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30 Sexta-feira, 30 de outubro Outubro de 2026 Sexta-feira da semana XXX

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Banquete da Palavra · 5 de abril

Testemunha É Quem «Viu» o Senhor

Domingo de Páscoa - Missa no dia de Páscoa

São comoventes as palavras apaixonadas com que João inicia a sua carta: «O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida. O que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos» (1Jo 1, 1.3). Uma experiência invejável, mas que não se pode repetir. Todavia, para ser «testemunhas» de Cristo, não é indispensável ter caminhado com Jesus de Nazaré pelas estradas da Palestina.

Paulo – que também não conheceu pessoalmente Jesus – é constituído testemunha das coisas que viu (Act 26, 16) e recebe do Senhor esta incumbência: «Assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, assim é necessário que o dês também em Roma» (Act 23, 11).

Para se ser testemunha, basta ter visto o Senhor realmente vivo, para além da morte.

Testemunhar não equivale a dar bom exemplo. Este é sem dúvida útil, mas o testemunho é outra coisa. Pode dá-lo apenas quem passou da morte à vida, quem pode confirmar que a sua existência mudou e adquiriu um sentido desde que foi iluminada pela luz da Páscoa, quem fez a experiência de que a fé em Cristo dá sentido às alegrias e às dores e ilumina os momentos alegres e os momentos tristes.

Perguntemo-nos: a Ressurreição de Cristo é um ponto de referência constante em todos os projectos que fazemos, quando compramos, vendemos, dialogamos, dividimos uma herança, quando escolhemos ter outro filho... ou consideramos que as realidades deste mundo não têm nada a ver com a Páscoa?

Quem viu o Senhor já não faz mais nada sem Ele.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Se o nosso coração se abrir à compreensão das Escrituras, veremos o Senhor.

Primeira leitura

Esta leitura é retirada do quinto dos oito discursos pronunciados por Pedro nos Actos dos Apóstolos. A cena desenrola-se em Cesareia, na casa do centurião Cornélio, onde se reuniu um grupo de pagãos que estão para receber o Baptismo.

Este trecho é precioso porque, em síntese, apresenta a pregação feita nas primeiras comunidades cristãs. Pondo-a na boca de Pedro, o autor pretende dar-lhe a autoridade e a garantia do ministério. Vejamos quais são os pontos essenciais desta pregação.

Antes de mais evoca a vida de Jesus. Ele passou fazendo o bem e curando todos aqueles que eram vítimas do mal porque nele operava a força de Deus (vv. 37-38). É indicado o lugar e o tempo em que esta sua actividade teve início: tudo começou na Galileia depois do Baptismo pregado por João. O que aconteceu antes – a sua infância e a juventude passadas em Nazaré – interessa à nossa curiosidade, mas não constitui ponto de referência para a nossa fé.

Pedro sublinha factos concretos, verificáveis, conhecidos por todos, porque a fé cristã não se baseia sobre elucubrações esotéricas ou sobre uma personagem da mitologia, mas faz referência a um homem concreto, que viveu num lugar e num tempo bem precisos.

Esperaríamos que Pedro dissesse pelo menos uma palavra sobre o anúncio da Boa Nova, mas ele limita-se a sublinhar a transformação concreta do mundo realizada por Jesus. Essa é suficiente para provar que teve início uma realidade nova.

O segundo ponto da pregação é o que os homens lhe fizeram: não reconheceram em Jesus o enviado de Deus e mataram-no pregando-o numa cruz (v. 39).

E Deus como reagiu? Ele – diz Pedro – não podia abandonar
o seu «Servo fiel» prisioneiro da morte, por isso ressuscitou-o.
A sua obra opõe-se à dos homens, que dão a morte, levam ao sepulcro.

Deus é aquele que levanta e conduz à vida. Este é o artigo fundamental da nossa fé (v. 40).

Por fim é indicada a missão dos discípulos: eles são testemunhas destes factos (v. 39.41) e são enviados a anunciar e testemunhar que Jesus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos (v. 42). Esta verdade faz parte do «Credo» e não é uma ameaça, mas uma mensagem de alegria. Os Apóstolos devem dizer a todos que Jesus não é um juiz que condena, mas o modelo com que Deus confronta a vida de cada homem, declarando o seu sucesso ou fracasso. Não há uma instância superior. Os Judeus não poderão apelar à sua fé em Deus ou à observância da lei. O ponto de referência estabelecido por Deus não é a lei, as tradições, nem algum outro critério humano, mas é Jesus e só Jesus.

