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26 Segunda-feira, 26 de outubro Outubro de 2026 Segunda-feira da semana XXX

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Banquete da Palavra · 31 de maio

Em Que Deus Acreditas?

Santíssima Trindade

Não é suficiente acreditar em Deus, convém verificar em que Deus se acredita.

Os muçulmanos professam a sua fé em Alá, o criador do céu e da terra, aquele que governa do alto, que estabeleceu prescrições justas e proibições santas, e está atento de modo a premiar quem as observa e a punir os transgressores. Não concebem que ele se abaixe ao nível das pessoas e que possa descer para as encontrar e dialogar com elas. É este o Deus em que acreditamos?

Na tribo africana com a qual vivi, invoca-se Deus somente no período de seca – considera-se que a chuva dependa dele – enquanto que para as outras necessidades recorre-se aos antepassados. Não está sequer em questão se Deus se interessa pelas doenças, pelas desgraças, pelas colheitas dos campos, pelas coisas dos homens. Será talvez este o nosso Deus?

A estas perguntas damos certamente respostas negativas; mas ponhamos as seguintes questões: que imagem de Deus se esconde por detrás da convicção – ainda muito difundida – de que, no dia do juízo, o Senhor avaliará com severidade a vida de cada pessoa? A quem recorrem habitualmente os cristãos, nos momentos difíceis, para pedirem graças? Temos que o reconhecer: adoramos um Deus que conserva ainda muitas das características das divindades pagãs, susceptíveis, severas, distantes.

A festa de hoje – introduzida já muito tarde no calendário litúrgico (por volta de 1350) – oferece a oportunidade, através da reflexão da palavra de Deus, de purificar a imagem que fizemos dele, e de descobrir os lineamentos novos e surpreendentes do seu rosto.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Mostra-me, ó Senhor, o teu rosto.

Primeira leitura

Na Bíblia são referidas muitas vezes as palavras pronunciadas por Deus. Já no início do livro do Génesis, Ele começa a falar, mas é preciso esperar pelo final do livro do Êxodo para encontrar na sua boca uma apresentação ampla de si mesmo. O que Ele diz é retomado na leitura de hoje.

Um dia, Moisés pede a Deus que lhe mostre o seu rosto, e Ele responde: «Tu não podes ver a minha face, pois o homem não pode contemplar-me e continuar a viver» (Ex 33, 18-20).

O desejo de Moisés é a expressão do sonho de cada pessoa: ver Deus, conhecer os segredos mais íntimos e profundos da sua pessoa. Para responder a este desejo, Deus revela-se como o Senhor clemente e cheio de compaixão, paciente, misericordioso e fiel, que mantém a sua graça durante milhares de gerações («durante milhares», diz o texto original hebraico, não apenas «até à milésima» de acordo com a nossa tradução), que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado (Ex 34, 6-7).

Os povos pagãos imaginavam Deus como um soberano potente e terrível, sempre pronto a irar-se com quem não lhe oferecia sacrifícios ou violava as suas leis, que punia com doenças e desventuras aqueles de quem não gostava.

O Deus de Israel revela-se a Moisés com um rosto completamente novo: não é imprevisível e melindroso, não ameaça, não é o Ser supremo, exigente e caprichoso, perante o qual não se pode senão tremer e viver na angústia. Ele olha para as pessoas com ternura, compreende os seus erros e ama-as, sempre e incondicionalmente, mesmo quando pecam.

A sua principal característica é a misericórdia. Este termo
suscita em nós um certo desconforto, porque é associado instintivamente à ideia do benfeitor cheio de compaixão que, do al-
to da sua rectidão inabalável, concebe benévolo o perdão; mas
que deixa também em quem cometeu o erro a sensação de ser
desprezível. O termo hebraico, utilizado aqui, designa as entranhas e indica o sentimento mais íntimo e profundo que se possa imaginar, o sentimento que experimenta uma mãe para com o
filho que traz no ventre. Expressão sublime deste amor são as
palavras que Deus dirige a Sião, que teme ser abandonada por
causa dos seus pecados: «Acaso pode uma mulher esquecer-se
do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas?
Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria» (Is
49, 15).

