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3 Terça-feira, 3 de novembro Novembro de 2026 Terça-feira da semana XXXI

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Banquete da Palavra · 25 de janeiro

Quanto Durará a Noite?

Domingo III do Tempo Comum

«Judas, tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite» (Jo 13, 30). Poucas palavras para descrever uma cena dramática: um homem, já completamente à mercê dos seus projectos loucos, abandona Cristo-luz e é engolido pela escuridão.

O homem teme a escuridão da noite e tranquiliza-se quando vislumbra os primeiros sinais do amanhecer. As sentinelas perscrutam o horizonte, esperando a aurora (Sl 130, 6); longas são as noites de quem, a arder de febre, fica angustiado pelos pesadelos e cansado de dar voltas até amanhecer (Job 7, 3-4).

Aguarda também um raio de luz quem caiu nas trevas do vício, da mentira, da injustiça; aguarda uma luz que lhe anuncie o fim de uma noite dolorosa e o início de um novo dia.

Sentinela, que vês na noite? – pergunta o profeta (Is 21, 11). Quanto durará ainda no mundo a escuridão do mal e do pecado? Quando serão as pessoas «libertadas do poder das trevas» (Cl 1, 13)?

Paulo convida a esperar: «Já é hora de acordardes do sono, pois a salvação está agora mais perto de nós do que quando começámos a acreditar. A noite adiantou-se e o dia está próximo» (Rm 13, 11-12).

O conflito luz-trevas continua, aguardando o dia sem fim, quando «não mais haverá noite, nem terão necessidade da luz da lâmpada, nem da luz do Sol, porque o Senhor Deus irradiará sobre eles a sua luz» (Ap 22, 5).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Éramos trevas, agora somos luz. Faz, ó Senhor, que nos comportemos como filhos da luz.

Primeira leitura

À excepção do primeiro versículo, tínhamos ouvido já a leitura de hoje, durante a Missa da noite de Natal. Para uma compreensão mais completa do texto, pode-se assim fazer referência à explicação que foi dada.

A profecia deve ser ambientada historicamente na segunda metade do século VIII a.C., a época da grande expansão assíria em todo o Médio Oriente. Também as tribos de Zabulão e de Neftali, situadas na parte norte de Israel, foram envolvidas nestas perturbações político-militares: devastações, violências, deportações, imposições de pesados tributos, foram estas as consequências da invasão dos exércitos vindos da Mesopotâmia.

A dramática situação é apresentada por Isaías como uma humilhação permitida pelo Senhor, como um triunfo da escuridão sobre a luz.

A região da Galileia estava como se tivesse voltado o caos que reinava antes da criação, quando «as trevas cobriam o abismo» (Gn 1, 2). As terras férteis para além do Jordão pareciam envolvidas na escuridão de uma noite sem fim. Por todo o lado reinava, incontrastável, a morte. O povo, abatido, tinha perdido toda a esperança, resignado a ver o glorioso «Caminho do Mar», que passando pela Palestina ligava o Egipto e a Mesopotâmia, deportado para sempre pelos altivos soldados assírios.

Neste momento de desânimo geral, eis que ressoa a voz do profeta que anuncia a aurora de um dia novo: «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou» (9, 1).

É a promessa de uma inversão da situação. Com o seu olhar clarividente, Isaías vê os exércitos assírios, responsáveis pelo desastre nacional, retirarem-se e Israel retomar a sua vida na alegria e na paz.

A luz a que o profeta se referia era certamente um novo rei, descendente da família de David, destinado a levar até ao fim a missão de dissolver as trevas introduzidas pelos invasores estrangeiros. Provavelmente pensava em Ezequias, o menino no qual tinha depositado tantas esperanças.

O que aconteceu historicamente?

Nada. Os Assírios continuaram a ocupar as terras de Zabulão e de Neftali por mais uma centena de anos e Ezequias, que tentou subtrair-se ao seu jugo, «foi fechado em Jerusalém como um pássaro numa gaiola» – lê-se numa inscrição de Senaquerib encontrada em Nínive. E então? O profeta tinha-se enganado?

A perspectiva histórica que nós temos é muito fechada e limitada: se nós não vemos realizarem-se imediatamente os nossos projectos, pensamos que Deus se tenha esquecido de nós. Ele realiza as suas promessas, mas de forma inesperada e no tempo por Ele estabelecido.

Se os sonhos dos homens do tempo de Isaías se tivessem cumprido, aos opressores assírios teriam sucedido outros opressores, porque esta é a lógica do mundo: quem perde é eliminado, e quem vence deve imediatamente enfrentar outros pretendentes.

Deus não entra neste conflito. Olha do alto e segura com firmeza a situação. Tem um projecto que abala pela raiz a lógica repetitiva e inconcludente da luta pelo poder.

A profecia realizou-se, segundo a lógica de Deus, 750 anos depois.

