os povos, o Senhor escolheu Israel, «o seu filho primogénito» (Ex 4, 22) e constituiu-o no mundo como sinal dos seus cuidados e atenções; quis que ele fosse santo para manifestar a todos os povos a sua santidade; tornou-o «luz das nações para que a salvação chegue até aos confins da terra» (Is 49, 6).
«Deus não rejeitou o seu povo» (Rm 12, 2), «os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis» (Rm 11, 29). Jesus está em sintonia com a pedagogia de Deus: cuida antes de mais de Israel (Mt 15, 24) para que possa cumprir a sua missão de mediador da salvação.
Hoje, é a comunidade cristã a depositária das promessas e da aliança entre Deus e a humanidade. A Igreja, chamada a santificar o mundo, deve antes de mais santificar-se a si mesma; tendo sido encarregada de proclamar a liberdade, a igualdade, a paz, o respeito pela pessoa, deve viver internamente estes valores; destinada a ser cidade posta sobre o monte e lâmpada que ilumina a casa, deve ser a primeira a deixar-se iluminar pela palavra do seu Senhor.
Somos o povo que o Senhor escolheu para ser a luz do mundo.
Primeira leitura
Depois da libertação do Egipto, os Israelitas caminharam pelo deserto até que, passados três meses, chegaram ao Sinai. Lá o Senhor estabeleceu com eles uma aliança.
Fazer uma aliança é como assinar um contrato, é a promessa de permanecer fiel a um empenho assumido livremente diante de testemunhas.
A leitura de hoje refere as palavras com que Deus propôs aos Israelitas fazerem aliança com Ele. Para os convencer, recorda antes de mais o que fizera por eles no passado: libertou-os da escravidão do Egipto e, como uma águia que com as suas poderosas asas leva as crias para lugar seguro, conduziu-os para as montanhas do deserto (v. 4).
Depois desta auto-apresentação, Deus faz a sua proposta, enumera as condições do pacto e as promessas: se quiserdes ouvir a minha voz, se fordes fiéis à minha aliança, vós sereis o povo que Eu hei-de proteger em todas as situações; sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa (vv. 5-6).
Estas últimas palavras interessam-nos de forma particular, porque estão relacionadas com o Evangelho de hoje. Israel devia ser «santo», «separado» dos outros povos e reservado para o seu Deus. Isto não significa que devia ficar materialmente «isolado», mas que devia ser diferente dos pagãos pela sua vida religiosa e moral. Seria ainda um povo de sacerdotes porque cada um, com a sua vida, prestaria culto ao Senhor.
O que aconteceu em Israel é a imagem daquilo que acontece no novo povo de Deus, a Igreja. O Evangelho de hoje irá falar-nos do início deste novo povo, com o chamamento e o envio dos doze Apóstolos.
Segunda leitura
Há dois domingos atrás começámos a tratar o difícil tema da justificação. Dizíamos que esta não se reduz a passar uma esponja que limpa os pecados, mas consiste no dom de um coração novo, na efusão do Espírito, no impulso interior que leva irresistivelmente ao bem. Desta justificação deriva um comportamento de vida completamente novo. No Baptismo, o cristão «despiu-se do homem velho, corrompido por desejos enganadores, e revestiu-se do homem novo, que foi criado em conformidade com Deus» (Ef 4, 24).
Porém, na realidade, quem pode afirmar ter feito esta experiência? Quem sente este estímulo a viver segundo Cristo? Não verificámos nós que, mesmo depois do Baptismo, continuam presentes as misérias morais?
Perante esta constatação, há que concluir que alguma coisa não está certa: ou não aconteceu a justificação ou o Senhor nos abandonou, e então a nossa esperança de salvação não tem nenhum fundamento.
Na leitura de hoje, Paulo responde: a nossa esperança não será traída, porque não é fundada nas nossas boas obras, nas nossas capacidades, na nossa fidelidade, mas no amor indefectível de Deus (v. 6). Quando Ele inicia uma obra de salvação não a interrompe a meio, não se desencoraja, não lhe faltam as forças, mas leva-a sempre até ao fim.
O homem – é verdade – pode permanecer teimosamente afeiçoado ao mal, mas não há que temer: é precisamente deste apego que Deus prometeu libertar-nos. É impensável que Ele, a certa altura, seja obrigado a declarar-se vencido. Se não estivesse certo de conseguir levá-la até ao fim, por que motivo teria iniciado a sua obra de salvação?
O amor de Deus, diz Paulo, não é fraco e inseguro como o dos homens. Estes sabem amar quem merece. Podem, por vezes, chegar a dar a vida, mas apenas por quem consideram digno de tal gesto. Deus ama de outra forma, ama até os seus inimigos e deu prova disso mesmo quando lhe entregou o seu filho.
Se Deus nos amou quando éramos seus inimigos, quanto mais nos amará agora que fomos justificados. Os nossos pecados não podem ser mais fortes que o seu amor. Mesmo que o abandonemos, Ele não nos abandona.
Evangelho
O número de padres e freiras diminui dramaticamente, os abandonos aumentam, a média de idade sobe e as perspectivas de uma inversão de tendência são praticamente nulas. Que fazer? A resposta é óbvia: «Pedi ao senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.»
