Banquete da Palavra · 1 de março
Eleitos para Servir
Domingo II da Quaresma
«Vós sois um povo consagrado ao Senhor, vosso Deus – diz Moisés a Israel – que vos escolheu para si como um povo parti-cular entre todos os povos da terra» (Dt 14, 2). «Foi só a teus pais que o Senhor se apegou com amor. Elegeu a sua descendência, que sois vós, dentre todos os povos» (Dt 10, 15-16).
Também os cristãos são «linhagem escolhida» (1Pd 2, 9). «Conhecemos bem, amados irmãos – declara Paulo aos tessalonicenses – a vossa eleição» (1Ts 1, 4).
Se o Senhor – como afirma Pedro – «não faz acepção de pessoas» (Act 10, 34), que sentido tem falar de eleição?
As escolhas de Deus não seguem os critérios dos homens: não pressupõem méritos, são ditadas pelo amor gratuito. Ele ligou-se a Israel, não porque este fosse o mais numeroso dos povos – antes pelo contrário, era o mais pequeno – mas simplesmente por amor (Dt 7, 5-8). Aos cristão das suas comunidades, Tiago lembra o comportamento de Deus: «Porventura não escolheu Deus os pobres do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino?» (Tg 2, 5).
Quando chama alguém, quando escolhe um povo, fá-lo para lhe confiar uma tarefa, uma missão, para que seja portador das suas bênçãos que são destinadas a todos.
Assim, Abraão deve tornar-se «uma bênção para todas as famílias da terra»; Israel, servo do Senhor, deve «levar às nações a verdadeira justiça» (Is 42, 1); Paulo é «instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos, os reis, e os filhos de Israel» (Act 9, 15).
As vocações de Deus não dão direito a privilégios, não oferecem nenhum motivo para que alguém se sinta superior ou melhor do que os outros, são um pedido de disponibilidade para o serviço, para uma mediação de salvação.
Faz-nos compreender, Senhor, quanto é grande e absorvente a missão a que nos chamaste.
Primeira leitura
São quase dois mil milhões as pessoas no mundo que consideram Abraão o seu pai na fé. O destino desta personagem – cuja figura histórica é difícil de definir, já que se perde na noite dos tempos – é verdadeiramente singular: para hebreus, cristãos e muçulmanos é o símbolo do crente, o modelo do homem fiel a Deus. O seu nome – que significa «o pai ama» ou «o pai é exaltado» – evoca talvez o culto do Deus Pai adorado pelos seus antepassados na Mesopotâmia, a sua terra de origem.
Habitava em Ur dos Caldeus. «Meu pai era um arameu errante» – recordará para sempre Israel na sua profissão de fé (Dt 26, 5). Os nomes dos seus familiares, o quadro geográfico, os costumes, as práticas jurídicas, o tipo de religião, os relatos das suas migrações sugerem que seja colocado cronologicamente na primeira metade do segundo milénio antes da Era Cristã.
A certa altura da sua vida, acontece algo de radical: é obrigado a abandonar a sua terra e a sua família e a partir para um país desconhecido. Podemos tentar reconstruir aquilo que historicamente aconteceu.
A Mesopotâmia – terra muito fértil porque banhada por dois grandes rios, o Tigre e o Eufrates – era, juntamente com o Egipto, a região mais rica e desenvolvida do mundo. Ali tinham-se desenvolvido técnicas agrícolas muito avançadas, havia escolas superiores, uma organização estatal eficiente, leis muito sapientes – basta recordar o famoso Código de Hamurábi – e tribunais onde se administrava a justiça com equidade. Teria sido uma terra feliz se não fosse invadida por seminómadas que viviam a ocidente, à beira do deserto, e por povos provenientes do oriente que desciam dos planaltos. As perturbações devidas a estas ocupações provocavam a deslocação de grupos, de clãs, de tribos; e também a família de Abraão terá sido provavelmente envolvida numa destas emigrações forçadas que tiveram lugar no início do segundo milénio antes de Cristo.
Como viveu Abraão esta mudança que aconteceu na sua vida?
O texto bíblico oferece-nos uma leitura teológica dos factos: Abraão soube ver, nestes acontecimentos, a vontade de Deus; entendeu que o Senhor o chamava para uma grande missão e deu-lhe o seu acordo cheio de confiança; viu, no que estava a acontecer (mesmo se doloroso, dramático e perturbador), um projecto do Senhor, e confiou nele, deixou-se conduzir por Ele.
