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1 Domingo, 1 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXI do Tempo Comum

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Banquete da Palavra · 22 de fevereiro

A Tentação de Uma Felicidade Ilusória

Domingo I da Quaresma

Na linguagem corrente, ser-se tentado significa ser-se atraído por aquilo que é proibido; por este motivo causa surpresa o facto de as grandes personagens da Bíblia, os patriarcas, Job, terem sido tentados. Experimenta-se um certo embaraço perante os relatos das tentações de Jesus, e perplexidade pelas afirmações do autor da Carta aos Hebreus que, falando de Cristo, declara: «É precisamente porque Ele mesmo sofreu e foi posto à prova, que pode socorrer os que são postos à prova» (Hb 2, 18). «Não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado» (Hb 4, 15).

A Bíblia convida a considerar a tentação numa perspectiva original: como um momento de verificação da solidez das escolhas do homem, como uma ocasião de crescimento. É inerente à tentação o risco de cometermos erros, mas este perigo é inevitável quando queremos amadurecer, quando queremos ser «especialistas», «peritos». Estes termos significam precisamente «tentados», «submetidos a uma prova, a um exame».

A escolha a fazer é entre acolher ou recusar o projecto do Pai.

Dois homens confrontaram-se: um – Adão – decide seguir os seus próprios juízos enganadores; o outro – Cristo – refere-se continuamente à palavra de Deus. O primeiro estende a mão a um futuro de morte, o segundo torna-se o autor da vida.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Cria em mim, ó Deus, um coração puro, renova em mim um espírito firme.

Primeira leitura

À primeira vista, este relato parece muito simples, tanto que poderia ser entendido até pelas crianças. Partindo deste pressuposto, foram deduzidas conclusões acerca do «pecado original» que a muita gente, hoje, parecem problemáticas, frágeis e infundadas.

Não é sério pensar que uma serpente tenha falado, que tenha existido nalguma parte do mundo o jardim do Éden, que Deus tenha passeado neste jardim e que tenha dado proibições tão ridí-culas como a de não comer um determinado fruto.

É difícil aceitar que se deva carregar com as consequências de um erro cometido pelo primeiro casal humano. Quem e porquê estabeleceu que esta culpa seja transmitida como herança? Quem pode ainda acreditar que todos os sofrimentos dependam do pecado de Adão e Eva?

Trata-se de objecções sérias que obrigam a rever uma certa interpretação do «pecado original». Perguntámo-nos se esta será fundamentada no relato bíblico ou se deriva do género literário incompreensível utilizado pelo autor sagrado.

Adão e Eva são dois indivíduos históricos e nós os seus pobres descendentes, ou somos nós Adão e Eva? Por outras palavras, o relato do «pecado original» é a crónica de um facto singular ou é a história de cada homem e de cada mulher que hoje são tentados e seduzidos por propostas de felicidades ilusórias?

Nestas dificuldades a que acenámos embate quem não tem em conta que o trecho não é uma reportagem de um facto acontecido no início da nossa história, mas um mito que pretende explicar o que somos nós hoje. Não é uma crónica, mas uma reflexão sapiencial acerca da condição actual do homem, uma tentativa de resposta aos nossos enigmas, aos nossos tormentos interiores.

Passou o tempo em que o mito era considerado um momento infantil do pensamento humano, uma etapa de passagem antes da maturidade que viria a ser alcançada com o pensamento racional, com o raciocínio abstracto, com o positivismo científico que tudo quer definir e quantificar. Hoje é aceite por toda a gente que o mito é um género literário insubstituível: serve para transmitir aquelas verdades que nenhuma análise racional é capaz de exprimir.

O raciocínio é frio, estático, enquanto que o mito pode ser constantemente actualizado, provoca intuições cada vez mais profundas, suscita formas de pensamento sempre novas.

Reduzir os capítulos 2-3 do Génesis ao relato simplista da maçã significa não levar a sério o mito, equivale a ignorar que nestes capítulos é ensinado algo de muito sério sobre a pessoa e a sua relação com Deus. Deve ser evitado o risco de querer dar a todo o custo um conteúdo histórico ao mito, afirmando que nada é impossível a Deus (até mesmo pôr as serpentes a falar...). O problema não é o de saber o que terá acontecido, mas descobrir, no mito, aquelas verdades que enchem de significado a nossa existência. Procuremos então ouvir o mito, compreender as suas imagens, deixarmo-
-nos interpelar e envolver pela história.

