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1 Domingo, 1 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXI do Tempo Comum

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Banquete da Palavra · 8 de março

Há Uma Água Que Não Tem Preço

Domingo III da Quaresma

Durante muitos anos, os Hebreus, no Sinai, fizeram a experiência da sede e das miragens, escavaram poços e sonharam com uma terra onde a água descesse do céu sob a forma de chuva e orvalho, onde brotassem nascentes e abundassem as várzeas.

Nómadas num deserto desolado, associaram as terras assoalhadas e áridas à morte e a água à vida, à beleza, às bênçãos de Deus; viram o Senhor como aquele que «convoca as águas do mar e as derrama sobre a face da terra» (Am 5, 8).

Na Bíblia, a imagem da água aparece nos mais variados contextos. O enamorado contempla a amada: «És fonte de jardim, nascente de água viva que jorra desde o Líbano» (Ct 4, 15); Deus garante aos deportados um futuro próspero e feliz com promessas ligadas à água: «As águas hão-de jorrar no deserto e as torrentes na estepe. A terra queimada transformar-se-á em lago, e as fontes brotarão da terra seca» (Is 35, 6-7; 41, 18). Afastar-se do Senhor significa fazer uma escolha de morte, equivale a ficar sem água: «Abandonou-me, a mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas» (Jr 2, 13).

As palavras amarguradas do profeta que convida o seu povo à conversão – «todos vós que tendes sede, vinde beber desta água» (Is 55, 1) – são o prelúdio das que Jesus pronunciará no pátio do templo: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede!» (Jo 7, 37).

É Ele a nascente de água pura que sacia qualquer sede.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Sacia a nossa sede com a tua água, Senhor, não permitas que vamos a outros poços.

Primeira leitura

Após a saída do Egipto e a passagem do Mar Vermelho, o povo de Israel, guiado por Moisés, pôs-se a caminho pelo deserto para alcançar a Terra Prometida. De início, a viagem foi encarada com ímpeto e entusiasmo. Certos da protecção do seu Deus, os Israelitas manifestaram o seu reconhecimento, elevando um canto ao Senhor que «é verdadeiramente grande: cavalo e cavaleiro lançou no mar» (Ex 15, 1).

No entanto, bem cedo começaram as dificuldades: o calor sufocante, o cansaço, as serpentes, a fome e, acima de tudo, a sede. Encontrar água no deserto não é fácil, é precisamente pela falta de água que se forma o deserto. Lá não há senão pedras e areia, uma ou outra acácia, arbustos dispersos, poucos fios de erva: «Este lugar é mau – hão-de gritar os Israelitas a Moisés – não é lugar de sementeiras, nem de figueiras, nem de vinhas, nem de romãs, nem de água para beber» (Nm 20, 5).

O povo pensa ter sido levado ali para morrer e começa a duvidar da fidelidade de Deus às suas promessas; chega até a suspeitar que a libertação do Egipto possa ter sido uma armadilha, pensa que Deus não o quer conduzir para a liberdade e a vida, mas para a morte. Discute com Ele e conclui: é necessário pô-lo à prova, lutar, tentá-lo, obrigá-lo de qualquer modo a manifestar a sua intenção.

As últimas palavras da leitura são a síntese da provocação do povo: «O Senhor está ou não no meio de nós?» (v. 7). O local onde este episódio aconteceu tomou o nome de Massa e Meriba, duas palavras que, em hebraico, significam: tentação e discussão.

A este desafio Deus responde à sua maneira: não reage com castigos e ameaças, mas demonstra entender as fragilidades, as dificuldades, as dúvidas e perplexidades do seu povo. Sabe que há momentos nos quais é verdadeiramente difícil continuar a acreditar e a confiar nele. Tendo ouvido os protestos do povo, convida Moisés a pegar na vara com que fustigou o Nilo e ordena-lhe que faça brotar água da rocha.

