Banquete da Palavra · 15 de fevereiro
Observam os Mandamentos, mas Não Entram no Reino dos Céus
Domingo VI do Tempo Comum
Os Hebreus chamam Lei aos primeiros cinco livros da Bíblia. É um modo surpreendente de denominar uma colecção que contém, sem dúvida, normas, preceitos e mandamentos, mas que não constitui um código de direito como se poderia entender nos dias de hoje. É um relato apaixonante, uma história de amor de Israel com o seu Deus: começa pela criação do mundo e continua com o chamamento de Abraão, os acontecimentos dos patriarcas, a escravidão no Egipto e o êxodo. Uma Lei verdadeiramente original.
De facto, o termo Lei não traduz exactamente o termo hebraico Tora, que deriva da raiz iaràh e indica o acto de lançar uma seta, de mostrar a direcção. Também nós, nas estradas, nos orientamos seguindo as «setas» dos sinais.
A Tora assinala o caminho que conduz à vida, não ditando uma normativa fria, rígida, impessoal, mas contando o que aconteceu a um povo, Israel, a esposa por vezes fiel, a maior parte das vezes infiel ao seu Senhor. Nas alegrias e desventuras, nos sucessos e fracassos, nas festas e nos lutos deste povo, cada pessoa vê reflectida a sua própria história: os perigos a evitar e as escolhas sábias a fazer.
Mas a Tora, revelada a Moisés no Sinai, não era a palavra definitiva de Deus. No monte das bem-aventuranças, Jesus reconheceu que era válida, mas, considerando-a apenas uma etapa, indicou uma nova meta, um horizonte mais amplo e sem limites: a perfeição do Pai que está nos Céus.
Quem não pratica a nova justiça, imensamente superior à dos escribas e fariseus, fica pelo caminho e não entra no Reino de Deus.
Indica-me, Senhor, o caminho da vida, e eu o seguirei até ao fim.
Primeira leitura
«Se vires alguém sensato, madruga e vai ter com ele, e desgastem os teus pés o limiar da sua porta» (Eclo 6, 36). Esta frase poderia ter sido escrita à entrada da escola que, em finais do século III e início do século II a.C., Ben Sira (o Sirácide) tinha aberto em Jerusalém. Aos jovens discípulos que seguiam as suas lições e que, ao mesmo tempo, se sentiam atraídos pelas propostas sedutoras do mundo helenístico e estavam fascinados pelas adulações da vida pagã, ele indicava o caminho da vida, ensinava a Tora, a sabedoria de Deus.
Era também um poeta, este Ben Sira. A Tora era para ele como «cedro do Líbano, como cipreste nos montes do Hermon, como a palmeira de En-Guédi, como as roseiras de Jericó»; saboreava o seu perfume «de cinamomo e de bálsamo odorífero, um perfume suave como mirra escolhida»; via a sabedoria sair dos seus rótulos e transbordar «como o Jordão no tempo da colheita» (Eclo 24, 13-24).
Encantado com a beleza da Lei de Deus, transmitia a sua paixão aos alunos. A eles ensinava: «Diante de cada homem estão a vida e a morte, o fogo e a água»; cada um deve escolher, é livre e responsável pelas suas próprias acções, pode construir ou arruinar a sua existência. Se tomar decisões insensatas a culpa não é de Deus, que fez bem cada coisa, mas apenas sua.
Não existe nenhuma constrição interior a pecar. O homem pode dominar os seus próprios desejos e as suas próprias paixões (Eclo 20, 30). Se faz o mal, se sai dos caminhos traçados pela Tora, então atrai sobre si mesmo desventuras e desgraças (Eclo 40, 10); se, pelo contrário, segue os caminhos indicados pelo Senhor, então terá vida e será abençoado.
Assim se exprimia Ben Sira, o velho sapiente, desejoso de orientar os seus filhos e os seus discípulos pelo caminho traçado pela Lei de Deus.
Segunda leitura
Havia em Corinto quem se envaidecesse, quem, para se exibir, mostrasse sabedoria e pregasse o Evangelho recorrendo a raciocínios subtis, como faziam os filósofos.
Paulo faz um juízo severo destas pessoas: quem se comporta deste modo – afirma – ainda não se deu conta que, do ponto de vista humano, a proposta da fé é uma loucura: é o convite a ser-se discípulo de um homem justiçado. Só quem for «louco» pode arriscar a vida aceitando a sua proposta, e só quem for ainda mais «louco» pode decidir tornar-se mensageiro e paladino dessa mesma proposta. Não há nada de irracional na fé cristã – que não haja equívocos! – nada que repugne à razão, mas não há dúvida que a proposta de dar a vida choca com o bom senso humano.