Com um antropomorfismo audaz, Oseias põe na boca do Senhor esta declaração de amor pela esposa Israel que o traiu: «O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas» (Os 11, 8). Não pode existir culpa tão grande que seja mais forte do que a sua misericórdia.

O homem reage de forma passional e impetuosa, enquanto Deus é lento para a ira, é paciente, tolerante, indulgente; não é impulsivo, nunca se vinga.

Esta característica de Deus penetrou profundamente na espiritualidade hebraica, assim como na muçulmana, e é referida muitas vezes na Bíblia. Recordemos a comovente invocação do salmista: «Tu, Senhor, és um Deus misericordioso e compassivo, paciente e grande em bondade e fidelidade. Volta-te para mim e tem compaixão» (Sl 86, 15-16).

 

No trecho de hoje não está incluído o versículo 7. Pode ser, no entanto, que alguém o leia, e por isso, é melhor citá-lo e esclarecer o seu significado.

Deus continua a sua revelação declarando «que mantém a sua graça até à milésima geração, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado, mas não declara inocente o culpado e pune o crime dos pais nos filhos, e nos filhos dos seus filhos até à terceira e à quarta geração». É uma afirmação desconcertante, que parece estar em contradição com tudo aquilo que acabámos de dizer.

Deus nunca castiga, nem neste mundo nem no outro: Ele apenas ama e salva.

Quando a Bíblia fala dos seus castigos – e fá-lo muitas vezes – utiliza uma linguagem que pertence a uma cultura arcaica. Trata-se de uma metáfora que deve ser imediatamente traduzida para a nossa linguagem de hoje. Aquelas que são definidas como «punições de Deus», são, de facto, as consequências do pecado do homem.

O termo «pecado» vem do latim peccus, que indica uma pessoa com um pé defeituoso, alguém que caminha mal, que ganha entorses, que se engana no caminho, que cai numa cova. Ninguém vai propositadamente à procura destes males. Todas as pessoas aspiram à felicidade e à alegria; porém, há quem erre o objectivo e, «porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34), provocam desgraças, causam tragédias, magoam-se a si mesmas e às outras, e as consequências dos seus erros repercutem-se, por vezes, até mesmo nas gerações futuras.

Deus não pune quem erra, não acrescenta mais males aos que o homem já fez, Ele intervém apenas para salvar, para dar um remédio às desgraças provocadas pelo pecado. O nome com que quis ser chamado é «Jesus», porque – como explica Mateus – «Ele salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1, 21).

 

O trecho termina com o pedido de perdão. Israel tornou-se idólatra, construiu um vitelo de ouro, afastou-se do seu Deus, mas Moisés põe imediatamente à prova a misericórdia do Senhor:
«É certo que se trata de um povo de dura cerviz, mas vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança» (v. 9).

Moisés demonstra ter assimilado imediatamente a revelação do Senhor. Deus irá responder-lhe, celebrando imediatamente a aliança com o seu povo.

A primeira mensagem desta festa é, então, um convite a rever a imagem que temos de Deus: consideramo-lo ainda o “justiceiro” dos pecadores ou entendemos que Ele é rico em misericórdia? Estamos convencidos de que, «pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-
-nos a vida em Cristo» (Ef 2, 4-5)?

Segunda leitura

Esta leitura contém as últimas frases da segunda carta de Paulo aos coríntios. São expressões muito doces, cheias de ternura, como deveriam ser sempre as de quem preside a uma comunidade. A alegria é o primeiro sinal, o mais belo, da vinda do Reino de Deus ao coração de uma pessoa, é o fruto da descoberta do verdadeiro rosto de Deus.