 

O trecho começa apresentando o homem num jardim onde Deus fez brotar todo o tipo de árvores com frutos agradáveis à vista e bons para comer. No centro do jardim, são postas duas plantas intocáveis: a da vida e a da ciência do bem e do mal. Pertencem a Deus, não ao homem. Indicam dois limites que não podem ser atravessados sem provocar desastres.

A primeira árvore é simplesmente o símbolo de Deus, dispensador da vida. A imortalidade é um fruto para o qual o homem não pode estender a mão: este gesto equivaleria à negação da condição humana.

O indivíduo «deve» atravessar este mundo marcado por inúmeras formas de morte, e é extremamente perigoso para ele remover este pensamento, iludir-se, considerar-se imortal e construir a própria vida como se esta fosse a sua cidade permanente (Hb 13, 14). O salmista reza ao Senhor: «Ensina-nos a contar assim os nossos dias, para podermos chegar ao coração da sabedoria» (Sl 90, 12).

Todavia esta condição não é a última, a definitiva: um dia o homem terá acesso à imortalidade, porque lhe será oferecida por Deus: «Ao que sair vencedor, dar-lhe-ei a comer da árvore da Vida que está no Paraíso de Deus» (Ap 2, 7). É o convite a acolher a morte e a dor do presente com os olhos postos no mundo onde «não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram» (Ap 21, 4).

A segunda árvore da qual não se podem tocar os frutos é a da ciência do bem e do mal. Se dermos uma olhadela ao Antigo Testamento, vemos que a «ciência do bem e do mal» significa «ser dono das próprias decisões e das próprias acções», indica a vontade de ser completamente autónomo na decisão do que é bem e do que é mal. É uma pretensão temerária, a de querer estabelecer sozinho – desafiando Deus ou ignorando as suas palavras de Pai – quais as escolhas morais correctas! Esta árvore pertence a Deus, e quando o homem esquece que é uma criatura e se faz, como Deus, conhecedor do bem e do mal, aniquila-se a si mesmo: segue os piores instintos, deixa-se guiar pelo orgulho, pela ira, pela inveja, pela luxúria; facilmente «ao mal chama bem, e ao bem, mal; tem as trevas por luz e a luz por trevas; tem o amargo por doce e o doce por amargo» (Is 5, 20).

Entra agora em cena a serpente, que convida a tomar posse do fruto proibido.

Durante muitos séculos, em Israel, as pessoas esqueceram esta «personagem». A Bíblia ignora-a completamente. É somente no último século antes de Cristo que o autor do livro da Sabedoria a identifica com o diabo (Sb 2, 23-24). Quem é este diabo que seduz e engana?

A resposta é dada pelo texto sagrado: a serpente é a criatura mais astuciosa entre todos os animais criados pelo Senhor, é o ponto mais alto da sua obra: então não pode ser senão o homem.

Sim, a serpente é o próprio homem, o qual, tendo atingido o máximo do seu orgulho, toma consciência das suas próprias capacidades, elabora a sua moral, pretende decidir de forma completamente autónoma. A serpente representa a vontade de se levantar contra Deus, de chegar ao ponto de se considerar Deus. É a imagem do homem convencido de poder atingir a felicidade seguindo a sua astúcia. Em resumo: é aquela parte do homem que o leva a excluir Deus. Note-se a característica da serpente: é a mais astuciosa, não a mais sábia.

Como explicar esta rebelião?

Tudo começa por uma imagem falsa de Deus que penetra na mente, como uma serpente, que, manhosa e sorrateira, se insinua entre as fissuras de uma rocha; não faz barulho, não se dá por ela, mas é portadora de morte. Induz a imaginar Deus como um rival do homem, como aquele que o impede de chegar à felicidade.

O discurso da serpente não é senão o pensamento no qual tem origem cada pecado: Deus não quer o bem do homem, é ciumento do seu próprio poder e é detestável porque não faz mais nada senão proibir; enquanto Ele existir, o homem será sempre pequeno, menor. Somente quando Deus for eliminado, o homem poderá tornar-se adulto, afirmar-se a si mesmo, crescer, progredir.

O passo sucessivo é o pecado. A desconfiança em relação a Deus leva-o a fazer escolhas contrárias às suas indicações. O pecado não nasce de uma procura do mal, mas da procura do bem e da felicidade. O problema é que, desconfiando de Deus, o homem vira-se contra o alvo errado, falha o objectivo e aniquila-se. É um erro, uma falta de sabedoria, uma astúcia insensata.

