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2 Segunda-feira, 2 de novembro Novembro de 2026 Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

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Banquete da Palavra · 8 de fevereiro

Tornar-se Sal e Luz, Mas Como?

Domingo V do Tempo Comum

«Hoje em dia já não há fé. Dantes havia muita!»

Como se pode medir a fé? Referindo-nos às estatísticas, contando o número de pessoas que participam na Missa dominical, que se aproximam dos sacramentos, que casam na igreja, que mandam os filhos à catequese? Tendo em conta talvez a imponência das multidões que participam nos encontros eclesiais? Como se pode saber quando aumenta e quando diminui? É nas celebrações solenes, cuidadas até ao mais pequeno pormenor e executadas de forma impecável, que os cristãos aparecem como sal da terra e luz do mundo?

Uma esplêndida parábola de Jesus (Mt 25, 31-46) revela como o modo de avaliar de Deus é diferente do nosso. Mais do que à prática religiosa, à fidelidade às tradições, à escrupulosa observância dos ritos, Ele mostra-se interessado na adesão concreta ao seu projecto de amor para o homem. Brilham no mundo, como raios encantadores da luz de Deus, aqueles que partilham o pão com quem tem fome e a água com quem tem sede, que vestem os nus e acolhem quem não tem casa, que assistem o doente e defendem quem sofre injustiça.

O critério é claríssimo, e, no entanto, muita gente continua a reduzir a sua relação com Deus ao cumprimento escrupuloso de práticas religiosas. Este poderá vir a revelar-se, um dia, uma trágica ilusão. Só a vida dos justos, de quem acredita nas bem-aventuranças propostas por Jesus, é «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Pr 4, 18).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
É luz quem parte o pão com o faminto, leva para casa os sem-abrigo, veste quem está nu, liberta quem está oprimido.

Primeira leitura

A prática do jejum é conhecida por todos os povos. Desde os tempos mais antigos que se jejuava quando havia situações de perigo ou se era atingido por desgraças, quando o granizo ou os gafanhotos destruíam as colheitas, quando as chuvas tardavam. Este sacrifício voluntário tinha como finalidade comover Deus, aplacá-
-lo, convencê-lo a pôr fim aos seus castigos. Durante os dias de jejum, vestiam-se roupas em mau estado, cobria-se a cabeça com pó e cinza, renunciava-se às relações sexuais, não se tomava banho, andava-se descalço, dormia-se no chão.

A leitura de hoje deve ser vista no contexto de um destes momentos de jejum.

Estamos no século V a.C., o tempo do pós-exílio. O povo voltou da Babilónia, mas as promessas feitas pelos profetas não se realizam. Em vez da ansiada comunidade pacífica instaura-se uma sociedade dominada por arrivistas e exploradores. Por todo o lado, há violência, inveja, discórdia. Para convencer Deus a intervir e a dar remédio à situação é proclamado um jejum nacional, rigoroso, severo.

Nada muda, tudo continua como antes, e em muitas pessoas insinua-se a suspeita que a prática do jejum seja ineficaz. Perguntam-se: para quê jejuar se o Senhor não escuta, e é como se não nos tivéssemos submetido a mortificações e renúncias? (Is 58, 3).

A leitura de hoje dá uma resposta a esta interrogação.

A culpa de nada ter mudado – explica o profeta – não é do Senhor, mas do modo errado de praticar o jejum, reduzido a uma autopunição, a uma dolorosa penitência. Este jejum não obtém nenhum resultado, porque apenas submete o corpo a privações, não muda o coração.

O verdadeiro jejum, aquele que produz efeitos prodigiosos, consiste em partilhar o próprio pão com quem tem fome, em aco-lher em casa os pobres sem um tecto, em dar roupa a quem está nu, em não desviar os olhos de quem, homem como nós – da nossa mesma carne, mesmo que seja diferente a cor da sua pele, e sejam diferentes a cultura e a religião – vive ao nosso lado em condições desumanas (v. 7).

Este comportamento novo obtém milagres: em pouco tempo cura as feridas da sociedade, resolve as situações de privação, cria relacionamentos fraternos e faz nascer uma comunidade onde resplandecem a justiça e a glória de Deus (v. 8).

Na segunda parte da leitura (vv. 9-10), é indicada outra característica do verdadeiro jejum: o empenho em acabar com todo o tipo de opressão e de arrogância. Não basta dar esmolas, é necessário acabar com todas as atitudes de ambiciosa superioridade que causam humilhações, injustiças, discriminações.

