Banquete da Palavra · 24 de maio
O Espírito: Todo o Prodígio É Possível
Domingo de Pentecostes
Os fenómenos naturais que mais impressionam a fantasia do homem – o fogo, o relâmpago, o furacão, o terramoto, os trovões (Ex 19, 16-19) – são usados na Bíblia para contar as manifestações de Deus.
Também para apresentar a efusão do Espírito do Senhor, os autores sagrados recorreram a imagens. Disseram que o Senhor é sopro de vida (Gn 2, 7), chuva que rega a terra e transforma o deserto num jardim (Is 32, 15; 44, 3), força que dá de novo a vida (Ez 37, 1-14), ribombo do céu, vento que desce impetuoso, fragor, línguas à maneira de fogo (Act 2, 1-3). São todas imagens vigorosas que sugerem a ideia de uma imensa explosão de força.
Onde chega o Espírito acontecem sempre perturbações e transformações radicais: caem barreiras, abrem-se portas, tremem todas as torres construídas pelas mãos do homem e projectadas pela «sabedoria deste mundo», desaparece o medo, a passividade, o quietismo, desenvolvem-se iniciativas e fazem-se escolhas corajosas.
Quem anda insatisfeito e aspira à renovação do mundo e da pessoa pode contar com o Espírito: nada resiste à sua força.
Um dia, o profeta Jeremias questionou-se desencorajado: «Pode um etíope mudar a sua própria cor ou um leopardo as pintas da sua pele? E vós, como poderíeis praticar o bem, se fostes instruídos na maldade?» (Jr 13, 23). Sim – pode-se responder – todo o prodígio é possível onde irrompe o Espírito de Deus.
O Espírito do Senhor enche o universo e renova a face da terra.
Primeira leitura
Jesus prometeu aos seus discípulos que não os deixaria sós e que iria enviar o Espírito (Jo 14, 16.26). Hoje celebramos a festa deste dom do Ressuscitado.
Lendo o trecho dos Actos ficamos admirados perante os numerosos «prodígios» acontecidos no dia de Pentecostes: rajadas de vento, línguas de fogo, os Apóstolos que falam todos os idiomas.
Perguntamo-nos também por que razão Deus esperou cinquenta dias antes de mandar sobre os discípulos o seu Espírito.
Para compreender esta página de teologia (não de crónica) temos que penetrar um pouco na linguagem simbólica utilizada pelo autor.
Lucas coloca a descida do Espírito no dia de Pentecostes. E, no entanto, precisamente no Evangelho de hoje, João conta que Jesus comunicou o Espírito no próprio dia da Ressurreição (Jo 20, 22). Como se explica esta falta de acordo acerca da data?
Digamos já e com clareza: o mistério pascal é único. Morte, Ressurreição, Ascensão e dom do Espírito aconteceram no mesmo instante, no momento da morte de Jesus. Contando o que aconteceu no Calvário, naquela Sexta-Feira Santa, João diz que, inclinando a cabeça, Jesus entregou o Espírito (Jo 19, 30).
Então, por que motivo este único, sublime, inefável mistério pascal foi apresentado por Lucas como se tivesse acontecido em três momentos sucessivos? Fê-lo para ajudar a compreender os seus múltiplos aspectos.
João pôs a efusão do Espírito no dia de Páscoa para mostrar que o Espírito é dom do Ressuscitado. Agora vejamos por que razão Lucas a coloca no contexto da festa de Pentecostes.
O Pentecostes era uma festa hebraica muito antiga, celebrada cinquenta dias depois da Páscoa e que comemorava a chegada do povo de Israel ao monte Sinai. Todos recordamos o que aconteceu naquele lugar: Moisés subiu ao monte, encontrou Deus e recebeu a Lei para a transmitir ao seu povo.
Os Israelitas eram muito orgulhosos deste dom: diziam que Deus, antes de lhes oferecer a Lei, a tinha oferecido a outros povos, mas estes tinham-na recusado, preferindo continuar com os seus vícios e desregramentos. Para agradecer a Deus esta predilecção, os Israelitas tinham instituído uma festa: o Pentecostes.