Os Apóstolos são suas testemunhas porque estiveram com Ele, comeram e beberam com Ele, ouviram os seus ensinamentos e viram os sinais que Ele realizou. Não são testemunhas pela sua vida exemplar, mas na medida em que fizeram uma experiência única que podem referir a quem quer que seja que os queira ouvir com honestidade e pureza de coração.

Segunda leitura

Escrevendo aos cristãos de Colossos, Paulo recorda-lhes que, no dia do Baptismo, eles nasceram para uma vida nova, vida que tem a sua plena realização não neste mundo, mas no mundo de Deus.

A fé nesta vida nova é aquilo que diferencia os crentes dos ateus. Estes, de facto, estão convencidos que o homem, contando apenas com as suas próprias forças, consegue chegar à salvação neste mundo.

Não é difícil dar-se conta de que, mesmo que fossem resolvidos todos os problemas materiais, houvesse alimento para todos, a dor e a doença fossem vencidos, mesmo assim ficariam questões não resolvidas no íntimo do coração do homem: por que vivo e por que morro? De onde venho e para onde vou?... Só Cristo morto e ressuscitado dá uma resposta satisfatória a estas interrogações.

Paulo não diz que os cristãos não se devem interessar pelas realidades deste mundo. Estes trabalham e empenham-se como os outros. Todavia, estão certos de que a plenitude da vida não pode ser atingida aqui (v. 2).

As obras boas não podem faltar – diz a leitura –, são uma manifestação da vida nova, são sinais da sua presença. São como os frutos que apenas podem nascer e crescer numa árvore viva e frondosa.

Evangelho

«No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro...» (v. 1). Nas primeiras palavras do Evangelho do dia de Páscoa notam-se, quase se respiram, os sinais da vitória da morte. À face da terra tudo é silêncio, imobi-lidade, calma, e uma mulher, só e amedrontada, move-se na obscuridade da noite. A morte parece dominar incontestada e o silêncio e a escuridão celebram o triunfo. O poder, o princípio da força, a discriminação, a injustiça, o fermento da astúcia parecem ter definitivamente levado a melhor sobre as forças da vida.

Vejamos, pelo contrário, o que acontece quando Maria vê o sepulcro vazio: a cena muda como que por encanto. Tomadas por um frémito imprevisto, todas as personagens sacodem o seu torpor e começam a mover-se rapidamente: Maria Madalena «correu e foi ter com Simão Pedro... que partiu com o outro discípulo... Correm os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se...» (vv. 2-4). Apanhando todos de surpresa, no dia a seguir ao sábado, a vida explode com toda a sua força. Deus interveio e abriu de par em par o sepulcro, mas a Madalena ainda não o sabe, pensa que o cadáver foi roubado. A sua é uma reacção natural e espontânea, é o primeiro pensamento que atravessa a mente de quem quer que encontre um túmulo vazio.

Pode-se ficar por esta primeira consideração ou então continuar a procurar um sentido para aquilo que se constata. Diante da morte podemo-nos resignar e chorar ou então abrir o coração à luz do alto.

 

A Madalena sai momentaneamente de cena e é como se passasse o testemunho, na corrida para a fé, a outros dois discípulos. Um é bem conhecido, Pedro, o outro não tem nome. Costuma-se dizer que se trata do evangelista João. Mas esta identificação aconteceu muito tarde, cerca de cem anos depois do Apóstolo ter morrido. Pode ser que fosse ele o discípulo que Jesus amava; todavia, no Evangelho de João, esta figura tem certamente também um carácter simbólico que convém perceber.

Este discípulo sem nome está sempre ligado de alguma forma a Pedro:

– entra em cena ao lado de André. Os dois, um dia, vêem Jesus passar, perguntam-lhe onde mora, seguem-no e ficam com Ele toda a noite. O que tem Pedro a ver com isto? Tem, porque o discípulo sem nome chega a Jesus antes dele (Jo 1, 35-40);

– não se fala deste discípulo até à Última Ceia, quando Jesus declara que entre os doze está também um traidor. Quem o descobre? Quem sabe reconhecer quem está do lado de Jesus e quem, pelo contrário, está contra ele? Não Pedro, mas o discípulo sem nome que reclina a cabeça sobre o peito do Senhor (Jo 13, 23-26).