Depois deste esclarecimento, o profeta retoma, com insistência quase excessiva, o tema da partilha do pão. Quer que o povo assimile o interesse, o cuidado, a solicitude de Deus em relação a quem tem fome.

A conclusão da leitura introduz o tema da luz que será tratado no Evangelho: se praticares esta nova justiça «a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia».

Os Israelitas consideravam-se luz do mundo pela sua devoção a Deus, pela prática religiosa impecável: liturgias solenes, cânticos e orações, sacrifícios e holocaustos. Não era este o culto agradável ao Senhor; não eram estas as obras que fariam de Israel a luz do mundo, mas a prática da justiça e do amor ao homem.

Segunda leitura

Os cristãos de Corinto – assim dizíamos no domingo passado – não pertenciam às classes sociais elevadas, eram todos de humildes origens, gente que não tinha peso na sociedade (1Cor 1, 26). Este facto é interpretado por Paulo como um sinal da preferência de Deus pelas pessoas desprezadas e sem méritos.

A sua escolha, porém, não deve ser entendida como uma subversão classista (seria uma nova discriminação), mas como uma consequência lógica do amor de Deus: Ele não ama quem pode apresentar méritos, mas quem precisa do seu amor.

No trecho de hoje, o Apóstolo retoma e desenvolve este tema, pondo frente a frente a sabedoria humana e a potência de Deus, e dá o exemplo concreto da sua pessoa.

Começa com uma referência à sua pregação (vv. 1-2). Não foi a Corinto para ensinar uma nova doutrina. Se o tivesse feito, teria de possuir «a linguagem convincente da sabedoria humana». Na Grécia era apreciada a sabedoria, a capacidade – como dizia Platão – de «indagar o verdadeiro enquanto verdadeiro; solicitude da alma suportada pela recta razão». Qualquer discurso feito sem o suporte da demonstração racional e dos recursos prestigiosos do pensamento dos filósofos era ridicularizado e considerado fruto de ignorância, de crendice, de religiosidade ingénua.

Neste contexto cultural, Paulo anunciou uma mensagem humanamente absurda: pediu que se acreditasse na proposta de vida feita por um homem justiçado.

Não foi apenas o conteúdo da sua pregação que foi escandaloso. Era a sua própria pessoa – fraco, temeroso, incapaz de falar – que era a menos indicada para desempenhar com sucesso uma missão tão grande (vv. 3-5). A este propósito, circulava entre os coríntios uma piada, que provocara até uma reacção de ressentimento por parte do Apóstolo: «As suas cartas – dizia-se – são duras e enérgicas, mas quando está presente é fraco e a sua palavra, desprezível» (2Cor 10, 10).

Paulo estava consciente da sua pouca habilidade oratória, tivera até uma demonstração disso em Atenas quando tentara, sem sucesso, convencer os ouvintes, recorrendo à linguagem sublime dos filósofos (Act 17, 16-34); e um ano depois, em Tróade, tivera uma confirmação: durante a sua pregação, um jovem adormecera e caíra da janela (Act 20, 9).

Não obstante esta falta de apoios humanos, o Evangelho tivera uma notável difusão em Corinto. Porquê? Porque – explica Paulo – a palavra de Deus é forte por si mesma e a sua penetração no coração das pessoas não depende dos meios humanos, mas da «poderosa manifestação do Espírito». O Apóstolo não se refere aos prodígios, aos milagres que poderiam convencer os coríntios a acolher o Evangelho, mas ao fruto do espírito: a forma de vida nova que, mesmo no meio de misérias e fraquezas humanas, tinha sido adoptada por muitos membros da comunidade.

Evangelho

Para definir os discípulos e a sua missão, Jesus utiliza no Evangelho de hoje uma série de imagens. Apresenta-os, antes de mais, como o sal da terra (v. 13).

Os rabis de Israel costumavam repetir: «A Tora – a Lei santa dada por Deus ao seu povo – é como o sal, e o mundo não pode estar sem sal.» Fazendo sua esta imagem e aplicando-a aos discípulos, Jesus sabe que está a usar uma expressão que pode soar como provocação. Não desmente a convicção do seu povo que considera as Sagradas Escrituras «sal da terra», mas afirma que também os seus discípulos o são, se assimilarem e se se deixarem guiar pela sapiência das suas bem-aventuranças.

São muitas as funções do sal, e provavelmente Jesus pretende referir-se a todas.

A primeira e mais imediata é a de dar sabor aos alimentos. Desde os tempos antigos, o sal tornou-se por este motivo o símbolo da «sapiência».