Porém, existe – continua Paulo – uma «sabedoria» cristã, que naturalmente não é «deste mundo», mas do mundo de Deus, uma sabedoria que apenas pode ser entendida pelos «perfeitos», ou seja, pelos «cristãos adultos» (v. 6).
O Apóstolo, que acaba de afirmar que se apresentou aos coríntios «cheio de fraqueza, de receio e de grande temor», sem a sabedoria que abunda nos discursos persuasivos dos filósofos (1Cor 2, 3-4), agora coloca-se também ele entre estes sapientes que receberam, por meio do Espírito, uma revelação especial dos mistérios de Deus (v. 10).
De que se trata?
Daquela que é chamada «sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu» (v. 7-8), aquela que noutras cartas é chamada simplesmente «mistério», «mistério que foi mantido em silêncio por tempos eternos» (Rm 16, 25-26), «mistério escondido ao longo das gerações» (Cl 1, 26). É o desígnio divino da salvação universal. Este projecto era conhecido somente por Deus desde a eternidade, e ninguém podia imaginar a coisa maravilhosa que Ele preparava.
Agora que se realiza, o «mistério» pode ser contemplado no seu desvelar-se progressivo, e Pedro afirma que, no Céu, os próprios anjos têm o olhar fixo no mundo, ansiosos por descobrirem e alegrarem-se com aquilo que Deus está a fazer (1Pd 1, 12). O autor da carta aos efésios volta a propor, por outras palavras, a mesma ideia comovente. Os anjos – diz ele – descobrem o mistério de Deus observando o que acontece na Igreja: «Para que agora, por meio da Igreja, seja dada a conhecer, aos principados e às autoridades nos altos Céus, a multiforme sabedoria de Deus» (Ef 3, 10).
O que Deus está a fazer ultrapassa os desejos e as esperanças das pessoas. Adaptando um versículo do livro de Isaías (Is 64, 3), Paulo descreve assim a surpresa que aguarda quem tem a sorte de poder vislumbrar este mistério: «Nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam» (v. 9).
Evangelho
«Ditosos somos nós, ó Israel, porque conhecemos o que agrada a Deus!» (Br 4, 4). Deste modo, o profeta Baruc exprimia o orgulho do seu povo e o seu reconhecimento para com o Senhor que tinha indicado a Israel «o caminho da sabedoria» (Br 3, 27) na Tora, no «livro dos mandamentos de Deus» (Br 4, 1).
Sendo obra de Deus, a Tora não pode ser desmentida nem contrariada. «A Escritura não se pode pôr em dúvida» – declarou Jesus (Jo 10, 35) – porque Deus não pode mudar de opinião, ou renegar aquilo que disse no passado, ou corrigi-lo. O caminho que Ele traçou no Antigo Testamento tem uma validade perene.
Na primeira frase do Evangelho de hoje, Jesus confirma esta verdade: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar» (v. 17).
Se sente a necessidade de esclarecer a sua posição, isso significa que alguém terá tido a impressão que Ele, com o seu comportamento e com as suas palavras, estivesse a revogar as convicções, as expectativas e as esperanças de Israel, baseadas nos textos sagrados.
Jesus era respeitador das leis e das instituições do seu povo, mas interpretava-as de uma forma original; o seu ponto de referência não era a letra do preceito, mas o bem da pessoa. Por amor da pessoa não hesitava em violar até mesmo o sábado, e esta sua liberdade suscitava espanto, perplexidade e, até mesmo, irritação nas autoridades religiosas. Todavia, mais do que a sua falta de observância das prescrições dos rabis, aquilo que perturbava era a sua mensagem, a nova Tora que tinha proclamado no monte, uma Tora que abalava os princípios e os valores sobre os quais se fundava a instituição religiosa e civil de Israel.
Moisés tinha prometido: «Todos os povos da terra terão medo de ti; o Senhor te dará em abundância o fruto da tua terra; te colocará no primeiro lugar e não no último, estarás sempre no alto e jamais em baixo» (Dt 28, 10-13). Como podia Jesus declarar que estava em sintonia com o Antigo Testamento se proclamava bem-aventurados os pobres, os perseguidos, os oprimidos e se anunciava, para os seus seguidores, dificuldades, sofrimentos e perseguições? A sua mensagem estava em clara contradição com as Escrituras.