Dizendo que o Espírito tinha descido sobre os discípulos precisamente no dia de Pentecostes, Lucas quer ensinar que o Espírito substituiu a antiga Lei e tornou-se a nova Lei para o cristão.
Para explicar o que isto quer dizer vamos recorrer a uma comparação. Um dia Jesus disse: «Porventura podem colher-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?» (Mt 7, 16). Seria insensato imaginar que circundando de carinhos um cardo, podando-o, criando-lhe à volta um clima mais temperado se poderia chegar a produzir uvas. Todavia, se – com um prodígio de engenharia genética – se conseguisse transformá-lo numa videira, então já não seria necessária uma intervenção externa. O cardo produziria espontaneamente uvas.
Antes de receber a efusão do Espírito, o mundo era como um grande cardo. Deus tinha dado aos homens óptimas indicações – um decálogo, preceitos, muitos conselhos – e aguardava os frutos, obras de justiça e de amor (Mt 21, 18-19), mas estes não chegaram porque a árvore continuava a ser má e «não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto... o mau, do mau tesouro tira o que é mau; pois a boca fala da abundância do coração» (Lc 6, 43.45).
Que fez então Deus? Decidiu mudar o coração das pessoas. Com um coração novo – pensou Ele – elas nunca mais iriam precisar de leis exteriores, iriam fazer o bem segundo os impulsos do seu íntimo.
Isto é a lei do Espírito: é o coração novo, é a vida de Deus que, quando entra no homem, o transforma e de cardo torna-o árvore fecunda, capaz de produzir espontaneamente as obras de Deus.
Quando o homem está cheio do Espírito, acontece nele algo
de inaudito: ama com o mesmo amor de Deus. A partir daquele momento não tem necessidade de que alguém o ensine (cf. 1Jo 2, 27), não precisa de outra lei. João chega a dizer que o homem animado pelo Espírito torna-se até mesmo incapaz de pecar: «Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque um germe divino permanece nele e não pode pecar, porque nasceu de Deus» (1Jo 3, 9).
E o rumor semelhante a uma forte rajada de vento, e as línguas de fogo? Mas é evidente: vamos ver ao livro do Êxodo quais foram os fenómenos que acompanharam o dom da antiga Lei: «E eis que, no terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões e relâmpagos e uma nuvem pesada sobre a montanha, e um som muito forte de trombeta, e todo o povo que estava no acampamento tremia» (Ex 19, 16). «Perante o espectáculo dos trovões, dos relâmpagos, do som da trombeta e da montanha fumegante o povo tremia e mantinha-se à distância» (Ex 20, 18).
Os rabinos diziam que, no Sinai, no dia de Pentecostes, quando Deus tinha dado a Lei, as suas palavras tinham tomado a forma de setenta línguas de fogo, para indicar que a Tora estava destinada a todos os povos (que naquele tempo se pensava que fossem precisamente setenta).
Se a antiga Lei tinha sido dada no meio de trovões, relâmpagos, línguas de fogo... como poderia Lucas apresentar de modo diferente o dom do Espírito – nova Lei? Se queria que o entendessem tinha que utilizar as mesmas imagens.
E as muitas línguas faladas pelos Apóstolos?
Provavelmente, Lucas evoca um fenómeno muito comum na Igreja primitiva: depois de ter recebido o Espírito, os crentes começavam a louvar a Deus num estado de exaltação e, como que em êxtase, pronunciavam palavras estranhas noutras línguas.
Lucas utilizou este fenómeno num sentido bíblico para ensinar a universalidade da Igreja. O Espírito é um dom destinado a todas as pessoas e a todos os povos. Perante este dom de Deus abatem-
-se todas as barreiras de língua, raça e tribo. No dia de Pentecostes acontece o contrário do que aconteceu em Babel (Gn 11, 1-9).
As pessoas começaram a não se entenderem e a afastarem-se umas das outras; aqui o Espírito inicia um movimento oposto: reúne aqueles que estão dispersos.