Quando Jesus apareceu nas margens do lago, o reino dos Assírios tinha-se desmoronado há centenas de anos, mas a escuridão do mundo não se tinha dissolvido. Era a escuridão do mal, da violência, da opressão, da corrupção, do egoísmo. Esta escuridão começou a desvanecer – como dirá Mateus no Evangelho de hoje – apenas quando, no início da vida pública de Jesus, uma luz brilhou nos montes da Galileia.

Segunda leitura

Quando escreve a primeira carta aos cristãos de Corinto, Paulo está em Éfeso, a capital política e religiosa da província romana da Ásia, o lugar de encontro entre as culturas do Oriente e do Ocidente, a sede dos mestres e artesãos famosos. Ali encontram-se marinheiros, soldados, comerciantes, provenientes de todo o mundo.

Um dia chegam a esta cidade, provenientes de Corinto, alguns membros da família de Cloé (v. 11) que entregam a Paulo uma carta enviada pelos cristãos daquela comunidade.

Antes de a ler, o Apóstolo quer saber notícias daquela Igreja, e os seus hóspedes, inicialmente um pouco hesitantes – não sabem se dizer ou não – acabam por contar tudo o que sabem, sem reticências. Em Corinto, a vida da comunidade é penosa: há discórdias escandalosas, surgiram partidos que se identificam pelo nome de um Apóstolo (há quem se glorie de pertencer a Pedro, outros a Apolo, outros a Paulo); sobre os comportamentos morais... é melhor deixar cair um véu: há libertinagens das quais se envergonhariam até mesmo os pagãos; nas celebrações eucarísticas, cada grupo isola-se e desinteressa-se pelos outros; e não falemos das invejas, das críticas, da maledicência... Enfim, a gente de Cloé – como se costuma dizer – esvaziou o saco.

Desiludido e preocupado, Paulo ouviu em silêncio. Por um momento terá até pensado no fracasso de toda a sua missão evangelizadora, mas depois recobra-se e decide escrever aos cristãos de Corinto. Foi assim que nasceu a carta que nos tem sido proposta nestes domingos.

O primeiro assunto que nela trata é o das divisões, os contrastes, o nascimento de partidos naquela comunidade, e é o trecho da leitura de hoje. «Estará Cristo dividido? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Foi em nome de Paulo que recebeste o Baptismo?» (v. 13). São palavras duras, que revelam a gravidade da situação.

As discórdias eram provocadas – como acontece também nos nossos dias – pelo egoísmo, pelo desejo de dominar, de prevalecer, de se impor às outras pessoas. Paulo esclarece: os Apóstolos não são patrões, mas servos; não são eles os salvadores, o Salvador é um só, Cristo.

A luz do Evangelho – acesa por Paulo – tinha brilhado em Corinto, mas a escuridão do pecado e as trevas da morte eram ainda muito densas e lentas a dissolverem-se.

Evangelho

O trecho evangélico de hoje é constituído por três partes. Antes de mais, com uma citação do profeta Isaías, é introduzida a actividade de Jesus na Galileia (vv. 12-17); depois é o relato da vocação dos primeiros quatro discípulos (vv. 18-22); por fim, numa frase, é resumida a actividade de Jesus (v. 23).

Após a conclusão da missão do Baptista, Jesus transfere-se de Nazaré para Cafarnaum, que se torna o centro da sua actividade durante quase três anos.

Cafarnaum era uma aldeia de pescadores e agricultores que se estendia ao longo de trezentos metros na margem ocidental do lago de Genezaré. Não tinha a fama da cidade de Tiberíades – onde residia o tetrarca Herodes Antipa – ou como a rica e próspera Magdala, famosa pelas florescentes indústrias de peixe salgado e tinturaria; todavia, gozava de um certo prestígio: encontrava-se no «Caminho do Mar» – a célebre estrada imperial que do Egipto e passando por Damasco ia até à Mesopotâmia – e marcava a fronteira entre a Galileia e o Golan, que pertencia a Filipe (outro dos filhos de Herodes, o Grande). Era um lugar de fronteira, com uma alfândega onde eram cobradas as taxas sobre todas as mercadorias.

Mateus não se limita a anotar a mudança de residência de Jesus, acompanha também esta informação com um texto da Escritura. Para compreendermos o seu significado, devemos pensar que a Galileia era habitada por israelitas considerados por todos como semipagãos, porque nascidos do cruzamento de vários povos. Os judeus de Jerusalém desprezavam-nos porque os consideravam pouco instruídos, ignorantes da lei, corruptos nos seus costumes e pouco observantes das disposições rabínicas. Eram olhados com desconfiança também pelas suas tendências subversivas no campo político (foram galileus os que deram início ao movimento zelota, responsável pelas revoltas sangrentas contra o Império Romano).

Nesta região situada nas margens da terra santa, nesta «Galileia dos gentios» (v. 15) Jesus inicia a sua missão e, com esta escolha, indica quem são os principais destinatários da sua luz: não os judeus puros, mas os excluídos, os distantes.

Admirado com a fé do centurião – o chefe do destacamento de soldados romanos que residiam em Cafarnaum – um dia exclamará: «Em verdade vos digo: não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé! Digo-vos que, do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete com Abraão, Isaac e Jacob, no Reino do Céu, ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores» (Mt 8, 10-12). E também aos sumos sacerdotes e aos anciãos fará notar a surpreendente mudança: «Os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder-vos no Reino de Deus» (Mt 21, 31).