Por que motivo quis que este dom tomasse a aparência de um milagre? Poderia ter resolvido esta dificuldade de uma forma mais simples e normal: sugerindo a direcção a seguir para atingir o oásis mais próximo, indicando o local onde escavar um poço; e assim o povo daria também o seu próprio contributo para a solução do problema. Escolheu a forma de um sinal prodigioso para mostrar aos israelitas que a água não resultava dos seus esforços, do seu empenho, da sua habilidade: era um dom de Deus, e era absolutamente gratuito. Estes limitaram-se a expor-lhe a sua condição de indigência e de pobreza.

Os comentários rabínicos enriqueceram depois esta história com elementos lendários. Um destes elementos interessa-nos de maneira particular: a partir daquele dia – diziam os rabis – a rocha nunca mais deixara de acompanhar o povo durante o seu peregrinar pelo deserto, subia os montes e descia os vales num perene jorrar de água. É relevante este detalhe porque Paulo identifica a rocha com Cristo (1Cor 10, 3-4): é Ele que continuamente mata a sede do povo de Deus em caminho.

 

A experiência de Israel que sai do Egipto repete-se na vida de cada cristão. Cada conversão é um abandonar a «terra da escravidão» e assinala o início de um êxodo. Os primeiros momentos da nova vida podem até decorrer com bastante serenidade, sobretudo se animados pela boa vontade e pelo entusiasmo, e encorajados pelos irmãos na fé. Depois começam, inevitavelmente, os arrependimentos e as nostalgias e, por vezes, a experiência decepcionante da vida da comunidade cristã.

Surgem as dúvidas, as hesitações e a tentação de pôr em causa a escolha feita. Sente-se a necessidade de um sinal, pretende-se de Deus uma prova concreta da sua fidelidade.

Não há que se admirar destes momentos difíceis; são o sinal de que se chegou, como Israel... a Massa e Meriba. Também connosco o Senhor se demonstrará paciente. À nossa débil fé oferecerá um sinal: a água prodigiosa que brota de Cristo, o seu Espírito, a sua palavra e o seu pão.

Segunda leitura

No meio das dificuldades e incertezas da vida, podemos até pensar que Deus nos tenha abandonado e que a nossa esperança não tenha um fundamento sólido.

Em que a podemos basear? Nas nossas boas obras?

Se assim fosse, se as bênçãos de Deus dependessem dos nossos méritos, nunca poderíamos ter a certeza da nossa salvação, viveríamos constantemente ansiosos e preocupados, porque conscientes da nossa fraqueza e fragilidade. Sabemos que facilmente nos desviamos do caminho recto.

Hoje, Paulo garante-nos: a esperança não está fundada nas nossas boas obras, mas no amor de Deus, amor que não é fraco, inconstante e inseguro como o nosso. Nós somos capazes apenas de amar as pessoas boas, os amigos, aquelas pessoas que nos fazem o bem; por estas pessoas podemos até, em casos excepcionais, estar dispostos a dar a vida. Deus é diferente. Ele ama o homem mesmo que este seja seu inimigo, e deu prova disso: enquanto este recusava o seu amor, o desprezava, estava longe dele, Ele enviou o seu Filho (vv. 7-8), e por isso – garante o Apóstolo – «a esperança não engana», não porque nós sejamos bons, mas porque Ele é bom (vv. 1-2).

Evangelho

João nunca refere factos da vida de Jesus na sua materialidade pura, utiliza-os sempre para compor páginas de densa teologia: nunca é fácil determinar aquilo que realmente aconteceu. O caso da samaritana é exemplar: o simbolismo que acompanha todo o relato é tão evidente que houve até quem pusesse em dúvida a historicidade do acontecimento e pensasse que fosse uma composição literária do evangelista. Nós consideramos que tenha havido um encontro de Jesus com uma mulher da Samaria, mas que esse facto foi mais tarde redigido com a linguagem, as imagens e as referências bíblicas com que se quis transmitir uma mensagem teológica.

No nosso comentário iremos ter presentes dois níveis – um histórico e o outro teológico – concentrando a nossa atenção no segundo.

 

Antigamente, o poço era o local onde se encontravam as pessoas. Lá se encontravam os pastores que iam dar de beber aos seus rebanhos, paravam os comerciantes com os seus produtos à espera de clientes, iam as mulheres buscar água (e eventualmente mexericar...), os enamorados à procura de uma companheira.