Lendo os Profetas, Israel tinha-se convencido que o messias viria instaurar um reino eterno, glorioso; viria «coroar os aflitos de Sião, para mudar a sua cinza em coroa», enquanto que para os inimigos proclamaria «um dia de vingança da parte do nosso Deus» (Is 61, 2-3). Nos momentos mais dramáticos da sua história, Israel encontrava nestas promessas o motivo para continuar a acreditar e a esperar num futuro melhor. Então, por que é que Jesus gora estas expectativas?
É desta forma que Ele esclarece a sua posição e as suas esco-lhas: todas as promessas feitas por Deus hão-de realizar-se, não cairá nenhuma. Antes que o mundo acabe, quanto está escrito realizar-se-á, mas de forma inesperada; e a surpresa será tão grande que até mesmo as pessoas devotas, piedosas, sinceras, como o Baptista, correrão o risco de ver vacilar a sua fé e de se escandalizarem (Mt 11, 6).
Nesta luz devem ser entendidas as frases de Jesus que concluem a primeira parte do Evangelho de hoje, e que dizem respeito à observância dos preceitos e à justiça superior à dos escribas e fariseus (vv. 19-20). Os preceitos a que se refere Jesus não são os da antiga lei, mas as bem-aventuranças. São estas bem-aventuranças a nova proposta, a nova justiça que realiza, que conduz à perfeição a antiga, aquela que os escribas e os fariseus – temos que o reconhecer – praticavam de modo exemplar.
Assim como na prática da antiga lei havia quem se contentava com a fidelidade aos preceitos mais importantes e descurava os outros, assim também na adesão à proposta das bem-aventuranças há quem se contenta, com o mínimo (admirá-las, aprová-las, apoiar quem tem a coragem de as praticar) e há quem seja coerente até ao fim e faça opções corajosas e decididas. Aos olhos de Deus – declara Jesus com um certo humorismo – os primeiros serão vistos como «mínimos», os outros serão julgados grandes, serão considerados «rabis» no Reino dos Céus, isto é, serão pessoas a indicar como modelos para os outros discípulos.
Na segunda parte do Evangelho (vv. 20-37), são apresentados quatro exemplos do salto em frente que é pedido a todos aqueles que querem entrar no Reino dos Céus. Trata-se de quatro disposições que se encontram no Antigo Testamento e que não são desmentidas, mas explicadas de forma original. Jesus põem em evidência todas as implicações: parte da Tora de Moisés – que era o ponto de chegada, o vértice da «justiça» dos escribas e dos fariseus – e vai mais além, propõe a meta final desta Lei.
Ele dá seis exemplos, mas o Evangelho de hoje trata apenas quatro, os outros dois serão propostos no próximo domingo. Todos eles são introduzidos com a mesma fórmula fixa: «Ouviste o que foi dito aos antigos... Eu, porém, digo-vos...»
Não matarás! (vv. 21-26)
É o primeiro caso que é tomado em consideração. É uma disposição clara, que não admite excepções e que condena qualquer forma de homicídio (Gn 9, 5-6). O homem não tem poder sobre a vida do seu semelhante, mesmo que este seja um criminoso (Gn 4, 15). A vida humana é sagrada e intocável desde que desabrocha até que, naturalmente, se conclui. Isto era já claro na Tora antiga, mas, para entrar no Reino dos Céus, é necessário entender que o não matarás comporta muito mais. Há outras formas – manhosas, sofisticadas, ocultas, disfarçadas – de matar.
Se existissem raios X capazes de mostrar o cemitério escondido no nosso coração, apanharíamos um susto. Entre os mortos encontraríamos aqueles a quem jurámos nunca mais dirigir a palavra, aqueles a quem negámos o perdão, aqueles a quem continuamos a atirar à cara o erro cometido, aqueles a quem privámos do amor e da alegria de viver...
Jesus ensina que o mandamento que ordena não matar tem muitas implicações que vão muito além da agressão física. Quem usa palavras ofensivas, quem se deixa tomar pela ira, quem alimenta sentimentos de ódio já matou o seu irmão (v. 22).
O homicídio parte sempre do coração. Não se pode odiar uma pessoa e estar em paz consigo mesmo. Não se consegue matar, se antes não se tem a convicção de que o outro não é homem, não merece viver e, portanto, é bom que seja eliminado. Esta obra de erradicação é conduzida através das palavras, repetindo a si mesmo, como num refrão impiedoso: «é um estúpido», «é um louco», «é um sem Deus». Assim se chega a pronunciar, sem remorso, a sentença: merece «a fogueira».