A comunidade onde – adverte o Apóstolo – os irmãos são felizes, tendem para a perfeição, animam-se reciprocamente, cultivam os mesmos sentimentos, vivem em paz e unidos ao Deus do amor (v. 11), é a imagem da vida e da felicidade da Trindade. O ósculo santo que os crentes trocam entre si (v. 12) é a expressão e o sinal do amor que une as pessoas divinas e que, expandindo-se, arrasta os discípulos.

Depois destas breves recomendações, Paulo saúda os coríntios, servindo-se da fórmula que nós hoje usamos na liturgia da Missa: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco» (v. 13). É muito provável que fossem estas as palavras com as quais, na comunidade de Corinto, se dava o sinal da paz e o «ósculo santo». Com esta fórmula, Paulo lembra aos coríntios que foi o Pai quem tomou a iniciativa de salvar os homens, destinando-os a uma felicidade eterna na sua família; o Filho foi quem realizou esta obra de salvação, pela sua vinda ao mundo e a sua fidelidade até à morte; o Espírito, o amor que une o Pai e o Filho, foi derramado no coração de cada cristão pelo Baptismo. A partir do momento em que se recebe este dom, entra-
-se na família de Deus, a Trindade.

Compreende-se assim por que motivo esta fórmula trinitária era usada no momento do sinal da paz: a unidade dos membros da comunidade nasce do facto que eles pertencem à família de Deus, são filhos do mesmo Pai, irmãos do único Filho e são animados pelo mesmo Espírito.

Evangelho

O trecho evangélico de hoje é composto por apenas três versículos, mas muito densos. Bastariam para corrigir a imagem distorcida de Deus que está presente ainda na mente de muitos cristãos – a imagem do juiz severo e inflexível – e abrir de par em par as portas do coração à confiança no seu amor.

«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita nele não pereça, mas tenha a vida eterna» (v. 16). Pode ser considerado o vértice a que chegou a revelação bíblica acerca do sentido da criação, da vida, do destino do homem.

Contemplando, surpreendido, a revelação do projecto de Deus, João descobre que na origem de tudo está o seu amor gratuito. Ao contrário do que afirma na sua primeira carta – onde vê este amor derramar-se sobre a comunidade cristã (1Jo 4, 7-12) – aqui o evangelista vê abrirem-se horizontes sem fim: o amor de Deus expande-se, irreprimível, imparável, e enche «o mundo» inteiro. É o oposto da famosa afirmação: «O mundo em que vivemos pode-se ver como o resultado da desordem e do acaso; mas se é fruto de uma intenção deliberada, esta só pode ser a intenção de um diabo.»

Por muito estranho que possa parecer, a imagem de Deus que ama o homem teve dificuldade em impor-se em Israel. Foi preciso esperar pelo profeta Oseias (século viii a.C.) para a encontrar pela primeira vez. Esta dificuldade era devida ao facto que, nas religiões pagãs, a relação de amor com a divindade tinha conotações equívocas de carácter sexual.

João, que viu com os seus olhos e tocou com as suas mãos o Verbo da vida (1Jo 1, 1), chega a afirmar: «Deus é amor» (1Jo 4, 8), amor que se manifestou ao mundo no seu Filho unigénito. Não o deu apenas na Encarnação, mas entregou-o nas mãos dos homens sobre a cruz. Ali, Ele mostrou o seu verdadeiro rosto, já sem véus.

Paulo mostra ter compreendido este prodígio de amor quando, ao escrever aos Romanos, declara: «É assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós» (Rm 5, 8).

Perante este dom, o que é pedido ao homem? Uma só coisa: que confie, que se abandone nos seus braços – como faz a esposa com o esposo – que se entregue a Ele, imenso amor, com a certeza de encontrar a vida.

Por vezes, quando pensamos em Deus que se fez um de nós, cometemos o erro de considerar este facto como um episódio, um triste parêntesis da sua existência: veio entre nós, ficou por cá trinta e três anos, sofreu e morreu na cruz, e depois voltou para o Céu, distante, e feliz por ter recuperado a condição anterior.