O trecho que nos é proposto hoje ocupa um lugar-chave na história da salvação: marca o início de um capítulo novo para toda a humanidade.
Após os primeiros onze capítulos do Génesis, onde é apresentada a história da origem do mundo e do homem, do pecado, do dilúvio e da torre de Babel, etc., eis que agora a atenção do autor sagrado se concentra num indivíduo e na sua família. Irão ocupar todo o resto do livro.
De forma imprevista, sem um sinal premonitório, entra em cena o Senhor que dirige a Abraão uma ordem peremptória: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar» (v. 1).
Não há nenhuma indicação quanto ao tempo, ao lugar, às circunstâncias, ao estado de ânimo com que o patriarca viveu a experiência do encontro com Deus: é um convite a ver, nesta vocação, a história do árduo caminho espiritual proposto a cada crente.
No conselho de um verdadeiro amigo, numa comunicação interior, durante um retiro espiritual, enquanto se contempla em solidão um pôr-do-sol, no acontecimento alegre ou triste que baralha projectos e sonhos, Deus fala. Convida talvez a abandonar aquela rotina na qual, mais do que viver, se sobrevive; pede para cortar com o passado, com aqueles hábitos que, apesar de não terem sido motivo de honra, foram causa de gratificação. Deus não aceita que o homem se resigne e se adapte a falsos equilíbrios; intervém, promete uma vida nova, diferente, autêntica, mesmo se exigente e acompanhada de imprevistos. Por isso não é para admirar o facto de permanecer por longo tempo a recordação e até mesmo a pena pela terra que se deixou.
A Abraão o Senhor não revela logo de início para onde o quer conduzir, e não lhe indica sequer as etapas difíceis que deverá percorrer. Momento a momento, dia a dia, convida-o a dar a sua resposta, a pronunciar o seu «sim!» ao Pai que o guia.
No centro do trecho (vv. 2-3) estão as promessas de Deus. Ele não fala senão de bênção, do princípio ao fim. Este termo aparece cinco vezes, e apenas por inciso se acena à maldição. A bênção é alargada a todas as famílias da terra e – devemos sublinhá-lo – é absolutamente incondicional; não está ligada à resposta do homem, não depende da sua fidelidade. Deus promete fazer sempre o bem.
No contexto do livro do Génesis, este dado é particularmente significativo, porque é colocado após o pecado do homem, depois de, com um antropomorfismo audaz, se dizer que «a maldade dos homens era grande na terra, todos os seus pensamentos e desejos tendiam sempre para o mal; e o Senhor arrependeu-se de ter criado o homem sobre a terra, e o seu coração sofreu amargamente» (Gn 6, 5-6), depois que em Babel os homens tinham tentado até subir ao céu.
Eis a resposta de Deus ao pecado: não a resignação, mas o chamamento de Abraão, a escolha de um «eleito» (Ne 9, 7), de um servo fiel pelo qual dar início a uma nova história de amor e fazer chegar a sua bênção a toda a Humanidade.
Durante toda a cena, Abraão ficou em silêncio, não pronunciou uma única palavra, não pediu explicações, não fez nenhum comentário. Ouviu em silêncio.
O relato conclui-se com a lacónica anotação: «Abraão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado» (v. 4). Poucas palavras, mas suficientes para exprimir a adesão completa do patriarca ao projecto de Deus e para demonstrar a sua total confiança nele.
É a atitude de escuta, de docilidade, de conversão, de disponibilidade para fazer «abaladas» corajosas que o Senhor espera, principalmente durante a Quaresma, de todos os crentes.
Segunda leitura
Timóteo é ainda muito jovem quando decide dedicar a sua vida à causa do Evangelho. É bom e estimado por todos, mas é um pouco tímido.
Quando lhe é enviada esta carta, é já, há alguns anos, bispo de Éfeso, uma das maiores cidades do Império Romano: há dificuldades sérias, começam as primeiras perseguições, muitos cristãos vacilam na fé, começam a desertar dos encontros comunitários e voltam-se de novo para os seus próprios interesses e para os bens deste mundo.
No trecho da leitura de hoje, o autor quer encorajar estes discípulos postos duramente à prova. Lembra-lhe que a fidelidade a Cristo comporta muitos riscos e muitos sofrimentos. Deus não conduz habitualmente os homens por caminhos cómodos.
Não foi fácil a vida de Abraão nem a de Cristo, de Paulo e de Timóteo. Também não o será nunca a dos cristãos.
