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2 Segunda-feira, 2 de novembro Novembro de 2026 Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

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Banquete da Palavra · 1 de fevereiro

O Que Procura o Homem senão a Alegria?

Domingo IV do Tempo Comum

Queres ser feliz por umas horas? Inebria-te com o vinho. E por alguns anos? Aceita os prazeres que a vida te oferece. Também Qohélet o sugere: «Vai, come o teu pão com alegria e bebe com prazer o teu vinho. Haja sempre óleo perfumado na tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, durante todos os dias da tua fugaz existência» (Ecl 9, 7-9).

Mas como ser feliz para sempre?

A alegria não se identifica com o prazer que, mesmo sendo querido e abençoado por Deus, é efémero, caduco e muitas vezes acaba em tristeza e desilusão: «Mesmo a sorrir, o coração pode estar triste; a alegria pode terminar em aflição» (Pr 14, 13).

A  Bíblia atesta um paradoxo: a alegria verdadeira e duradoura nasce do empenho, da renúncia, da abnegação, do sacrifício e é acompanhada pela dor. «Alegro-me até mesmo se o meu sangue tiver de ser derramado em sacrifício e oferta pela vossa fé» – declara Paulo aos filipenses (Fl 2, 17). Tiago recomenda aos cristãos perseguidos: «Meus irmãos, considerai como uma enorme alegria o estardes rodeados de provações de toda a ordem» (Tg 1, 2) e Pedro: «Alegrais-vos com uma alegria indescritível e irradiante» (1Pd 1, 8-9).

Qual é o segredo desta alegria?

Revela-o Jesus: «A felicidade está mais em dar do que em receber» (Act 20, 35). Bem-aventurado não é quem acumula e retém de forma egoísta os bens, mas quem, partilhando, se faz pobre para socorrer quem tem necessidade.

Uma proposta desconcertante. Aceitá-la é um risco, mas tem a garantia dele.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Bem-aventurado quem não guarda nada para si e se faz pobre por amor.

Primeira leitura

Houve um tempo no qual Deus parecia ser aliado dos ricos: o bem-estar, a fortuna, a abundância de bens, a posteridade numerosa, tudo isto era considerado sinal da sua bênção (Dt 28, 1-14). Lendo o antigo Testamento, damo-nos conta que o ideal do israelita é a riqueza, não a pobreza.

Mas, a pouco e pouco, a mentalidade em Israel foi mudando. Sobretudo após a pregação dos profetas, começa-se a entender que a riqueza, mais do que uma bênção de Deus, é muitas vezes fruto de enganos, abusos, exploração dos operários, maus tratos, espertezas, injustiças. Os pobres deixam de ser considerados malditos devido à sua impiedade, mas vítimas à mercê dos poderosos. Aos miseráveis – grita com desdém Miqueias – «arrancam-lhes a pele e a carne dos ossos» (Mq 3, 2).

Sofonias vive poucos anos antes da destruição de Jerusalém, portanto, num período de caos social e político. Mesmo sendo de estrato burguês, ele lança-se contra os dignitários da corte, os comerciantes, os ímpios (Sf 1, 8-12) e contra todos aqueles que cometem injustiças. Ameaça com o castigo iminente de Deus e, como última possibilidade de salvação, indica a imediata «conversão ao Senhor».

Na leitura de hoje, o profeta esclarece, com um convite, o que implica o «regresso ao Senhor»: «Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra, procurai a justiça, procurai a humildade» (v. 3).

Converter-se significa: tornar-se como os humildes, como os pobres.

É a primeira vez que na Bíblia a palavra pobre é utilizada com uma conotação nova: já não indica apenas uma condição social e económica, mas uma atitude religiosa interior. Para Sofonias, pobre é quem, não possuindo nenhuma segurança, confia inteiramente em Deus e submete-se à sua vontade.

No dia do castigo – garante o profeta –, Deus deixará sobreviver no país «um povo pobre e humilde, que buscará refúgio no nome do Senhor, um resto de Israel» (vv. 12-13).