É este coração cruel e injusto – ensina Jesus – que deve ser desarmado. À obra de demonização da pessoa, Ele contrapõe o seu juízo: é um irmão. Repete três vezes esta palavra (vv. 22-24), como um antídoto para sarar o coração do veneno do ódio, mantido e incrementado pelas palavras más. Depois vai à raiz dos conflitos: introduz o tema da reconciliação.
Antes de mais, lembra o dever e a importância da reconciliação (vv. 23-24).
Toma como ponto de partida uma prática religiosa de Israel. Antes de entrar no templo para oferecer sacrifícios, era necessário submeter-se a meticulosas purificações. Jesus declara que não é o corpo que precisa de ser puro, mas o coração: a reconciliação com o irmão substitui todos os ritos de purificação.
Os rabis ensinavam que a mais importante das orações hebraicas – o Shemà Israel – depois de ter sido iniciada não podia ser interrompida, por nenhum motivo, nem mesmo se uma serpente se enrolasse à volta da perna de quem rezava. Jesus afirma que, para reconciliar-se com o irmão, se deve até mesmo deixar a meio não só o Shemà Israel, mas a oferta do sacrifício no templo.
É difícil encontrar na cultura hebraica uma imagem mais eficaz para sublinhar a importância da reconciliação. Quem a recusa, que não a procura a todo o custo, exclui-se a si mesmo do «reino dos Céus».
Os primeiros cristãos tinham assimilado bem esta lição. O autor da Carta aos Efésios recomendava: «Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento» (Ef 4, 26) e alguns anos mais tarde, na jovem comunidade de Antioquia da Síria, tinha sido emanada esta disposição: «No dia do Senhor, quem se encontra em situação de discórdia com o seu próximo não se una a vós antes de se ter reconciliado, para que o vosso sacrifício não seja contaminado» (Didakè 14, 1-2). Dois séculos depois, um bispo dessa mesma região exortava os seus irmãos no episcopado com estas palavras: «Pronunciai as vossas sentenças à segunda-feira, de modo que, tendo tempo até ao sábado, possais resolver a contenda (entre os membros das vossas comunidades) e reconciliar para o domingo quantos estão em situação de discórdia entre si» (Didascalia 2, 59, 2).
Depois de ter evocado o dever da reconciliação, Jesus sublinha a sua urgência (vv. 25-26). Não pode ser adiada.
Um cristão nunca deveria precisar de recorrer aos tribunais para obter justiça, deveria sempre conseguir pôr-se de acordo com o seu irmão. De qualquer forma, se preferir levantar processos em vez de suportar a injustiça, considere que, no caso de se apresentar diante de Deus em desacordo com o seu irmão, não será reconhecido como filho. As imagens severas da prisão, dos guardas, da obrigação de pagar até ao último centavo não devem ser materializadas. São típicas da cultura semita e da linguagem rabínica; são postas ali apenas para recordar, de modo enérgico, a necessidade inadiável da reconciliação. Para a obter o discípulo deve estar pronto a qualquer renúncia.
Depois de ter falado do mandamento de não matar, Jesus passa ao problema do adultério (vv. 27-30).
O texto da Tora parecia proibir apenas as acções más. Jesus, como de costume, vai até ao coração deste mandamento e evidencia as suas exigências mais profundas. Há amizades, sentimentos, relações que são já adúlteras.
Estamos num campo onde, com muita facilidade, se é levado pelos instintos e pelas paixões que podem provocar dificuldades sérias a si mesmo, à própria família e à família das outras pessoas. Jesus insiste: perante certas situações, é necessário ter a coragem de proceder a cortes, mesmo se dolorosos, antes que os maus desejos se transformem em adultérios de facto.
São dois os membros do corpo que se deve estar disposto a amputar: o olho direito e a mão direita. Neste contexto são o símbolo daquilo que desperta a libido (os olhares) e os contactos perigosos (a mão). É necessário estar pronto a renunciar a tudo aquilo que a opinião comum considera até mesmo experiências enriquecedoras, conquistas gratificantes, ocasiões a não perder (a parte direita era considerada a mais nobre, a preferida; Sl 137, 5), para não deixar arruinar a vida. Não se trata de mutilações materiais, mas do difícil autodomínio de que fala também Paulo: «Castigo o meu corpo e mantenho-o submisso, para que não aconteça que, tendo pregado aos outros, venha eu próprio a ser eliminado» (1Cor 9, 27).