– durante a paixão, enquanto Pedro fica por ali e renega o Mestre, o discípulo sem nome tem a coragem de o seguir, entra na casa do sumo sacerdote e está perto dele durante o processo (Jo 18, 15-27);

– no calvário, Pedro não aparece, fugiu. O discípulo que Jesus ama, pelo contrário, está com o Mestre, está aos pés da cruz com a mãe dele (Jo 20, 3-10);

– depois temos o trecho de hoje, no qual Pedro é de novo batido quer na corrida material quer na espiritual – como dentre em breve iremos ver (Jo 20, 3-10);

– no mar de Tiberíades é ainda este discípulo a reconhecer o Ressuscitado no homem que se encontra na margem. Somente mais tarde Pedro se dá conta (Jo 21, 7);

– por fim, quando é convidado por Jesus a segui-lo, Pedro não tem a coragem de o fazer sozinho, sente a necessidade de ter ao seu lado «o discípulo que Jesus amava» (Jo 21, 20-25).

Quem representa então? Por que é que não tem nome?

Representa o discípulo autêntico, aquele que logo que encontra Jesus não hesita, segue-o imediatamente, quer conhecê-lo, esquece-se até mesmo de dormir desde que possa estar com Ele. Conhece-o ao ponto de descobrir imediatamente quais são os seus amigos e quais os inimigos. Segue-o também quando é necessário dar a vida. Não tem nome porque cada um é convidado a inserir o próprio nome.

 

Vemos este par de discípulos correrem para o sepulcro. O discípulo sem nome chega primeiro, debruça-se, vê as ligaduras no chão, mas não entra. Chega também Simão Pedro que entra, vê as ligaduras no chão e o sudário que tinha sido posto sobre o rosto de Jesus, não no chão com as ligaduras, mas enrolado à parte.

Nada de milagroso, não há nenhuma aparição de anjos, por todo o lado vêem-se apenas os sinais da morte. Talvez os discípulos tenham uma intuição, aquela formulada por João Crisóstomo: «Quem quer que tenha levado o corpo, não o teria antes despido, nem teria tido o trabalho de remover e enrolar o sudário e de o deixar noutro sítio.» Portanto, o cadáver não foi roubado.

Pedro pára, atónito e estupefacto. Constata, mas não consegue ir mais além. Os seus pensamentos bloqueiam-se diante da evidência da morte. O discípulo sem nome, pelo contrário, dá um passo em frente: viu e acreditou (v. 8). É o momento culminante do seu caminho em direcção à fé no Senhor ressuscitado. Perante os sinais da morte (o túmulo, as ligaduras, o sudário...) ele começa a vislumbrar a vitória da vida.

 

A anotação que se segue associa os dois discípulos: «Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar» (v. 9). Parece ilógica, pelo menos no que diz respeito ao discípulo sem nome. Mas, nesta altura, o evangelista João não está a redigir uma crónica fria dos factos, está a indicar aos cristãos das suas comunidades o itinerário através do qual se chega à fé. Parte-se dos sinais – aqueles documentados pelos Evangelhos (Jo 20, 30-31) – que, porém, permanecem misteriosos e incompreensíveis se não nos deixarmos guiar pela palavra de Deus contida nas Sagradas Escrituras. São estas que abrem, de par em par, as portas da mente e do coração e dão a iluminação interior que desvela o Ressuscitado. O discípulo autêntico não precisa de outras provas, não precisa das verificações que Tomé irá exigir.

Jesus disse aos discípulos: «Se o grão de trigo caído à terra não morre, permanece só; mas se morre, produz muito fruto.» Quem ainda não acredita considera um absurdo, uma loucura o dom gratuito da vida, porque por detrás deste dom vê apenas os sinais da morte. À luz da Páscoa, pelo contrário, o discípulo autêntico «começa a entender» que a vida doada pelos irmãos introduz na bem-aventurança de Deus.

O versículo conclusivo do episódio – os dois discípulos «regressaram a casa» (v. 10) – dá quase a impressão que tudo volta a ser como era antes. Mas não é assim. Os dois conheceram Jesus, verificaram os mesmos factos e viram os mesmos sinais. Retomam a vida de todos os dias, mas um continua desencorajado e desiludido, o outro é guiado por uma nova luz e sustentado por uma nova esperança.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.