Depois de Sofonias, este novo significado do termo «pobre» teve muito sucesso. A espiritualidade da «pobreza» teve um desenvolvimento cada vez maior e esteve na origem de um grande número de salmos onde a palavra «pobre» era usada como sinónimo de piedoso, justo, temente a Deus. É no contexto deste movimento espiritual que deve ser vista a mensagem de Jesus.

Segunda leitura

Referimos, na semana passada, os problemas da comunidade de Corinto: discórdias, divisões, inveja, ciúmes. Como pudera acontecer que uma igreja, inicialmente tão fervorosa, tivesse caído tão baixo?

Paulo responde: isso aconteceu porque entre os cristãos infiltrou-se o espírito devastador da competição; cada um procura dominar os outros, ser-lhe superior, ser «rico».

E Deus, como julga quem se comporta deste modo?

A leitura releva os seus gostos: Ele não escolhe os ricos mas os pobres, os marginalizados, aqueles que são considerados sem valor. Para nos convencermos disso – diz Paulo – basta olhar para a condição da comunidade de Corinto: não há nobres, são poucos os ricos, os aristocratas, as pessoas eruditas e dotadas de grande cultura; quase todos são pobres, por vezes até mesmo miseráveis. É um sinal das preferências de Deus, que escolhe os pequenos, e prefere os que são insignificantes aos olhos do mundo para enriquecê-
-los com os seus dons.

Evangelho

O homem sempre sentiu uma necessidade profunda de encontrar Deus, de o interrogar, de conhecer os seus pensamentos, de descobrir os seus desígnios. Mas onde encontrá-lo? Onde marcar um encontro com Ele? Nos tempos antigos pensava-se que o lugar onde se podia entrar em contacto com Deus fosse o cimo dos montes, e sobretudo daqueles que a tradição indicava como lugares sagrados. Também Israel partilhava esta concepção religiosa. Moisés e Elias fazem as experiências espirituais mais fortes «no monte».

Mateus localiza o primeiro discurso de Jesus num monte. A devoção cristã identificou-o com a colina que domina Cafarnaum. As religiosas que a guardam transformaram-na num oásis de paz, de recolhimento, de reflexão, de oração. Passeando sob as árvores majestosas, escutando o roçar das folhas movidas pela brisa que desce dos cumes nevados do Líbano, contemplando do alto o lago que muitas vezes foi sulcado pela barca de Jesus e dos discípulos, sentimo-nos quase naturalmente levados a elevar o olhar ao Céu e o pensamento a Deus.

Por quanto possa parecer sugestiva esta experiência, o monte de que fala Mateus não deve ser entendido em sentido geográfico, mas no seu significado teológico. Mais do que um lugar real, «monte» é qualquer lugar ou momento em que nos abrimos à palavra de Deus.

Podemos visualizar a cena: Jesus abandona a planície. É como se saísse da terra onde se movem os homens «normais», aqueles que determinam as próprias acções pelo «saber», a astúcia deste mundo, aquela «habilidade» maligna que leva a raciocinar assim: «a saúde é tudo», «o que importa é o sucesso», «feliz de quem tem uma grande conta no banco», «feliz é quem pode viajar, divertir-se, gozar todos os prazeres», «a mim interessa apenas o sexo», «sacrificar-me, renunciar pelos outros? Nem sequer penso nisso!»…

Uma pessoa de sucesso será aquela que faz semelhantes propósitos de vida? O que pensa Deus disto?

Para não corrermos o risco de desperdiçar a nossa existência é necessário conhecer o seu juízo. Hoje acompanhamos Jesus ao monte para ouvir as suas propostas de felicidade, de sucesso, de bem-aventurança. Serão propostas desconcertantes, até mesmo insensatas para quem tem a mente baralhada pelas muitas propostas sugeridas pela «sabedoria» dos homens. Ouçamo-las e procuremos entendê-las.

 

Bem-aventurados os pobres em espírito

 

É difícil dizer de quantas maneiras foi interpretada esta bem-
-aventurança. Alguém banalizou-a, afirmando que Ele se referia aos miseráveis, aos maltrapilhos, aos mendigos. Seriam estas as pessoas ideais com as quais Deus se alegra e, portanto, deveriam ser deixadas nessa condição, aliás, seria necessário fazer de modo que toda a gente se tornasse como elas. Trata-se, evidentemente, de uma interpretação absurda, enganadora, contrária a tudo o que se encontra no evangelho. A comunidade cristã ideal não é aquela em que todos são indigentes, mas aquela em que «não há ninguém necessitado» (Act 4, 34).