Quando uma conversa é pouco agradável, sem conteúdo, sem graça, diz-se que é «insonsa» ou «sem sal».

Paulo conhece este simbolismo, e aos colossenses recomenda: «A vossa palavra seja sempre amável, temperada de sal» (Cl 4, 6).

Vista desta forma, a imagem do sal indica que os discípulos devem difundir no mundo uma sabedoria capaz de dar sabor e significado à vida. Sem a sapiência do Evangelho que sentido teriam a vida, as alegrias e as dores, os sorrisos e as lágrimas, as festas e os lutos? Que sonhos e que esperanças poderia alimentar o homem nesta terra? Dificilmente iria além do que sugere Qohélet: «É belo e bom comer e beber, e sentir-se feliz em todo o esforço que se tem de fazer debaixo do Sol, nos breves dias de vida que Deus concede ao homem. Esta é a sua sorte» (Ecl 5, 17).

Mas quem está embebido do pensamento de Cristo saboreia outras alegrias, traz ao mundo experiências de felicidade novas e inefáveis, oferece aos homens a possibilidade de experimentar a mesma beatitude de Deus.

O sal não serve apenas para dar sabor aos alimentos. É usado também para conservar os alimentos, para impedir que se estraguem.

Este facto lembra o tema da corrupção moral e, por associação de ideias, as forças negativas, os espíritos malignos. No antigo Oriente era costume precaver-se deles usando o sal. É a esta convicção atávica que se liga, ainda hoje, o rito de espalhar sal para imunizar contra malefícios e maus-olhados.

O cristão é o sal da terra: com a sua presença é chamado a impedir a corrupção, a não permitir que a sociedade, guiada por princípios maus, se decomponha e apodreça. Não é difícil constatar, por exemplo, que onde não há quem torne presentes os valores evangélicos, facilmente se difundem a perversão, o ódio, a violência, o abuso. Num mundo onde é posta em dúvida a intangibilidade da vida humana, desde a concepção até ao seu fim natural, o cristão é sal que lembra a sua dimensão sagrada. Onde se banaliza a sexualidade, e as convivências e os adultérios deixaram de ser chamados pelos seus nomes, o cristão lembra a santidade da relação homem-mulher e o projecto de Deus sobre o amor conjugal. Onde se procura o próprio interesse, o discípulo é sal que mantém viva a proposta, por vezes heróica, do dom de si mesmo.

O sal era usado também para confirmar a inviolabilidade dos pactos: as partes cumpriam o rito de consumir pão e sal, ou apenas sal. Este acordo solene era chamado «aliança de sal». Assim é chamada a aliança eterna feita por Deus com a dinastia de David (2Cr 13, 5).

Também neste sentido os cristãos são sal da terra. Testemunham a indefectibilidade do amor de Deus: mostram que nunca nenhum pecado poderá comprometer o pacto de fidelidade que o une ao homem, e, com a sua vida, mostram que também ao homem é possível responder a este amor: basta deixar-se guiar pelo Espírito.

A «parábola» do sal conclui com um aviso aos discípulos para que não se tornem «insípidos». A imagem assume uma conotação de certa forma surpreendente: os químicos garantem que o sal não se corrompe e, no entanto, Jesus avisa os discípulos do perigo de perder o próprio sabor. Por quanto possa parecer estranho, Jesus considera-os capazes de fazer algo de absurdo, de impossível, como estragar o sal: podem fazer com que o Evangelho perca o seu sabor.

Há um só modo para realizar esta desgraça: misturar o sal com outro material que altera a sua pureza e genuinidade. O Evangelho tem um gosto próprio que não deve ser alterado, doutra forma deixa de ser Evangelho.

A parábola do sal é contada logo depois das «bem-aventuranças». O cristão é sal se acolhe integralmente as propostas do Mestre, sem acrescentar nada, sem modificações, sem os «mas», os «se» e os «porém» com que se tenta amolecê-las, torná-las menos exigentes, mais praticáveis.

Por exemplo, Jesus diz que é preciso partilhar os próprios bens, que se deve dar a outra face, perdoar setenta vezes sete... este é o gosto característico do sal evangélico. Mas está sempre presente a tentação de lhe acrescentar um pouco de «bom senso»: não se deve exagerar, é preciso pensar também em si mesmo; perdoando em demasia, os outros depois aproveitam-se; não se deve recorrer à violência a não ser que seja necessário... É assim que o Evangelho é «adoçado», que se torna «praticável»... só que perde o seu sabor. É o fracasso da missão, indicado metaforicamente com a imagem do sal lançado fora: é pisado, como o pó a que ninguém dá atenção e valor.