Quem se deixa guiar pela palavra do Evangelho e do Espírito fala uma língua que todos compreendem e que a todos une: a linguagem do amor. É o Espírito que transforma a humanidade numa única família onde todos se entendem e se amam.
Segunda leitura
De onde surgem as divisões nas nossas comunidades? Das invejas, dos ciúmes recíprocos. Os que têm qualidades evidentes (são inteligentes, fortes, têm boa saúde, estudaram...), em vez de pôr humildemente os seus dotes ao serviço dos irmãos, começam a pretender títulos honoríficos, exigem maior respeito, estão convencidos de ter direito a privilégios, querem ocupar os primeiros lugares. É assim que os ministérios da comunidade, que são ocasiões para servir, se tornam oportunidades para imposição, para afirmação pessoal, para afirmar o próprio poder e o próprio prestígio.
Na comunidade de Corinto, os cristãos não eram melhores que os de hoje, cometiam os mesmos pecados, tinham os mesmos defeitos. Com efeito, estavam divididos por causa dos vários carismas (isto é, dos vários dons) que cada um tinha recebido de Deus.
Paulo escreve a estes cristãos para lhes lembrar que os muitos dons, as muitas qualidades que cada um tem, não foram dados para criar divisões, mas para favorecer a unidade: «Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum» (v. 7). E isto porque a origem de todos os dons é única: o Espírito. Diz Paulo: «Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo» (v. 4).
Para esclarecer melhor esta ideia da unidade e do serviço recíproco, Paulo utiliza a comparação do corpo.
Os cristãos constituem um só corpo, composto por muitos membros. Cada parte deve desempenhar a sua função para o bem de todo o organismo. Assim acontece com os diversos dons que enriquecem cada membro da comunidade: servem para que cada um possa manifestar aos outros o seu amor, mediante uma humilde disponibilidade para o serviço.
Evangelho
Para os primeiros cristãos, o primeiro dia da semana é um dia importante porque é o dia do Senhor (Ap 1, 10), é aquele em que a comunidade costuma reunir-se para partir o pão eucarístico (Act 20, 7; 1Cor 16, 2).
Na tarde. A indicação temporal com que começa o trecho evangélico é preciosa: indica talvez a hora tardia a que os cristãos costumavam encontrar-se para a sua celebração.
As portas estão fechadas por medo dos Judeus (v. 19). Jesus certamente não tinha anunciado triunfos e vida fácil aos seus discípulos; «têm muito que sofrer no mundo» – dissera (Jo 16, 33). Todavia, a razão principal pela qual se insiste nas portas fechadas (Jo 20, 26) é teológica: João quer que se entenda que o Ressuscitado é o mesmo Jesus que os Apóstolos viram, conheceram, ouviram, tocaram, mas encontra-se numa condição diferente. Não voltou à vida de antes (como aconteceu a Lázaro), entrou numa existência completamente nova.
O seu corpo já não é feito de átomos materiais, é imperceptível à verificação dos sentidos.
A ressurreição da carne não equivale à reanimação de um cadáver. É o misterioso desabrochar de uma vida nova a partir de um ser que acaba. Paulo explica este facto pela imagem da semente. Diz que «semeado corruptível, o corpo é ressuscitado incorruptível; semeado na desonra, é ressuscitado na glória; semeado na fraqueza, é ressuscitado cheio de força; semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno, também há um corpo espiritual» (1Cor 15, 42-44).
Quando Jesus mostra as mãos e o lado, os discípulos ficam cheios de alegria. Uma reacção surpreendente: deveriam entristecer-se vendo os sinais da paixão e morte. Pelo contrário, alegram-se, não porque encontram pela frente o Jesus que acompanharam ao longo das estradas da Palestina, mas porque vêm o Senhor (v. 20), dão-se conta de que o Ressuscitado que se lhes revela é o mesmo Jesus, aquele que deu a vida.