Muitos pensaram que os «pobres em espírito» são aqueles que, mesmo mantendo a posse dos seus bens materiais, conseguem não ter o coração preso a eles. Outros ainda dizem que os pobres são felizes porque bem cedo deixarão de o ser. As hipóteses sérias, sustentadas por óptimos autores, são pelo menos uma dúzia. Qual é a verdadeira?

Sabemos todos o que significa ser pobres: quer dizer não possuir nada. Mas o que significa em espírito?

Relativamente à riqueza, Jesus não assume uma atitude de desprezo. Mesmo a «riqueza desonesta» para Ele torna-se boa quando é distribuída aos pobres (Lc 16, 19). Todavia, mesmo que não a condene, Ele considera-a um obstáculo perigoso, para muita gente insuperável, para entrar no Reino dos Céus (Mt 19, 23), e a quem o queria seguir pediu a renúncia a todos os bens:«Qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 33).

É no contexto desta exigência irrenunciável de desapego total dos bens e de partilha com os pobres que se deve ler a nossa bem-
-aventurança.

Jesus não exalta a pobreza em si. Acrescentando a especificação em espírito, Ele esclarece que nem todos os pobres são bem-
-aventurados. Devem considerar-se tal, somente aqueles que, por uma livre escolha, deixam tudo. Pobres em espírito são aqueles que decidem não possuir mais nada para si e pôr tudo aquilo que têm à disposição dos outros.

Note-se bem: pobre, segundo o Evangelho, não é quem não possui nada, mas quem não fica com nada para si.

Um exemplo poderá ajudar-nos a entender. O proprietário de uma grande empresa pode ser rico ou pobre. É rico se utiliza os lucros da sua actividade para satisfazer os seus próprios caprichos ou os dos seus familiares; é pobre (mesmo possuindo grandes capitais) se vive de modo digno mas sem desperdiçar nada com coisas supérfluas, se gere a riqueza preocupando-se com as necessidades dos mais fracos, se investe o seu dinheiro para criar mais postos de trabalho...

Quem atingiu uma posição social de prestígio é rico quando se torna altivo, quando humilha os menos afortunados, quando pensa apenas em si; mas se põe as suas próprias capacidades e dons ao serviço dos outros, se dá a sua disponibilidade a quem precisa de ajuda, então é pobre de espírito.

Também quem é miserável pode não ser «pobre de espírito». Não o é se amaldiçoa a si mesmo e os outros, se procura melhorar a sua condição através da violência e do engano, se pensa libertar-
-se sozinho, desinteressando-se dos outros, se sonha tornar-se por sua vez rico ou substituir-se aos ricos.

A pobreza voluntária, a renúncia ao uso egoísta de todos os bens que possuímos (inteligência, bom carácter, conhecimentos, diplomas, posição social, dinheiro, tempo livre…) não é algo de facultativo, não é um conselho reservado a alguns que querem ser heróicos ou mais perfeitos do que os outros. É aquilo que caracteriza o cristão.

Note-se que a promessa que acompanha esta bem-aventurança não é relativa a um futuro longínquo, não garante a entrada no Paraíso depois da morte, mas anuncia uma alegria imediata: deles é o Reino dos Céus. A partir do momento em que se escolhe ser e permanecer pobre, entra-se no «Reino dos Céus», no mundo novo inaugurado por Cristo.

Esta bem-aventurança não é uma mensagem de resignação, mas de esperança: ninguém mais estará em situação de necessidade quando todos se tornarem «pobres em espírito», colocando os dons que receberam de Deus ao serviço dos irmãos, como faz Deus que, mesmo possuindo tudo, é infinitamente pobre: não fica com nada para si, é dom total, amor sem limites.