A Bíblia relata muitos destes encontros junto ao poço (sugiro a leitura dos seguintes: Gn 24, 10-25; 26, 15-25; 29, 1-14; Ex 2, 15-21); o que é narrado hoje tem como protagonistas Jesus e uma mulher da Samaria. O poço de que se fala existe ainda, fica na estrada que, partindo da Judeia, conduz à Galileia, tem mais de três mil anos, é muito profundo (32 metros) e dá ainda água boa e fresca, como no tempo de Jesus. Era o local onde todos os viajantes paravam para retemperar as forças.

Também Jesus, cansado da caminhada, se sentou na borda do poço. É meio-dia quando uma mulher vem buscar água, e Jesus pede-lhe que lhe dê de beber.

A admiração da mulher é compreensível: pelo sotaque deu-se logo conta de que se tratava de um dos odiados galileus. Como ousa pedir-lhe de beber a ela, que é samaritana? Por que viola a norma severa que proíbe que se fale quando se está a sós com mulheres desconhecidas? Os rabis ensinavam que, até mesmo para pedir uma informação, as palavras deviam ser reduzidas ao mínimo. É célebre o episódio que aconteceu ao rabi José, o Galileu, que numa encruzilhada perguntou a uma mulher: «Qual é a estrada para Luz?» Tendo-o reconhecido, a mulher respondeu: «Falaste demais com uma mulher, deverias ter dito apenas: “Luz?”»

Sendo esta a mentalidade, compreende-se também a admiração dos discípulos que, de regresso da aldeia onde tinham ido comprar alimentos, encontram Jesus que fala com uma samaritana.

A atitude livre do Mestre é um motivo de reflexão, mesmo se marginal em relação ao tema do trecho de hoje. Jesus exige dos discípulos a pureza de coração e de intenções; chega a ser severo acerca deste tema: «Aquele que olhar para uma mulher, desejando-
-a, já cometeu adultério com ela no seu coração» (Mt 5, 28), mas comporta-se de modo livre e recusa qualquer forma de discriminação.

 

Depois desta introdução, vamos então à parte central do trecho, ao diálogo entre Jesus e a samaritana (vv. 7-26).

É importante entender quem é esta mulher. O modo como o evangelista a apresenta deixa transparecer claramente a sua vontade de a transformar num símbolo.

Tentemos identificá-la: não tem nome, não é dito de onde venha, o único elemento que a define é «samaritana», que equivale a herética, infiel a Deus. Quem será?

Vinha ao poço e na Bíblia o poço – já o dissemos – é muitas vezes o local de encontro dos enamorados, que depois acabam por se casar. É curioso o facto de o evangelista, para deixar sós Jesus e a mulher, afastar de forma grosseira e pouco verosímil todos os discípulos com a desculpa de «comprar alimentos» (v. 8).

Quem representam então os dois «enamorados» no poço?

No Antigo Testamento refere-se muitas vezes o povo de Israel como a esposa à qual o Senhor se uniu com um afecto indefectível (não esqueçamos que Israel, em hebraico, é feminino). Estas núpcias não correram bem. Tinham começado por se enamorar no deserto onde Deus e Israel tinham vivido experiências inesquecíveis. O Senhor pensava com nostalgia nesses momentos: «Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto» (Jr 2, 2). Depois tinham começado as infidelidades da esposa, as suas traições, as paixões pelos amantes, o lamento pelos deuses do Egipto, a adoração dos Baal dos Cananeus, os flirts com as divindades dos Assírios, dos Babilónios, dos Persas e, por fim, até mesmo dos Romanos, provocando o ciúme do seu esposo.

Qual será a reacção do Senhor? O repúdio, o divórcio, o castigo?

Nada disso: «Como se pode repudiar a esposa da juventude? É o teu Deus quem o diz. Por um curto momento Eu te abandonei, mas, com grande amor, volto a unir-me contigo» (Is 54, 6-7). O Senhor vai escolher outra solução. Mesmo que tenha que se humi-lhar perante a esposa infiel, voltará a cortejá-la, porque o seu único objectivo é reconquistá-la: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração... ela responderá como no tempo da sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egipto» (Os 2, 16-17).