Na segunda parte da leitura (vv. 9-10), é posto em relevo o facto de que a vocação cristã é completamente gratuita: as pessoas nada podem fazer para a merecer, é puro dom. Esta verdade deve despertar sentimentos de gratidão para com Deus e uma adesão solícita ao seu chamamento.
Evangelho
Este trecho é interpretado por vezes como uma breve antecipação da experiência do Paraíso, concedida por Jesus a um grupo restrito de amigos, preparando-os assim para suportarem a dura prova da sua paixão e morte.
É preciso que sejamos sempre muito prudentes quando nos debruçamos sobre um texto evangélico, porque aquilo que à primeira vista pode parecer a crónica de um facto, após um exame mais atento revela-se muitas vezes um texto de teologia, redigido segundo os cânones da linguagem bíblica. O relato da transfiguração de Jesus, referido de modo quase idêntico por Marcos, Mateus e Lucas, é disso mesmo um exemplo.
Na leitura de hoje é proposta a versão de Mateus. Esta começa com uma anotação aparentemente irrelevante, que não consta da leitura aqui feita: «Seis dias depois.» Depois de quê? Não é dito, mas a referência mais provável parece ser a do debate acerca da identidade de Jesus que acontecera na região de Cesareia de Filipe (Mt 16, 13-20). E por que motivo Jesus leva consigo apenas três discípulos, e sobe a um monte?
Comecemos por este último pormenor. É curioso o facto de Jesus, sobretudo no Evangelho de Mateus, sempre que faz ou diz algo de importante, subir a um monte: a última tentação acontece no cimo de um monte (Mt 4, 8); as bem-aventuranças são pronunciadas no cimo de um monte (Mt 5, 1); é num monte que são multiplicados os pães (Mt 15, 29), e, no final do Evangelho, quando os discípulos encontram o Ressuscitado e são enviados a todo o mundo, encontram-se «no monte que Jesus lhes tinha indicado» (Mt 28, 16).
É suficiente percorrer o Antigo Testamento para descobrir a razão de tanta insistência. O monte, na Bíblia – como, de resto, para todos os povos da Antiguidade – era o local do encontro com Deus: foi no Sinai que Moisés teve a manifestação de Deus e recebeu aquela revelação que depois transmitiu ao povo; foi no cimo do Horeb que também Elias encontrou o Senhor.
Mas há mais: se lermos Êxodo 24 vemos que também de Moisés se diz que subiu ao monte; que passaram seis dias (Ex 24, 16), que não foi só, mas levou consigo Aarão, Nadab e Abiú (Ex 24, 1.9) e foi envolvido por uma nuvem. No monte também o seu rosto se transfigurou pelo esplendor da glória divina (Ex 34, 30).
À luz destes textos é claro o objectivo do evangelista: quer apresentar Jesus como o novo Moisés, como aquele que entrega ao novo povo, representado pelos três discípulos, a nova lei; Jesus é a revelação definitiva de Deus.
O rosto resplandecente e as vestes brancas como a luz (v. 2). Também estes são motivos que aparecem com frequência na Bíblia. O Senhor está «revestido de esplendor e majestade, envolto num manto de luz» (Sl 104, 1-2). São imagens para afirmar a presença de Deus na pessoa de Jesus.
Idêntico é o significado da nuvem luminosa que os cobre a todos com a sua sombra (v. 5). No livro do Êxodo fala-se de uma nuvem luminosa que protegia o povo de Israel no deserto (Ex 13, 21), sinal da presença de Deus que acompanhava o seu povo em caminho. Quando Moisés recebeu a Lei, o monte foi envolvido por uma nuvem (Ex 24, 15-16) e também ele desceu com o rosto resplandecente (Ex 34, 29-35). Nuvem e rosto resplandecente são, portanto, o reflexo da presença de Deus.
Servindo-se destas imagens, Mateus afirma que Pedro, Tiago e João, num momento particularmente significativo da sua vida, foram introduzidos no mundo de Deus e tiveram uma iluminação que lhes deu a entender a verdadeira identidade do Mestre e o fim do seu caminho: não iria ser o messias glorioso que esperavam, mas um messias que, depois de um duro conflito com o poder religioso, iria ser hostilizado, perseguido e morto. Deram-se conta também de que o seu destino não iria ser diferente daquele do Mestre.
A voz do céu (v. 5) é uma expressão literária utilizada frequentemente pelos rabis quando, para concluírem uma longa discussão sobre um determinado tema, queriam apresentar o pensamento de Deus.