 

Bem-aventurados os humildes

 

O adjectivo «humilde» pode trazer-nos à mente a ideia da pessoa resignada, que não reage às provocações, que aceita passivamente, e sem se queixar, as injustiças. É esta pessoa que é avessa a qualquer forma de conflito (mas que revela também uma personalidade débil) que é proclamada bem-aventurada?

O termo «humilde» usado por Jesus foi retomado do Antigo Testamento, e mais precisamente do Salmo 37. Neste texto, os justos são aqueles que foram privados dos seus direitos, da sua liberdade, dos seus bens. São pobres porque os poderosos lhes tiraram o campo, a casa, as poucas poupanças e talvez até os filhos e as filhas. Suportam a injustiça sem terem a possibilidade de protestar. Não se resignam, mas recusam-se a recorrer à violência para restabelecer a justiça. Não se deixam levar pela ira, não cultivam sentimentos de ódio e de vingança. Confiam em Deus e esperam a vinda do seu reino.

Jesus apresentou-se como «humilde» (Mt 11, 29; 21, 5), mas não no sentido de «fraco, tímido, pusilânime». Ele viveu conflitos dramáticos, mas enfrentou-os com as disposições de coração que caracterizam os «humildes»: recusou o uso da violência, foi paciente, tolerante, fez-se servo de todos.

Bem-aventurados são aqueles que, diante das injustiças, assumem as suas mesmas atitudes. Estes receberão de Deus a posse de uma terra nova, de uma condição nova. Nessa hão-de florescer relações humanas pacíficas e será o fim das formas de domínio e de violência que caracterizam este mundo ainda nas mãos das «bem-
-aventuranças» da «planície».

Todos conhecemos situações semelhantes àquelas descritas no Salmo 37. Sabemos que no mundo existem vexames e abusos aos quais é necessário pôr fim. Queremos que os nossos filhos herdem «uma terra» nova, melhor do que aquela em que vivemos. Infelizmente, a ânsia de justiça leva-nos, às vezes, a cultivar pensamentos e sentimentos e a fazer acções que não são as dos «humildes». Jesus lembra aos seus discípulos que a herança da «terra» foi prometida aos humildes, não aos violentos.

 

Bem-aventurados os que choram

 

O sofrimento não é uma coisa boa. Deus não tem prazer em ver as pessoas na dor, não é Ele quem envia desventuras e tribulações. Ele não quer que as pessoas sofram.

Quando Jesus proclama bem-aventurados os «que choram» usa um termo familiar para quem conhece a Bíblia. No livro de Isaías fala-se dos «que choram»: são aqueles que não têm uma casa onde habitar, que não têm campos para cultivar porque a herança de seus pais foi ocupada por estrangeiros, que se devem pôr ao serviço de proprietários sem escrúpulos, que devem sofrer injustiças, prepotências, malversações, humilhações (Is 61, 7).

A estas pessoas que têm o coração abatido, que se sentam sobre a cinza e vestem o hábito de luto (Is 61, 3), o profeta dirige uma mensagem de esperança. Deus intervirá – diz – para inverter a situação, acabará com as causas do luto: virá «coroar os aflitos de Sião, para mudar a sua cinza em coroa, e o seu semblante triste em perfume de festa e o seu abatimento em cânticos de alegria» (Is 61, 3).

Na sinagoga de Nazaré, Jesus aplica a si esta profecia (Lc 4, 21). Ele veio para dar cumprimento às promessas de Deus. Os «que choram», aqueles que experimentam uma dor profunda perante uma sociedade dominada ainda pela injustiça, aqueles que estão insatisfeitos e esperam de Deus a salvação serão consolados. A vinda do Reino começou a eliminar todas as situações que são motivo de dor e de lágrimas.

 

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça

 

A fome e a sede são as necessidades mais fortes que o homem experimenta. É com esta ânsia irresistível que os discípulos de Cristo devem procurar «a justiça».

Mas de que justiça se trata? Da que é administrada nos nossos tribunais? São talvez bem-aventurados aqueles que se alegram quando a um criminoso é aplicado o merecido castigo?

Não, não é esta a justiça de que se deve ter fome e sede. Esta muitas vezes não é mais que retorsão, vingança, represália, crueldade, satisfação em ver finalmente sofrer quem praticou o mal. Jesus está a falar de outra justiça, a de Deus.