 

A leitura conclui-se com a tomada de consciência, por parte do homem e da mulher, de estarem nus.

Já no final do segundo capítulo o autor sagrado recordara o tema da nudez: «Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha» (Gn 2, 25). Depois do pecado, pelo contrário, já não aceitam serenamente esta realidade, pro-curam escondê-la, sentem a necessidade de coser folhas de figueira e cobrir-se (Gn 3, 7).

No contexto deste relato, a nudez não tem nada a ver – como talvez alguém considere ainda – com a sexualidade e com a perversão dos instintos. É simplesmente o símbolo da condição humana: «Saí nu do ventre da minha mãe» – é a expressão utilizada por Job para descrever a sua própria realidade de homem (Job 1, 21). A esta mesma imagem recorre o Qohélet: «Assim como saiu nu do ventre de sua mãe, de novo nu partirá como veio» (Ecl 5, 14). Despido de tudo, o homem é aquilo que é, com todas as suas limitações, fraquezas, fragilidades.

A incapacidade de resolver todos os problemas, os momen-
tos de abatimento e de depressão, as fraquezas físicas e psicológicas, o handicap, a ignorância, a doença... não são motivo de vergonha, não são derrotas: são a nudez do homem, são a sua condição natural.

O homem são não se envergonha desta nudez, reconhece-a, aceita-a serenamente, ama-a e gere-a de acordo com o projecto de Deus. É a serpente presente em cada um que leva a recusá-la e a considerá-la uma desgraça, que instiga o homem à pretensão de ser perfeito e sem limites, como Deus.

Segunda leitura

O longo e intricado raciocínio que Paulo faz neste trecho da Carta aos Romanos parece contradizer a explicação que acabámos de dar do relato do Génesis. Aqui o Apóstolo parece pressupor que Adão é um indivíduo bem identificado e responsável por todo o mal. Na realidade, ele mais não faz do que retomar (sem a canonizar) a interpretação dos rabis do seu tempo. Serve-se da contraposição entre Adão e Cristo para explicar a obra de salvação realizada por Jesus.

Adão quer ser senhor do bem e do mal e, como resultado, obtém a morte. Cristo, pelo contrário, reconhece a própria dependência de Deus, foi sempre fiel e obediente ao Pai e torna-se Senhor da vida. Todos aqueles que o seguem e imitam a sua obediência serão constituídos como justos.

Entre estes dois modos de se ser homem, cada pessoa é convidada a fazer a sua escolha.

Evangelho

Durante um curso bíblico em África, um catequista perguntou-
-me: «Quando Jesus foi conduzido ao pináculo do templo para ser tentado, quem ia à frente, Ele ou o diabo?» A esta pergunta poderiam seguir-se outras: onde se encontra o monte muito alto de onde se podem contemplar todos os reinos do mundo? Como conseguiu Jesus resistir tanto tempo sem comer? Que aparência assumiu o diabo? Quem contou a Mateus estes factos? Como se pode considerar Jesus um irmão que se «assemelha em tudo aos seus irmãos» (Hb 2, 17), até mesmo nas tentações, se depois Ele é submetido a provas tão diferentes das nossas?

A lista de dificuldades poderia continuar, mas estas são suficientes para nos dar a entender que não estamos perante um trecho de crónica, mas um texto de teologia.

Marcos, o primeiro evangelista, limita-se a recordar que «o Espírito impeliu Jesus para o deserto; ficou no deserto quarenta dias; era tentado por Satanás» (Mc 1, 12-13). Servindo-se da linguagem e das imagens bíblicas, ele pretendia dizer que toda a existência de Jesus, representada no número quarenta, tinha sido um confronto dramático entre Ele e o tentador.

Nos anos seguintes, a reflexão das comunidades cristãs tinha continuado. Os discípulos recordavam sobretudo a mais dramática das suas tentações, na cruz, quando tinha gritado ao Pai: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mc 15, 34). Estas palavras podiam parecer blasfemas a quem não entendia que, naquele momento, Jesus rezava: recitava o Salmo 22. Como tinha feito durante toda a sua vida, também durante a agonia ele evocava as Escrituras.

Como sintetizar numa página de catequese esta experiência de tentação, que durara uma vida e se concluíra, num crescendo, na cruz?