O assunto tratado no capítulo anterior (Mt 16) dizia respeito à identidade de Jesus. O próprio Mestre tinha aberto o debate com a pergunta: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?» (Mt 16, 13). Depois de terem exposto as várias opiniões, os Apóstolos, pela boca de Pedro, tinham manifestado a sua convicção: Ele é o Messias esperado. A voz do céu declara agora o parecer de Deus: «Jesus é o muito amado», o servo fiel que o Senhor preferiu (Is 42, 1).
Já no momento do baptismo tinha sido ouvida esta «voz» que pronunciou as mesmas palavras: «Este é o meu Filho muito amado» (Mt 3, 17); agora é acrescentada a exortação: «Escutai-o!» Escutai-o mesmo quando parecer propor caminhos demasiado exigentes, indicar estradas estreitas e difíceis, escolhas paradoxais e humanamente absurdas.
Na Bíblia o verbo «escutar» não significa apenas «ouvir», mas equivale muitas vezes a «obedecer» (Ex 6, 12; Mt 18, 15-16). A recomendação que o Pai faz a Pedro, Tiago e João e, através deles, a todos os discípulos, é de «pôr em prática» aquilo que Jesus ensina. É o convite a orientar a vida pela sua proposta das bem-aventuranças.
Quem são Moisés e Elias? O primeiro é quem deu a Lei ao seu povo, o outro era considerado o primeiro dos profetas. Para os Israelitas, estas duas personagens representavam as Sagradas Escrituras.
Todos os livros santos de Israel têm como finalidade levar a um diálogo com Jesus, orientam para Ele. Sem Ele, o Antigo Testamento é incompreensível; mas também Jesus, sem o Antigo Testamento, permanece um mistério. No dia de Páscoa, para dar a entender aos discípulos o significado da sua morte e Ressurreição, Ele irá recorrer ao Antigo Testamento: «Começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito» (Lc 24, 27).
O significado da imagem das três tendas não é fácil de determinar. Trata-se, sem dúvida, de uma referência ao caminho do êxodo, e aqui indicam, talvez, o desejo de Pedro de ali ficar para perpetuar a alegria experimentada num momento de intimidade espiritual com o Mestre. Quem constrói um tenda quer estabelecer a sua morada num determinado lugar e aí ficar, pelo menos por algum tempo. Mas Jesus está sempre em caminho: dirige-se a uma meta, e os discípulos devem segui-lo.
A nossa própria experiência espiritual pode-nos ajudar a entender: após um longo diálogo com Deus, não é fácil voltar à vida de todos os dias; os problemas, os conflitos sociais e os desacordos familiares, os dramas com que nos defrontamos metem-nos medo, e, no entanto, sabemos que escutar a palavra de Deus não é tudo. Não se pode passar a vida na igreja ou nos oásis dos retiros espirituais: é necessário sair para encontrar e servir os irmãos, para ajudar quem sofre, para estarmos próximos de quem precisa de amor.
Depois de se ter descoberto na oração o caminho a seguir, é preciso caminhar com Jesus, que sobe a Jerusalém para dar a vida.
Podemos resumir assim o significado da cena: todo o Antigo Testamento (Moisés e Elias) ganha sentido com Jesus; porém, Pedro não entende o significado do que está a acontecer. Mesmo que proclame com a boca que Jesus é «o Messias» (Mt 16, 16), está profundamente convencido de que Ele é somente uma grande personagem, ao nível de Moisés e Elias, e por isso sugere que se façam três tendas iguais. Mas os três já não podem ficar juntos, Jesus destaca-se claramente dos outros, é absolutamente superior.
Deus intervém para corrigir a falsa interpretação de Pedro: Jesus não é somente um grande legislador ou um simples profeta, é o «Filho muito amado» do Pai.
Israel tinha escutado a voz do Senhor que lhe tinha sido transmitida por Moisés e pelos profetas. Agora esta voz – diz o Pai – chega aos homens através de Cristo. É a Ele e só a Ele que os discípulos devem escutar, e por isso é dito que, quando os três levantam os olhos, não vêem mais ninguém senão Jesus. Moisés e Elias desapareceram, cumpriram a sua missão: apresentaram ao mundo o Messias, o novo profeta, o novo legislador.
Realizou-se a promessa feita por Moisés ao povo, antes de morrer: «O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar» (Dt 18, 15).
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.