Deus é justo não porque retribui conforme os méritos, mas porque, com o seu amor, «torna justos» aqueles que são maus. É justo porque «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tm 2, 4). Para nós, «justiça foi feita» quer dizer «o culpado foi punido». Para Deus, a «justiça foi feita» quando o malvado se tornou justo. A sua justiça é sempre e só a salvação, é a recuperação de quem se fez mal cometendo o pecado.

Quem experimenta esta fome e esta sede para a salvação do irmão, «será saciado». Compartilhará a própria alegria de Deus que «não quer que se perca nenhum» (Jo 6, 39), «que não tem prazer com a morte do pecador, mas com o facto de ele se converter e viver» (Ez 18, 23).

 

Bem-aventurados os misericordiosos

 

Esta bem-aventurança parece inserir-se na contraposição entre magnanimidade e desejo de punir os culpados. Parece um convite a fazer com que prevaleça sempre a compaixão e o perdão.

Este é certamente um dos aspectos da “misericórdia” e está muito de acordo com a recomendação de Jesus: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados; perdoai e se-reis perdoados» (Lc 6, 36-37). Mas não esgota a riqueza deste termo bíblico.

Na Bíblia a «misericórdia», mais do que um sentimento de piedade, é uma acção a favor de quem necessita de ajuda. O exemplo mais claro é o do samaritano que usou de misericórdia para com o homem agredido pelos bandidos (Lc 10, 37).

Os rabis do tempo de Jesus ensinavam que Deus é misericordioso porque faz obras de misericórdia, e especificavam: «Deus vestiu os nus – quando cobriu com folhas Adão e Eva: Gn 3, 21 – assim também vós deveis vestir os nus. Ele visitou os doentes – de facto foi ter com Abraão quando sofria pela circuncisão e visitou a estéril Sara: Gn 18, 1 – assim também vós deveis visitar os doentes. Ele confortou os que estavam de luto – quando consolou Isaac depois da morte do pai: Gn 25, 11 – assim também vós deveis confortar os que estão de luto. Ele sepultou os mortos – foi Ele quem sepultou Moisés: Dt 34, 6 – assim também vós deveis sepultar os mortos.»

Misericordiosos são aqueles que, como Deus, fazem obras de misericórdia, são aqueles que se empenham para que as pessoas necessitadas encontrem aquilo de que precisam.

São bem-aventurados porque no mundo novo, ao surgir do Reino, também eles, quando tiverem necessidade de ajuda, encontrarão quem lhes estenda a mão.

Bem-aventurados os puros de coração

 

A pureza é uma das características mais vincadas da religiosidade judaica. Qualquer contacto com os cultos pagãos, tudo aquilo que evoca a morte, tudo aquilo que é impuro deve ser evitado. Desta exigência de pureza nasceram as proibições, as minuciosas disposições dos rabinos, a vigilância obsessiva, o esforço contínuo para se manter distante daquilo que se percebe poder ser contrário à santidade de Deus. Porém, como as transgressões são inevitáveis, então os Judeus vêem-se obrigados a cumprir incessantemente ritos de purificação: abluções, aspersões, lavagens, sacrifícios (Mc 7, 3-4).

A Jesus não interessam estas práticas exteriores, a ele interessa apenas a lealdade, a rectidão de conduta.

Não há nada de exterior ao homem que o possa contaminar: «Não sabeis – explica aos discípulos – que tudo o que entra pela boca passa pelo ventre e é expelido em lugar próprio? Mas o que sai da boca provém do coração; e é isso que torna o homem impuro. Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias. É isso que torna o homem impuro. Mas comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro» (Mt 15, 17-20).

Os puros de coração são aqueles que têm um comportamento ético conforme à vontade de Deus, aqueles que têm o coração indiviso, aqueles que não amam contemporaneamente Deus e os ídolos.

Não tem o coração puro aquele que serve dois senhores, aquele que tem uma conduta que não está de acordo com a fé que professa, aquele que ama Deus, mas mantém no coração o rancor para com o irmão, aquele que não comete a má acção, mas é adúltero no seu coração (Mt 5, 28).