Colocando as manifestações do Ressuscitado no contexto da tarde do primeiro dia da semana, João pretende dizer aos cristãos das suas comunidades que também eles podem encontrar o Senhor – não Jesus de Nazaré, com o corpo material que tinha neste mundo – mas o Ressuscitado, sempre que se encontram juntos «no dia do Senhor».
Depois de ter saudado os discípulos pela segunda vez: A paz esteja convosco! (vv. 19-20), Jesus dá-lhes o seu Espírito e confere-lhes o poder de perdoarem os pecados (vv. 21-23).
Os discípulos são enviados a cumprir uma missão: «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.»
Quando estava no mundo, Jesus mostrava o rosto e o amor do Pai (Jo 12, 45), agora, tendo deixado este mundo, Ele continua a sua obra através dos discípulos a quem entrega o seu Espírito.
Acolhê-lo era acolher o Pai que o tinha enviado, agora acolher os seus discípulos é acolhê-lo a Ele (Jo 13, 20).
Para compreender a missão confiada aos Apóstolos, o perdão dos pecados mediante a efusão do Espírito, temos que voltar às concepções religiosas do povo de Israel e às palavras dos profetas.
No tempo de Jesus, encontrava-se difundida a ideia de que as pessoas agiam mal, contaminavam-se com os ídolos, eram impuras porque movidas por um espírito mau. E esperava-se que Deus, quem sabe quando, interviesse para as libertar e infundir nelas um espírito bom.
Na Carta aos Romanos, Paulo faz uma descrição dramática da condição infeliz do homem que se encontra à mercê do espírito do mal: «Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço. Ora, se o que eu não quero é que faço, estou de acordo com a Lei, reconheço que ela é boa. Mas então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico» (Rm 7, 15-19).
Pela boca dos profetas, Deus prometeu o dom de um espírito novo, do seu Espírito: «Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; Eu vos purificarei de todas as manchas e de todos os pecados. Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos» (Ez 36, 25-27).
Esta efusão do Espírito do Senhor iria renovar o mundo. Inundá-lo-á – disse o profeta Ezequiel – como uma torrente de água impetuosa que, quando entra no deserto, o fecunda e o transforma em jardim. «Ao longo da torrente, nas suas margens, crescerá toda a sorte de árvores frutíferas, cuja folhagem não murchará e cujos frutos nunca cessam: produzirão todos os meses frutos novos, porque esta água vem do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas, de remédio» (Ez 47, 1-12). São imagens deliciosas que descrevem de modo admirável a obra vivificante do Espírito.
No dia de Páscoa realizam-se estas promessas. Com um gesto simbólico – Jesus soprou sobre eles – é dado o Espírito. Este sopro evoca o momento da criação, quando «o Senhor Deus formou o homem do pó da terra. Insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida» (Gn 2, 7). O sopro de Jesus cria o homem novo, o homem que já não é vítima das forças que o levam ao mal, mas é animado por uma energia nova que o leva ao bem.
Onde chega este espírito, o mal está vencido, o pecado perdoado – cancelado, destruído – e nasce o homem novo modelado pela pessoa de Cristo.
A missão que o Ressuscitado confia aos seus discípulos é a de perdoar os pecados, continuando assim a sua obra de «Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1, 29).
Que significa perdoar os pecados? Estas palavras foram interpretadas – de modo justo, mas redutivo – como a atribuição aos Apóstolos do poder de absolver os pecados. Não é este, porém, o único modo de perdoar, isto é, de neutralizar, de derrotar o pecado. O poder conferido por Jesus é muito mais amplo e diz respeito a todos os discípulos que são animados pelo seu Espírito: é o poder de purificar o mundo de todo o tipo de mal.
Os poderes não são dois – perdoar ou reter – à discrição do confessor que avalia caso a caso. O poder é um só, o de aniquilar, de todas as formas, o pecado. Mas este pode também não ser perdoado: se o discípulo não se empenhar em criar as condições para que todos abram o coração à acção do Espírito, o pecado não é perdoado.
Por este insucesso da missão, é responsável o discípulo.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.