As comunidades cristãs, que conheciam bem o Antigo Testamento, rapidamente notaram o paralelismo entre Israel – o filho que Deus tinha chamado do Egipto e que no deserto tinha respondido com a infidelidade à ternura do Pai (Os 11, 1-4) – e Jesus, o filho predilecto que, pelo contrário, tinha sido sempre obediente. Servindo-se de um género literário usado muitas vezes pelos rabis – haggadah midrashica – expuseram as suas reflexões em três quadros que, guiado pelo Espírito, Mateus retomou e conservou no seu Evangelho.

As respostas de Jesus ao tentador referem-se a três acontecimentos do Êxodo: a murmuração do povo pela falta de alimento e o dom do maná (Ex 16), os protestos pela falta de água (Ex 17), a idolatria representada pelo vitelo de ouro (Ex 32). Assim, Jesus revive a história do seu povo: é submetido às mesmas tentações e supera-as.

Examinemos cada uma destas três «parábolas» que representam, de forma esquemática, a maneira errada de se relacionar com três realidades: com as coisas, com Deus, com as pessoas.

A primeira: «Diz a estas pedras que se transformem em pão» (vv. 1-4).

Sem pão não se vive. «Comer» é um dos verbos mais usados na Bíblia: aparece novecentas e dez vezes no Antigo Testamento, e isto demonstra quanto é importante para Deus que cada pessoa tenha com que se alimentar.

No deserto o Senhor disse a Moisés: «“O povo sairá e recolherá em cada dia a porção de um dia; ninguém o guarde até de manhã”. Porém, alguns não escutaram Moisés, e guardaram-no até de manhã; mas ganhou vermes e cheirava mal» (Ex 16, 4.19-20).

É um caso típico de tentação pedagógica: Deus pôs Israel perante o maná para o educar no uso dos bens terrenos e a confiar na sua providência. Ensinando ao povo a controlar a sua avidez, queria libertá-lo do frenesim da posse e da avidez de acumular alimentos. Não conseguiu: a sedução dos bens deste mundo é quase irrefreável, é difícil contentar-se com «o pão quotidiano» para permitir que todos tenham o necessário para viver.

Tentado a servir-se das sua capacidades para produzir «pão» para si mesmo, Jesus reagiu evocando a Escritura: «Nem só de pão vive o homem: de tudo o que sai da boca do Senhor é que o homem viverá» (Dt 8, 3).

Somente quem toma em consideração a sua vida à luz da palavra de Deus, somente quem, como Jeremias, «devora a tua palavra» e faz dela «a minha alegria e as delícias do meu coração» (Jr 15, 16) é capaz de dar o justo valor às realidades deste mundo. Não devem ser desprezadas, destruídas, recusadas, mas também não devem ser consideradas ídolos. São criaturas, caducas e transitórias, não absolutas.

Nesta primeira cena é identificado e denunciado o modo errado com que o homem se relaciona com as realidades materiais. A utilização egoísta das riquezas é diabólica: acumular para si próprio, viver do trabalho dos outros, desperdiçar em luxos e em coisas desnecessárias, enquanto a outras pessoas falta o necessário.

Para os cristãos, a Quaresma é tempo de revisão de vida e de conversão. A fé no Ressuscitado não se pode reduzir a uma solicitação à esmola, a deixar cair alguma migalha mais consistente das nossas mesas fartas. É uma provocação a rever claramente o modo de gerir os bens deste mundo. Podemo-nos perguntar, por exemplo, se é clara para nós a linha de demarcação entre o ser previdente e a avidez; se são compatíveis com a escolha evangélica um certo tipo de despesas, de viagens turísticas, certas contas bancárias, certo tipo de investimentos, certas quantias fabulosas deixadas em herança. É neste mundo que devemos viver, é «desonesta» a riqueza que temos nas mãos (Lc 16, 9), mas deve ser gerida lembrando as recomendações do Mestre: «Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou beber... Porque vos preocupais com o vestuário?... Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas... Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã» (Mt 6, 25-34).

 

A segunda tentação: «Lança-te daqui abaixo» (vv. 5-7). A proposta diabólica é até mesmo baseada na Bíblia: «Está escrito...» – diz o tentador.

A mais manhosa das astúcias do mal é a de se apresentar com um rosto cativante, de assumir um ar devoto, de se servir da própria palavra de Deus – por vezes alterada ou interpretada de modo insensato – para levar por maus caminhos.

O objectivo principal do maligno não é o de provocar alguma queda do ponto de vista moral, de pôr à prova alguma fraqueza, mas o de minar pela base a relação com Deus. Este objectivo é alcançado quando, na mente da pessoa, se insinua a dúvida de que o Senhor poderá não manter as suas promessas, poderá faltar à sua palavra, não dar a sua protecção e, nos momentos cruciais, abandonar quem confiou nele.