Não é assim, o nosso Deus fez-se homem e permanece para sempre um de nós, não fugiu deste mundo, é e permanece para sempre o Emanuel, o Deus-connosco (Mt 28, 20).

Um dos aspectos mais firmes da fé judaica era o do Deus juiz das obras de cada pessoa. O próprio messias não era esperado como aquele que ajuda a vencer o pecado, mas como o executor do juízo divino. Esta convicção está presente também em muitos trechos do Novo Testamento: o Baptista anuncia que está próximo um juízo ao qual ninguém poderá escapar (Mt 3, 7-10); Paulo fala do «dia da ira e do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um conforme as suas obras» (Rm 2, 5-6); o próprio Jesus utiliza, por vezes, a imagem do tribunal: «Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade» (Mt 7, 23).

No Evangelho de João, nem o Pai nem Jesus aparecem como juízes que condenam, mas apenas como salvadores do homem: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (v. 17); «não vim para condenar o mundo, mas sim para o salvar» (Jo 12, 47).

Estes textos parecem contraditórios; de facto, mesmo utilizando linguagens e imagens diferentes, afirmam a mesma verdade: o juízo de Deus é sempre e somente salvação; não é uma sentença pronunciada no fim da vida, mas é a preciosa avaliação que o Senhor põe, hoje, perante cada pessoa, para que as suas escolhas sejam guiadas pela verdadeira sabedoria, não a deste mundo que leva à morte, mas a de Cristo.

 

Nesta perspectiva deve ser lido e interpretado o terceiro e último versículo do texto de hoje, onde é posta em evidência a responsabilidade de cada pessoa perante o amor de Deus: «Quem acredita nele não é condenado, mas quem não acredita nele já está condenado» (v. 18).

O juízo não é pronunciado por Deus no fim dos tempos, mas é actual: é a pessoa que, confiando em Cristo e na sua Palavra, escolhe a vida; recusando a sua proposta de amor, decreta a sua própria condenação.

É hoje que somos chamados a acolher a alegria que Deus oferece, mas pode-se também cometer a insensatez de adiar ou até mesmo recusar o seu abraço. Ele espera da pessoa um «sim», imediato, porque cada momento passado no pecado, na rejeição do seu amor, é uma oportunidade desperdiçada.

Qual é o critério, o ponto de referência indicado por Deus para ter um juízo sapiente e recto sobre as escolhas a fazer na vida?

Encontramos a resposta num grupo de textos que, no Evangelho de João, apresentam Jesus como juiz: «Eu vim a este mundo para proceder a um juízo» (Jo 9, 39); «o Pai entregou ao Filho todo o julgamento» (Jo 5, 22). É sobre a sua pessoa, a sua proposta de vida, os valores que Ele pregou, que o Pai avaliará a existência de cada pessoa e decretará o sucesso ou o fracasso.

Não se diz que Ele, no final, rejeitará para sempre quem errou, quem seguiu outros critérios, outros juízos. Deus não escorraça ninguém, Ele «quer que todos os homens sejam salvos» (1Tm 2, 4). Paulo apresenta o absurdo de uma sua condenação com uma série de perguntas de retórica: «Quem pode estar contra nós? Quem irá acusar os eleitos de Deus? Deus é quem nos justifica! Quem irá condená-los? Jesus Cristo, aquele que morreu, mais, que ressuscitou, que está à direita de Deus é quem intercede por nós» (Rm 8, 31-34). A conclusão é evidente: «nenhuma criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Rm 8, 39).

Todavia, no fim da vida, quando Deus «pelo fogo provará o que vale a obra de cada um» (1Cor 3, 13), será clara a conformidade ou a deformidade das acções de cada um com a pessoa de Cristo. Deus acolherá certamente todos nos seus braços, mesmo que haja quem tenha que admitir ter gerido mal, ter irremediavelmente desperdiçado a oportunidade única que lhe foi oferecida. E «se a obra de alguém – adverte Paulo – se queimar, perdê-la-á; ele, porém, será salvo, como se atravessasse o fogo» (1Cor 3, 15).

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.