Os puros de coração são bem-aventurados porque a eles, e somente a eles, é dado fazer uma profunda experiência de Deus.

 

Bem-aventurados os que promovem a paz

 

Entre as obras de misericórdia recomendadas pelos rabinos do tempo de Jesus, a mais meritória era levar a paz, reconstruir a harmonia entre as pessoas. Cada acção dirigida a estabelecer a paz – dizia-se – atraía as bênçãos de Deus sobre o homem.

Bem-aventurado é, sem dúvida, aquele que, sem recorrer à violência ou ao uso das armas, se empenha com todas as forças a pôr fim às guerras e aos conflitos; bem-aventurado é aquele que se coloca entre os contendedores e tenta convencê-los a chegar ao diálogo, à concórdia, à paz.

Contudo, na Bíblia a palavra «paz» (shalom) não significa somente ausência de guerras. Indica o bem-estar total, implica harmonia com Deus, com os outros e consigo mesmo, prosperidade, justiça, bem-estar, saúde, alegria.

Os «operadores de paz» são aqueles que se empenham para que esta vida plena de todos os bens seja possível para cada homem. A eles está reservada a mais linda das promessas: Deus considera-os seus filhos.

 

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça

 

Há sofrimentos, tribulações, males que nos atingem de modo imprevisto e sem que tenham sido procurados; mas outros há que acompanham necessariamente certas decisões. Jesus não iludiu os seus discípulos, disse claramente que quem alinha pelo lado «da justiça» de Deus pagará certamente cara a sua escolha.

Não prometeu uma vida fácil, abastada, cheia de sucessos; não garantiu a aprovação e o consenso dos homens. Com insistência repetiu que a adesão a Ele implicará a perseguição: «Basta ao discípulo ser como o mestre e ao servo ser como o senhor. Se ao dono da casa chamaram Belzebu, o que não chamarão eles aos seus familiares!» (Mt 10, 24-25).

Da perseguição dos justos fala-se muitas vezes também no Antigo Testamento. Nos Salmos deparamos com o justo que pede a Deus: «Livra-me de todos os que me perseguem» (Sl 7, 2); «Quando condenarás os que me perseguem? Ajuda-me contra os que me perseguem à traição» (Sl 119, 84.86). Jeremias é hostilizado, caluniado, fechado numa cisterna.

Esperaríamos encontrar já no Antigo Testamento a bem-aventurança que diz respeito aos perseguidos. Mas não. Estes são elogiados pela sua firmeza e rectidão, a eles é prometido um destino futuro glorioso (Sb 2-5), mas nunca são proclamados bem-aventurados.

No Antigo Testamento a perseguição é considerada um mal e o homem que a sofre não pode estar feliz enquanto ela dura. O justo será abençoado – anunciam os escritores sagrados –, mas apenas a partir do momento em que Deus intervier para pôr fim às malversações a que ele foi submetido.

No Novo Testamento a perspectiva muda. Aquele que sofre pela sua fidelidade ao Senhor é proclamado bem-aventurado no momento, e pelo próprio facto de ser perseguido. A perseguição não é sinal de um desaire, mas de um sucesso. É um motivo de alegria porque demonstra que foi feita a escolha certa, aquela que está de acordo com a «sapiência de Deus».

É inevitável que aqueles que promovem a proposta de uma sociedade baseada na lógica «do monte» sejam perseguidos. Eles põem em crise as situações de domínio dos fortes sobre os fracos, dos ricos sobre os pobres, dos privilegiados sobre os menos favorecidos, dos patrões sobre os servos. Os opressores dão-se conta de que a vinda do Reino ameaça a sua posição, e por isso agridem violentamente quem quer que se empenhe contra a prepotência, a arrogância, a pobreza, a discriminação.

Jesus sugeriu o comportamento a ter nos momentos de perseguição: «Eu, porém, digo-vos: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem» (Mt 5, 44). Por seu lado, Paulo recomenda: «Bendizei os que vos perseguem» (Rm 14, 14). A única força capaz de romper a espiral da violência é a do amor e do perdão.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.