Desta dúvida nasce a necessidade de «exigir provas». No deserto o povo de Israel, extenuado pela sede, cedeu a esta tentação e exclamou: «Está o Senhor no meio de nós ou não?» (Ex 17, 7). Ele provocou o seu Deus dizendo: se está do nosso lado, se realmente nos acompanha com o seu amor, que se manifeste concedendo-nos um sinal, faça um milagre! Desafiou-o para ver se realmente o amava.

Cada pessoa passa por esta dúvida, deve enfrentar esta tentação. Nem mesmo o profeta Jeremias foi poupado, quando um dia teve a sensação de ter sido traído pelo Senhor; no auge da angústia, gritou: «Serás para mim um riacho enganador de água inconstante?» (Jr 15, 18).

Também Jesus foi submetido a esta prova, mas não cedeu. Ao contrário de Israel, até mesmo nos momentos mais dramáticos da sua vida Ele se recusou a pedir ao Pai uma prova do seu amor, nunca duvidou da sua fidelidade, nem mesmo na cruz quando, perante a absurdidade do que estava a acontecer, podia ser levado a pensar que também o Senhor o tivesse abandonado.

Nós cedemos a esta tentação sempre que exigimos de Deus sinais do seu amor, sempre que lhe pedimos para ser libertados, mediante graças e milagres, das dificuldades, das contrariedades, das desgraças que atingem as outras pessoas.

Em cada situação, feliz ou dolorosa, devemos, sem dúvida, rezar-lhe, não para que conceda privilégios ou para que modifique os seus planos e os adapte aos nossos, mas para que nos dê luz e força para sairmos mais maduros de cada prova.

Não devemos esperar que Deus nos trate de forma diversa da que tratou o seu amado Filho unigénito.

 

A terceira tentação: «Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares» (vv. 8-11). É a tentação do poder, do domínio sobre as outras pessoas.

A escolha é entre dominar e servir, entre competir e ser solidário, entre subjugar e considerar-se servo. Esta escolha manifesta-se em todas as atitudes e em todas as condições de vida: quem tem uma formação erudita ou atingiu uma posição de prestígio pode ajudar a crescer quem teve menos sorte, mas também se pode servir disso para humilhar quem é menos dotado. Quem detém o poder, quem é rico, pode servir os mais pobres e menos favorecidos, mas pode também assumir uma atitude de domínio para com essas pessoas.

O desejo do poder é de tal modo imparável que até mesmo quem é pobre é tentado a dominar quem é mais fraco do que ele.

A autoridade é um carisma, um dom de Deus à comunidade, para que cada pessoa possa ser colocada no seu lugar e sentir-se realizada. O poder, pelo contrário, é diabólico, mesmo se exercitado em nome de Deus.

Onde quer que se exerça o domínio sobre a pessoa, onde quer que se lute para levar a melhor sobre os outros, onde quer que alguém seja obrigado a inclinar-se ou a ajoelhar-se perante um seu semelhante, ali opera a lógica do maligno.

A Jesus não faltavam as capacidades para emergir, para subir todos os degraus do poder religioso e político: era inteligente, lúcido, corajoso, encantava as multidões. Certamente seria bem sucedido... mas com uma condição, que «adorasse satanás», ou seja, que se adequasse aos princípios deste mundo: que entrasse em competição, recorresse ao uso da força e do domínio, se aliasse aos poderosos e utilizasse os seus métodos. Fez a escolha oposta: tornou-se servo.

O povo de Israel, no deserto, cansou-se do seu Deus e adorou um vitelo de ouro: o ídolo material, obra das mãos do homem. Jesus nunca se inclinou perante nenhum ídolo: não se deixou seduzir pelo poder político, pelo dinheiro, pelo uso das armas, pela amizade com os grandes deste mundo, pelas propostas de sucesso e de glória. Escutou apenas e sempre a palavra do Pai.

A voz que excita em nós a sede de poder, que convida a promover o culto da personalidade, é insistente e manhosa.

Esta última parte do trecho evangélico é um convite a revermos a nossa vida e a darmo-nos conta de que os privilégios, os títulos honoríficos não são oferecidos por Deus, mas pelo tentador. Aos seus filhos, o Pai de Jesus oferece apenas... serviços a prestar humildemente aos irmãos.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.