Sem dúvida que é preciso rezar pelas vocações sacerdotais e religiosas, mas restringir a estas categorias de cristãos a aplicação do trecho evangélico que nos é proposto hoje é incorrecto e até mesmo perigoso: leva a pensar que somente estas pessoas se devem empenhar no serviço à comunidade, e pressupõe que o povo de Deus seja um rebanho de «ovelhas sem pastor», seja uma «seara» que não é ceifada e que se perde por falta de «ceifeiros».
A objecção mais forte a esta interpretação nasce do facto que não se percebe por que motivo se deve rezar a Deus para que mande pastores para o seu rebanho e trabalhadores para o seu campo. Se assim fosse, estaria a comportar-se de uma forma irritante: nós aqui a trabalhar para além das nossas forças, noites e dias dedicados ao estudo da Palavra de Deus, ao anúncio do Evangelho e ao apostolado, enquanto Ele estaria a assistir, impassível, à dispersão das ovelhas e à perda da colheita. Daria vontade de desistir e pensar noutra coisa.
Os doze discípulos – digamo-lo já – não representam os padres e as freiras, mas todo o povo de Deus e, nesta perspectiva, a interpretação do trecho muda. É cada discípulo que é chamado a cumprir uma missão no campo – que é o mundo. Seja qual for a sua condição de vida (casado ou celibatário, formado ou ignorante, forte ou fraco...) cada um deve empenhar-se na construção do Reino de Deus.
Agora, é clara a razão pela qual é precisa a oração: não se trata de convencer Deus, mas de mudar o coração do homem. Ao homem é pedido que desapegue a sua própria mente e o seu próprio coração dos critérios e juízos deste mundo, que assimile os pensamentos de Deus e que adopte a vida nova proposta por Cristo. Como obter esta conversão, esta transformação radical? Só o diálogo com Deus e a meditação da sua Palavra podem realizar o prodígio. É esta a oração que Jesus recomenda.
Vamos agora ao chamamento e ao envio dos doze.
Há uma diferença notável entre o comportamento do mestre Jesus e o dos rabis do seu tempo. Estes rodeavam-se de discípulos para os tornarem, por sua vez, rabis honrados, e serem servidos e bem retribuídos. Jesus chama os seus para um serviço.
Sente compaixão pelo seu povo, porque não vê ninguém que cuide dele: nem os chefes políticos nem as autoridades religiosas. Estes procuram defender os seus próprios interesses, as próprias vantagens e as perspectivas de carreira. Procuram os privilégios, querem melhorar as suas próprias vidas e desleixam o cuidado do povo que tem fome, está doente, vive na opressão e é vítima de abusos.
Jesus é sensível às necessidades e às dores das pessoas. Nos Evangelhos encontra-se apenas doze vezes o verbo splagknizomai e é sempre utilizado para exprimir a íntima comoção de Deus ou de Cristo em relação ao homem. Aqui, é aplicado aos sentimentos que Jesus experimenta: não fica impassível, não olha com desapego e desinteresse a condição em que se debate o seu povo, mas comove-se; experimenta uma emoção visceral (splagkna em grego indica as vísceras).
Esta compaixão leva-o a intervir. Dá início a um povo novo: chama os doze e este número refere-se às dozes tribos de Israel.
Jesus ordena a estes discípulos que continuem a sua obra, e por isso quer que eles, antes de mais, rezem, porque somente pela oração podem assimilar os sentimentos de Deus; depois dá-lhes a autoridade de expulsar os demónios e curar os doentes.
Não se deve pensar que os cristãos (e os padres de modo particular) tenham recebido algum antigo poder para realizarem prodígios, para curarem milagrosamente as pessoas. Os demónios e as doenças são o símbolo de tudo aquilo que se opõe à vida – física, psíquica, espiritual – da pessoa, são a expressão de todas as formas de morte com as quais, momento a momento, nos confrontamos.
A autoridade que Jesus dá não é sobre as pessoas, mas sobre o mal, é a força prodigiosa da sua Palavra que é capaz de debelar o mal e criar um mundo novo.
Nos últimos versículos, a missão a que são chamados é lembrada outra vez: «Pelo caminho, proclamai que está perto o Reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios» (vv. 7-8). Trata-se – como é fácil verificar – de tudo aquilo que Jesus fez (Mt 9, 35; 4, 17). Os cristãos são chamados a usar todas as suas energias para «reproduzir», para tornar presente no mundo o seu Mestre. Ele é o primeiro operário enviado para a seara, os discípulos são os seus colaboradores – como bem compreendeu Paulo (1Cor 3, 9).
A ordem com que se conclui o trecho – «Recebeste de graça, dai de graça» (v. 8) – é a exigência de completo desapego a qualquer forma de interesse egoísta no cumprimento da acção apostólica.
O discípulo de Cristo não trabalha para obter algum tipo de vantagem pessoal: ser conhecido, estimado, reverenciado, para enriquecer. A sua única recompensa será a alegria de ter servido e amado os irmãos com a generosidade com que viu operar Jesus.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.