Então é evidente quem é a samaritana: é a esposa Israel, que carrega consigo toda a sua história de amores e adultérios; teve muitos «maridos» e o que tem actualmente não é o seu esposo. Jesus encontra-a no poço e quer reconduzi-la ao seu primeiro e único verdadeiro amor, o Senhor.

À luz deste simbolismo esponsal, até mesmo os pormenores aparentemente marginais do relato adquirem um significado. Antes de mais, a estranha nota: Jesus tinha que passar pela Samaria; do ponto de vista geográfico não era obrigado a passar por ali, estava no Jordão (Jo 3, 22) e teria sido mais simples subir ao longo do rio. Aquele «tinha» refere-se sem dúvida à necessidade irresistível do esposo – Deus – que não consegue não ir ter com a sua amada.

Estava cansado da caminhada. É a única vez no Evangelho que se refere o cansaço de Jesus, e não é certamente para nos dar indicações acerca da sua resistência física. Este pormenor foi introduzido para evocar a longa viagem, a distância infinita que o Senhor teve que percorrer para encontrar a esposa que o tinha abandonado: do mais alto dos Céus veio à terra; impelido por uma paixão sem limites, infinita, desceu ao abismo mais profundo à procura da amada. Nenhuma distância, nenhuma dificuldade, nenhum esforço o desencorajou. O pensamento corre espontâneo para o hino da Carta aos Filipenses: «Ele, que é de condição divina... esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo... identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo... até à morte de cruz» (Fl 2, 6-8).

 

Chegamos assim ao tema central do diálogo entre Jesus e a samaritana.

Os discípulos foram à procura do alimento material; a mulher veio buscar água ao poço. Mas Jesus oferece a todos um alimento e uma água que eles não conhecem (vv. 10.32).

A sede da samaritana é o símbolo das necessidades mais íntimas que atormentam o coração da esposa-Israel: a necessidade de paz, de amor, de serenidade, de esperança, de felicidade, de sinceridade, de coerência, de Deus. São estas as necessidades que qualquer pessoa experimenta.

A água do poço indica as tentativas, as astúcias que o homem leva a cabo para placar esta sede que nenhuma “coisa” material consegue satisfazer.

A água viva que Jesus promete é de outro género, é o espírito de Deus, é aquele amor que enche os corações. Quem se deixa guiar por este Espírito tem a paz e não precisa de mais nada.

A mulher da Samaria, no início do diálogo, tinha em mente a água material, nem sequer suspeitava que pudesse existir outra. A pouco e pouco começou a perceber e a acolher a proposta de Jesus. A sua descoberta progressiva é sublinhada com cuidado pelo evangelista. No início, para ela, Jesus é um simples viajante judeu (v. 9); depois torna-se um senhor (v. 11); em seguida um profeta (v. 19); depois é o messias (vv. 25-26); por fim, com todo o povo proclama-o Salvador do mundo (v. 42).

Através deste caminho espiritual da mulher da Samaria, João quer mostrar aos cristãos das suas comunidades o percurso que é proposto a cada discípulo. Antes de encontrar Cristo, o homem anda preocupado apenas com os aspectos materiais da vida. São realidades importantes, muitas vezes indispensáveis, mas não são suficientes, não podem constituir o único objectivo da vida. Apenas quem encontra Cristo, quem descobre que Ele é o «Salvador do mundo» e acolhe o dom da sua água, sente que toda a fome e toda a sede podem ficar saciadas.

 

A última parte do Evangelho (vv. 28-41) apresenta a conclusão do caminho espiritual da samaritana e de cada discípulo. O que faz esta mulher após ter encontrado Cristo? Abandona a bilha (já não lhe serve porque encontrou outra água!) e corre a anunciar a todos a sua descoberta e a sua felicidade.

É o convite a sermos missionários, Apóstolos, catequistas, a comunicarmos a todas as pessoas a alegria e a paz que experimenta quem encontra o Senhor e bebe da sua água.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.