Geena é o vale que delimita, a sudoeste, a cidade de Jerusalém; era a lixeira da cidade, o lugar maldito onde tinham sido sacrificadas e queimadas ao deus Moloc as crianças; considerava-se que ali estivesse a porta que levava ao mundo dos demónios.
Quem não consegue impor a si mesmo as renúncias necessárias em matéria de sexualidade, corre o risco de lançar todo o corpo (a própria pessoa) na Geena (no lixo). Este não é um castigo de Deus, mas a consequência do pecado.
O terceiro caso diz respeito ao divórcio (vv. 31-32).
Deus quis o matrimónio monogâmico e indissolúvel. A Bíblia afirma-o com clareza desde as primeiras páginas: «Os dois serão uma só carne» (Gn 2, 24). Mas devido à dureza do coração do homem foi introduzido, também em Israel, o divórcio.
Indo contra os hábitos, as tradições e as interpretações dos rabis, Jesus leva o matrimónio à pureza das origens e exclui a possibilidade de separar o que Deus determinou que permaneça unido. A cláusula «salvo em caso de união ilegítima», que parece deixar em aberto uma possibilidade de divórcio, de facto diz respeito às uniões irregulares, ilegítimas.
Nem a infidelidade, nem as incompreensões, nem qualquer outra dificuldade do casal podem legitimar um novo matrimónio. Qualquer união deste tipo é definida por Jesus como adultério, não é uma mancha que possa ser lavada com uma boa confissão, mas uma escolha de morte.
O discípulo deve estar atento, porque a mentalidade corrente, o permissivismo, a banalização da sexualidade, a dissolução dos costumes, tudo isto pode fazer esquecer as palavras do Mestre, fazer com que vacilem as convicções mais sólidas e levar a pensar que é normal, humanizante, apreciável aquilo que, pelo contrário, é somente um paliativo, um expediente ditado pela «sabedoria deste mundo».
Não é leal, não presta um bom serviço àquele que está em dificuldade quem oculta as exigências da moral cristã, quem se mostra complacente e propõe convivências que acabam por ser inevitavelmente acompanhadas por dolorosos conflitos interiores. Deve-se ter sempre presente que fazem parte da moral evangélica a renúncia, o sacrifício, a cruz, bem como o heroísmo da virgindade constrangida de quem é casado: «Há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu» (Mt 19, 12).
Mas as palavras inequívocas de Jesus não conferem a nenhum discípulo a licença de julgar, de condenar, de humilhar, de marginalizar quem falhou na sua vida conjugal. São, normalmente, pessoas que passaram por grandes sofrimentos e que viveram situações dramáticas. Para elas revela-se por vezes impossível realizar o projecto cristão do matrimónio. A comunidade é chamada a manifestar para com elas a ternura e a compreensão do Mestre, que não apagou a mecha que ainda fumega nem quebrou a cana rachada (Is 42, 3).
O quarto caso é o do juramento (vv. 33-37).
Durante o exílio na Babilónia, os Israelitas tinham assimilado, entre outros maus hábitos, o de jurar a despropósito. Chegavam ao ponto de já não fazerem uma afirmação sem a acompanhar com alguma imprecação. Para evitarem pronunciar o nome de Deus, recorriam a fórmulas menos comprometedoras: juravam pelo céu, pelo templo, pela terra, pelos pais, pela própria cabeça. Um sábio do século II a.C. recomendava: «Não acostumes a tua boca ao juramento, não te habitues a proferir o Nome santo» (Eclo 23, 9).
Jesus toma uma posição contra este hábito leviano, e fá-lo com a sua habitual radicalidade: «Não jureis em caso nenhum... A vossa linguagem deve ser: “Sim, sim; não, não.” O que passa disto vem do Maligno» (vv. 33-37).
Não era tanto a profanação do nome do Senhor que o preocupava. Há outros elementos que tornam inaceitável um juramento. Antes de mais, o juramento pressupõe uma concepção pagã de Deus que é imaginado como um vingador, pronto a lançar os seus raios contra os mentirosos e perjuros; depois é também o sintoma de uma sociedade onde reina a dúvida, a desconfiança, a deslealdade, a suspeita recíproca.
Na comunidade dos discípulos de Jesus o juramento é inconcebível, já que esta é constituída por pessoas que são «puras de coração» (Mt 5, 8), guiadas pelo Espírito de verdade (Jo 14, 17; 16, 13), que baniram da sua vida a mentira – como recomenda Paulo: «Despi-vos da mentira e diga cada um a verdade ao seu próximo, pois somos membros uns dos outros» (Ef 4, 25; 1Pd 2, 1).
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.