 

A segunda função atribuída aos discípulos é a de serem cidade situada sobre um monte (v. 14).

Ainda hoje o olhar de quem percorre as estradas da alta Galileia é atraído pelas numerosas aldeias colocadas no cimo dos montes e ao longo das encostas das colinas. É impossível não as notar e, principalmente na Primavera, quando as anémonas rubras recobrem os campos que as circundam, mostram-se deliciosas. Quase sempre as escavações arqueológicas comprovam que os cumes, onde surgem estas aldeias, eram habitados desde os tempos mais antigos.

Jesus, tendo crescido numa destas aldeias, indicou-as aos discípulos como imagem da missão deles: com a sua vida baseada em princípios novos, eles deverão atrair a atenção do mundo.

Não é um convite a serem notados, a mostrarem-se. Uma tal atitude iria contradizer a recomendação de não praticarem as boas obras diante dos homens para serem vistos, a não tocarem a trombeta para atrair a atenção quando dessem a esmola (Mt 6, 1-2).

Jesus evoca um texto famoso de Isaías, onde é anunciado que o monte do templo do Senhor «estará firme, será o mais alto de todos, e dominará sobre as colinas. Virão muitos povos... Porque de Jerusalém sairá a palavra do Senhor» (Is 2, 2-5).

Daqui em diante – garante Jesus – os povos já não olharão para Jerusalém, mas para as comunidades dos seus discípulos. Serão eles a atrair os olhares de admiração das pessoas... se tiverem a coragem de orientar a vida pelas suas bem-aventuranças.

 

Ligada à imagem do monte está a da luz (vv. 14-16).

Os rabis diziam: «Assim como o azeite dá luz ao mundo, também Israel é luz para o mundo», e ainda: «Jerusalém é luz para as nações da terra.» Referiam-se ao facto de considerarem Israel depositário da sapiência da Lei que Deus, pela boca de Moisés, revelara ao seu povo.

Mesmo que alguns rabis tenham intuído que não só a palavra das Sagradas Escrituras, mas também as obras de misericórdia, são luz, e considerassem que a primeira ordem dada por Deus no início da criação, «Faça-se a luz», não se refere a uma luz material, mas às obras dos justos.

Chamando aos discípulos «luz do mundo», Jesus declara que a missão confiada por Deus a Israel estava destinada a continuar por meio deles. Apareceria em todo o seu esplendor nas suas obras de amor, concretas, verificáveis. São estas obras que Jesus pede que «sejam vistas». Não quer que os seus discípulos se limitem a anunciar a sua Palavra sem se empenharem, sem se comprometerem, sem arriscar a vida por esta mesma Palavra.

A prova de que as pessoas foram atingidas por esta luz acontecerá quando derem glória ao Pai que está nos Céus.

A reacção delas poderá também ser contrária e inesperada. Poderão ficar incomodadas com as boas obras dos cristãos e reagirem com despeito.

Não se deve pressupor logo que esta reacção dependa de uma atitude malévola. Normalmente, não é o bem que incomoda, mas a percepção de uma sombra de exibicionismo, de uma pequena cedência à ambição, à vaidade, à autocomplacência. Estes desvios, inconscientes, que muitas vezes acompanham até mesmo os gestos mais nobres, privam a obra boa da sua característica mais fina, mais sublime, mais «divina»: o perfume suave do desapego e da total gratuidade.

Os discípulos são chamados a fazer o bem sem esperarem aplausos, admiração, sem que «a mão esquerda saiba o que faz a direita» (Mt 6, 3). Não é a eles que devem ser dirigidos louvores, mas a Deus.

 

A última imagem é deliciosa: somos introduzidos na morada humilde de um camponês da alta Galileia onde, à noite, se acende uma lâmpada de terracota, a azeite, que é depois inserida num suporte de ferro e posta num ponto alto da casa, de modo que possa iluminar até mesmo os cantos mais escondidos da habitação. Não passaria pela cabeça de ninguém escondê-la debaixo de um vaso.

É o convite a não ocultar, a não esconder as partes mais exigentes da mensagem evangélica. Os discípulos não se devem preo-cupar em defender ou justificar as propostas de Jesus, devem apenas anunciá-las, sem medo, sem temor de serem ridicularizados ou perseguidos. Assim serão para as pessoas como uma lâmpada que «brilha num lugar escuro, até que o dia desponte e a estrela da manhã nasça» (2Pd 1, 19).

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.