A mudança de residência – facto por si só bastante banal – foi lida por Mateus no seu significado teológico, como o cumprimento da profecia de Isaías: «O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou» (v. 16). Com o início da actividade pública de Jesus, entre os montes da Galileia brilhou a aurora de um novo dia, apareceu a luz de que falava o profeta.

O último versículo desta primeira parte apresenta o anúncio de Jesus: «Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus» (v. 17).

Arrepender-se não equivale a «tornar-se um pouco melhor, rezar melhor, fazer mais alguma boa obra», mas a «mudar radicalmente o modo de pensar e de agir». Quem cultivou projectos de morte deve abrir-se a escolhas de vida, quem caminhou nas trevas deve voltar-se para a luz. Só se houver a disposição de operar esta mudança é que se pode entrar no Reino dos Céus (não no Paraíso, mas na condição nova de quem escolheu jogar a própria vida segundo a palavra de Cristo).

 

Na segunda parte do trecho é relatada a vocação dos primeiros quatro discípulos.

Não é o resumo do chamamento dos primeiros Apóstolos (os quatro evangelistas narram o facto de modo muito diferente uns dos outros), mas um trecho de catequese que pretende dar a entender o que implica para o discípulo dizer sim a Cristo que o convida a segui-lo. É um exemplo, uma ilustração do que significa arrepender-se.

Deve notar-se, antes de mais, a insistência nos verbos de movimento. Jesus não pára um instante: «Caminhando ao longo do mar... Um pouco mais adiante... Começou a percorrer toda a Galileia» (v. 18.21.23).

Quem é chamado deve dar-se conta que não terá descanso, que não haverá paragens pelo caminho. Jesus quer ser seguido dia e noite e por toda a vida, não há momentos em que se esteja dispensados dos empenhos assumidos.

E a resposta deve ser imediata e generosa, como a de Pedro, André, João e Tiago, que «deixando as redes, o barco e o pai, seguiram-no» (vv. 20.22).

O abandono do próprio pai não deve ser mal entendido. Não significa que quem se torna cristão (ou escolhe a vida religiosa e consagrada) se deve desinteressar dos próprios pais. No povo judeu o pai era o símbolo da ligação com os antepassados, do apego à tradição. É com esta dependência do passado que se deve romper, quando constitui um impedimento a acolher a novidade do Evangelho. A história, as tradições, a cultura de cada povo devem ser respeitadas e valorizadas. Todavia, sabemos que nem todos os costumes e estilos de vida são conciliáveis com a mensagem de Cristo.

O pedido de Jesus refere-se à escolha dramática que os primeiros cristãos eram chamados a fazer: se escolhiam tornar-se discípulos eram rejeitados pela família, menosprezados pelos pais, expulsos das sinagogas e excluídos do seu próprio povo.

Também nos dias de hoje, para alguém, pode apresentar-se a alternativa entre o amor «pelo pai» e a escolha de Cristo. Basta pensar no que implica para um muçulmano, para um judeu, para um pagão, para um budista a adesão ao cristianismo.

Mas, para todos, deixar o pai implica o abandono de tudo aquilo que é incompatível com o Evangelho.

Ao convite a segui-lo, Jesus acrescenta a tarefa: «Farei de vós pescadores de homens» (v. 19).

A imagem é tomada da actividade dos primeiros Apóstolos. Não estavam a pescar com o anzol, mas com a rede, e a sua obra consistia em tirar do mar (assim é chamado – impropriamente – o lago da Galileia) os peixes.

Pois bem, no simbolismo bíblico o mar era a morada do demónio, das doenças e de tudo aquilo que se opõe à vida. Era profundo, obscuro, perigoso, misterioso, terrível. No mar viviam os monstros, e nele nem mesmo os marinheiros mais hábeis se sentiam seguros.

Pescar homens significa retirá-los da condição de morte em que se encontram, significa subtraí-los às forças do mal que, como correntes impetuosas, os dominam, arrastam e submergem.

O discípulo de Cristo não teme as ondas e enfrenta-as corajosamente, mesmo quando são impetuosas. Não deixa de salvar um irmão, mesmo quando este se encontra em situações humanamente sem esperança: quando é escravo da droga, do álcool, das paixões desenfreadas, do seu carácter irascível, agressivo, intratável... não há nenhuma situação que não possa ser recuperada pelo discípulo de Cristo.

A terceira parte (v. 23) resume com três verbos o que Jesus faz pelas pessoas: ensina, portanto é luz para cada pessoa; proclama a Boa Nova, ou seja, anuncia a todos uma palavra de esperança, garante que o amor de Deus é mais forte que o mal dos homens; e cura os doentes. Não se limita a proclamar a salvação, mas realiza-a com gestos concretos, mostrando aos discípulos aquilo que são chamados a fazer: devem criar, pelo anúncio do Evangelho, homens novos, uma sociedade nova, um mundo novo.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.